Diploma de jornalismo: corporativismo disfarçado de defesa da liberdade

O texto abaixo foi inicialmente escrito para o Portal3, site mantido pela Agência Experimental de Comunicação (agexCOM) da Unisinos, universidade na qual estudo.

Link original. Abaixo segue o texto reproduzido, para registro.


No século XV, a resposta imediata dos governantes à invenção da imprensa foi a censura. Em alguns países essa situação prolongou-se de maneira inaceitável. Foi o caso do Brasil, onde não havia nenhuma oficina de imprensa até 1808, quando iniciou-se a impressão do A Gazeta do Rio de Janeiro. Esse jornal era a resposta da recém-chegada corte portuguesa ao Correio Brasiliense, a primeira publicação a circular em território nacional, mas que era impressa em Londres e defendia a independência do país.

Hoje, em pleno ano de 2009, pelo menos 34 jornalistas estão presos em meio ao tumulto das eleições iranianas, segundo dados da Repórteres Sem Fronteiras. Mais de meio milênio após a invenção da imprensa, a censura ainda é, infelizmente, uma realidade.

Uma realidade que o Brasil vivia intensamente em 1969. No ano anterior, o governo militar havia criado o Ato Institucional nº 5, ou AI-5. Um dos Atos Institucionais mais marcantes da ditadura, ele deu poderes ilimitados ao presidente, eliminando a separação entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.

Creio que a maioria dos colegas jornalistas repudia esses acontecimentos. Porque cerceamento da liberdade de expressão não é o que desejam os jornalistas, que por muito tempo lutaram (e lutam) precisamente para obter o direito de escrever aquilo que acreditam que precisa ser escrito.

Mas foi nesse cenário de repressão que foi baixado, no canetaço, o Decreto-Lei 972/69. Esse é o decreto que criou a exigência do diploma de jornalismo para o exercício da profissão. Ele é o núcleo da questão que mais tem mobilizado os sindicatos e alunos de jornalismo nos últimos meses, e cujo clímax se deu no dia 17 de junho, quando os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) o julgaram incompatível com a Constituição Federal de 1988.

Não vou argumentar a respeito da validade da formação acadêmica. Sou estudante de jornalismo e assim devo permanecer até me formar. Acredito no valor que a formação tem para mim – pelas pessoas, pelas experiências, pelo contato com diferentes formas de pensar. Há quem consiga essas coisas de outra forma, em outra formação, ou mesmo dispense tudo isso.

Mas acho engraçado que os sindicatos, especialmente, dizem que a exigência do diploma de jornalismo garante a liberdade de expressão e o “acesso democrático” à profissão. Se foi uma regra criada para censurar, teríamos que primeiro provar a burrice e incompetência do governo militar por ter criado uma lei com a finalidade oposta. Certamente não era o caso, pois os militares conseguiram, sim, manipular a mídia e impedir a publicação de várias reportagens desfavoráveis. Com o decreto, impediram que jornalistas “indesejados” continuassem trabalhando legalmente no país.

A liberdade de expressão nada tem a ver com a formação do profissional. Sai no jornal o que o dono do jornal quer, visto que o texto é limitado pelo papel e pela tinta, ambos fora do controle do jornalista. O mesmo vale para o rádio e para a televisão. A apuração também depende do tempo que o jornalista terá para fazê-la. O jornalismo não é um produto tão lucrativo quanto o entretenimento – a quebradeira dos veículos norte-americanos está aí para mostrar a fragilidade financeira da imprensa. Com os profissionais sobrecarregados, o tempo de apuração é, portanto, limitadíssimo; raras vezes é possível fazer um trabalho de qualidade excepcional nestas condições.

Médicos e jornalistas são bem diferentes, de modo a serem incomparáveis, embora tal comparação tenha sido frequentemente realizada pelos defensores do diploma. Os piores erros do jornalismo envolvem falta de ética e honestidade. Os maiores erros da medicina (e da engenharia, do Direito…) se dão pela falta de conhecimento técnico. Ninguém fala em “liberdade de medicina”, simplesmente porque ninguém quer ser cobaia da “liberdade” de um médico.

