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	<title>Ira Racional &#187; cibercultura</title>
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	<description>Emoção carregada de razão - por Altieres Rohr</description>
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		<title>E assim impera a pirataria e a comunicação virtual</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Sep 2008 08:12:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Altieres Rohr</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia Vã]]></category>
		<category><![CDATA[cibercultura]]></category>
		<category><![CDATA[economia]]></category>
		<category><![CDATA[pirataria]]></category>

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		<description><![CDATA[Estive na cidade &#8212; porque aqui onde moro é um esconderijo &#8212; na quarta-feira. Tudo feito, nada para fazer, apenas esperando minha mãe voltar até que pudéssemos voltar para casa. Meu pai foi comprar um CD de música e eu &#8230; <a href="http://altieresrohr.com.br/2008/09/e-assim-impera-a-pirataria-e-a-comunicacao-virtual/">Continuar lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estive <i>na cidade</i> &#8212; porque aqui onde moro é um esconderijo &#8212; na quarta-feira. Tudo feito, nada para fazer, apenas esperando minha mãe voltar até que pudéssemos voltar para casa. Meu pai foi comprar um CD de música e eu aproveitei para ir junto. Afinal, onde moro não tem nenhum lugar para comprar CDs de música. Todos os últimos que comprei foram pela internet.</p>
<p>Chegando na loja, peço o CD novo do <a href="http://tramavirtual.uol.com.br/artista.jsp?id=24734">Los Vatos</a>. &#8220;São gaúchos&#8221;, pensei, &#8220;certamente vão ter&#8221;. Mas o rapaz sacode a cabeça. </p>
<p>&#8211;Não, não temos.</p>
<p>Ok. Eles nem me dizem que podem conseguir, ou perguntam se eu quero encomendar. Mas eu não desisto:</p>
<p>&#8211;O que vocês têm de som independente?<br />
&#8211;Não temos &#8220;som independente&#8221;, está tudo misturado.</p>
<p>Começo então a ver os CDs nacionais na busca de algo desconhecido e interessante. Mas a maioria era de bandas &#8220;grandes&#8221;: Engenheiros do Hawaii, Strike, Pato Fu, Nx Zero, ou de bandas maiores aqui no sul. A única que eu realmente não conhecia e que chamou minha atenção foi <a href="http://www.estadodascoisas.com.br/">Estado das Coisas</a>, selo Antídoto. Estando o disco fechado, não pude ouvir, mas questionei os atendentes, que disseram ser &#8220;rock gaúcho&#8221;. Ouvindo a banda agora, vejo que o rótulo não se aplica.</p>
<p>Vou-me então aos internacionais. Black Sabbath, Deep Purple e um monte de outras bandas clássicas, mas todas conhecidas. Tinha Dream Theater, que é interessante. R$33 a R$48. É bom, mas não estava disposto a pagar isso por Dream Theater, e não por um CD que não conhecia (o único CD deles que conheço bem é o último, <i>Systematic Chaos</i>, que não estava disponível). Enquanto &#8220;folheava&#8221; os CDs, meu pai pergunta:</p>
<p>&#8211;Por que não pergunta se eles têm o que tu tá procurando?<br />
&#8211;Estou procurando várias coisas, mas são difíceis de achar, e qualquer uma me serve&#8230;</p>
<p>Continuo procurando, até que sigo o conselho e peço algo eu estaria disposto a pagar R$40, que fosse, pelo CD.</p>
<p>&#8211;Tem Katatonia?</p>
<p>A resposta foi obviamente negativa. Mesmo o Submarino tem apenas <a href="http://www.submarino.com.br/cds_productdetails.asp?Query=ProductPage&#038;ProdTypeId=2&#038;ProdId=1332603&#038;ST=SR">um box triplo com DVD, a R$140</a><sup class='footnote'><a href='#fn-294-1' id='fnref-294-1' onclick='return fdfootnote_show(294)'>1</a></sup>. Mas se a esperança é a última que morre, estou certo: ali não sobrava mais ninguém.</p>
