O homem e a ponte

Luzes artificiais penetravam os olhos daquele homem, enquanto o dia passava a ser o próximo. Vagarosamente e com as pernas frouxas, andava sem delicadeza ou rumo algum. Ele poderia dizer que assim também era sua vida: frouxa, lenta e sem rumo. Ele sabia, porém, que não poderia culpar ninguém exceto a si próprio. E assim, seu senso de justiça trouxe a sentença mais óbvia que conseguiu, até onde vão os limites da obviedade: punir o responsável.

E com esta finalidade, o homem ali se encontrava. À sua frente, luzes. Atrás, outras, tão ou mais brilhantes. Do seu lado, ainda outras luzes, móveis. A rodovia. E água. Assim percebia o mundo, embora o horizonte parecesse inquieto – uma mera consequência do ritual de preparação para o que decidira fazer. De repente, um zunido.

“Vê se olha por onde anda!”, berra o motorista de um caminhão pela janela. Chovia, mas não o suficiente para se precisar de um guarda-chuva. Agora, que um veículo acabara de jogar uma poça d’água em sua direção, o homem clamava por roupas secas. Mas nem as precisava, e sua crença não resistiu muito frente à realidade que o envolvera. Caíra, e agora podia sentir novamente seu joelho, ou pelo menos a dor que se fazia presente nele.

Era o momento de realizar o julgamento, mas ele queria mais tempo. Naquele instante, o homem, que tanto queria acabar com o tempo, sentiu a paz de ter para si todo o tempo do mundo. Virou-se e viu os carros, frenéticos, apressados, incessantes, poluidores e barulhentos. Virou-se outra vez, para a água silenciosa. Fitou-a e sentou-se, seu joelho dolorido e suas pernas frouxas agora livres no ar. O horizonte continuava inquieto, mas o rio abaixo dos seus pés mostrava-se inofensivo.

O homem procurava o medo. Sentir a adrenalina injetar-se em seu sangue, pelo menos o suficiente para fazer seu coração bater de tanto querer a vida. Planejou esse momento para isso. Mas encontrou justamente o que não esperava achar: a paz de quem, afinal, nada mais necessita, e para quem a infinidade do tempo não rouba o que há de precioso na finitude de cada segundo.

Achara tudo onde pensou não haver nada. Mas essa é a realidade. A realidade que seres humanos se enganam.

Os minutos davam boas-vindas às suas colegas, as horas, que chegavam cada vez mais rápidas, mas isso não perturbava aquele homem. Porque nem todas as luzes que achavam o caminho até seus olhos eram ainda artificiais. O céu estava mais limpo, embora ainda negro, e agora via-se a lua branca. Algumas estrelas também, mas não o bastante para serem incontáveis, ele assim percebeu, o que as tornava menos interessantes do que da última vez que prestara atenção nelas. Mas não era capaz de ter certeza, porque isso já devia fazer uns vinte ou trinta anos.

Ele seria mais feliz se tivesse comprado uma luneta. Quando criança, pediu várias vezes aos seus pais. Tornou-se adulto e fingiu esquecer. Coisas de criança não poderiam ser tão importantes assim, pensara. Queria-a mais do que nunca, se dissesse a verdade. Mas as pessoas, ele também percebeu, costumam mentir.

Ali, contava uma mentira pra si mesmo. Dizia que a ponte era o que lhe daria a punição por tudo que fizera de errado no passado, levando ao hoje que ele sentia ser tão medíocre. Não; a coragem para continuar vivendo no que construíra era mais exigente, e ele estava tomando a decisão mais simples para si mesmo. Nada seria consertado e, depois do que pretendia fazer, não poderia mais participar do conserto, sendo este possível ou não. Mas de onde poderia vir a coragem para dizer a verdade a si mesmo?

Jogou-se, absorvido na mentira. O ar o fez sentir ainda mais vivo. Finalmente, o medo. Ele chegou, tarde, mas chegou. Trouxe junto o arrependimento, ainda mais tardio, tanto que nem chegou a tempo de se fazer notar. Na impossibilidade de viver outra vida, escolhera ter nenhuma. Enfim.

Sentia a água em seu rosto. Chovia muito forte, e todo seu corpo estava ficando encharcado rapidamente. Olhou para o lado. Grama verde. Dormira num banco colorido da praça num dia de inverno. Que sonho bom tivera para uma tarde, pensou. O privilégio de morrer e continuar vivo é para poucos. Qual dor era tão importante que precisava ser deixada para trás e assassinada em um sonho ele não mais sabia; morrera, e nada mais tinha a perder.

Versos: A Revanche

Todo dia tem um fim
E todo ano também
Mas só termina
Aquilo que começa

Alguns têm medo
Não sei por quê
Afinal
Quando a rodada acaba
Apenas chega a vez
De outro jogar

Temos nossa chance
De tentar fazer o longe
Ficar ao nosso alcance;
Alguns não se importam
Esperam pela revanche
Sem perceber
Que o que se faz direito
Não precisa ser refeito
Em outro momento

Versos: Temporal[+]

Uma cicatriz brilhante
Mais rara que diamante
Sabe deixar-se ouvir
Sem se deixar sentir

Criação da tempestade
Se revela devagar
No campo ou na cidade
Sem nunca pestanejar

Em muitos só causa medo
Não sabe como chegar
História sem enredo
Que tão logo vai acabar

E que venha o temporal
Cujo tempo é pura pressa
Ferindo o bem e o mal
Enquanto o céu atravessa

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“abandone toda a esperança,
aquele que aqui entrar”,
estava na vizinhança
da porta de um mundo vil
“Inferno”, segundo Dante;
Estranho é que lá em casa
— bem nos livros da estante —
O mesmo dito queima
e nem deixa brasa

Versos: O Homem

I

Os campos parecem até coloridos
Mas na verdade enganam quem os vê
O verde e o amarelo desapareceram
Em meio ao cinza de céus tardios

O homem caminha pelo campo
Cego, não viu verde ou amarelo
E não sente falta deles agora
Nem pensa que algo foi mais belo

II

O tempo anda rápido
Não obedece os relógios
Não quer ser parado
Como aventureiro ávido

O homem quer voltar no tempo
Corrigir erros que diz não cometer
Vive o presente pensando no passado
Com medo de que o futuro pode não acontecer

III

Palavras enchem páginas de valor
Antes brancas, só podem se orgulhar
Do momento em que recebem o presente
Que irão apenas repassar

O homem quer escrever
Tem uma idéia do que quer falar
Mas não do seu significado
Que acaba por não se perpetuar

IV

Chove em uma montanha sublime
Que tentou elevar sonhos e promessas
Mas os fez congelar sem hesitar
Quando viu que estavam altos demais

O homem sobe a montanha
A ausência de sonhos não o estranha
E uma vida que crê na própria sorte
Não sente o frio da própria morte