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	<title>Ira Racional &#187; credibilidade</title>
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	<description>Emoção carregada de razão - por Altieres Rohr</description>
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		<title>O elitismo racional</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Aug 2008 08:26:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Altieres Rohr</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia Vã]]></category>
		<category><![CDATA[credibilidade]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu não poderia ter publicado o texto anterior &#8212; que estava editado e pronto faz tempo &#8212; sem também escrever um pouco sobre elitismo racional, que é a crença de que &#8220;todo mundo está errado e só eu estou certo&#8221;. Esta é um questão bem relevante atualmente, especialmente quando temos dois candidatos bem diferentes para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu não poderia ter publicado o <a href="/2008/08/autoridades-a-omissao-da-critica-e-uma-licao-escolar/">texto anterior</a> &#8212; que estava editado e pronto faz tempo &#8212; sem também escrever um pouco sobre elitismo racional, que é a crença de que &#8220;todo mundo está errado e só eu estou certo&#8221;. </p>
<p>Esta é um questão bem relevante atualmente, especialmente quando temos dois candidatos bem diferentes para as eleições dos Estados Unidos e um deles, o Democrata Barack Obama, é freqüentemente atacado pela crítica Republicana como &#8220;inexperiente&#8221;.</p>
<p>Ora, diz McCain e seus aliados, Obama é, como todo adulto mais jovem &#8212; incluindo o candidato Republicano em seus primeiros anos: uma pessoa que ainda não compreende muito bem o mundo. E por isso pensa ter uma solução simples e elegante para tudo, ou &#8220;a mudança em que podemos acreditar&#8221; <sup class='footnote'><a href='#fn-138-1' id='fnref-138-1' onclick='return fdfootnote_show(138)'>1</a></sup>.</p>
<p>Há um pouco disto no atual título deste blog, mas a ira é o que tira a credibilidade deste racional. A inevitável emoção que acompanha todo o desejo (veja bem, desejo) de buscar respostas racionais. No fim, um cientista fica <i>feliz</i> por suas descobertas, e é o <em>prazer</em> que ele retira delas que o faz seguir adiante. Não existe estudo sem paixão. Não existe razão sem emoção.</p>
<p>Portanto, estou sujeito ao erro. E exponho minhas opiniões não porque penso ter a solução. Não porque quero me impor. Pelo contrário. Jamais poderei iniciar uma discussão sem antes dizer o que penso. E jamais poderei participar de uma discussão já existente sem fazer o mesmo. Freqüentemente, participo de discussões não para expor meu ponto de vista, mas pra me fazer de advogado do diabo simplesmente para extrair mais argumentos que defendam um ou outro ponto de vista. Não poupo nem meus aliados.</p>
<p>Independentemente de quanto eu me esforce, <i>sempre haverá alguém mais bem informado do que eu</i>. Alguém que leu mais estudos e textos sobre o assuntos. Ou então textos mais recentes. Ou, ainda, textos simplesmente <i>diferentes</i>. A informação que temos é tanta que é impossível acompanhar tudo. E mesmo que nossa educação fosse perfeita, tudo que ensinamos cada vez vale menos. Não se pode construir base sólidas para &#8220;opinião&#8221; alguma, porque uma nova prova ou fato irá tornar tais bases obsoletas na semana seguinte.</p>
<p>Nada mais é constante, senão a própria mudança.</p>
<p>Eu preferiria, sinceramente, o cartesianismo e o mecanicismo. Descobrir O Método e A Verdade. Mas infelizmente não é assim. Temos que nos contentar com o que podemos fazer, que é buscar as melhores verdades todos os dias. E, obviamente, não as encontraremos. Mas é melhor encontrar alguma coisa &#8212; tal como aquilo que escrevo neste blog &#8212; do que nada.</p>
<p>Toda informação pode despertar uma emoção que cria uma vontade inexplicável de se saber mais. Se isso acontecer, ótimo. Se não acontecer, tudo bem &#8212; quem sabe na próxima?</p>
<p>Esta é a realidade com a qual os críticos viventes do &#8220;pós-modernismo&#8221; precisam conviver: apesar da discordância e do erro, ainda há um valor. Mas o que é e como pode ser medido este valor, para diferenciar a crítica boa da crítica ruim? Cada leitor irá julgá-la com base em suas experiências de vida &#8212; completamente subjetivas &#8211;, mas será este o único valor, o crivo das massa &#8212; a mesma massa que assiste a novela das 8, Big Brother<sup class='footnote'><a href='#fn-138-2' id='fnref-138-2' onclick='return fdfootnote_show(138)'>2</a></sup> e não sabe quem foi Descartes?</p>