<p>Meu pai, porém, comprou um CD. Do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Mano_Lima">Mano Lima</a>. Já fora da loja, pedi para ver o CD. A capa fora obviamente impressa em jato de tinta de baixa resolução. O texto em <i>WordArt</i>, mesmo se não estivesse borrado, deixava claro que tipo de profissional havia criado a &#8220;arte&#8221;. Atrás, a lista de músicas estava impressa em um fundo branco, sem arte. Nenhum selo, exceto o &#8216;compact disc&#8217;. R$14 por isso?</p>
<p>Voltei à loja para reclamar. Perguntei qual era o selo do disco. O atendente então mostrou uma série de outros CDs da mesma &#8220;gravadora&#8221;, todas com a mesma &#8220;qualidade&#8221;: capa ruim, sem arte atrás. Porém, nos outros havia o selo, juntamente com o endereço e número de telefone do responsável. Agradeceu por eu ter notado a falta destas informações no outro disco e disse que iria comentar com a distribuidora.</p>
<p>Finalmente, tirei o plástico que envolvia a caixa. Sem arte no CD, nenhum encarte. Por baixo, o disco era verde com números em volta do anel central azul, o que significa que o mesmo provavelmente foi gravado em computador em vez de prensado<sup class='footnote'><a href='#fn-294-2' id='fnref-294-2' onclick='return fdfootnote_show(294)'>2</a></sup>.</p>
<p>Acredito que o disco é legítimo, mas como manter as pessoas longe da pirataria se o produto físico é o mesmo e o preço não se difere do original? É muito diferente do <a href="http://www.portalsmd.com.br/">SMD/Semi Metalic Disc</a>, que busca abertamente ser uma alternativa à pirataria e tem um preço muito menor, competindo diretamente com o produto pirata.</p>
<p>A &#8220;revolução digital&#8221; poderia ter mudado muitas coisas nas vendas de CDs. Mas o sistema é o mesmo usado da última vez que entrei em uma loja, que se me lembro foi para comprar o <i>Ruído Rosa</i>, do Pato Fu.<sup class='footnote'><a href='#fn-294-3' id='fnref-294-3' onclick='return fdfootnote_show(294)'>3</a></sup> A não ser que talvez alguma loja em cidades de verdade, como Rio de Janeiro ou São Paulo, tenha revolucionado as coisas, a venda pela web &#8212; seja de CDs ou MP3s &#8212; já substituiu tudo, pois apresenta as capas dos CDs juntamente com trechos para qualquer um ouvir, além do espaço para comentários dos clientes.</p>
<p>Não seria difícil permitir que as pessoas fizessem o mesmo no catálogo da loja e seus distribuidores. DVDs com trechos de 45 segundos a um minuto das músicas poderiam ser distribuídos para as lojas, permitindo que os clientes ouvissem os CDs antes de comprar, inclusive obras que constam apenas no distribuidor, para fazer encomendas.</p>
<p>Existe um valor no ato físico, de entrar na loja, de ver o ambiente, de conversar com pessoas que entendem do assunto para lhe fazer sugestões &#8212; sejam estas pessoas atendentes da loja ou pessoas que estão olhando o mesmo catálogo que você.<sup class='footnote'><a href='#fn-294-4' id='fnref-294-4' onclick='return fdfootnote_show(294)'>4</a></sup> Mas tudo isso se perde quando o cliente não pode encontrar o que procura, não vê produtos de qualidade e, acima disso, preços abusivos.</p>
<p>De fato, você tem mais sorte se aceitar ter esta mesma experiência online. Ligue o SoulSeek, entre na sala do gênero que pretende explorar e faça perguntas, comente, envie mensagens particulares pedindo  sugestões para quem conhece mais música de um gênero do que você. Perdi a conta de quanta música conheci por meio de sugestões que pedi e quantas pessoas conheceram músicas por meio das que dei. As lojas de música poderiam ser um ponto de encontro físico para pessoas assim e, se alguma ficar de pé até o fim do século, provavelmente o será.</p>
