O estado mínimo

Eu sei que o comunismo fracassou. Sim, sim, o comunismo, de fato, nunca existiu. Mas o que existiu deveria ter nos levado ao comunismo pleno e ideal, e se isso nunca aconteceu, o comunismo humilde deve ao menos admitir que o ser humano não soube lidar bem com essa ordem das coisas; que a ditadura do proletariado ao fim corrompeu os proletários que deveriam tê-la usado como trampolim. Nem tudo precisa chegar ao final para fracassar. Fracassou antes, portanto.

Triste daquele que não reconhece esse fracasso. O idealista que ainda acredita nas mesmas mentiras que enchiam de sonhos os comunistas do século passado, que viam a crítica ao regime soviético como terrorismo do adversário imperialista.

Sem qualquer alternativa, nos voltamos para o capitalismo. Dos inconformados surgem os novos socialistas. Mas o novo “socialismo” nada tem de comunista ou de socialista. A social-democracia é nada menos que um capitalismo envergonhado, um remédio que tenta impedi-lo de progredir como um câncer que venha a fazer a humanidade refém de si mesma, parasitada por uns poucos privilegiados. E isso tudo nada mais é do que a defesa do próprio capitalismo, em vez da sua negação.

Vamos apelidar de capitalismo dos derrotados. Não de derrotado na vida, veja bem, mas de quem teve o sonho derrotado pela realidade. Que se viu obrigado a abandonar a visão de um mundo justo e igual para todos e a aceitar que diferenças são inerentes e invencíveis e que qualquer tentativa de mudar esse quadro corre o grave risco de naufragar no autoritarismo.

Para esses derrotados, a social-democracia não é a terceira via. É a única via. É a direção segura do status quo, que sem freios acelera até não “vencer a curva”, porque o caminho nem sempre é reto e plano. Até o mundo é redondo, mais ou menos.

Do lado vencedor do capitalismo, a celebração gera novas ideias e requenta as antigas. Vamos falar de uma, o estado mínimo. Retire-se do governo tudo que pode ir para as mãos do setor privado. Acho esse nome mentiroso; é mais um “estado de função única”: garantir o direito à propriedade.

Porque se for um estado mínimo mesmo, e só, eu aceito. Tem ares de eficiente. Mas vamos estabelecer os mínimos.

O mínimo de saúde.

O mínimo de educação para todos.

O mínimo de comida na mesa.

O mínimo de segurança e de transporte.

O mínimo de água.

O mínimo para que se possa vencer o ebola, a dengue, a malária, a AIDS, e não manter essas doenças eternamente na sociedade para vender remédio.

O mínimo para se exigir a dignidade humana no mundo com exemplos, com a felicidade, com a justiça, não com bombas e drones assassinos.

Pois se você não definir o mínimo, está na sua mão a vida perdida por falta de alimento. A vida de quem não pode trabalhar, os “parasitas” da sociedade, porque não teve remédio ou a cirurgia que precisava, ou que tomou um tiro por não pagar a milícia, digo, a segurança privada.

Nenhum de nós é o único ser humano decente ou virtuoso no mundo. E nem todo mundo que está fora do jogo é porque não soube jogar: há quem não teve nem sequer a chance de rolar os dados pra avançar nas casas desse jogo – seja por falta do braço, por falta do dado ou por não saber ler os números.

Que o nosso estado cresça, então, até atingir o mínimo.

Versos: Crista da Rocha

Diante da grandeza do espaço
Qual a distância de um abraço?
Pode fazer diferença um passo
Ou o outro lado do planeta?

Ah, mas a Terra não tem lado,
Ficou só em um livro sagrado
A ilusão de um plano achatado

Prende-nos sem dó esta rocha
Coberta de um azul que debocha
Da pequenez que desabrocha
Em quem vê o mar das estrelas

De lá, esse mausoléu do brilho
Ilumina o caminho que trilho
E meu norte em cada bívio

Pois a supernova põe à prova
A energia dentro de nós
E toda aquela luz feroz
Às vezes ainda é distante
Ou distante o bastante
Para passar despercebida

E aqui por puro despesero
ao calor de uma estrela
criamos um piso de gelo
traiçoeiro e opaco
maior que os anos-luz
que medem o vácuo

tememos a dor
que vem do coração
e a liberdade proíbe
qualquer dedicação

até que de repente
jaz esperança em pedir
a uma estrela cadente
pela vida que só vem
para se despedir

Versos: A Derrota dos Invencíveis

Vejo versos velhos
Sozinhos, sem som
Pois perdi a poesia
Agora abandonada

Canções, cantigas
Marcam meus medos
Inúteis, fúteis
Derivados do desejo

Quem quis o quando
Outrora odiava o onde
E brincou por brincar
Nutrindo nãos e nadas