Por outro lado, a liberdade de imprensa e de expressão é justamente a garantia de podermos falar o que quisermos da maneira que quisermos, implicando a obrigação de aceitar que outros façam o mesmo.

Jornalismo não se faz de um jeito só. É arrogante o jornalista que pensa ser possuidor do “segredo para se fazer jornalismo” só porque sabe quais informações devem ser colocadas no primeiro parágrafo de um texto – e há quem ria de quem será empregado sem saber o que é um lead.

Todo o barulho em favor do diploma é sindicalismo, corporativismo – a preservação de uma reserva de mercado disfarçada de preocupação para com o bem comum. Ótimos jornalistas não têm formação na área: Carl Bernstein e Bob Woodward, a dupla que derrubou o presidente Nixon no escândalo Watergate, escrevendo o que entendiam ser a verdade no The Washington Post, não tem formação em jornalismo. Bernstein, aliás, nem completou o ensino superior.

Também não faltam péssimos jornalistas formados. Basta conferir alguns jornais locais, devidamente registrados, com suas reportagens chapa branca e anúncios disfarçados de notícia. É pertinente citar o caso de Jayson Blair, o repórter do New York Times que inventou e plagiou notícias. Vendeu ficção como verdade. Blair era formado em jornalismo em um país que nem mesmo cultiva a exigência que por 40 anos existiu no Brasil.

Por fim, vale lembrar que os princípios éticos dos quais muitos jornalistas tanto se orgulham – como o “ouvir o outro lado” – nasceram justamente nas empresas que tratam jornalismo como produto. Antes de ser profissionalizado, jornalismo era feito por motivação política específica. Os mais interessados na noção de “imparcialidade” são os mesmos que hoje dizem querer contratar pessoas sem formação.

Ou, pelo menos, supõe-se que o objetivo dos membros do Sindicato das Emissoras de Rádio e Televisão de São Paulo (Sertesp), do qual partiu a iniciativa de eliminar a exigência do diploma, seja o de não contratar somente jornalistas. Se forem outros Bernsteins e Woodwards, que ótimo. Se forem Blairs, formados ou não em jornalismo, que pena. Mas o público sempre pode mudar de canal.

O bairrismo gaúcho

É vergonhoso o que aconteceu com o repórter do CQC Felipe Andreoli. A saber: um bando de torcedores do Internacional desceu a porrada nele, no cinegrafista e no produtor enquanto eles faziam uma reportagem no Beira-Rio sobre a partida Corinthians x Inter.

Se ainda fosse apenas um caso isolado de ódio, realizado por alguns bêbados, quase que se poderia aceitar. Mas não. Nos comentários do blog dele e em outros lugares vê-se gaúchos sóbrios apoiando a atitude imbecil desses colorados. Se Andreoli estava ou não fazendo piada, isso não importa. É o trabalho dele.

Que fique claro que nada tenho contra os colorados. Não me envolvo com futebol, logo nem sou gremista; não faço parte dessa polarização que praticamente divide o estado. E há gremistas imbecis também. São fanáticos que levam um jogo a sério demais — uma tentativa constante de provar que são, de alguma forma, melhores do que os outros.

Tenho sim desprezo pelo bairrismo. O daqui é especialmente triste: uma hipervalorização do local, uma ideia de que somos melhores do que o resto do país. O engraçado é como isso pode ser usado para controlar as pessoas. É, pois, uma vulnerabilidade no intelecto de boa parte dos gaúchos, que aceitam falácias fundamentadas (sic) no que não tem fundamento: a localização. Esse comercial da Polar é um exemplo evidente do uso do bairrismo na mídia para a publicidade. E deu certo.

