Muito a dizer, pouco para falar

Considerando a data do post anterior, posso começar este aqui com aquela velha história sobre estar muito ocupado, mas é uma meia-verdade. No fim das contas, todo mundo arranja um tempinho para aquilo que quer fazer. E se eu quisesse de verdade escrever nesse blog, provavelmente teria arranjado tempo. Tanto que, exatamente agora, em semana de provas e trabalhos, cá estou a digitar*.

Se eu precisasse só de tempo.

Além de tempo, é preciso de um assunto e saber como abordá-lo. Verdade seja dita, tenho muitos assuntos, mas poucos que podem ser colocados em um espaço público como este.

Meu post anterior foi breve, mas, para elucidá-lo, digo que passei por uma grande mudança na minha vida. Saí da cidade onde cresci — e na qual só não nasci porque ela ainda não existia na ocasião — e fui (vim?) para uma cidade cem vezes maior. É um passo grande para uma pessoa como eu. Ou, melhor dizendo, foi um grande passo para mim.

Não fossem as pessoas tão diferentes, eu adoraria, nesse momento, compartilhar o tanto de coisas que aprendi. Mas sinto que seriam mesquinhas aos olhares de uns e desnecessárias diante de outros; isto aquelas que eu poderia codificar em palavras, que são minoria. Por outro lado, creio que reside em cada um de nós o desejo de descobrir um pouco mais sobre nós mesmos todos os dias, não só porque isso é legal por si só, mas porque, quando a gente entende o que nos faz funcionar, nos tornamos capazes de lidar melhor com aquilo que nos aflige.

Sendo assim, já senti em muitos dias que fazer o que eu fiz era exatamente o que eu precisava para aprender muitas coisas sobre mim mesmo. E para alguém que pensa e repensa as coisas, e até a vida em geral, e com detalhes, como é meu caso, informação desse tipo ajuda e muito na hora de desatar uns nós e demolir alguns labirintos.

Paguei um preço alto por isso (literalmente, inclusive). Deixei uma vida muito simples e tranquila para trás. Mas era uma vida inerte que, deixada como estava, iria prolongar um estado de espírito que na verdade era incapaz de se sustentar. É por isso que posso dizer que fiz a coisa certa; no fim, minha incapacidade de me resolver onde eu estava me expulsou de lá, por mais que, talvez, lá fosse um lugar melhor.

O fato é que cresci como ser humano, e um ser melhor vive melhor mesmo em condições inferiores.

* Permiti a mim mesmo essa regalia porque tive dois dias muito produtivos. Sem remorso.

Versos: O Homem

I

Os campos parecem até coloridos
Mas na verdade enganam quem os vê
O verde e o amarelo desapareceram
Em meio ao cinza de céus tardios

O homem caminha pelo campo
Cego, não viu verde ou amarelo
E não sente falta deles agora
Nem pensa que algo foi mais belo

II

O tempo anda rápido
Não obedece os relógios
Não quer ser parado
Como aventureiro ávido

O homem quer voltar no tempo
Corrigir erros que diz não cometer
Vive o presente pensando no passado
Com medo de que o futuro pode não acontecer

III

Palavras enchem páginas de valor
Antes brancas, só podem se orgulhar
Do momento em que recebem o presente
Que irão apenas repassar

O homem quer escrever
Tem uma idéia do que quer falar
Mas não do seu significado
Que acaba por não se perpetuar

IV

Chove em uma montanha sublime
Que tentou elevar sonhos e promessas
Mas os fez congelar sem hesitar
Quando viu que estavam altos demais

O homem sobe a montanha
A ausência de sonhos não o estranha
E uma vida que crê na própria sorte
Não sente o frio da própria morte

Orkut e networking

Networking é, bem provavelmente, um termo mais apropriado para descrever estas novas relações internéticas que tem aparecido do que a maioria imagina. Isto pode ser dito devido à semelhança destas relações com uma rede (network) de comunicação qualquer. Cito dois aspectos básicos:

  1. Qualquer ponta da rede (host, ou, no caso, uma pessoa) pode ser desconectado a qualquer momento sem grandes perdas para o resto da rede (redundância)
  2. O valor da rede aumenta quanto mais terminais (pessoas) nela existirem (lei de Metcalfe)

O ponto 1 não poderia ser mais verdadeiro. Acabar com uma relação qualquer na Internet é tão fácil quanto clicar em um botão ou configurar filtros no cliente de e-mail. Nada de polêmico aí, embora as conseqüências éticas e morais sejam mais complicadas. Mas isto vai além do assunto deste post.

Já o ponto 2 pode ser facilmente observado: existe, por parte de muitos usuários, uma compulsão pela adição de centenas de amigos e comunidades no perfil, mesmo que, quando questionados, estes cidadãos jamais consigam citar pela memória todas as comunidades/amigos que adicionaram. O valor não está em conhecer todas as pontas rede (amigos/comunidades), mas em saber que elas estão lá. Não é diferente da Internet, onde, por exemplo, não conhecemos todos os sites, mas sabemos que estão lá caso precisarmos deles um dia.

É claro que o networking não se limita às redes sociais online. Faz-se networking em eventos/encontros também. E por que não? São pessoas que dificilmente se verão no dia-a-dia — é possível algo além do “networking” com elas? E nada custa pedir uma recomendação no LinkedIn ou comentar sobre projetos ou ofertas de emprego que ambas possam conhecer.

Não sendo eu um especialista no networking, obviamente, devo falhar ao tentar captar tudo que ele possibilita.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman faz outras comparações semelhantes no livro Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos. Ao contrário do que se pode pensar sobre o título, no entanto, a fragilidade não é inerente, mas desejada. O modelo de networking — onde pode-se desconectar ou ser desconectado sem conseqüências maiores — é o carro Flex dos relacionamentos humanos. Felicidade descompromissada é o lema dos tempos atuais.

Mais de dois e meio porcento dos usuários do Orkut já dizem estar em algum tipo de relacionamento aberto. Creio que este número só tende a aumentar.

Eu? Orkut para mim é para conhecer pessoas. Meu MSN está estampado no perfil. Quer conversar, estou aqui. A Internet não precisa distanciar as pessoas e pode, sem problema algum, fazer o oposto. Mas se você quer fazer de mim apenas mais um número na sua rede, sem de fato interessar-se no Altieres-como-pessoa, mas sim no Altieres-como-ponta-na-minha-rede, não conte comigo.