Quando comecei a estudar design e programação web, lá em 2003, 2004, a bola da vez eram os blogs. Todo desenvolvedor web influente tinha um blog e o pessoal se encontrava no Tableless. Pensávamos sobre como a web iria evoluir usando XHTML, que podia ser lido como XML — e que isso era muito mais rápido e interessante, por exemplo, para dispositivos com menor poder computacional, como celulares. Sim, porque desde então estava claro que um dia todos acessariam a web pelo celular.
Acreditava-se na produção de conteúdo independente, alavancada pelos blogs e as ferramentas de publicação barata como o Blogger, LiveJournal e até o Typepad. O MovableType era a melhor ferramenta de publicação, porque era grátis para uso não comercial e prezava pelo desempenho dos sites que o utilizavam.
Os blogs estavam prontos: eram bem programados, usavam os layouts mais corretos. Que vitória foi quando o Terra adotou seu primeiro layout sem usar as malditas tabelas. Como eram impressionantes o CSS Zen Garden e a periodicidade do blog do tio Zeldman, que até tinha o seu número de publicação seriada (ISSN)!
Os mais ousados falavam na construção de relevância por meio de links do Google. Dizia-se que era preciso linkar, mas com responsabilidade, para que o conteúdo certo e correto fosse o líder no site de buscas. Tudo isso se juntaria à web semântica – usaria-se formatos como RDF para descrever “coisas” e os computadores as entenderiam e relacionariam usando avançados algoritmos.
E ficamos muito chocados quando o Estadão fez aquela campanha publicitária antiblogs.
Mas um dia chegamos no ponto em que as coisas mudaram. O Twitter foi lançado e já movimentava milhares de posts. E o mesmo Jeffrey Zeldman, que outrora chamara seu site de “Daily Report”, já tinha passado a ser no máximo um “Daily Tweets”. E falou: o site pessoal está desaparecendo.
Blogs eram sites pessoais. Eles é que estavam desaparecendo.
A ideia de alimentar o Google com links relevantes se transformou em mera preguiça e amontados de links para páginas da Wikipedia. Quem tentou aprender algo foram os especializados em “SEO” e naquelas técnicas de links fantasmas para colocar sites sem mérito algum entre os primeiros do ranking.
A figura do blog que produziria conteúdo independente sumiu. O macaco repetidor de conteúdo da propaganda do Estadão, causa de tanta raiva, foi institucionalizado pelo reblog do Tumblr. Tudo virou perfil no Facebook, com suas curtidas e compartilhamentos de fotos fofinhas de animais, vegetarianos, religiosos, ateus, trolls, uma nova geração de cam whores e informações sem nenhuma credibilidade.
A web não virou semântica. Computadores não aprenderam a entender outros computadores. Computadores aprenderam a coletar infinitas informações sobre pessoas e entendê-las a partir do que outras pessoas fazem. O Facebook é campeão nesse torneio e já de cara mostra só o que ele acha que é relevante para cada um de nós, automaticamente aprendendo com nosso comportamento e fazendo um filtro automático.
A web semântica não veio do RDF. Veio do ‘curtir’, do ‘RT’, do ‘reblog’ e da hashtag.
Quem mais mantém blogs agora são os próprios portais de internet. Se não foram criados por eles, viraram parceiros deles, de forma quase indiferenciada do conteúdo editorial que noutras vezes fora “mais valioso”. Às vezes é até o contrário. E alguns sites se transformaram em amontados de blogs, como a Forbes (!) e o ZDnet. Nem o New York Times escapou dessa.
Celulares ganharam telas maiores e aprenderam a ler HTML comum. Aliás, só uma meia dúzia aprendeu a fazer XHTML direito. E mais: o ódio do iPhone pelo Flash tem sido o maior incentivo para adoção do novo HTML 5 (sem o X). E mais: há quem faça um app próprio para o celular consumir o conteúdo. A uniformidade e o conteúdo multiplataforma que se danem.
É interessante olhar para o passado, até com certo romantismo, e ver que, pelo menos do meu ponto de vista, do que eu achava que se estava pregando naquela época, tudo deu errado. E e ainda teve a tentativa completamente fracassada da Macromedia de transformar o Flash em uma ferramenta de aplicação de internet. Quem comprou essa ideia se deu mal: a Adobe já até descontinuou o Flash Player para o Linux.
Não sei se o futuro que se realizou é pior ou melhor do que aquele que se imaginava, mas não cabe neste texto analisar a internet inteira e ver se ela melhorou ou piorou.
Apenas constato aqui os erros do passado, e como aquilo que veio a se realizar o fez por um caminho muito diferente do que se imaginava.