Aliás, um mínimo de dignidade foi mantido durante a campanha de 2006, que elegeu a (paulista) Yeda Crusius para o governo do Estado. Não vi, nas propagandas, o argumento de que ela não era gaúcha. Mas creio que isso se deve mais às certas repercussões legais de fazê-lo do que à ética dos políticos. No entanto, foi um argumento que circulou sim pelas ruas, e ainda circula agora que o governo não está satisfazendo a maior parte da população.

Sou um tanto globalista. Não aceito nem aquele argumento de que “somos todos brasileiros”. Um bairrismo brasileiro ainda é bairrista — apenas aumentou-se o tamanho do local que estamos superestimando. É preciso respeitar todas as culturas do mundo, inclusive todas que existem no Brasil, sem limitar-se a qualquer fronteira, seja ela política, geográfica ou cultural. Não se deve substituir um orgulho por outro. Idealmente, o bairrismo deve servir apenas como incentivo para se esforçar mais, para melhorar, e jamais para menosprezar a conquista alheia.

O jornalismo, os blogs, o Imprensa Marrom, a Veja e o Vírgula

O tempo anda curto para escrever qualquer coisa aqui, mas tenho certeza absoluta uma esperança otimista dizendo que os leitores deste blog persistem incansáveis, olhando seus feeds e esperando por um texto novo.

Pois bem. Gostaria comentar brevemente (dentro do possível) sobre um post no blog do Imprensa Marrom. O autor, Gravatai Merengue, mostra o que ele parece considerar abusos de um blog do portal Vírgula para descreditar uma crítica publicada pelo mesmo portal à revista Veja. A matéria do Vírgula questionou (não afirmou) que talvez a Veja teria exposto demais o caso do Fábio Assunção, ao estampá-lo na capa de revista sem nem mesmo ter conseguido falar com o próprio.

Nada a comentar sobre a qualidade do texto ou o blog do Imprensa Marrom de modo geral. Não acompanho, não poderia. Mas é até melhor para não partir para o erro das generalizações.

O que afirmo aqui é que os argumentos não se sustentam. Pelos comentários deixados na matéria é possível perceber que o “Te Dou um Dado?” (TDUD?), o blog que o Imprensa Marrom usa para fundamentar suas críticas, é uma produção independente do Vírgula, incorporada pelo portal após já existir durante um tempo, muito provavelmente na mesma forma de parceria utilizada por outros portais.

Eu não posso adivinhar os específicos das parcerias do Vírgula, que certamente são diferentes da experiência que tive, mas essa é uma informação que faz falta no post do Imprensa Marrom. Pois, dependendo da relação que ambos têm, o post iria por água abaixo.

Em poucos momentos é analisada a reportagem da revista e a crítica em si. Vê-se, basicamente, o seguinte:

  1. Vírgula critica Veja por abusar da história de Fábio Assunção
  2. Crítica é desmerecida porque a matéria é supostamente boa
  3. Mas o Vírgula tem um telhado de vidro por conta do TDUD? e portanto não poderia fazer a crítica

Essa lógica é falaciosa, do tipo “teu passado te condena” ou “envenenamento de poço”. Por mais problemas que tivesse ou tem o Vírgula, não se pode tirar a conclusão de que o portal não poderia criticar ninguém porque tem conteúdo de nível ainda mais baixo sob seu domínio. A argumentação deveria, em todo instante, ter permanecido a respeito do que foi dito sobre a matéria e o que de fato a matéria contém.

Pior ainda seria se fosse confirmado que o TDUD? não faz parte, nem mantém contato com a mesma redação que fez a crítica original. Porque existe isso e essas redações, às vezes, não se falam. E se contradizem. E se repetem. E outras coisas mais. Essa é uma informação — a ligação entre o portal Virgulando e o blog TDUD? — que falta no Imprensa Marrom. É também uma informação que só poderia ser obtida se o Vírgula tivesse sido confrontado antes mesmo da publicação da matéria. Mas não vejo isso acontecendo em blogs; nunca as partes envolvidas são consultadas[1. É verdade que os blogs têm dificuldade em conseguir essa conversa. Mas ninguém tenta. Se tivessem se negado a falar, não poderiam estar reclamando de nada agora.].

