Versos: Sobre o fim do infinito

Há para todo ser normal um amor
Cada qual inalienável e perfeito
Pelo menos até o momento
De ele ser desfeito

Até então, o fim não existe;
É nada além de um fato triste
Que vitima somente aqueles
Cujo sentimento é só palpite

Porque o amor verdadeiro é eterno
Embora passe frio no inverno
E adoeça em um ou outro verão
Quando sonhos ficam pelo chão

Viram assassinas a confiança
E a ingênua esperança
De que algo pode ser esquecido
E ainda assim infinito

Eu, tu e um copo de vidro

Eu, tu e um copo de vidro. Vazio. Lembraria-me das garrafas de uísque velho se elas estivessem ainda aqui, mas esta mesa é pequena para tanta coisa e ela não suportaria tudo, embora os outros, tão mais necessitados de espaço, tenham ido embora.

É verdade, a mesa não suportaria tudo. Como eu não suportei.

Neste momento, recorro ao que a mesa não suportaria para dar-me suporte. Como pode o que não seria suportado me fazer suportar?

“Volte, volte”. Já começo a pensar demais. O que interessa é o copo de vidro. Ou melhor, que o copo de vidro está vazio. E a tua beleza que chegou na hora certa, permitindo-me acreditar que estou bem acompanhado. A vida é bela.

E tu agora pareces tão indefesa. Se o dia machuca vampiros, a noite amansa humanos. Faz um tempo que não ouço uma frase coerente dos teus lábios. Carentes de significado, as palavras são só paz. Felicidade sem significado, quer dizer, insignificante. A vida é bela.

“Mais um, garçom”. Não trago mais dinheiro. É arriscado demais. Nunca fui bom em matemática, muito menos financeira. Pago no cartão. Quanto isso vai me custar? Não sei. Mas vou conseguir pagar. Por que não conseguiria? Basta passar o plástico na máquina de plástico e depois pressionar botões de plástico. É pouco trabalho e compensa. Pois teus lábios continuam mudos de sentido. Amo-os assim.

Mais uma garrafa vazia sobre a mesa. Que linda. E o líquido que invadiu nossas narinas, encheu nossos copos e escorreu pelas nossas gargantas agora afeta meus pensamentos, como já afetou minhas palavras e meus olhos. Murmuro no teu ouvido, “és minha Princesa esta noite, e te convido para meu castelo”.

Lindas palavras cuja honestidade me comove de tão inatingível. De tão pequena e pobre.

O Sol sobe, os pássaros cantam. O azul arrasta as dunas brancas pelo céu. Compartilhamos a cama, mas teus olhos já não são os mesmos. Tu, que eras Princesa, agora é servente. E eu sou o bobo da corte, como sempre fui. Vossa realeza não volta e sinto-me enfeitiçado. Nego a crer que estamos mais próximos do que nunca.

Quando finalmente nos encontramos, percebemos que, na verdade, acabamos de nos perder. Outra vez, o dia afasta o que a noite uniu. Ou, talvez, há coisas que terminam antes de começar.

Resta eu e tu, copo de vidro.

A reciprocidade do desprezo

Acabei de instalar o OpenSuse 11. E agora, como sempre após a instalação de um Linux, é aquele momento de longa espera até que os downloads e as instalações de todos os softwares terminem. Pelo menos boa parte das minhas configurações ele importou, então é um estresse a menos.

Aproveito este tempo de total improdutividade para escrever um post que já está há algum tempo em minha cabeça. Pode parecer óbvio o assunto, já pelo título, mas gostaria de elaborar um pouco.

O desprezo é um sentimento como qualquer outro. Admiração, raiva, nojo. Mas o interessante é a tendência que ele tem de ser recíproco. Se no amor a reciprocidade é desejada e nem sempre aparece, no desprezo ela rouba a cena mesmo sem ser notada.

O cidadão que despreza outro por ele ser promíscuo demais, por exemplo, é geralmente desprezado pelo outro por ser estúpido, antiquado ou, como dizemos aqui, “quadrado”. Ou, ainda, “grosso”.

Fato semelhante ocorre com os nerds e outros párias da sociedade, que às vezes desprezam as outras pessoas por serem fúteis. Ao mesmo tempo, eles são desprezados por estas pessoas por serem estranhos, pouco sociáveis ou mesmo desprovidos de destreza manual ou de conhecimento do senso comum. Com isso, cada um permanece no seu canto, indiferente à opinião alheia (por desprezá-la).

Sendo assim, não é rídicula a hipótese de que o desprezo é, acima de tudo, um mecanismo de defesa contra ataques ao nosso modo de vida. Sem condições lógicas, coerência ou consistência para atacar uma certa atitude ou ponto de vista, resta-nos apenas o desprezo.

