A reciprocidade do desprezo

Acabei de instalar o OpenSuse 11. E agora, como sempre após a instalação de um Linux, é aquele momento de longa espera até que os downloads e as instalações de todos os softwares terminem. Pelo menos boa parte das minhas configurações ele importou, então é um estresse a menos.

Aproveito este tempo de total improdutividade para escrever um post que já está há algum tempo em minha cabeça. Pode parecer óbvio o assunto, já pelo título, mas gostaria de elaborar um pouco.

O desprezo é um sentimento como qualquer outro. Admiração, raiva, nojo. Mas o interessante é a tendência que ele tem de ser recíproco. Se no amor a reciprocidade é desejada e nem sempre aparece, no desprezo ela rouba a cena mesmo sem ser notada.

O cidadão que despreza outro por ele ser promíscuo demais, por exemplo, é geralmente desprezado pelo outro por ser estúpido, antiquado ou, como dizemos aqui, “quadrado”. Ou, ainda, “grosso”.

Fato semelhante ocorre com os nerds e outros párias da sociedade, que às vezes desprezam as outras pessoas por serem fúteis. Ao mesmo tempo, eles são desprezados por estas pessoas por serem estranhos, pouco sociáveis ou mesmo desprovidos de destreza manual ou de conhecimento do senso comum. Com isso, cada um permanece no seu canto, indiferente à opinião alheia (por desprezá-la).

Sendo assim, não é rídicula a hipótese de que o desprezo é, acima de tudo, um mecanismo de defesa contra ataques ao nosso modo de vida. Sem condições lógicas, coerência ou consistência para atacar uma certa atitude ou ponto de vista, resta-nos apenas o desprezo.

Não proponho a limitação ou opressão do desprezo, pois seria auto-censura e mais pareceria um dogma cristão. Mas não descarto a necessidade de uma reflexão: por que (eu) desprezo (o Outro)? Tenho motivos racionais para desprezar? É realmente impossível viver dessa forma ou ter essa opinião que desprezo?

Sucesso no Brasil não é feio. Pelo contrário.

Há quem diga que o sucesso no Brasil é feio. Que não é bem visto. Que ser famoso não é bonito. Etc.

Tenho que discordar. Aos meus olhos, a verdade é bem o contrário. O ser famoso, no Brasil, é lindo. E exagerado – especialmente nos peitos e na bunda, ou talvez na magreza, se for mulher. Tem um rostinho amável de se ver. A voz não importa muito: pode ter sotaque de interior, com péssima dicção e pensamentos tão desorganizados que seriam melhor entendidos no SAP e mais bem aproveitados no Mute. Mas repito: isso não importa. O ser famoso é lindo.

E todo mundo quer ver o sucesso. Nas revistas, nos jornais, na TV. Na Playboy, se for possível, também. Mas ninguém quer ver o famoso num teste de conhecimentos gerais sério. Mas não é porque não fazem questão de saber que a pessoa é inteligente ou não, mas porque todos já sabem o resultado. E não tem graça ser informado a respeito do que já se sabe. Quando tem algo assim, chamam de Concurso de Inteligência. Mas o nome ideal seria diferente: a avalanche do fútil.

Mas nada disso retira crédito do fato: o sucesso é (e está) no lindo, não no feio. O sucesso quer ser visto, não escondido.

Então não compreendo esta história que contam sobre a feiúra do sucesso e da fama no Brasil. É claro que muitos são invejosos, mas o fato é que a grande maioria das pessoas possui a inveja quero-ser-como-ele(a), não a “inveja (sic) desprezadora”, aquela que tenta repensar os valores da sociedade.

O outro fato é que o ditado de “sucesso é feio” serviu como uma luva para as pseudocelebridades que, incapazes de lidar com crítica e de reconhecer que sua fama pode estar imersa na futilidade, precisam de um ditado superficialmente profundo para justificar sua própria superficialidade.

O que mostra mais uma vez a falta de reflexão. Porque o barco só encalha em mares rasos.