Há histórias humanas
Mais nobres que esta
Paz de paixões planas
Como sombras numa sesta

Desfiz-me de uns segredos
Visando à vitória da verdade;
Que escapa dos meus dedos
Aufere amor, apaga alarde

A ciência nunca vencerá a religião

Está rolando agora uma discussão “transmidiática” [?], que começou na TV e partiu para internet, entre o pastor Silas Malafaia e o geneticista Eli Vieira sobre questões de homossexualidade. O Pedro Burgos fez um excelente resumo da ópera, em um texto com o título “Malafaia “perdeu” e a ciência ganhou? Não tão rápido“. Ele está correto, mas o título parte de uma premissa falsa.

A ciência nunca vencerá a religião — nem rápido, nem devagar.

Lembro quando frequentava as missas católicas e em determinado momento o padre proclamava: “eis o mistério da fé”. O mistério da fé existe porque ela desafia a razão humana — é, na verdade, incompreensível. Filósofos e teólogos sempre debateram questões como “se Deus já sabe nosso futuro, então não temos livre arbítrio, porque já tomamos todas as escolhas”, ou “se Deus já sabe o que somos e o que faremos, ele não precisaria nos colocar aqui na Terra para nos testar”.

Ou ainda: se Deus criou o universo, quem criou Deus? Como Deus ao mesmo tempo é três?

Existem algumas “respostas” para questões como essas, mas no fim tudo depende da capacidade do crente de acreditar e aceitá-las.

A ciência lida com conhecimento, com uma quantidade finita de saberes que construímos por meio de métodos documentados – métodos que também estão sujeitos à discussão. A religião tira sua força do consenso. A ciência tira sua força do debate. A religião é preto e branco: isso pode, isso é pecado. A ciência mora nos tons de cinza.

Ambas têm utilidade, até porque uma crença não precisa ser verdadeira para ser útil ao ser humano. Vai, confessa: eu sei que você ficava feliz quando era criança e via o Papai Noel. Eu sei que muitos se emocionam vendo a novela ou um filme (que sabemos que é mentira). A verdade não é de total relevância quando se fala do ser humano.

Esqueçamos Malafaia e o cristianismo. Voltemos ao Egito antigo ou à Grécia, com todos aqueles mitos e deuses. Todas essas crenças serviram ao povo na época: elas passaram lições de vida, mantiveram a sociedade estável e, principalmente no caso do Egito, que via seu líder como divindade, serviram para consolidar o poder, o que (imagine só) pode ter contribuído para a sobrevivência e grandeza daquela civilização. Não importa se era mentira. Aliás, é um deus que dá à fé a força persuasiva que ela possui. Não seria fácil acreditar em mitos se eles fossem atribuídos aos humanos.

Quando se precisa de respostas perenes, unificadoras, a ciência não tem chance alguma contra a religião. Não é nesse campo que ela atua. Quando a ciência compete com a religião de igual pra igual, ela se faz de boba. Se faz de boba porque tenta vender uma ideia de consenso, uma ideia de que “a ciência diz que” do mesmo jeito que a “religião diz que”, quando a coisa é normalmente bem mais complicada que isso.

Quando a religião se faz valer da ciência, ela se faz de boba também. Se faz de boba porque troca seus dogmas incontestáveis por fatos discutíveis. Se faz de boba porque mostra pastores que não compreendem o método científico ou o significado do termo “teoria”.

Ora, a gravidade é uma teoria. E ela não diz só que você vai se espatifar quando cair de um prédio; ela prevê e explica a movimentação e atração dos planetas, os buracos negros. É coisa complicada, e fala de forças que criam “curvas no espaço”. Você não vai “observar” nada disso, mas pode ver o movimento dos planetas. Mas é uma “teoria”. E tem consequências muito reais, porque consequências reais são normalmente do que tratam as “teorias”.

A parte mais triste, ainda assim, é ver a questão da homossexualidade ser discutida de forma tangencial. Discutimos se o sujeito tem escolha a respeito. E daí que tenha? Qual o problema com a escolha? Eu, que sou hétero, não sinto que tenho escolha sobre isso. Talvez alguns “héteros” tenham. Talvez alguns “gays” tenham. E provavelmente muitos deles não tenham.

Nem ciência, nem religião. Um pouco de humanismo, bom senso e amor ao próximo nos servem melhor.

