Postar em blog é compulsão, se for durante a lua-de-mel

Da Folha Online:

Atualização de blog em lua-de-mel indica compulsão, dizem especialistas

A vontade incontrolável de postar em diários virtuais em vez de viver no mundo real é vista por especialistas como um vício ou, no mínimo, compulsão pela internet. Ambos surpreenderam internautas na última semana ao atualizarem seus blogs em plena lua-de-mel.

O caso de Lucas foi o que mais repercutiu na internet: algumas horas após seu casamento com a cantora Sandy, o músico já havia postado suas impressões sobre a festa e prometia divulgar mais informações no decorrer do fim de semana.

Como alguém outro já disse (desculpe-me por ter esquecido da fonte): ler livros o dia todo é intelectual, ler na internet o dia todo é vício. Tudo que é feito na Internet parece ser vício. E se em vez de “atualizar blog” fosse “escrever diário”? Qual o problema?

Os especialistas adoram criticar as novas maneiras que as pessoas encontram para lidar com suas frustrações. Afinal, assim continuam com seu emprego. Filósofos passaram suas vidas escrevendo suas frustrações; artistas, pintando e atuando; poetas, versificando. E quem estava lá para dizer que eram doentes? Muito provavelmente, o eram. Mas encontraram uma saída diferente das demais pessoas, que também lidam com suas frustrações — muitas vezes por meio da religião. promiscuidade e outros meios.

Lide com o fato: postar textos na internet sobre assuntos e acontecimentos interessantes e ter retorno com isso pode ser mais legal do que você pensa. E isso não é errado.

Orkut e networking

Networking é, bem provavelmente, um termo mais apropriado para descrever estas novas relações internéticas que tem aparecido do que a maioria imagina. Isto pode ser dito devido à semelhança destas relações com uma rede (network) de comunicação qualquer. Cito dois aspectos básicos:

  1. Qualquer ponta da rede (host, ou, no caso, uma pessoa) pode ser desconectado a qualquer momento sem grandes perdas para o resto da rede (redundância)
  2. O valor da rede aumenta quanto mais terminais (pessoas) nela existirem (lei de Metcalfe)

O ponto 1 não poderia ser mais verdadeiro. Acabar com uma relação qualquer na Internet é tão fácil quanto clicar em um botão ou configurar filtros no cliente de e-mail. Nada de polêmico aí, embora as conseqüências éticas e morais sejam mais complicadas. Mas isto vai além do assunto deste post.

Já o ponto 2 pode ser facilmente observado: existe, por parte de muitos usuários, uma compulsão pela adição de centenas de amigos e comunidades no perfil, mesmo que, quando questionados, estes cidadãos jamais consigam citar pela memória todas as comunidades/amigos que adicionaram. O valor não está em conhecer todas as pontas rede (amigos/comunidades), mas em saber que elas estão lá. Não é diferente da Internet, onde, por exemplo, não conhecemos todos os sites, mas sabemos que estão lá caso precisarmos deles um dia.

É claro que o networking não se limita às redes sociais online. Faz-se networking em eventos/encontros também. E por que não? São pessoas que dificilmente se verão no dia-a-dia — é possível algo além do “networking” com elas? E nada custa pedir uma recomendação no LinkedIn ou comentar sobre projetos ou ofertas de emprego que ambas possam conhecer.

Não sendo eu um especialista no networking, obviamente, devo falhar ao tentar captar tudo que ele possibilita.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman faz outras comparações semelhantes no livro Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos. Ao contrário do que se pode pensar sobre o título, no entanto, a fragilidade não é inerente, mas desejada. O modelo de networking — onde pode-se desconectar ou ser desconectado sem conseqüências maiores — é o carro Flex dos relacionamentos humanos. Felicidade descompromissada é o lema dos tempos atuais.

Mais de dois e meio porcento dos usuários do Orkut já dizem estar em algum tipo de relacionamento aberto. Creio que este número só tende a aumentar.

Eu? Orkut para mim é para conhecer pessoas. Meu MSN está estampado no perfil. Quer conversar, estou aqui. A Internet não precisa distanciar as pessoas e pode, sem problema algum, fazer o oposto. Mas se você quer fazer de mim apenas mais um número na sua rede, sem de fato interessar-se no Altieres-como-pessoa, mas sim no Altieres-como-ponta-na-minha-rede, não conte comigo.