<p>São perguntas abrangentes e nem me interessa a resposta, porque todos que se propuserem a responder, apesar de apresentarem respostas diferentes, estarão certos, pelo menos para si próprios. E quando todos estão certos, ninguém discute para aprender, mas apenas para lecionar. </p>
<p>Mas se as coisas são assim, como pode a escola estar ensinando algo a respeito das autoridades do saber? Se fosse assim, as pessoas não acreditariam em tudo?</p>
<p>Pelo contrário. O que temos aqui é a idéia de que &#8220;todas as opiniões são criadas iguais&#8221;. Pois o professor nunca teve, ou, pelo menos, <i>parece que nunca teve</i>, de justificar o que disse. Daí, uma aula de Física tem a mesma autoridade de uma aula de Religião. E uma opinião sem fundamento tem o mesmo valor de uma opinião bem-fundamentada.</p>
<p>Acredita-se, então, no que é conveniente.</p>
<p>É verdade que nossas bases não são sólidas, podendo desaparecer com a publicação de um novo estudo ou algum acontecimento inesperado. Mas a evolução incessante não deve ser justificativa para desistir de buscar fundamentos; pelo contrário, deve nos fazer entender que as coisas mudam e que precisamos acompanhá-las, e que estar errado por possuir informação de credibilidade desatualizada é mais nobre do que errar por não ter informação de credibilidade alguma.</p>
<p>Ou, pelo menos, é o que aquilo que sei até hoje <a href="/2008/08/na-esquina-ruas-desertas-sussurram-pt-ii/">me faz pensar</a>.</p>
<blockquote><p>&#8220;Some people see things that are and ask, Why? Some people dream of things that never were and ask, Why not? Some people have to go to work and don&#8217;t have time for all that&#8221;</p></blockquote>
<div style="text-align: right">&#8211;George Carlin</div>
<div class='footnotes' id='footnotes-138'>
<div class='footnotedivider'></div>
<ol>
<li id='fn-138-1'>O lema da campanha de Obama: &#8220;Change we can believe in&#8221;. <span class='footnotereverse'><a href='#fnref-138-1'>&#8617;</a></span></li>
<li id='fn-138-2'>O Danilo Gentili tem um post melhor sobre isso no antigo blog dele. Vale lembrar, programas são feitos para a massa por um motivo. Não digo nada aqui para denegrir a imagem da massa, mas sim para questionar se, realmente, todos estamos aptos a julgar tudo. <span class='footnotereverse'><a href='#fnref-138-2'>&#8617;</a></span></li>
</ol>
</div>
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		<title>Autoridades, a omissão da crítica e uma lição escolar</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Aug 2008 07:42:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Altieres Rohr</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia Vã]]></category>
		<category><![CDATA[credibilidade]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>

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		<description><![CDATA[Existe algo facilmente encontrado na sala de aula que dificilmente encontraremos no mundo exterior: uma autoridade do saber. O professor é visto como alguém que, se não sabe tudo, sabe muito, e é impensável questionar o conteúdo que está sendo passado. Especialmente nos primeiros anos, quando pouquíssimas crianças têm qualquer conhecimento além daquele que a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Existe algo facilmente encontrado na sala de aula que dificilmente encontraremos no mundo exterior: uma autoridade do saber.</p>
<p>O professor é visto como alguém que, se não sabe tudo, sabe muito, e é impensável questionar o conteúdo que está sendo passado. Especialmente nos primeiros anos, quando pouquíssimas crianças têm qualquer conhecimento além daquele que a própria escola está transmitindo, é complicado demais que o alvo do ensino consiga analisar o que está aprendendo.</p>