Versos: Vivem os Humanos, Morre a Humanidade

Somos todos da mesma espécie
Mas às vezes nem parece
Os rapazes e os homens
Moças e esposas
Escravos e líderes
Em qualquer nível
Brigas e intrigas
Desentendimentos, agressões
Ar vil e sofrível
Cartas que trazem intimações
Uma guerra febril e fria
Tudo pela falta de amigos
Homens sem ouvidos
Mulheres sem maridos
E meninos solitários

Eu conheço guerra
Onde mesmo quem acerta
Sabe que erra
Grita um alerta
Pede um socorro
Vê o companheiro morrer
A saudade de voltar
Subir em um morro
Levantar a bandeira branca
Vê-la tremer
Para então ver o inimigo
E perguntar:
“Pode tua nação vencer
Sem que vossa humanidade
Venha a falecer?”

O elitismo racional

Eu não poderia ter publicado o texto anterior — que estava editado e pronto faz tempo — sem também escrever um pouco sobre elitismo racional, que é a crença de que “todo mundo está errado e só eu estou certo”.

Esta é um questão bem relevante atualmente, especialmente quando temos dois candidatos bem diferentes para as eleições dos Estados Unidos e um deles, o Democrata Barack Obama, é freqüentemente atacado pela crítica Republicana como “inexperiente”.

Ora, diz McCain e seus aliados, Obama é, como todo adulto mais jovem — incluindo o candidato Republicano em seus primeiros anos: uma pessoa que ainda não compreende muito bem o mundo. E por isso pensa ter uma solução simples e elegante para tudo, ou “a mudança em que podemos acreditar” 1.

Há um pouco disto no atual título deste blog, mas a ira é o que tira a credibilidade deste racional. A inevitável emoção que acompanha todo o desejo (veja bem, desejo) de buscar respostas racionais. No fim, um cientista fica feliz por suas descobertas, e é o prazer que ele retira delas que o faz seguir adiante. Não existe estudo sem paixão. Não existe razão sem emoção.

Portanto, estou sujeito ao erro. E exponho minhas opiniões não porque penso ter a solução. Não porque quero me impor. Pelo contrário. Jamais poderei iniciar uma discussão sem antes dizer o que penso. E jamais poderei participar de uma discussão já existente sem fazer o mesmo. Freqüentemente, participo de discussões não para expor meu ponto de vista, mas pra me fazer de advogado do diabo simplesmente para extrair mais argumentos que defendam um ou outro ponto de vista. Não poupo nem meus aliados.

Independentemente de quanto eu me esforce, sempre haverá alguém mais bem informado do que eu. Alguém que leu mais estudos e textos sobre o assuntos. Ou então textos mais recentes. Ou, ainda, textos simplesmente diferentes. A informação que temos é tanta que é impossível acompanhar tudo. E mesmo que nossa educação fosse perfeita, tudo que ensinamos cada vez vale menos. Não se pode construir base sólidas para “opinião” alguma, porque uma nova prova ou fato irá tornar tais bases obsoletas na semana seguinte.

Nada mais é constante, senão a própria mudança.

Eu preferiria, sinceramente, o cartesianismo e o mecanicismo. Descobrir O Método e A Verdade. Mas infelizmente não é assim. Temos que nos contentar com o que podemos fazer, que é buscar as melhores verdades todos os dias. E, obviamente, não as encontraremos. Mas é melhor encontrar alguma coisa — tal como aquilo que escrevo neste blog — do que nada.

Toda informação pode despertar uma emoção que cria uma vontade inexplicável de se saber mais. Se isso acontecer, ótimo. Se não acontecer, tudo bem — quem sabe na próxima?

Esta é a realidade com a qual os críticos viventes do “pós-modernismo” precisam conviver: apesar da discordância e do erro, ainda há um valor. Mas o que é e como pode ser medido este valor, para diferenciar a crítica boa da crítica ruim? Cada leitor irá julgá-la com base em suas experiências de vida — completamente subjetivas –, mas será este o único valor, o crivo das massa — a mesma massa que assiste a novela das 8, Big Brother2 e não sabe quem foi Descartes?

