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	<title>Ira Racional &#187; moral</title>
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	<description>Emoção carregada de razão - por Altieres Rohr</description>
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		<title>A falácia do argumento pela lei</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Jul 2008 00:48:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Altieres Rohr</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia Vã]]></category>
		<category><![CDATA[falácias]]></category>
		<category><![CDATA[legislação]]></category>
		<category><![CDATA[moral]]></category>

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		<description><![CDATA[Já que fiz dois posts a respeito de um projeto de lei, gostaria de comentar a respeito do argumento pela lei, isto é, o dizer &#8220;porque é ilegal!&#8221; quando se pergunta &#8220;por que não posso fazer X?&#8221;
Não é preciso dizer, por ser evidente por si, que uma ação não é mais ou menos justa após [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já que fiz dois posts a respeito de um projeto de lei, gostaria de comentar a respeito do <i>argumento pela lei</i>, isto é, o dizer &#8220;porque é ilegal!&#8221; quando se pergunta &#8220;por que não posso fazer X?&#8221;</p>
<p>Não é preciso dizer, por ser evidente por si, que uma ação não é mais ou menos justa após uma lei que a ilegaliza. Justificar uma ação dizendo &#8220;mas não é ilegal!&#8221; é inaceitável (é só pensar na escravidão) e igualmente inaceitável deve ser o seu argumento oposto, qual seja, &#8220;porque é ilegal!&#8221;. Este disparate é, talvez, proveniente da impossibilidade em reconhecer o que é <em>justo</em>; reconhece-se somente o que é <em>injusto</em> e a justiça é apenas uma maneira de corrigir estas injustiças<sup class='footnote'><a href='#fn-22-1' id='fnref-22-1'>1</a></sup>.</p>
<p>Como a lei nunca é aplicada retroativamente, toda lei que será aplicada em qualquer circunstância já deve ter existido no instante em que o ato ilegal foi realizado, ou seja, a lei sempre precisa ser mais antiga do que o ato. Isto torna o argumento pela lei não muito diferente do <i>argumentum ad antiquitatem</i> ou <a href="http://www.pucrs.br/gpt/falacias.php">apelo à antigüidade</a>.</p>
<p>Esta falácia chega ao extremo quando vemos os norte-americanos defendendo sua Constituição, escrita originalmente 1787. Qualquer um deve entender que não é possível que um grupo de homens, por mais inteligente, consegue escrever um documento capaz de estabelecer normas para um governo democrático que serão justas e razoáveis 200 anos depois. Mas, misturando aí também o apelo à autoridade, os Estados Unidos se guiam pelo o que os <i>Pais Fundadores</i>, como são chamados os autores da Constituição, querem, e não o que o próprio povo de lá quer.<sup class='footnote'><a href='#fn-22-2' id='fnref-22-2'>2</a></sup></p>
<p>Defender qualquer idéia usando a Constituição é fácil, pois poupa o cidadão de descobrir por que aquele texto está lá. Em outras palavras, é mais fácil tomar a regra como absoluta do que entendê-la, desde que se concorde com ela, é claro. Não é difícil entender porque os Estados Unidos até hoje não possuem um sistema de saúde pública que cobre todos os cidadãos, já que a Constituição de lá foi escrita muito antes da Declaração dos Direitos Humanos e do keynesianismo, de modo que ela não trata destas questões.</p>
<p>Nenhum argumento pela lei, no entanto, é facilmente identificado como melhor do que outro. A idade da lei é certamente um agravante, porém quando falamos de coisas que sofreram mudanças enormes em pouco tempo, como é o caso do direito autoral, o problema é igualmente grave, apesar da existência de leis recentes para tratar do assunto. O pior é que, muitas vezes, a &#8220;adaptação&#8221; da lei antiga ocorre por meio da <em>perpetuação</em> do que já se tinha, em vez de serem reconsideradas as condições sociais e criada uma lei nova.</p>
<p>Considerando-se isto, o melhor é sempre colocar qualquer argumento pela lei no mesmo plano falacioso. </p>
