Versos: Falando com a Chuva

O céu deixou a água cair
Às vezes é difícil aguentar
Umas gotas sempre escapam
Entre os dedos, entre olhos

Se eu tivesse uma chave
Para o segredo da alegria
Isso seria coisa muito grave
Diz o olhar de quem me policia

É uma pena, não é por mal
Eu só queria conversar
Ouvir tudo até o final
E ao cair da noite cega
Ver Deneb, Altair e Vega
Brilhando no espaço sideral

Mas fui conversar com a chuva
O consolo de quem tanto historia
Serviu bem como uma luva
E afinou em triste sinfonia

“Mas as pessoas são incríveis
São todos imperadores, reis
De todos os seus poucos bens
Que ainda as fazem reféns”

Assim disseram essas lágrimas
Lágrimas das nuvens brancas
Que caem destruindo o algodão-doce
Da tal criança que é o céu

A chuva me disse tanto mais
Eu esqueci, me perdoe
Agora vou-me embora, até mais

Versos: A Questão do Quando[+]

Jaz em nosso peito
o castigo natural
O saber do sim
e jamais do quando
Vai ser em um dia
qualquer e igual
Esperado ou não
tudo chega ao final

É o que dizem
Mas ainda vou
Admitir dúvidas
Porque meu final
Ainda não iniciou

A quem conta histórias
Reclamamos do seu fim
Por ser curto ou ser ruim
Feliz ou triste, enfim
Sem perceber que memórias
Nunca falam do futuro
De onde eu vim

Não testemunhamos um fim
E muito menos um começo
Apesar disso e mesmo assim
Temos por eles tanto apreço

Vivo eu de trechos
De um e outro tropeço
Contados em meios
Caminhando então
Por caminhos alheios
E enredos sem desfechos

A morte não me abala
Não tenho medo dela
Como ela não teme a si
Porque ao final e afinal
Ela não morre


debaixo do travesseiro
o telefone celular
substitui um companheiro
que era pluricelular

Versos: Episódio XIX

E sob os pedidos de paz
A guerra se impôs

Entre os tchaus e alôs
Veio a solidão ao rapaz
Perguntar se estava bem
Enquanto ele caminhava
Ao abismo do qual era refém

O outro quis o proteger
Empurrou-o para longe
Longe de si
E mais perto da tragédia
Que estava para acontecer

O pulso firme só aumenta
O volume que escapa
Por entre os dedos
Feito feixe de fechadura
Quando venta

Assim o instrumento afinado
Elimina o ruído indesejado
E com ele as possibilidades
Da dissonância

A falta de conhecimento cega
À esperança um alguém se apega
Arrisca ajudar alguém, avança
Um sono violento, não descansa
Porém acorda para ver
Que o protegido está ferido
O irmão traído
O amigo perplexo
A esperança era sem nexo
O remorso fora impresso,
Reproduzido igual sexo
E estampado feito camiseta
De um coitado de muleta
Que arrancou sua própria perna
Tentando ajudar o outro
A caminhar sozinho


Em homenagem ao fascinante episódio 19 da série de anime RahXephon.

Versos: A Gota

Não posso ter medo de altura
O caminho é longo
A descida rápida
E já sei o que esperar

Começo a cair
A gravidade a me puxar
Não há como resistir
Mas não posso me assustar

São bonitas e vermelhas
As telhas
Onde caio para escorregar
Em direção ao chão

Passo pela janela
Transparente
Vejo o rosto dela
De uma menina indiferente

E o que ela poderia mudar?
A TV ligada, o ar condicionado
Mesmo que eu pudesse gritar
Ela não poderia me ouvir

O chão está perto
Ao escorrer pela vidraça
Que se acaba
Não acaba minha desgraça

Logo volta o sol
É verão. É sempre assim.
Novamente vou subir
Para amanhã, em outro lugar, cair.

Versos: Egoísmo sem disfarces

Pois então o vento navegou
através do céu encoberto
por onde viu um choro incerto
de uma chuva que se naufragou
só por precisar muito cair

Agora nem sabe aonde ir
não tem mais seu egoísmo
nem o da chuva a lhe guiar;
para para ponderar
e por pouco despenca ao abismo
no qual já esteve tantas vezes.
A solidão ainda assusta
por mais que se a conheça bem
e o vento ali se pergunta
quanto é que custa
querer fazer bem

às vezes nada é muito claro
e para quem não olha direito
fica parecendo desamparo
mas é sim um grave defeito
de olhar em volta e não ver
nada além de uma história
em que se é um protagonista
sem esperança de glória
e que sobrevive às custas
das mais amargas desculpas
aos outros personagens

o vento não goza deste privilégio
ele olha em volta e não há imagens
quando vê por onde já passou
não há sequer um registro etéreo
dos lugares em que voou

tantos reclamam e a verdade sossega
fica no ar a mentira
enquanto o egoísmo cega
e a nuvem de chuva seca
junto das lágrimas;
as desculpas são insuficientes
a dor aflige, avança e atira
acerta um peito que se parte
e na parte seguinte há doentes
que aguardam carinho e consideração
obras primas de quem as deu
mas que o egoísmo prendeu
antes de deixarem sua mão

