Versos: Assim Falou um Coração

Queria saber quem foi que fez
do amor uma queda de braço
Uma guerra carente de sensatez
travada com armas invisíveis
que machucam mais que o aço:

— Um arsenal composto de medos
De amar mais, de amar menos
Amar demais, amar de menos,
Amar diferente, de mentira
e a mentira e seus enredos

Classificar o amor
com rótulo e valor nutricional
O que faz bem, o que faz mal
Valor diário, caloria, calor
Para não ter pouco e nem excesso

Quem pode e não se poderá ter
Faz só o estranho ter caráter
Quem está próximo até ama também
Mas é sem graça e calmo demais
E o amor quer aventura, meu bem

Que cheguem perto, porém não muito
Querem tudo e não querem nada
Nada deles nesse tal de Outro
Como o investidor mais afoito
Querem o outro sem dar de si —

Não ganharão nada desse jeito
Fico aqui batendo nesse peito
Tentando mostrar o que me aflige
E o que vai virar fuligem
Depois que o “amor ardente” queimar

Amor não queima, não congela
Não evapora e não transforma
Ele esteve contigo e com ela
Nos minutos despretensiosos
Que construíram o passado

Amor não quer amar
e nem ama apenas um
Ama por não ter escolha
e deixa o ego espernear
sem esforço algum

Amor só segue as regras
criadas por quem é amado
não é a regra social:
nem a que jaz em pedras
nem a que se é obrigado,

amor livre que se restringe
por tanto amar com razão
não em físico, mas em essência
que ademais é consciência
e toque só vira expressão

Amar com razão, amar quem fez
do amor um carinho de ouvir
caminhar e trilhar, ver dormir
juntos sem motivo, sorrir
pelo acaso que não os deixou separar

Amar quem lembrou que vai perder
E quis pouco achando que era tudo
que ao saber da tristeza
quis compartilhar a felicidade
em vez de fugir

amar quem sonhou ser a chuva
por entender que às vezes
é preciso deixar o Sol brilhar sozinho
mas que é preciso ter a certeza
de que vai voltar