São perguntas abrangentes e nem me interessa a resposta, porque todos que se propuserem a responder, apesar de apresentarem respostas diferentes, estarão certos, pelo menos para si próprios. E quando todos estão certos, ninguém discute para aprender, mas apenas para lecionar.

Mas se as coisas são assim, como pode a escola estar ensinando algo a respeito das autoridades do saber? Se fosse assim, as pessoas não acreditariam em tudo?

Pelo contrário. O que temos aqui é a idéia de que “todas as opiniões são criadas iguais”. Pois o professor nunca teve, ou, pelo menos, parece que nunca teve, de justificar o que disse. Daí, uma aula de Física tem a mesma autoridade de uma aula de Religião. E uma opinião sem fundamento tem o mesmo valor de uma opinião bem-fundamentada.

Acredita-se, então, no que é conveniente.

É verdade que nossas bases não são sólidas, podendo desaparecer com a publicação de um novo estudo ou algum acontecimento inesperado. Mas a evolução incessante não deve ser justificativa para desistir de buscar fundamentos; pelo contrário, deve nos fazer entender que as coisas mudam e que precisamos acompanhá-las, e que estar errado por possuir informação de credibilidade desatualizada é mais nobre do que errar por não ter informação de credibilidade alguma.

Ou, pelo menos, é o que aquilo que sei até hoje me faz pensar.

“Some people see things that are and ask, Why? Some people dream of things that never were and ask, Why not? Some people have to go to work and don’t have time for all that”

–George Carlin
  1. O lema da campanha de Obama: “Change we can believe in”.
  2. O Danilo Gentili tem um post melhor sobre isso no antigo blog dele. Vale lembrar, programas são feitos para a massa por um motivo. Não digo nada aqui para denegrir a imagem da massa, mas sim para questionar se, realmente, todos estamos aptos a julgar tudo.

Os virgens sexualmente ativos

Em Juno, a personagem principal de mesmo nome, interpretada por Ellen Page, faz um comentário pertinente a respeito do termo “sexualmente ativo”:

“Sexually active? What does that even mean?”

Seria realmente um termo estranho, não fosse sua necessidade evidente para substituir um termo ainda pior.

Para distanciar o discurso religioso do debate científico e político, eufemismos (se podemos chamá-los assim) tem sido criados para retirar a necessidade do uso de termos com conotações religiosas ou tradicionalistas.

Assim, vemos, por exemplo, um político como Barack Obama dizer que se opõe ao casamento gay, mas que é a favor de que as “uniões civis” formadas por membros do mesmo sexo tenham os “mesmos direitos” que uniões formadas por membros de sexo oposto.

Já no Brasil, ninguém se casa. Tem-se “uniões estáveis”. Juntam-se escovas. Etc. Casamento não é um conceito cristão, mas quem mais dá valor para o termo e suas implicações geralmente é um religioso conservador. Chamar algo de casamento é o que põe ou retira o valor do ato, por mais “casamentístico” que seja.

“Sexualmente ativo”, por sua vez, vem, entre outras coisas, como substituto ao obsoleto conceito de “virgindade”.

Há quem veja a virgindade como sinal de pureza. Um pedaço de pele que traz consigo a existência de moralidade. Os progressistas dizem tratar-se um aspecto psicológico, isto é, que a questão não é um pedaço de pele e sim um estado psíquico.

Como saber, afinal, de qual “virgindade” estamos falando? Para alguém que carrega consigo o primeiro conceito, uma moça virgem é aquela que mantém seu hímen. Por inocência ou ingenuidade, não lhe ocorre que ela já pode ter usado sua criatividade na cama (e outros lugares, por que não?) para eliminar a “virgindade” de outros orifícios menos protegidos.

Para os defensores do conceito de virgindade-como-estado-psíquico, o problema principal é discutir sobre o tema na presença de defensores de outros pontos de vista e convencê-los de que virgindade não é apenas um pedaço de pele.