<p>Do meu lado, posso dizer que perguntei muito. Não tinha capacidade para duvidar de um professor, porém perguntava o suficiente para deixar muitas pessoas em algumas situações ruins (pessoas me descreviam constantemente como &#8220;curioso&#8221;, embora na verdade quisessem dizer &#8220;chato&#8221;; amigas da minha mãe pediam explicitamente que eu não fosse junto dela, por perguntar demais<sup class='footnote'><a href='#fn-58-1' id='fnref-58-1' onclick='return fdfootnote_show(58)'>1</a></sup>). Mesmo assim, não creio que haja muito mérito no que disse minha professora na quarta-série: &#8220;Altieres, continue sempre com essa visão crítica.&#8221; Na verdade, eu não tinha tal visão, mas sim uma mente inquisitiva.</p>
<p>O crítico, no entanto, raramente se dissocia do inquisitivo, pois o crítico também precisa de algo que o inquiete, em qualquer nível e de qualquer jeito, para fazer sua crítica.</p>
<p>Porém nunca esqueci do que minha professora disse; se tivesse, não estaria escrevendo isso agora. Nos anos seguintes continuei tentando descobrir o que era, exatamente, ser <em>crítico</em>. Embora, de acordo com ela, eu já fosse um, queria saber exatamente o que era, de modo que eu nunca deixasse de ser. Se ela havia me dito para continuar sendo assim, certamente boa coisa devia ser (em nenhum momento questionei isso&#8230;).</p>
<p>Não sei se virei um crítico; continuo fascinado a respeito de como as coisas funcionam, portanto ainda sou curioso e inquisitivo. Hoje penso que o principal dote de um crítico, junto da sua capacidade de observar e se inquietar com as coisas mais banais, está em sua ousadia de <strong>pensar</strong>.</p>
<p>Pensar é um ato de ousadia, especialmente se o conhecimento possuído na área sobre a qual se vai pensar é limitado. Daí é preciso estudos. E estudos podem induzir a pensamentos já pensados (dizia Schopenhauer que ler é pensar com a cabeça dos outros). Mas o crítico não pode simplesmente pensar o já pensado, pois daí ele não será um crítico e sim um repetidor de idéias com as quais ele concorda, o que não o tornaria diferente de nenhum outro ser humano. </p>
<p>É nesse problema que entra o olhar crítico e a ousadia. Em vez de ler e ver tudo como regra, vê-se como uma possibilidade entre outras tantas. Depois, é preciso pensar e arcar com a possibilidade de possivelmente estar errado: bons argumentos racionais precisam ter meios de serem provados falsos, então pensar racionalmente abre brechas em suas idéias. É mais difícil do que a moda contemporânea de largar opiniões generalizadas e, por isso, evidentemente falsas, mas que mesmo assim caíram no senso comum (&#8220;todo político é corrupto&#8221;, &#8220;o mundo está perdido&#8221;) ou se tornaram (falsos) axiomas (&#8220;mulher no volante, perigo constante&#8221;, &#8220;urubu não anda com pomba&#8221;, etc).</p>
<p>A complicação disso tudo é a seguinte: fora da sala de aula não existe uma autoridade de saber. Para piorar, muitas coisas são passíveis de discordância. Não se pode admitir a existência de pontos de vista imutáveis e não-negociáveis. Não é preciso muito treino para conseguir isso: basta perguntar &#8220;por quê?&#8221;. </p>
<p>Um experimento: quando te disserem algo, mesmo que seja algo que já tenha caído no senso comum, pergunte por quê. Sendo a resposta obviamente superficial, pergunte por quê outra vez. E de novo. Logo você será o chato, simplesmente por ter exposto o fato de que o sujeito proferiu sua máxima infalível sem ter refletido em qualquer nível a respeito dela&#8230;<sup class='footnote'><a href='#fn-58-2' id='fnref-58-2' onclick='return fdfootnote_show(58)'>2</a></sup> </p>
<p>Afinal, por que não refletimos? Por que não perguntamos &#8220;por quê&#8221;?</p>
<p>Porque cremos em autoridades. Isto nos foi ensinado na escola, onde há uma autoridade na sala, detentora da verdade. Escute, <i>repeat please</i> e passe na prova. Esta é a lição escolar que mais é retida e, se este for o objetivo da escola, ele tem sido atingido com êxito.</p>
<div class='footnotes' id='footnotes-58'>
<div class='footnotedivider'></div>
<ol>
<li id='fn-58-1'>Todo mundo tem a idade dos porquês, é verdade. Não posso julgar se a minha própria foi mais longa ou mais intensa, nem tenho conhecimento para isso. <span class='footnotereverse'><a href='#fnref-58-1'>&#8617;</a></span></li>
<li id='fn-58-2'>Os mais observadores justificarão dizendo &#8220;é o que todo mundo diz&#8221;, o que uma falácia de apelo ao povo ou ad populum e, por isso, um argumento inadmissível. <span class='footnotereverse'><a href='#fnref-58-2'>&#8617;</a></span></li>
</ol>
</div>
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