Darci Pedro Selbach, 1929-2011

Meu avô (meu único, de fato, já que o outro faleceu antes de eu nascer) morreu na manhã deste sábado. Ele sofria de câncer de pele, Alzheimer e problemas cardíacos. Com o sistema imunológico fraco, teve uma grave infecção generalizada e não resistiu, falecendo no hospital da Unimed em Montenegro/RS.

Fica aqui algo em memória dele, que tanto contribuiu comigo com sua incansável boa vontade e histórias dos tempos em que ainda se usavam barcos e barcas no Rio Grande do Sul.

13/12/1929 – 12/03/2011 | Darci Pedro Selbach

O menino do interior para o interior maior

Cem vezes maior. É a diferença entre um e cem. Entre 0,2 e 20. Entre São Paulo e a China inteira. E também a diferença entre Pareci Novo, a cidade onde eu morava, e Maringá.

É a diferença entre não ter ônibus urbano e ter aeroporto.

É a diferença entre não ter lanchonete (lancheria, como dizemos no Rio Grande do Sul) e ter um McDonald’s.

Entre não ter pizzaria e ter um delivery da Pizza Hut. Entre uma única locadora de vídeo quase escondida e várias salas de cinema. Entre morar na frente de uma igreja e morar na frente de uma faculdade. Entre não ter prédios com mais de três andares e morar no quinto andar.

É também a diferença de conhecer todas essas coisas e não conhecê-las, como quem estivesse passando por uma revolução industrial/urbana tardia, ciente que nunca soube como é viver como a maioria das pessoas decentemente urbanizadas vive, e passar a ter ciência que é mais ou menos isso que a maioria do mundo não africano conhece como “a vida” e que aquilo que eu vivi durante 20 anos é reservado para uma minoria.

Maringá tem 350 mil habitantes. Pareci Novo tem 3.500 e só diminui, aparentemente. Muita gente indo embora em busca de coisas que não existem na cidadezinha, enquanto a população idosa, estável, falece.

Não costumo fazer discursos pós-modernistas. Maringá não é uma aventura; é mais uma etapa, uma tentativa de me desprender um pouco de todas as coisas que tornam a vida cômoda. Mas a mudança também é conveniente, a seu próprio modo. Não posso deixar de mencionar que poder chamar um táxi e pedir um pizza pela primeira vez, ciente de que isso antes não existia no “meu mundo”, são sim experiências realizadoras.

O fato é que sinto sim necessidade de estabilidade, como as primeiras fases de um jogo de plataforma (costumava chamar de “primeiro mundo”) para o qual você retorna, lá do fim do jogo, para buscar vidas e outros power ups para que, só assim, você consiga vencer o chefão. Esse é o tipo de estabilidade necessária – a que fornece aquilo que precisamos para seguir em frente. Essas fases sempre trazem uma sensação de tranquilidade, como quem chega em casa depois de um dia difícil. Procuro isso.

São coisas que os videogames nos ensinam.

Por ora penso nisso tudo como uma etapa e tem sido uma experiência muito importante, em todos os sentidos.

Versos: A Espera

Estou aqui parado
Não sei bem o motivo
Só sinto que espero algo
Capaz de me dar alívio

As palavras escorrem;
Pensamentos que eram vivos
Aos poucos sempre morrem
Dando lugar a mais, e outro
Cada vez mais nocivos
E sem ouro

Ainda espero inutilmente
Porque eu sei que às vezes
Nem um período de mil meses
Será suficiente

Mas a espera me prende
Sufoca e me faz ausente
Na minha falta, falto eu
E ali no chão jaz perdido
Tudo o que ninguém perdeu:
Um tal dia mal vivido
Que pensei ser só meu

Morre agora outro minuto
Na espera que faço em luto
Pelo minuto anterior
Que morreu sem meu amor

Pela mais pura cortesia
A vida me dá outra hora
Sabendo que ela não alivia
Por ser apenas mais tempo
Lembrando que joguei fora
Todo o tempo que eu tento
Ter de volta agora

Ao olhar o que conquistei
Enxergo o que me falta
Sou ingrato, isso eu sei
Mas o futuro está em pauta

Espero por um momento
Que penso ser nobre
Mas que é tão pobre;
Não acredito no vento
E ainda assim finjo
Ser capaz de ver a brisa
Que chega com afinco
Sem ver onde pisa

“A coragem não está lá fora”
Tantos já tentaram me dizer
Penso que ela já foi embora
E sabe-se lá se vai me ver

Presenteei-me com o presente
Agora aguardo outro, diferente
Sem perceber ele vem do passado
E que o futuro fará ser passado
O que hoje é presente


Se o mundo pudesse apenas pintar de branco
Aquilo que é bom
Qual seria a cor do homem
Que o azul acinzenta e o verde destrói?

Muito a dizer, pouco para falar

Considerando a data do post anterior, posso começar este aqui com aquela velha história sobre estar muito ocupado, mas é uma meia-verdade. No fim das contas, todo mundo arranja um tempinho para aquilo que quer fazer. E se eu quisesse de verdade escrever nesse blog, provavelmente teria arranjado tempo. Tanto que, exatamente agora, em semana de provas e trabalhos, cá estou a digitar*.