Eis, então, os sexualmente ativos. Mesmo virgens, sexualmente ativos não deixam de ser sexualmente ativos. Livramo-nos assim de um conceito obsoleto e inútil, substituindo-o por algo mais intuitivo. Deixamos que a religião se acerte a respeito do que é virgindade nos tempos contemporâneos. A ciência e a educação sexual não podem esperar.

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Uma nota: não estou aqui fazendo nenhum tipo de discurso alarmista a respeito do comportamento sexual contemporâneo. Nem tenho interesse de entrar neste debate (pelo menos por hora). O objetivo aqui é somente mostrar os tipos de atividade a que se submetem pessoas detentores de uma visão medieval de certos comportamentos quando tentam conciliar esta medievalidade com a vida pós-moderna, dando origem a aparentes paradoxos e antíteses, como “virgens sexualmente ativos”.

Ao mesmo tempo, chamo a atenção para esta idiossincrasia, creio ocidental, que torna o intolerável tolerável a partir de simples jogos de palavra. Não diferentemente, estas ações que conciliam conceitos velhos e convenções sociais novas são também eufemismos, embora não lingüísticos, na esperança de tornar o comportamento contemporâneo mais aceitável aos tradicionalistas (com certo sucesso, aliás).

Orkut e networking

Networking é, bem provavelmente, um termo mais apropriado para descrever estas novas relações internéticas que tem aparecido do que a maioria imagina. Isto pode ser dito devido à semelhança destas relações com uma rede (network) de comunicação qualquer. Cito dois aspectos básicos:

  1. Qualquer ponta da rede (host, ou, no caso, uma pessoa) pode ser desconectado a qualquer momento sem grandes perdas para o resto da rede (redundância)
  2. O valor da rede aumenta quanto mais terminais (pessoas) nela existirem (lei de Metcalfe)

O ponto 1 não poderia ser mais verdadeiro. Acabar com uma relação qualquer na Internet é tão fácil quanto clicar em um botão ou configurar filtros no cliente de e-mail. Nada de polêmico aí, embora as conseqüências éticas e morais sejam mais complicadas. Mas isto vai além do assunto deste post.

Já o ponto 2 pode ser facilmente observado: existe, por parte de muitos usuários, uma compulsão pela adição de centenas de amigos e comunidades no perfil, mesmo que, quando questionados, estes cidadãos jamais consigam citar pela memória todas as comunidades/amigos que adicionaram. O valor não está em conhecer todas as pontas rede (amigos/comunidades), mas em saber que elas estão lá. Não é diferente da Internet, onde, por exemplo, não conhecemos todos os sites, mas sabemos que estão lá caso precisarmos deles um dia.

É claro que o networking não se limita às redes sociais online. Faz-se networking em eventos/encontros também. E por que não? São pessoas que dificilmente se verão no dia-a-dia — é possível algo além do “networking” com elas? E nada custa pedir uma recomendação no LinkedIn ou comentar sobre projetos ou ofertas de emprego que ambas possam conhecer.

Não sendo eu um especialista no networking, obviamente, devo falhar ao tentar captar tudo que ele possibilita.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman faz outras comparações semelhantes no livro Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos. Ao contrário do que se pode pensar sobre o título, no entanto, a fragilidade não é inerente, mas desejada. O modelo de networking — onde pode-se desconectar ou ser desconectado sem conseqüências maiores — é o carro Flex dos relacionamentos humanos. Felicidade descompromissada é o lema dos tempos atuais.

Mais de dois e meio porcento dos usuários do Orkut já dizem estar em algum tipo de relacionamento aberto. Creio que este número só tende a aumentar.

Eu? Orkut para mim é para conhecer pessoas. Meu MSN está estampado no perfil. Quer conversar, estou aqui. A Internet não precisa distanciar as pessoas e pode, sem problema algum, fazer o oposto. Mas se você quer fazer de mim apenas mais um número na sua rede, sem de fato interessar-se no Altieres-como-pessoa, mas sim no Altieres-como-ponta-na-minha-rede, não conte comigo.