Os blogs têm direito a publicar algo sem consultar ninguém? Sem dúvida, creio que devem possuir esse direito — como eu agora publico isso aqui sem perguntar nada ao autor do Imprensa Marrom. Mas da mesma forma que os blogs exigem casca grossa dos jornalistas, também é preciso casca grossa para agüentar as críticas. O Gravatai não gostou que os jornalistas foram lá para se defender:

Editores de um portal NÃO PODEM VIR AQUI – e de início sem nem mesmo uma identificação adequada! – um pouco para ‘debater’, um pouco para ‘intimidar’, para no fim das contas cobrar de mim uma ‘coerência’ que ELES não tiveram e não têm. Eu não vou lá cobrar nada deles. Eu cobro aqui, no MEU blog. Eu uso o MEU espaço para fazer a MINHA crítica. E minha caixa de comentários não pode ser invadida pelos EDITORES DO PORTAL que eu critico como um blogueiro livre.

Bem nessa. Publicou algo no espaço próprio, sem consultar as partes envolvidas, o que teria evitado tudo isso. Onde ele queria que os editores fossem se defender? Caixa de comentários não é para caverna de ecos.

Há uma reclamação a respeito da identificação dos editores. Supondo que eles quisessem se esconder? Não faz diferença. O que é importa é o que é dito, não quem diz.

Tem uma parte ainda mais complicada:

Não vale exigir de mim um pacifismo que não tiveram – haja vista que minhas críticas ao Vírgula não foram personalistas, mas dirigidas ao portal, às reportagens e tudo embasado em provas e demonstrado da melhor forma possível. Claudia e Camilo, ao contrário, vieram aqui e falaram DE MIM.

Como, exatamente, um jornalista pode criticar um blog feito por um único blogueiro sem criticar o próprio blogueiro? Qualquer crítica ao Ira Racional, por exemplo, é uma crítica à mim, é impossível ser de outra forma, a não ser que eu esteja fingindo algo que não sou.

Matéria assinada não é necessariamente a posição do portal, mas da jornalista, que muito provavelmente nem está envolvida com o TDUD?, mesmo que o portal esteja. Que farão os editores senão defender sua repórter?

Não que a crítica dos editores tenha sido justa. Pelo contrário. Começar falando que o Gravatai tem “muito tempo” para fazer a pesquisa é mais um envenenamento de poço na busca de descreditar o que foi dito, sem de fato conseguir fazê-lo realmente.

Mas é importante enfatizar que não importa aqui o resto do portal. Importa sim a matéria específica e o que nela estava escrito. Porque o texto assinado, embora seja produção do portal, é também produção do sujeito que o escreveu. Distanciar-se do específico e do pessoal, buscando problemas na produção de outras pessoas, para um veículo que pode até possuir independência editorial, não é legal, não tem fundamentação boa.

Eu me coloco no lugar da repórter. Imagino se faço um texto para um determinado portal depois vejo-o atacado por conta de outros textos publicados no mesmo espaço, sendo forçado a ver minhas palavras fragilizadas pelo que não escrevi e pelo o que não posso controlar. Parece-me uma injustiça.

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Sim, essa é uma questão que envolve o jornalismo. E sua interação consigo mesmo e com os blogs. Interessantes para se analisar. E triste para ver a que ponto a falta da vontade de ouvir o outro lado — dos blogs e seu achismo — e o medo de conversar com blogueiros — dos jornalistas e sua arrogância que não quer legitimá-los — leva a história.

E o parágrafo acima não trata de ninguém em específico. Esse, sim, é generalizado. Mas voltando ao específico, peço nesse texto que cada palavra seja analisada pelo que diz. Assim, minha crítica aqui não é destinada ao Imprensa Marrom ou sobre o Gravatai, mas especificamente sobre os textos linkados. Também não tenho interesse em defender o Vírgula: já fui silenciosamente ignorado por eles.