Versos: Depois de Quando é Tarde [+]

I

Esperava a vez no banco
Ao lado do cartaz de cancro cítrico
Pode parecer um tanto atípico
Mas essa vida eu ia levando

Era só uma criança
E pouco de tudo eu sabia
Preso sem chance de fiança
Ouvindo histórias da pradaria

Interior no interior do coração
Nem a cidade pode desenraizar
Já sabia, fiz de conta que não
E parti pra testar o meu azar

Com mais um par de nós desfeito
Nada fiz, nada conquistei
Posso nem ter vivido direito
Porque tal direito não é lei

No inverso do verso, jaz meu universo
De sangue nos olhos, lágrimas nas veias
Nu no inverno, na praia de terno
Vendo só uma coleção de areias

Invejo as vidas que não tive
E água escorre dos meus olhos
Esperando que na rota em declive
Ouça algum aplauso dos auditórios

Só cai a gota em silêncio
Sobre a pedra do passado
Criando uma marca escura

II

Mas quando anoitece
O céu é ainda mais escuro

E quando a água dele desce
Já não vejo as marcas
Das pequenas lágrimas

E a humihação não se encerra
Pois choverá sobre a terra
Ainda que não possa chorar

Eu sou passageiro
Vou passar até que ligeiro
E mesmo que tivesse outras vidas
Passaria também

Até minha insignificância
é insignificante
E só conforto traz
a quem vira um cartaz
de cancro cítrico
sem alerta à infância
para cuidar da semente
em nosso íntimo.

30/07/2012 – 20/12/2012


Tinta, papel, coração
Todos juntos aqui na mão
Pra ver se sai
Pra ver se sai
Um pouco do que jaz em mim
Daquilo que não deixo sair
Pra não perder

15/09/2012 (em carta)

A frieza das escadas

Em qualquer prédio que se vá, quando há elevador, e desconsiderando-se a ação do ar condicionado, o elevador parece sempre mais quente que as escadas. É como se elas, as escadas, quisessem dar um presente àqueles que, nos piores dias do verão, resolvem pisar sobre elas, degrau a degrau, no esforço para chegar ao destino.

O calor do elevador resulta em parte do calor humano – as pessoas todas que tentam ocupar o mesmo espaço para subir ou descer, estáticas, movendo apenas um dedo para pressionar o botão que as leva ao andar desejado. Plim!

Na verdade, muitos elevadores já nem fazem sons, embora alguns tentem fingir que sabem conversar. “Oitavo-andar”, ela diz. Ela, porque aparentemente elevadores normalmente são mulheres, apesar de eu ser obrigado, pelas normas da língua portuguesa, a usar o gênero masculino.

Mas, ao contrário da Senhorita elevadora – permita-me chama-la assim -, as pessoas que entram em elevadores mais do que se contentam com um “oi” seguido logo de um “tchau”, porque a viagem é curta e não se vai compartilhá-la muito tempo.

Quer dizer, pode ser o caso de que as pessoas ouvirão mais o elevador, digo, a senhorita elevadora, do que elas mesmas, exceto quando tiverem de reclamar do calor. Pela falta de ar condicionado. Embora nesses casos o elevador provavelmente também seja mudo.

Pessoas, em geral, parecem-se mais com escadas do que elevadores. Elas preferem ver esforço por parte daqueles que querem entrar na sua vida. Quem só quer meter o dedo e fingir que não precisa fazer mais nada não é bem-vindo. A esses, iguais àqueles que decidiram não usar o elevador porque estava lotado ou está com pressa, fica a frieza inesperada do corredor das escadas, hoje muitas vezes já batizadas de “saída de emergência”, como se elas fossem sempre uma segunda opção.

Pessoas, também, não gostam de ser a segunda opção. Mas pessoas também nem sempre se sentem obrigadas a oferecer um destino a quem se esforça para trilhar seus degraus, como as escadas sempre fazem.

Há nobreza em ser escada e em ser elevador. Mas elevadores precisam de mais manutenção.

Versos: Trevos & Retornos

O amor flui
de um ao próximo
e vez ou outra
faz o caminho
de volta

mas quem escolta
esta tal de paixão
nem sempre a aceita
quando ela retorna
um pouco diferente

como se o tesão,
quando ausente,
também levasse
o carinho,
as memórias,
e a saudade

coitado do amor,
que de repente
é pura maldade
e menos nobre
sem venda casada

estranho é quando
um dia, do nada
o tal “apaixonado”
deixa de sentir;
já o outro
desapaixonado,
jamais esquece

vou até dizer que
amor é amizade
mesmo quando
a amizade é daltônica

então dê espaço
deixe o amor passar
e cumprimente-o
quando ele voltar