Versos: Atenção Dispensada

Ela fez o que queria
Na noite que ele temia
Bem do jeito que ela quis
Cometeu com a cabeça a mil
Um erro por mais de um triz
Que ele viu não ser vil

Ela chora por carregar culpa
E também por precisar chorar
Quis tanto pedir desculpa
Mas não aceitou se desculpar

Ele não negava esperança
E mesmo chorando quis esperar

O passado ninguém muda
Mas uma nova lembrança
Sempre pode ir no seu lugar

Assim ele pensou
Pois o orgulho dispensou
E pela atenção dispensada
Ela só lhe disse
Muito obrigada.

Versos: Atirando no Sol

Ter esperança e mirar alto
Cair depois de um salto
Desacreditar na própria fé
E rir da mudança da boa maré

Acreditar por um momento
Que paciência é recompensada
Que esforço não é sofrimento
Mas a construção da boa morada

O tempo passa e nada nunca volta
Tudo só vai embora e mais longe
E o que se foi nas noites assola
O sorriso feio que se esconde

E aquela certeza que se tem
De que o passado ficou onde podia
E que futuro virá como sempre vem
E apesar disso o presente assovia
Pra buscar alguma companhia

São todos eles tiros no Sol
tão distante tão fascinante tão brilhante
tão quente tão presente
e tão ausente
quando chega a noite

E há quem atire à noite
Também no Sol sem saber onde ele está
A vida se faz e se cria por lá
Assim pensam os que atiram

Cegos pelo brilho
A dor ainda assusta
O frio condena
E as balas se perdem
Ao sol.

Versos: A Espera

Estou aqui parado
Não sei bem o motivo
Só sinto que espero algo
Capaz de me dar alívio

As palavras escorrem;
Pensamentos que eram vivos
Aos poucos sempre morrem
Dando lugar a mais, e outro
Cada vez mais nocivos
E sem ouro

Ainda espero inutilmente
Porque eu sei que às vezes
Nem um período de mil meses
Será suficiente

Mas a espera me prende
Sufoca e me faz ausente
Na minha falta, falto eu
E ali no chão jaz perdido
Tudo o que ninguém perdeu:
Um tal dia mal vivido
Que pensei ser só meu

Morre agora outro minuto
Na espera que faço em luto
Pelo minuto anterior
Que morreu sem meu amor

Pela mais pura cortesia
A vida me dá outra hora
Sabendo que ela não alivia
Por ser apenas mais tempo
Lembrando que joguei fora
Todo o tempo que eu tento
Ter de volta agora

Ao olhar o que conquistei
Enxergo o que me falta
Sou ingrato, isso eu sei
Mas o futuro está em pauta

Espero por um momento
Que penso ser nobre
Mas que é tão pobre;
Não acredito no vento
E ainda assim finjo
Ser capaz de ver a brisa
Que chega com afinco
Sem ver onde pisa

“A coragem não está lá fora”
Tantos já tentaram me dizer
Penso que ela já foi embora
E sabe-se lá se vai me ver

Presenteei-me com o presente
Agora aguardo outro, diferente
Sem perceber ele vem do passado
E que o futuro fará ser passado
O que hoje é presente


Se o mundo pudesse apenas pintar de branco
Aquilo que é bom
Qual seria a cor do homem
Que o azul acinzenta e o verde destrói?

Versos: O desconhecimento do conhecedor

Ando disfarçado sem notar
De tão natural que agora é
Ser quem a maré
Jamais tenta parar

Criando caminhos para a fama
Tão pobres quanto a rima
De dizer que é só a lama
Que eu jogo para cima
E que ainda vai voltar
Para enfeitar minha testa
Enquanto eu divido o mundo
Entre aquilo que presta
E o que não

De fato estou
Dividindo apenas
O que me é estranho
Do que conheço bem

Tão bem que não me acanho
Ao agora dizer
Que elas ainda
Vão me surpreender

Versos: Onisciência

Se todos soubessem tudo, tudo
o anormal seria tão comum.
Juro.
Eu poderia ver meus defeitos
em todos os seres agora perfeitos
Que perambulam pelas ruas
Esquinas ou avenidas
Cobertas ou nuas.
Criamos áreas proibidas
E enquanto roupas cobrem o corpo
Mentiras protegem a mente
Onde não se permite o outro
Para que esqueçamos
Que entre os vivos e os profanos
Entre o vil e o nobre
E entre o ouro e o cobre
Imperadores nus
Somos todos nós


É meio antigo, ainda não publicado. E o blog precisava de uma atualização.