Não proponho a limitação ou opressão do desprezo, pois seria auto-censura e mais pareceria um dogma cristão. Mas não descarto a necessidade de uma reflexão: por que (eu) desprezo (o Outro)? Tenho motivos racionais para desprezar? É realmente impossível viver dessa forma ou ter essa opinião que desprezo?

Postar em blog é compulsão, se for durante a lua-de-mel

Da Folha Online:

Atualização de blog em lua-de-mel indica compulsão, dizem especialistas

A vontade incontrolável de postar em diários virtuais em vez de viver no mundo real é vista por especialistas como um vício ou, no mínimo, compulsão pela internet. Ambos surpreenderam internautas na última semana ao atualizarem seus blogs em plena lua-de-mel.

O caso de Lucas foi o que mais repercutiu na internet: algumas horas após seu casamento com a cantora Sandy, o músico já havia postado suas impressões sobre a festa e prometia divulgar mais informações no decorrer do fim de semana.

Como alguém outro já disse (desculpe-me por ter esquecido da fonte): ler livros o dia todo é intelectual, ler na internet o dia todo é vício. Tudo que é feito na Internet parece ser vício. E se em vez de “atualizar blog” fosse “escrever diário”? Qual o problema?

Os especialistas adoram criticar as novas maneiras que as pessoas encontram para lidar com suas frustrações. Afinal, assim continuam com seu emprego. Filósofos passaram suas vidas escrevendo suas frustrações; artistas, pintando e atuando; poetas, versificando. E quem estava lá para dizer que eram doentes? Muito provavelmente, o eram. Mas encontraram uma saída diferente das demais pessoas, que também lidam com suas frustrações — muitas vezes por meio da religião. promiscuidade e outros meios.

Lide com o fato: postar textos na internet sobre assuntos e acontecimentos interessantes e ter retorno com isso pode ser mais legal do que você pensa. E isso não é errado.

Orkut e networking

Networking é, bem provavelmente, um termo mais apropriado para descrever estas novas relações internéticas que tem aparecido do que a maioria imagina. Isto pode ser dito devido à semelhança destas relações com uma rede (network) de comunicação qualquer. Cito dois aspectos básicos:

  1. Qualquer ponta da rede (host, ou, no caso, uma pessoa) pode ser desconectado a qualquer momento sem grandes perdas para o resto da rede (redundância)
  2. O valor da rede aumenta quanto mais terminais (pessoas) nela existirem (lei de Metcalfe)

O ponto 1 não poderia ser mais verdadeiro. Acabar com uma relação qualquer na Internet é tão fácil quanto clicar em um botão ou configurar filtros no cliente de e-mail. Nada de polêmico aí, embora as conseqüências éticas e morais sejam mais complicadas. Mas isto vai além do assunto deste post.

Já o ponto 2 pode ser facilmente observado: existe, por parte de muitos usuários, uma compulsão pela adição de centenas de amigos e comunidades no perfil, mesmo que, quando questionados, estes cidadãos jamais consigam citar pela memória todas as comunidades/amigos que adicionaram. O valor não está em conhecer todas as pontas rede (amigos/comunidades), mas em saber que elas estão lá. Não é diferente da Internet, onde, por exemplo, não conhecemos todos os sites, mas sabemos que estão lá caso precisarmos deles um dia.

É claro que o networking não se limita às redes sociais online. Faz-se networking em eventos/encontros também. E por que não? São pessoas que dificilmente se verão no dia-a-dia — é possível algo além do “networking” com elas? E nada custa pedir uma recomendação no LinkedIn ou comentar sobre projetos ou ofertas de emprego que ambas possam conhecer.

Não sendo eu um especialista no networking, obviamente, devo falhar ao tentar captar tudo que ele possibilita.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman faz outras comparações semelhantes no livro Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos. Ao contrário do que se pode pensar sobre o título, no entanto, a fragilidade não é inerente, mas desejada. O modelo de networking — onde pode-se desconectar ou ser desconectado sem conseqüências maiores — é o carro Flex dos relacionamentos humanos. Felicidade descompromissada é o lema dos tempos atuais.

Mais de dois e meio porcento dos usuários do Orkut já dizem estar em algum tipo de relacionamento aberto. Creio que este número só tende a aumentar.

Eu? Orkut para mim é para conhecer pessoas. Meu MSN está estampado no perfil. Quer conversar, estou aqui. A Internet não precisa distanciar as pessoas e pode, sem problema algum, fazer o oposto. Mas se você quer fazer de mim apenas mais um número na sua rede, sem de fato interessar-se no Altieres-como-pessoa, mas sim no Altieres-como-ponta-na-minha-rede, não conte comigo.