Vejamos um belíssimo exemplo de como fazer uma enquete que deixa clara qual a sua opinião sobre o assunto:

Vejamos:
- A opinião “Sim” tem um argumento fraquíssimo. Tão fraco que nem sei se é verdadeiro. Embora as mulheres pobres sejam as mais afetadas diretamente, todos somos afetados por filhos indesejados: delinqüentes nas ruas, abortos malfeitos que geram custos para o SUS (que a classe média paga, devido ao fato que os pobres pagam menos impostos por consumirem menos), bolsas-família, escola, etc. Obviamente, a questão principal do aborto diz respeito à liberdade da mulher e não aos custos — estes são apenas um bônus.
- A opinião “Não” tem duas justificativas (em vez de uma só, como no “sim”). Um deles é um argumento pela lei, tipicamente dado por conservadores que defendem o projeto e obviamente redundante aqui, visto que a discussão é se a lei deve ser mudada, e o outro diz que o aborto “aumentaria”, como se abortar fosse algo intrinsecamente ruim1 (outra opinião compartilhada por quem é contra ele).
Não que eu esteja dizendo que o resultado da enquete tenha algo a ver com isso. Em todas as enquetes brasileiras que vi, em nenhuma delas a descriminalização do aborto foi aprovada pela maioria (como eu gostaria que fosse). Porém é a primeira vez que vejo uma diferença tão grande entre as opções.
Na minha opinião, principalmente por se tratar do site da Agência da Câmara dos Deputados, a enquete deveria ter-se limitado ao simples “Sim”, “Não” e “Não sei”.
Às vezes, menos é mais.
- Alguém poderia, em outra época, dizer que legalizar o divórcio é ruim porque “aumentaria o número de casais separados”. Hoje a maioria entende que, muitas vezes, ficar junto é pior. Mas, na época, separar-se era intrinsecamente ruim, como o aborto é retratado na enquete. ↩