É bem possível que o Gravatai esteja certo sobre um exagero do Vírgula. Ou mesmo que criticar a Veja seja sim uma posição do próprio portal (seu ponto central). Mas isso não quer dizer que exista a mesma verdade em todos os argumentos usados. É possível, como dizem, escrever certo sobre linhas tortas.

Previsão: O diploma de jornalismo cai

Eu devia ter escrito isso já no outro post, mas deixo aqui uma previsão: o STF vai decidir pelo fim manutenção da exigência do diploma.

Posso estar errado, mas se não arriscar, não estarei certo também. Tenho alguns motivos para apostar nisso: muita gente no governo não gostou, por exemplo, que o CQC teve sua entrada liberada no Congresso. Sem o diploma, mais humorísticos terão liberdade para fazer o mesmo — incluindo repórteres do próprio CQC, como Danilo Gentili e Oscar Filho, que na verdade são comediantes. E se o CQC quer se chamar de jornalístico, uma vez mantida a exigência do diploma a posição destes rapazes no programa ficará complicada.

O STF tem adorado contrariar o governo ultimamente, basta ver os habeas corpus da Operação Satiagraha.

Caindo a exigência, a resposta será um intenso lobby, por parte da Fenaj e do próprio governo — a União e a Fenaj recorreram juntas da decisão inicial que em 2001 aboliu a exigência — para criar alguma outra lei ou emenda constitucional que a substitua. O STF, por sua vez, vai recomendar algo que solidifique a decisão tomada.

E aproveito a oportunidade pra dizer: sou contra a exigência do diploma. Os argumentos pelo lado a favor da exigência que ouço na universidade e outros lugares são, um mais do que o outro, baseados em self-interest e corporativismo. Resultado: fui jogado para o outro lado. Ouvi na universidade que eu não posso ter esta posição sendo estudante de jornalismo. Ora, ora! Estou estudando jornalismo porque quero aprender a fazer um bom jornalismo. O diploma é secundário, pois ele nem garante a qualidade do profissional. Estou ali pra estudar e aproveitar meu tempo.

Curso que distribui diploma em vez de formar jornalista merece acabar mesmo.

Seria mais conveniente para mim lutar pela obrigação da diploma, porque estou estudando jornalismo e com isso teria emprego mais facilmente. Mas o fato é que jornalismo é algo que pode ser aprendido de várias formas, inclusive autodidata, e se alguém aprende a fazer jornalismo melhor do que eu sem precisar ir para uma faculdade, parabéns para ele.

Debate com vozes ausentes

Debate — s.m. Discussão; contestação; disputa.

Discussão — s.f. 1. Ação ou efeito de discutir. 2. Polêmica; controvérsia; debate. 3. Briga; desentendimento; troca de insultos.

Fonte: Dicionário Luft

Se existem debates orwellianos[1. Importo aqui o conhecido adjetivo inglês “orwellian”: relativo à George Orwell no seu livro 1984, onde eufemismos eram usados para embelezar a opressão e as péssimas condições de vida.], certamente estive em um nesta noite do dia 12. Para minha classe de Redação Jornalística, fui obrigado a participar de um evento da universidade que tratou da atual polêmica acerca da manutenção ou não da exigência do diploma de jornalismo[2. Que os sindicalistas costumam dizer que vai acabar com a profissão. Uma falácia de bola de neve, considerando-se que a regulamentação é anterior aos próprios cursos de jornalismo e somente a exigência do diploma está em questão].

A universidade promoveu o evento como um debate. Para não ser injusto, o chapéu/cartola da matéria na página principal do Portal3 — que é o site mantido pelo pessoal do curso de Comunicação Social da universidade — é “Palestra” e o título “Jornalistas a favor do diploma” (provavelmente vão mudar hoje mais tarde). Mas no texto de chamada o encontro já recebe o nome de debate, como no título da matéria.

Foi um “debate” onde as vozes dissonantes estavam ausentes. Todos os quatro participantes do “debate” defendiam a mesma posição, portanto não houve “contestação”, nem “disputa”, nem “polêmica”, nem “controvérsia”, nem “desentendimento”.

