Versos: Atirando no Sol

Ter esperança e mirar alto
Cair depois de um salto
Desacreditar na própria fé
E rir da mudança da boa maré

Acreditar por um momento
Que paciência é recompensada
Que esforço não é sofrimento
Mas a construção da boa morada

O tempo passa e nada nunca volta
Tudo só vai embora e mais longe
E o que se foi nas noites assola
O sorriso feio que se esconde

E aquela certeza que se tem
De que o passado ficou onde podia
E que futuro virá como sempre vem
E apesar disso o presente assovia
Pra buscar alguma companhia

São todos eles tiros no Sol
tão distante tão fascinante tão brilhante
tão quente tão presente
e tão ausente
quando chega a noite

E há quem atire à noite
Também no Sol sem saber onde ele está
A vida se faz e se cria por lá
Assim pensam os que atiram

Cegos pelo brilho
A dor ainda assusta
O frio condena
E as balas se perdem
Ao sol.

Versos: A Espera

Estou aqui parado
Não sei bem o motivo
Só sinto que espero algo
Capaz de me dar alívio

As palavras escorrem;
Pensamentos que eram vivos
Aos poucos sempre morrem
Dando lugar a mais, e outro
Cada vez mais nocivos
E sem ouro

Ainda espero inutilmente
Porque eu sei que às vezes
Nem um período de mil meses
Será suficiente

Mas a espera me prende
Sufoca e me faz ausente
Na minha falta, falto eu
E ali no chão jaz perdido
Tudo o que ninguém perdeu:
Um tal dia mal vivido
Que pensei ser só meu

Morre agora outro minuto
Na espera que faço em luto
Pelo minuto anterior
Que morreu sem meu amor

Pela mais pura cortesia
A vida me dá outra hora
Sabendo que ela não alivia
Por ser apenas mais tempo
Lembrando que joguei fora
Todo o tempo que eu tento
Ter de volta agora

Ao olhar o que conquistei
Enxergo o que me falta
Sou ingrato, isso eu sei
Mas o futuro está em pauta

Espero por um momento
Que penso ser nobre
Mas que é tão pobre;
Não acredito no vento
E ainda assim finjo
Ser capaz de ver a brisa
Que chega com afinco
Sem ver onde pisa

“A coragem não está lá fora”
Tantos já tentaram me dizer
Penso que ela já foi embora
E sabe-se lá se vai me ver

Presenteei-me com o presente
Agora aguardo outro, diferente
Sem perceber ele vem do passado
E que o futuro fará ser passado
O que hoje é presente


Se o mundo pudesse apenas pintar de branco
Aquilo que é bom
Qual seria a cor do homem
Que o azul acinzenta e o verde destrói?

Versos: A Menina e o Céu

Como rabiscos no ar
Riscando o céu escuro
Panfletos coloridos a voar
Sobre calçadas e muros

A rua antes deserta
Recebe uma menina
Ela sabe que é esperta
E seu olhar não desafina

Fita o céu por um instante
Sentindo no rosto a brisa constante
Que confunde seus cabelos
Com o rubi de preciosos vermelhos

Todos estavam ocupados demais
Ou talvez apenas desatentos
Para perceber a beleza por trás
Daqueles breves momentos

Então, o oceano negro sem pudor
A observa sem compromisso
Os dois juntos fazem amor
E nela se vê um belo sorriso

No céu aparece outra estrela
Uma mancha brilhante na escuridão
Mas ninguém mais poderá vê-la
Exceto a menina na rua em solidão


Ideia original de Fernanda S. F.

Versos: O desconhecimento do conhecedor

Ando disfarçado sem notar
De tão natural que agora é
Ser quem a maré
Jamais tenta parar

Criando caminhos para a fama
Tão pobres quanto a rima
De dizer que é só a lama
Que eu jogo para cima
E que ainda vai voltar
Para enfeitar minha testa
Enquanto eu divido o mundo
Entre aquilo que presta
E o que não

De fato estou
Dividindo apenas
O que me é estranho
Do que conheço bem

Tão bem que não me acanho
Ao agora dizer
Que elas ainda
Vão me surpreender

Versos: Onisciência

Se todos soubessem tudo, tudo
o anormal seria tão comum.
Juro.
Eu poderia ver meus defeitos
em todos os seres agora perfeitos
Que perambulam pelas ruas
Esquinas ou avenidas
Cobertas ou nuas.
Criamos áreas proibidas
E enquanto roupas cobrem o corpo
Mentiras protegem a mente
Onde não se permite o outro
Para que esqueçamos
Que entre os vivos e os profanos
Entre o vil e o nobre
E entre o ouro e o cobre
Imperadores nus
Somos todos nós


É meio antigo, ainda não publicado. E o blog precisava de uma atualização.

