Versos: O Homem

I

Os campos parecem até coloridos
Mas na verdade enganam quem os vê
O verde e o amarelo desapareceram
Em meio ao cinza de céus tardios

O homem caminha pelo campo
Cego, não viu verde ou amarelo
E não sente falta deles agora
Nem pensa que algo foi mais belo

II

O tempo anda rápido
Não obedece os relógios
Não quer ser parado
Como aventureiro ávido

O homem quer voltar no tempo
Corrigir erros que diz não cometer
Vive o presente pensando no passado
Com medo de que o futuro pode não acontecer

III

Palavras enchem páginas de valor
Antes brancas, só podem se orgulhar
Do momento em que recebem o presente
Que irão apenas repassar

O homem quer escrever
Tem uma idéia do que quer falar
Mas não do seu significado
Que acaba por não se perpetuar

IV

Chove em uma montanha sublime
Que tentou elevar sonhos e promessas
Mas os fez congelar sem hesitar
Quando viu que estavam altos demais

O homem sobe a montanha
A ausência de sonhos não o estranha
E uma vida que crê na própria sorte
Não sente o frio da própria morte

Versos: Sobre inspiração artística[+]

Pensei que só mais um segundo
Deste interminável sono
Poderia me levar ao trono
De algum outro mundo

Finjo que não tenho muito
Que sempre me falta algo
Reclamo sem ar, aflito!
Mas não sou melhor que um ator
Dançando sobre o palco
Que é esta mesa de plástico;
Meu personagem é de escritor
Desenho letras à pulso fraco
Que até parecem carícias
Sobre páginas submissas
Que jamais recusam
O que lhes é dado…

Que tolice!
Como se eu não visse
Todos os dias
O Sol brilhar;
Como se não houvessem
As músicas e melodias..
Como se não soubesse
Que é neste deserto feito quarto
Onde eu vou acordar
Por mais–
Que estas fantasias
Tentem me deslocar…

Ainda assim, escrevo à vontade
Na esperança de que o escrito
Faça-me lembrar de cada mito
Que um dia a imaginação
Fez parecer realidade

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ignorar a razão
     é como
dirigir na contramão

tudo fica bem
     se ninguém
vem da outra direção

Versos: O ônibus, o trem, o avião

Como algo pode ter rota configurada
E carregar tanta gente diferente
Que precisa percorrer a mesma estrada
Como se a liberdade fosse ausente?

O ônibus que trafega pelo asfalto
Desce ladeiras, sobe o morro alto
Embarcam pessoas hora aqui hora ali
De toda sorte, há quem chora, há quem ri

Todas serão levadas ao mesmo destino
Mesmo tão parecidas, não são nada iguais
É estranho como pode um cidadão, pobre ou fino,
Andar com tantos outros, sem pensar nada demais

E nada diferentes são os trilhos e seu trem
Menos escolhas há durante o caminho
Coisas e gente que, em cada parada, vão e vêm
Enquanto o ferro nem permite um carinho

Por fora diferente, mas tão igual, é o avião
Poucos entendem como pode ele voar
Mas, mesmo lá no alto, ninguém se desprende do chão
Pois o ímã da cidade não sabe soltar

Versos: O Calor de um Amor Divino

Que lindo o troféu!
Cheguei ao céu
Tão prometido
Dos anjos sem cupido

Mas e meus irmãos?
Meus amigos?
Quero tocar suas mãos
E curar corações feridos!

“Eles estão em outro lugar”
Como assim?
“Não terão chance de mudar,
A eternidade é o fim”

O que me diz
É que você me ama
Mas que se eu tivesse errado
Na tentative ser feliz
Sofreria nessa tal chama
De eternidade profana?

Não é justo
E me assusto
Por não ter percebido
Que este céu nada tinha a ver
Com o mito do cupido

Versos: Necrofilia

Comecei a escrever “poesia” (uso o termo de forma bem descuidada aqui, por isso as aspas) entre os intervalos nas aulas do ensino médio. Na verdade, houveram alguns rascunhos antes, mas foram poucos e destas anciãs tentativas nada resta de lembrança.

Acho que só dois textos, dentre os quase 150, já foram parar na web até hoje — e não por minha mão. Porém, resolvi eu mesmo começar a publicar alguns. Por sugestão do Diogo, vou começar com o Necrofilia, que segue.

Antes que perguntem: eu não sou necrófilo nem apóio a prática.

Necrofilia

Te querer não me convém
Mas o que é que você tem
Que, se eu for sincero,
Admitirei que te quero?

Seria talvez o teu sorriso
Feito de dentes cor de granizo?
Ou os teus cabelos, tão pretos
E teus lábios, imóveis e perfeitos?

Não é possível que digas que não
E nem me assusta se não bate
O teu coração

Tão esmagadora é minha solidão
Que ficarei contente com o frio
Mesmo no verão