Eu estava empolgado para ouvir o Celso Augusto Schröder, que é vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (e irmão do Carlos Henrique Schröder, diretor de telejornalismo da Globo — aquele cujo nome aparece no fim de todos os telejornais como “diretor responsável”), mas ele não esteve lá e nenhuma explicação foi dada sobre a infeliz ausência.

Não que ouvir um lado só seja intrinsecamente ruim. Certamente, a universidade e boa parte dos professores querem que o diploma continue. Mas o monólogo fica entendiante, como o auditório quase vazio evidenciou ao fim da palestra.

Às vezes, enfrentar o outro lado mostra quem está mais preparado, quem fundamentou melhor os argumentos. O próprio embate, se evidenciar o despreparo dos adversários, acaba sendo uma ótima propaganda para aquilo que se quer defender. De quebra, bons debates são emocionantes e, por apresentarem mais de um lado da história, jornalísticos.

Minha opinião sobre a manutenção do diploma? Não sei mesmo. O que sei é que o José Nunes, presidente do Sindicado dos Jornalistas do RS, apenas disse que a Internet é uma questão “complicada” quando o questionei a respeito dos efeitos da manutenção do diploma na web. Se iniciativas como o VC no G1 e Wikinews serão sepultadas com a exigência, sou contra. E para o pessoal da FENAJ, ter todo cidadão como jornalista é algo “francamente impossível“, embora esta tenha sido a premissa do bem-sucedido OhMyNews desde sua concepção.

Se fôssemos procurar por um meio-termo nesta história, talvez manter a necessidade do diploma apenas para o rádio, para a TV e para a assessoria seria uma boa idéia, terminando a exigência para revistas, jornais e sites de internet. Regulamentar é interessante, mas seria mais interessante se fosse uma lei bem pensada e não um decreto-lei da ditadura originalmente concebido para censurar a imprensa. [3. Parece até que sou contra a exigência do diploma em vez de um indeciso. Mas o fato é que ouvi tanta conversa de um lado só que consigo apenas criticar este um lado… As críticas ao outro lado me parecem redundantes, considerando o quanto ele foi atacado.].

Independentemente da decisão do STF, não cancelarei meu curso.

Se está na sua Internet, está na minha também

Não é preciso ser vidente para prever a morte dos jornais. Esta já é uma previsão tão repetida que seu autor só pode ser o coletivo — é domínio público, sem direito a citação de fonte. Poucos levantam a mão quando recebem a oportunidade de ser a voz dissonante. É como o fim do mundo: há de acontecer, e, mesmo que todas as previsões que marquem a data falhem, nunca deixará de ser verdade.

É evidente, no entanto, que é possível, hoje, ser um cidadão bem-informado sem o auxílio dos jornais. Isso prova que eles não são mais essenciais — são substituíveis e estão sendo substituídos. A morte plena e completa dos jornais talvez nunca venha a ocorrer, como é o caso do vinil, mas todas as grandes publicações irão usar algum método alternativo de distribuição do jornal que não seja o papel.

Em outras palavras, mesmo que o formato “jornal” não acabe, o papel está condenado. Talvez as revistas, por serem melhor material de arquivo, ainda sobrevivam. No livro A Arte de Fazer um Jornal Diário, o jornalista Ricardo Noblat diz que a sobrevivência dos jornais só será possível por meio de projetos gráficos mais inteligentes e da substituição de notícias velhas por reportagens especiais contendo acertos na hora de analisar o que ainda está por vir.

Efetivamente, entendo isso como uma ordem para que jornais tornem-se revistas.

Seja lá o que o futuro reserva para estes meios de comunicação, a Internet mudou o jornalismo duas vezes. Em primeira instância, deu ao jornalismo (e a qualquer outra comunicação) a propriedade de transmissão muitos-para-muitos, antes inexistente. Leitor e escritor confundem-se. O receptor de uma mensagem pode ser o emissor dela no momento seguinte. O feedback é instantâneo.