Versos: Às vezes

às vezes acho
que estou acordado
e tenho a certeza
quando durmo
que isso tudo
foi por acaso

e às vezes acho
que estou dormindo
e tenho a certeza
quando acordo
de que o pesadelo
não é um sonho

às vezes vejo
que esse pesadelo
seria um sonho
mas aí percebo
que ainda estou tonto

às vezes almejo
querer perdê-lo
dentro de mim mesmo
até que percebo
que ainda o procuro

[em coautoria com Diogo S. B.]

Versos: Lembrança de uma breve esperança

Percebi que ela sorria;
Por um instante falou comigo
Sem perguntar se nesse dia
Eu precisava de abrigo

Não quis reparar;
Na verdade não é por mal
Mas nem todo mundo é igual
E ainda é fácil julgar

Pudera ser mais óbvio
Descobrir nosso valor
Em cada ser sóbrio
Que nos faz sofredor

Cada um fica na dúvida
Com medo de verbalizar
A pergunta vez estúpida
Ora capaz de tranquilizar

Corro de volta para casa
Temendo que a memória se desfaça
Da lembrança dessa esperança
Que logo ei de esquecer

Versos: Palavras Escolhidas

I

“Bom dia…!”
Diz à noite que vai embora
O homem que não queria
Jogar seu tempo fora

Ele quer fazer um dia bom
Sem esperar que ele o seja;
Apreciar da água até o tom
E ir além do que almeja

II

A solidão que os prédios pariram
Terminaria no apartamento vizinho
Não fosse a existência do vinho
Que eles nunca dividiram

III

E mora no silêncio a essência
De tudo que já foi dito por nós
E que será dito por outra voz
Em nossa ausência

Porque ao falar dizemos mais
Pelas palavras não escolhidas
E há coisas sobre as quais
Só pensamos quando
Esgotaram-se as tentativas
De fugir sem pranto

Busquei por um momento
Ser coerente
Indo em frente
Embora mais lento

Mas de pouco vale a coerência
Se não há ninguém por perto
Que possa validá-la

Naufragando nessa carência
Não debato o errado ou o certo
Nem a dor que ela embala

Nesse mar eu aprendi a nadar
Sobrevivo e respiro desse ar
Mas é bem verdade que a sorte
Poderá um dia ser mais forte

Como a desconheço
Pensei até tê-la visto
Em um ser bem quisto
Que vale meu apreço

Ah, pois
Foi um engano
Grande e insano

Versos: Saudosismo Reverso

Já não há mais salvação
Que sirva à esperança
Construída sob pressão
Pela mente que se cansa

O sofrimento quer ir embora
Chama seu colega desprezo
Achando que só ele será
Capaz de achar um motivo coeso
Para não dizer que aqui mora

Mas também há outro visitante
Tanto ou até mais brilhante
Que usa seu brilho
Para ofuscar nossa visão
E fazer-nos olhar
Em outra direção

Ele chega entregando
O que diz não ser seu:
Um fabuloso presente
Chamado presente
Embrulhado em papel branco
Que ninguém leu

E foi assim
Que ganhei um outro mundo
E uma eternidade e meia
Sem pedir nem um segundo
De um futuro desconhecido
Que achei ter construído
Com a mais dura areia

Versos: Rei dos Animais

A moda é comprar
Comprar a moda
Dever por não pagar
À prazo ou prestação

Peles de animais!?
Não agrido a mata!
E nem sei quem mata
A sardinha da lata.

Também pouco importa!
Não peco por fechar a porta
Fingir não ouvir
E -VIVER- pelo devir

Sem vender minha alma
Tenho aqui toda a fauna
Na luva que cobre a palma
Da minha mão.

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Escrito um dia no ônibus indo para a faculdade…