Versos: Testemunha do fim do mundo

As coisas como estão hoje
Fazem tudo parecer tão longe
Mas quem sabe um dia consigo
Deixá-las aqui comigo
Ou deixar-me com elas

A mudança é permanente
O resto sempre se move
Para o lado ou à frente
Quando faz sol ou chove

Sempre há o guarda-chuva
Cordas, âncoras e rodas
Seja uma reta ou curva
Não é fácil permanecer
Nem perceber coisas novas

Eu não vou parar;
Um dia
vou testemunhar o fim do mundo
E viver para contar.
Porque até lá todas as coisas
Já mudaram de lugar

Versos: Era uma vez um dia triste

Eu sabia que o corpo era jovem
E que a dor se apagaria
Quando os fatos que não comovem
Trouxessem a calmaria

Eu fiz o que pensei ser certo
E errei enquanto não percebia
Um sorriso sendo coberto
Pela verdadeira alegria

Eu quis então me esconder
Mas senti-me em uma passarela
Desfilando sem me mover
Em meio à plateia cega;

Eu depois escapei
Saí correndo;
Para onde nem sei
Mas eu estava vendo
Mesmo nos dias em que chorei

Eu não procurei um dia triste
Mesmo assim o encontrei
Ele estava sentado em riste
No que parecia trono de rei;
Eu o olhei e perguntei
“Que governas, majestade?”

“Eu governo a alma
De quem pensou estar certo
E errou enquanto
Um rosto alheio era coberto
Do mais verdadeiro pranto”

Eu ouvi com certo encanto
Até pensei por um momento
Enquanto um vento
Ao seguir seu curso lento
Refrescava-me devagar.
O rei, então, prosseguiu

“Eu sei que parecerá mentira
Mas meus servos são voluntários
Decidiram isso para suas vidas
Quando criaram essas feridas
Em dias ordinários”

Eu sorri
Por um instante até agradeci
Por ele ter me explicado
Que este lugar aqui
Não é destinado
A quem cometeu os erros
Que eu cometi

Versos: Registros da pretensão

pode ser a verdade
uma só nesta festa
celebrada na cidade
onde tudo presta
e o erro não existe

os prédios são letras
as ruas palavras
os bairros frases
semáforos são vírgulas
e os limites são capas

o terreno é propício
é branco e plano
e o arquiteto insano
é dono
do próprio hospício

Versos: Sobre o fim do infinito

Há para todo ser normal um amor
Cada qual inalienável e perfeito
Pelo menos até o momento
De ele ser desfeito

Até então, o fim não existe;
É nada além de um fato triste
Que vitima somente aqueles
Cujo sentimento é só palpite

Porque o amor verdadeiro é eterno
Embora passe frio no inverno
E adoeça em um ou outro verão
Quando sonhos ficam pelo chão

Viram assassinas a confiança
E a ingênua esperança
De que algo pode ser esquecido
E ainda assim infinito

Versos: A Revanche

Todo dia tem um fim
E todo ano também
Mas só termina
Aquilo que começa

Alguns têm medo
Não sei por quê
Afinal
Quando a rodada acaba
Apenas chega a vez
De outro jogar

Temos nossa chance
De tentar fazer o longe
Ficar ao nosso alcance;
Alguns não se importam
Esperam pela revanche
Sem perceber
Que o que se faz direito
Não precisa ser refeito
Em outro momento

Versos: Tradição de Luzes, Cheque e Cartão

Tem essa tradição
Lançada há não sei quantos anos
Que pra alguns chega no inverno
E pra outros no verão

Exige mudança de planos
A compra de presentes
Trocas de poluentes
Que vitimam a Terra

E naquele dia impera
As luzes
Não inventadas
Junto deste conto de fadas
Quando eram velas e cruzes
Que faziam dia da noite
E o vermelho era o sangue
Que jorrava do açoite

Tanto mudou, menos mal
Mas a vontade de achar
Alguém mais forte que nós
Continua igual
Embora o bom olhar
Mostre que estamos sós

Versos: Em Algum Lugar Entre o Início e o Fim[+]

É uma ponte
Cujo início esconde
E finais são infinitos

É um vão:
Uma pequena ligação
Entre dois desconhecidos

É um tom
Entre um e outro som
Que não foram ouvidos

É fotografia:
Imagem congelada e fria
De tempos indefinidos

É filme:
Longa metragem firme
Com enredos comedidos

É morte entre duas vidas
E vida entre duas mortes;
Resta-me buscar trilhas
Sem atalhos e sem cortes

Sou o músico e a corda;
O fotógrafo e o diretor;
Minha obra é calhorda
E assim mesmo sou o autor

————————————–

	Minhas percepções
dizem que sou
	uma fera
Que quando observada
	intimida
mas por ser austera
	em vez de feroz

qual é a mentira
	que preciso
pôr em minha voz?

Versos: Vivem os Humanos, Morre a Humanidade

Somos todos da mesma espécie
Mas às vezes nem parece
Os rapazes e os homens
Moças e esposas
Escravos e líderes
Em qualquer nível
Brigas e intrigas
Desentendimentos, agressões
Ar vil e sofrível
Cartas que trazem intimações
Uma guerra febril e fria
Tudo pela falta de amigos
Homens sem ouvidos
Mulheres sem maridos
E meninos solitários

Eu conheço guerra
Onde mesmo quem acerta
Sabe que erra
Grita um alerta
Pede um socorro
Vê o companheiro morrer
A saudade de voltar
Subir em um morro
Levantar a bandeira branca
Vê-la tremer
Para então ver o inimigo
E perguntar:
“Pode tua nação vencer
Sem que vossa humanidade
Venha a falecer?”

Versos: O Herói Antítese

Estou perto do distante
Cometendo crimes dentro da lei;
É sempre gratificante
Falar do que não sei

Sou verbo sem ação
Um período sem oração;
Elogio puramente nocivo
E adjetivo sem substantivo

Ressuscito o que não morreu
Mas mato toda uma nação
Dirijo carro europeu
Sem andar na contramão

Um bárbaro romano
Com voz de tenor soprano
E ossos de cartilagem;
Sou um típico personagem
De filme americano

Versos: Temporal[+]

Uma cicatriz brilhante
Mais rara que diamante
Sabe deixar-se ouvir
Sem se deixar sentir

Criação da tempestade
Se revela devagar
No campo ou na cidade
Sem nunca pestanejar

Em muitos só causa medo
Não sabe como chegar
História sem enredo
Que tão logo vai acabar

E que venha o temporal
Cujo tempo é pura pressa
Ferindo o bem e o mal
Enquanto o céu atravessa

—————————————–

“abandone toda a esperança,
aquele que aqui entrar”,
estava na vizinhança
da porta de um mundo vil
“Inferno”, segundo Dante;
Estranho é que lá em casa
– bem nos livros da estante –
O mesmo dito queima
e nem deixa brasa