<p>Lawrence Kohlberg, que definiu 6 estágios para o desenvolvimento do raciocínio moral, colocou o argumento pela lei no estágio número 4, que, junto do 3, é considerado &#8220;convencional&#8221;. Dependendo da maneira que o argumento pela lei é apresentado, no entanto, ele pode facilmente cair no estágio 1, visto que o desrespeito à lei muitas vezes infere uma punição. Os estágios definidos por Kohlberg são:<sup class='footnote'><a href='#fn-22-3' id='fnref-22-3'>3</a></sup></p>
<ul>
<li>Pré-convencionais
<ol>
<li>Obediência e punição &#8212; <i>Como posso me livrar da punição?</i></li>
<li>Interesse próprio &#8212; <i>O que tem pra mim?</i></li>
</ol>
</li>
<li>Convencionais
<ol start="3">
<li>Acordo interpessoal e conformidade &#8212; <i>A atitude do bom garoto</i></li>
<li>Manutenção da lei e da ordem social &#8212; <i>moralidade da lei e da ordem</i></li>
</ol>
</li>
<li>Pós-convencionais
<ol start="5">
<li>Contrato social</li>
<li>Princípios éticos universais &#8212; <i>Consciência de princípios</i></li>
</ol>
</li>
</ul>
<p>Pelos estágios de Kohlberg, fica claro que aquele que justifica suas ações pela lei ainda precisa desenvolver mais seu raciocínio moral.</p>
<p>De uma forma ou de outra, os estágios de desenvolvimento podem não influenciar o resultado ou a ação final, mas somente sua justificativa. Kohlberg apresenta o dilema de Heinz para exemplificar isso:<sup class='footnote'><a href='#fn-22-4' id='fnref-22-4'>4</a></sup></p>
<blockquote><p>Uma mulher estava a ponto de morrer de um tipo muito raro de câncer. Havia um remédio, feito à base de Rádio, que os médicos imaginavam que poderia salvá-la, e que um farmacêutico da mesma cidade havia descoberto recentemente. A produção do remédio era cara, mas o farmacêutico cobrava por ele dez vezes mais do que lhe custava produzi-lo: O farmacêutico pagou 400,00 pelo Rádio e cobrava 4000,00 por uma pequena dose do remédio. Heinz, o marido da enferma, procurou todos que conhecia para pedir-lhes dinheiro emprestado, e tentou todos os meios legais para conseguí-lo, mas só pôde obter uns 2000,00, que é justamente a metade do que custava o medicamento. Heinz disse ao farmacêutico que sua mulher estava morrendo e lhe pediu que vendesse o remédio mais barato, ou que o deixasse pagar depois pelo mesmo. Mas o farmacêutico respondeu: ‘Não, eu descobri o remédio e vou ganhar dinheiro com ele’. Assim, tentados todos os meios legais, Heinz se desespera e considera arrombar a farmácia para furtar o remédio para sua esposa”. </p>
<p>Deve Heinz roubar o remédio?</p></blockquote>
<p>Independentemente da resposta aqui, o importante será sua justificativa. Se não for preciso recorrer à leis, punições, ordem social e outras regras já codificadas para fundamentar o &#8220;Sim&#8221; ou o &#8220;Não&#8221;, melhor &#8212; um possível sinal de que a justificativa encontra-se no estágio pós-convencional.</p>
<p>Enfim, a teoria de Kohlberg também diz que o que o argumento pela lei é fraco, por encontrar-se no estágio convencional, sendo resultante de uma preguiça de pensar proveniente de um respeito cego à autoridades e tradições, sem que o sujeito as entenda em sua totalidade.</p>
<p>Por isso, em qualquer discussão a respeito da justiça presente em uma ação &#8212; salvo aquelas que acontecem no tribunal, onde nada mais é aceitável &#8211;, argumentar usando leis é sinal de uma possível falta de fundamentação do senso de justiça.
<div class='footnotes'>
<div class='footnotedivider'></div>
<ol>
<li id='fn-22-1'>Zygmunt Bauman, O Mal-estar da Pós-modernidade, p. 75 (Teoria de Barrington Moore Jr.) <span class='footnotereverse'><a href='#fnref-22-1'>&#8617;</a></span></li>
<li id='fn-22-2'>Não soa semelhante a outra história muito conhecida? <span class='footnotereverse'><a href='#fnref-22-2'>&#8617;</a></span></li>
<li id='fn-22-3'><a href="http://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Kohlberg%27s_stages_of_moral_development&#038;oldid=224084610">Wikipedia</a>, 7 de Julho de 2008 <span class='footnotereverse'><a href='#fnref-22-3'>&#8617;</a></span></li>
<li id='fn-22-4'>Tradução de acordo com texto <a href="http://www.ifcs.ufrj.br/~fsantoro/ousia/artigo_justica.htm"><em>A JUSTIÇA: algumas considerações aristotélicas sobre a aplicação da lei</em></a>, de Marcelo Campos Galuppo <span class='footnotereverse'><a href='#fnref-22-4'>&#8617;</a></span></li>
</ol>
</div>
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