O conforto da indefinição da culpa

Existe um texto chamado A forma da notícia em que Muniz Sodré afirma que incertezas são desconsertantes. Ele diz que o jornalismo evita notícias “negativas”. Mas o exemplo dado não é o que se espera: Sodré diz que é preferível dizer que o cigarro faz mal à saúde do que afirmar que não sabe se quais são seus efeitos. Logo, a negatividade está na incerteza, no desconhecido, na indefinição.

Porém existem casos em que a indefinição serve como atenuador ou analgésico: os que envolvem a distribuição da culpa. Quando se procuram suspeitos ou responsáveis por qualquer coisa, nada parece mais razoável, correto e diplomático do que dizer: “todos tiveram sua parcela de culpa, não vamos apontar o dedo para ninguém em específico”.

A atual crise financeira exemplifica isso muito bem, especialmente o joguinho de “não fui eu, foi você” que rolou nos EUA. Enquanto os conservadores culpavam os progressistas, estes apontavam o dedo na direção oposta. Não demorou até que os especialistas, razoáveis e diplomáticos, dissessem que tanto Democratas quanto Republicanos eram culpados pela situação, provocada por erros de várias administrações.

E isso agradou a todos.

Se alguém teve coragem de dizer quem foi o mais culpado entre os culpados, eu não vi. Qualquer um que tentasse isso acabaria na mesma situação dos extremistas que procuravam um único culpado. Voltaria à mesa o debate passional e, quem sabe, acusações de que “tudo é relativo” e que não dá para determinar quem foi mais ou menos culpado. Apelos à burrice, se qualquer coisa.

Quando o acusador deixa aberto o tamanho da culpa, ele deixa todos felizes porque cada um pode interpretar os fatos à sua maneira. O Republicano vai jurar que os Republicanos tiveram uma parcela de culpa menor do que os Democratas. E vice-versa. Todos lêem um texto diferente, indefinido, vago. E assim ninguém tem objeções.

No Brasil, fato semelhante ocorreu com o caos aéreo. Houve quem culpou o governo. Houve quem culpou as companhias aéreas. Entre uma coisa e outra, a culpa foi distribuída e, no fim das contas, ninguém pagou a dívida. Pessoas ainda não foram indenizadas, o assunto saiu dos meios de comunicação e não tardará a sair da memória da maioria da população, se não voltar a ocorrer. Muito provavelmente alguns dos incompetentes executivos e políticos responsável pelo caos continuam com seus cargos bem-pagos.

Essa posição indefinida e ambígua é tão diplomática e popular que Obama e McCain — mas principalmente este último — tentaram distanciar-se dos partidos e “trabalhar junto” para achar as soluções. Aparentemente os dois esqueceram que a divisão entre os partidos existe justamente porque discordam a respeito de como as soluções devem tomar forma.

Aos defensores do relativismo, só digo que, se tudo é relativo, o próprio relativo é absoluto. Logo, ainda estamos trabalhando com absolutos: o próprio relativo, cujo oposto é a verdade. Isso pode até ser diplomático, mas facilmente esconde as causas do problema e, muito provavelmente, o caminho para a solução.

Não existe educação apolítica

Olavo de Carvalho adora dizer que a educação brasileira é controlada pelos “vermelhos” e que os livros didáticos estão esquerdizando os alunos. Ele tem várias outras pérolas originais, como por exemplo a idéia de que as eleições na ditadura eram democráticas e que a educação pública tem se tornado cada vez mais “pusilânima”, o que força os cristãos a educarem os filhos em casa.

Se considerarmos o ponto de vista de pessoas assim — e muito cuidado ao ler os textos dele, pois são recheados com meias-verdades e falácias –, jamais conseguiremos ter uma educação apolítica. Por quê? Porque os fatos afetam visões políticas. Como já discuti em “A imparcialidade e a verdade”, o que fazer se a realidade mostra que sua posição política favorita falhou miseravelmente?

Entra aí a distorção dos fatos e a idéia da parcialidade. O problema não é minha visão política, é o livro didático que mente. Obviamente, isto é tão errado quanto eu dizer que não houve ditadura na União Soviética. Mas nenhum livro didático que eu tive fez tal afirmação.

As pessoas tendem a acreditar ou explicar os fatos baseando-se naquilo em que crêem. É por isso que, o que para cristãos é intervenção divina, para os ateus é um fenômeno físico ou social que pode ou poderá ser explicado de forma racional1. Assim, o “democrático” dos neoliberais é a “ditadura” para os historiadores.

É impossível ter uma educação factual e ao mesmo tempo apolítica na visão destes que insistem em criar suas próprias versões dos fatos.

É possível, no entanto, ter uma educação política. E que fique registrado meus parabéns ao PMDB pelo programa de EaD que está educando mais de 32 000 candidatos a cargos políticos municipais em todo país.

  1. Chuva, doenças e política/governo são alguns fenômenos atribuídos à intervenção divina e que hoje são explicados racionalmente.

Quando a mesa de debate não é redonda

A imprensa é o meio pelo qual, teoricamente, as discussões políticas devem ocorrer em um país democrático. Na experiência que tenho, dos jornais da região onde moro, a seção de política está sempre em uma das primeiras páginas, o que denota um certo descaso, visto que muitas pessoas começam a ler o jornal de trás para frente (e, sem surpresas, a seção de esportes fica no “fim” do jornal).

Mas desconsiderando o já existente descaso pela política, que muito provavelmente não é culpa só do jornal e sim dos leitores, o que acontece quando a mesa de debate — a imprensa — não tem motivo algum para dar o outro lado da história? Continuar lendo