<p>A experiência nem é muito diferente quando o assunto são filmes ou livros. O sistema de comentários da Amazon tem substituído a interação de quem freqüenta bibliotecas, por exemplo. E então a leitura e as recomendações ficam, ao mesmo tempo, mais individuais e mais coletivas, no passo que são feitas dentro da própria casa, mas para várias outras pessoas do mundo.</p>
<p>Tem chance de a comunicação pessoal superar a virtual? Não em utilidade, não em profundidade, não em qualquer coisa que importe, a não ser a ótima sensação de estar conversando em pessoa. Ainda assim, quando vídeo+voz via internet estiverem disponíveis a qualquer um, a linha ficará ainda mais tênue.</p>
<p>Resta então continuar chamando quem posta em blogs de compulsivo e quem passa horas na internet de viciado. Rotular tudo como doença e jamais considerar que a rede tornou obsoletas certas formas de interação. Quer dizer, o que obtenho de conhecimento por meio da interação com usuários de SoulSeek eu provavelmente não poderia obter em nenhum outro lugar ao meu alcance, pelo menos não onde moro. Daí a migração das pessoas para as metrópoles, com seu crescimento vertical. Poderia dizer que o que motivou a criação dos grandes centros urbanos é o mesmo que motiva o uso da rede: encontrar mais facilmente pessoas que valorizem as mesmas coisas e pensam como você.</p>
<p>Poderia ser otimista e dizer: as pessoas vão se adaptar e conseguir trazer tudo isso de volta para o coletivo real, em vez desta &#8220;coletividade individual&#8221; da rede. Mas a regra do individualismo &#8212; e eu não uso essa palavra de forma pejorativa &#8212; e da economia está até mesmo reduzindo a população, inclusive em alguns estados brasileiros. Queria poder ver como a economia dos grandes países vai reagir com o declínio de consumidores. Pena que isso deve demorar demais, de modo que nem eu, nem este post ainda estará por aqui quando isso começar a acontecer.</p>
<p>Mas sendo otimista: quem sabe, até lá, as coisas não tomam outro rumo? Para terminar com um chavão, o mundo dá voltas<sup class='footnote'><a href='#fn-294-5' id='fnref-294-5' onclick='return fdfootnote_show(294)'>5</a></sup>.</p>
<div class='footnotes' id='footnotes-294'>
<div class='footnotedivider'></div>
<ol>
<li id='fn-294-1'>Na verdade, com um real de desconto, para R$139.90. Ria. Eu prometo que rio junto. <span class='footnotereverse'><a href='#fnref-294-1'>&#8617;</a></span></li>
<li id='fn-294-2'>O anel central é quase sempre transparente em discos prensados. <span class='footnotereverse'><a href='#fnref-294-2'>&#8617;</a></span></li>
<li id='fn-294-3'>Este CD me ensinou uma importante lição a respeito dos singles ou &#8220;músicas de trabalho&#8221;. Na época, escutava a Rádio Atlântida, onde tocava &#8220;Eu&#8221;, a primeira faixa deste disco. Assim que comecei a escutar o CD, reparei que a música não era <i>nada</i> representativa dos demais conteúdos da obra. Decepção. E demorei para me recuperar e ter a coragem de comprar outro CD. <span class='footnotereverse'><a href='#fnref-294-3'>&#8617;</a></span></li>
<li id='fn-294-4'>Aliás, o que prova a falta de inteligência da loja em que fui, por não separar a música independente das demais, nem por gênero algum, colocando tudo em ordem alfabética. <span class='footnotereverse'><a href='#fnref-294-4'>&#8617;</a></span></li>
<li id='fn-294-5'>Na proporção de trezentas e sessenta e cinco delas em seu próprio eixo para uma em torno do Sol. <span class='footnotereverse'><a href='#fnref-294-5'>&#8617;</a></span></li>
</ol>
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