Em segunda instância, a internet mudou o jornalismo por servir como uma nova fonte de informação não-volátil. Isso não acontece desde a invenção da imprensa. Rádio e TV são mídias voláteis, quer dizer, não é possível captar mais tarde o que está sendo transmitido agora, a não ser que tudo esteja sendo capturado.

O serviço de “capturar”, exercido por jornalistas radioescutas, é valioso, porque organiza e filtra a informação que é transmitida pelas ondas eletromagnéticas. Se ninguém fizer isso, o público perde muito ao não ser informado a respeito do que foi transmitido em um canal (rádio ou TV) de baixa audiência ou a que poucos têm acesso (por restrição geográfica ou lingüística).

Por isso ninguém tem o direito de rir de um jornalista que ver uma notícia na TV Senado, por exemplo. Ele viu. Muita gente não viu. Se mais alguém precisa saber, é bom noticiar. E descrever em detalhes o que viu, porque obter o vídeo novamente não é fácil.

Por outro lado, qualquer jornalista que usar toda a sua matéria para descrever uma página de internet precisa rever seus conceitos.

Ora, em vez de descrever a página, coloque uma foto. Ou, melhor, me dê o link. Eu vejo por mim mesmo.[1. Exceto quando isto não for possível. Um site malicioso contendo pop-ups pornô, por exemplo. Mesmo estes podem ser substituídos por vídeos, porém nem sempre é possível fazer um material de qualidade, por restrição de tempo ou equipamento.]

Caso em questão: uma matéria do Los Angeles Times sobre o político norte-americano Sean Tevis. Tevis quer ser deputado estadual pelos Democratas no Kansas, um domínio historicamente Republicano.

Tevis fez em seu site uma charge muito criativa, no estilo geek do xkcd, para pedir doações. E conseguiu impressionantes 95 mil dólares, contra apenas 12 mil de seu adversário.

É claro que isso merece atenção dos jornais.

O LA Times então enviou uma repórter até o estado do Kansas para entrevistar Tevis e sua mãe — esta última por estar envolvida na campanha como responsável por gravar vídeos de agradecimento a quem doou mais de US$500. As entrevistas duraram horas, como conta o próprio Tevis. As entrevistas poderiam ser feitas por telefone ou e-mail, mas a repórter fez questão de ir até lá.

Ir até a notícia é digno de respeito.

O problema é que a matéria do LA Times possui quase nada destas longas entrevistas. Boa parte da matéria é uma descrição da charge criada pelo politico democrata, como se ninguém pudesse simplesmente clicar num link e vê-la por si mesmo. A foto de Tevis que ilustra a matéria é a mesma presente no site do candidato.

Para quem viu o site da campanha, a notícia, que se estende por duas páginas no site, é um amontoado de observações simples e obviedades. Para quem não viu, uma imagem e um link substituiriam boa parte do texto. Se a repórter tivesse feito a matéria usando apenas entrevistas por telefone ou até mesmo MSN, ninguém poderia notar a diferença.

A Internet é uma fonte de informação não-volátil e extremamente acessível, mais do que a própria imprensa. Se menciono um livro ou uma edição passada de um jornal, ter acesso ao texto que me refiro pode não ser nada trivial. Na Internet, a não ser que você viva na China ou em Cuba onde há censura do governo, todas as páginas estão igualmente acessíveis. Descrevê-las em detalhes é desnecessário.

Assim, resumindo, a matéria do LA Times erra em dois pontos. Primeiro ao descrever uma página de internet que qualquer um pode ver, como se fosse conteúdo exclusivo. E segundo por ter gasto dinheiro com uma viagem cujo texto não demonstra que aconteceu.

Aliás, o texto no blog de Sean Tevis sobre a visita da repórter é mais interessante do que a matéria do LA Times. Vale lembrar, Tevis é formado em jornalismo. Sendo geek, provavelmente compreende melhor que histórias sobre eventos e interações corpo a corpo valem mais do que uma cansativa descrição de uma página que qualquer interessado é capaz de ver.