Pedofilia não é abuso sexual infantil

Na TV, usar “pedofilia” no lugar de “Estupro de crianças” ou “Abuso sexual infantil” é normal1. Este é um erro da mídia que vai ter conseqüências muito maiores do que simplesmente a troca de “cracker” por “hacker”, pois confunde uma condição psicológica com um ato criminoso.

Pedofilia é uma parafilia caracterizada pela atração por crianças que ainda não atingiram a puberdade. Mais especificamente, o pedófilo é mais atraído por menores de idade do que por adultos ou adolescentes. Pedofilia é a atração, o desejo.

Abuso sexual infantil explica-se sozinho. É o ato em si.

Um pedófilo não precisa, necessariamente, abusar sexualmente de crianças, assim como um homem adulto normal não precisa, necessariamente, estuprar mulheres adultas. É claro que, considerando-se que um pedófilo dificilmente vai encontrar uma criança que realmente queira ter relações com ele, praticamente todo ato sexual de um pedófilo motivado pelo seu fetiche será um abuso.

Porém, nem todos os casos de abuso sexual de crianças é praticado por pedófilos. Na verdade, a maioria dos estupradores de crianças não é pedófilo. Existem diversos estudos que dizem isso — não estou inventando nada.

Da mesma forma, nada proíbe um pedófilo de conter seu desejo e ter apenas relações sexuais saudáveis. A pedofilia só se torna um problema de verdade quanto o ato do abuso é realizado.

Para tornar pedofilia ilegal é necessário policiar pensamentos.

Nada contra proibir o crime de estuprar uma criança. Jamais. No entanto, isto não é pedofilia. Isto é sexo com crianças. Pedofilia é uma parafilia, uma desordem mental e não o ato — assim como depressão não é suicídio. É bem provável que estupradores de crianças tenham problemas mentais diversos — especialmente por procurarem um “parceiro” que não pode se defender –, mas não necessariamente precisam ser pedófilos.

Pedofilia é um problema, mas o que leva alguém a violentar e ignorar a vontade de outras pessoas é ainda outro problema.

  1. É bem verdade que os jornalistas precisam de sinônimos para não repetir a mesma palavra infinitamente, mas existem restrições! Não se pode apropriar-se de palavras “próximas” sem avaliar as conseqüências.

Versos: Necrofilia

Comecei a escrever “poesia” (uso o termo de forma bem descuidada aqui, por isso as aspas) entre os intervalos nas aulas do ensino médio. Na verdade, houveram alguns rascunhos antes, mas foram poucos e destas anciãs tentativas nada resta de lembrança.

Acho que só dois textos, dentre os quase 150, já foram parar na web até hoje — e não por minha mão. Porém, resolvi eu mesmo começar a publicar alguns. Por sugestão do Diogo, vou começar com o Necrofilia, que segue.

Antes que perguntem: eu não sou necrófilo nem apóio a prática.

Necrofilia

Te querer não me convém
Mas o que é que você tem
Que, se eu for sincero,
Admitirei que te quero?

Seria talvez o teu sorriso
Feito de dentes cor de granizo?
Ou os teus cabelos, tão pretos
E teus lábios, imóveis e perfeitos?

Não é possível que digas que não
E nem me assusta se não bate
O teu coração

Tão esmagadora é minha solidão
Que ficarei contente com o frio
Mesmo no verão