Se eu precisasse só de tempo.

Além de tempo, é preciso de um assunto e saber como abordá-lo. Verdade seja dita, tenho muitos assuntos, mas poucos que podem ser colocados em um espaço público como este.

Meu post anterior foi breve, mas, para elucidá-lo, digo que passei por uma grande mudança na minha vida. Saí da cidade onde cresci — e na qual só não nasci porque ela ainda não existia na ocasião — e fui (vim?) para uma cidade cem vezes maior. É um passo grande para uma pessoa como eu. Ou, melhor dizendo, foi um grande passo para mim.

Não fossem as pessoas tão diferentes, eu adoraria, nesse momento, compartilhar o tanto de coisas que aprendi. Mas sinto que seriam mesquinhas aos olhares de uns e desnecessárias diante de outros; isto aquelas que eu poderia codificar em palavras, que são minoria. Por outro lado, creio que reside em cada um de nós o desejo de descobrir um pouco mais sobre nós mesmos todos os dias, não só porque isso é legal por si só, mas porque, quando a gente entende o que nos faz funcionar, nos tornamos capazes de lidar melhor com aquilo que nos aflige.

Sendo assim, já senti em muitos dias que fazer o que eu fiz era exatamente o que eu precisava para aprender muitas coisas sobre mim mesmo. E para alguém que pensa e repensa as coisas, e até a vida em geral, e com detalhes, como é meu caso, informação desse tipo ajuda e muito na hora de desatar uns nós e demolir alguns labirintos.

Paguei um preço alto por isso (literalmente, inclusive). Deixei uma vida muito simples e tranquila para trás. Mas era uma vida inerte que, deixada como estava, iria prolongar um estado de espírito que na verdade era incapaz de se sustentar. É por isso que posso dizer que fiz a coisa certa; no fim, minha incapacidade de me resolver onde eu estava me expulsou de lá, por mais que, talvez, lá fosse um lugar melhor.

O fato é que cresci como ser humano, e um ser melhor vive melhor mesmo em condições inferiores.

* Permiti a mim mesmo essa regalia porque tive dois dias muito produtivos. Sem remorso.

Na falta do que dizer, ressuscito e mato o no-break

Não, não morri. O problema é que a vida por aqui anda muito corrida, e na correria pensamos menos, infelizmente. Pensando menos, fazemos menos observações interessantes que valham a pena ser publicadas (não que as demais necessariamente valeram a pena, apenas tenta-se manter um padrão mínimo de qualidade).

Mentira. Isso é drama (em parte). Tive algumas ideias legais para post, mas nenhum tempo de executá-las. Esqueci de algumas, mas espero ainda escrever sobre as outras.

Conto algo sem relação. Aquele no-break desgraçado foi ressuscitado por força maior (digo, alguém levou-o para o conserto sem me avisar). Isso já faz um tempo. Mas ele quebrou de novo, é claro.

Finalmente comprei o tão desejado no-break APC. Uma maravilha até agora. E foram emocionantes as faíscas quando liguei a bateria. E por hora é isso.

A compreensão do que escrevo

Escrevendo o último texto aqui publicado, Palavras Escolhidas, reparei o quanto do que coloco nesses versos é para minha própria memória. Talvez nessas partes tudo pare de fazer sentido para outros leitores (se é que outros leitores).

Normalmente eu iria preocupar-me em escrever de outra forma, de maneira a permitir uma comunicação melhor. Mas, nesse caso, prefiro que continue assim. Gosto de ver, no próprio texto, o motivo que me fez escrevê-lo, embora de uma maneira bem indireta.

É verdade que isso entra como ruído na mensagem principal, mas creio ser uma boa troca. Dos 220 textos que escrevi até hoje, meros 32 foram publicados neste blog. Muitos desses outros teriam mais ruído do que mensagem para um leitor que não eu mesmo, acredito. Então o que está aqui já é o que considero melhor nesse sentido.

Idéias se perdem com o tempo

Antes de eu iniciar este blog, tinha em mente a escrita de vários posts. Muitos deles se materializaram, enquanto outros demoraram mais a sair. Para a composição destes, pensei muito, em dias infrequentes, e bastou sentar e teclar.

Um dos textos que queria publicar, porém, não saiu: uma resenha do anime Haibane Renmei. Hoje poderia escrevê-lo, mas tenho que lidar com o triste fato de que não lembro nada do que pensei em dizer. Preciso reconstruir minhas idéias e, quem sabe, anotá-las para não perdê-las.

Uma professora minha sugeriu que levássemos sempre um caderno de anotações e anotássemos quaisquer idéias que tivéssemos, a qualquer hora. Ela sabia do que falava.

Fico pensando a respeito do que imaginei para certos posts e que já não lembro mais; idéias adquiridas em momentos perdidos para sempre. Dramático? Pode parecer, mas, se qualquer coisa, a vida é um presente artesanal disfarçado de dramalhão mexicano.