O bairrismo gaúcho

É vergonhoso o que aconteceu com o repórter do CQC Felipe Andreoli. A saber: um bando de torcedores do Internacional desceu a porrada nele, no cinegrafista e no produtor enquanto eles faziam uma reportagem no Beira-Rio sobre a partida Corinthians x Inter.

Se ainda fosse apenas um caso isolado de ódio, realizado por alguns bêbados, quase que se poderia aceitar. Mas não. Nos comentários do blog dele e em outros lugares vê-se gaúchos sóbrios apoiando a atitude imbecil desses colorados. Se Andreoli estava ou não fazendo piada, isso não importa. É o trabalho dele.

Que fique claro que nada tenho contra os colorados. Não me envolvo com futebol, logo nem sou gremista; não faço parte dessa polarização que praticamente divide o estado. E há gremistas imbecis também. São fanáticos que levam um jogo a sério demais — uma tentativa constante de provar que são, de alguma forma, melhores do que os outros.

Tenho sim desprezo pelo bairrismo. O daqui é especialmente triste: uma hipervalorização do local, uma ideia de que somos melhores do que o resto do país. O engraçado é como isso pode ser usado para controlar as pessoas. É, pois, uma vulnerabilidade no intelecto de boa parte dos gaúchos, que aceitam falácias fundamentadas (sic) no que não tem fundamento: a localização. Esse comercial da Polar é um exemplo evidente do uso do bairrismo na mídia para a publicidade. E deu certo.

Aliás, um mínimo de dignidade foi mantido durante a campanha de 2006, que elegeu a (paulista) Yeda Crusius para o governo do Estado. Não vi, nas propagandas, o argumento de que ela não era gaúcha. Mas creio que isso se deve mais às certas repercussões legais de fazê-lo do que à ética dos políticos. No entanto, foi um argumento que circulou sim pelas ruas, e ainda circula agora que o governo não está satisfazendo a maior parte da população.

Sou um tanto globalista. Não aceito nem aquele argumento de que “somos todos brasileiros”. Um bairrismo brasileiro ainda é bairrista — apenas aumentou-se o tamanho do local que estamos superestimando. É preciso respeitar todas as culturas do mundo, inclusive todas que existem no Brasil, sem limitar-se a qualquer fronteira, seja ela política, geográfica ou cultural. Não se deve substituir um orgulho por outro. Idealmente, o bairrismo deve servir apenas como incentivo para se esforçar mais, para melhorar, e jamais para menosprezar a conquista alheia.