o teto do mundo agora cinza em terra estranha me lembra praia e chuva que banha a rua e eu fico trancado em casa vendo as nuvens aqui, longe do lugar do lar trocando poréns e batendo papo com o céu cheio de estrelas um mausoléu do brilho quando negro empecilho pra mim que só queria um dia cinza frio e parcialmente seco
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Versos: Felicidades instantâneas
Entre momentos em vão Reservo uns em recorte E olho na cara da morte Pra dizer "agora não".
Versos: Memento Mori
Também existe fim para os imortais
Sem arrependimento, sem sofrimento
A liberdade de não querer nada mais
Marca a chegada do momento
Só temos menos tempo
Vida valiosa voa, voraz
Diante dela, desatento
O valor fica para trás
Procurando um instante
Que repetido, incessante
Cria a desejada eternidade
Que não existe no tempo
Meu sonho é de imortal
Morrer a cada hora
Capaz de valer uma vida
De tão normal
Certo do tempo desigual
Termina depois ou agora;
Mas o sorriso convida
A morte natural
Morrer não acaba com a vida
O que mata é
Viver sem lembrar de morrer
Não estarei aqui para sempre
Não estarás aqui para sempre
Versos: Letras, Palavras e Etc
Um ‘c’ estava em falta:
Ele faria uma oração
Transformar meu coração
Aí querendo um pouco de ‘arr’
Eu fiz de um anjo
Só uma peça de arranjo
Coloquei um ‘f’ em ‘oi’
Não demorou muito
Disse tchau e já se foi
Tentei um ‘a’ em ‘dia’
e nada mais pude fazer
até chegar o amanhã
Sem desistir, repito o ‘a’
Dessa vez em um pelo
E de repente faço um apelo:
‘Fale!’ para um pedaço da cidade
E no meio de tantos que não falaram
Sobrou uma cidade falecida
Quando quis ser ouvido
Parei a frase, segui falando
E só consegui parafrasear
Dor não ventila do ventilador
porque eu acredito mais nos atos
quando o ‘f’ os torna fatos
Pena que muita gente já não ama
sem deixar de usar o ‘c’
que só nos leva para cama
Versos: Falando com a Chuva
O céu deixou a água cair
Às vezes é difícil aguentar
Umas gotas sempre escapam
Entre os dedos, entre olhos
Se eu tivesse uma chave
Para o segredo da alegria
Isso seria coisa muito grave
Diz o olhar de quem me policia
É uma pena, não é por mal
Eu só queria conversar
Ouvir tudo até o final
E ao cair da noite cega
Ver Deneb, Altair e Vega
Brilhando no espaço sideral
Mas fui conversar com a chuva
O consolo de quem tanto historia
Serviu bem como uma luva
E afinou em triste sinfonia
“Mas as pessoas são incríveis
São todos imperadores, reis
De todos os seus poucos bens
Que ainda as fazem reféns”
Assim disseram essas lágrimas
Lágrimas das nuvens brancas
Que caem destruindo o algodão-doce
Da tal criança que é o céu
A chuva me disse tanto mais
Eu esqueci, me perdoe
Agora vou-me embora, até mais
Versos: A Questão do Quando[+]
Jaz em nosso peito
o castigo natural
O saber do sim
e jamais do quando
Vai ser em um dia
qualquer e igual
Esperado ou não
tudo chega ao final
É o que dizem
Mas ainda vou
Admitir dúvidas
Porque meu final
Ainda não iniciou
A quem conta histórias
Reclamamos do seu fim
Por ser curto ou ser ruim
Feliz ou triste, enfim
Sem perceber que memórias
Nunca falam do futuro
De onde eu vim
Não testemunhamos um fim
E muito menos um começo
Apesar disso e mesmo assim
Temos por eles tanto apreço
Vivo eu de trechos
De um e outro tropeço
Contados em meios
Caminhando então
Por caminhos alheios
E enredos sem desfechos
A morte não me abala
Não tenho medo dela
Como ela não teme a si
Porque ao final e afinal
Ela não morre
debaixo do travesseiro o telefone celular substitui um companheiro que era pluricelular
Versos: Episódio XIX
E sob os pedidos de paz
A guerra se impôs
Entre os tchaus e alôs
Veio a solidão ao rapaz
Perguntar se estava bem
Enquanto ele caminhava
Ao abismo do qual era refém
O outro quis o proteger
Empurrou-o para longe
Longe de si
E mais perto da tragédia
Que estava para acontecer
O pulso firme só aumenta
O volume que escapa
Por entre os dedos
Feito feixe de fechadura
Quando venta
Assim o instrumento afinado
Elimina o ruído indesejado
E com ele as possibilidades
Da dissonância
A falta de conhecimento cega
À esperança um alguém se apega
Arrisca ajudar alguém, avança
Um sono violento, não descansa
Porém acorda para ver
Que o protegido está ferido
O irmão traído
O amigo perplexo
A esperança era sem nexo
O remorso fora impresso,
Reproduzido igual sexo
E estampado feito camiseta
De um coitado de muleta
Que arrancou sua própria perna
Tentando ajudar o outro
A caminhar sozinho
Em homenagem ao fascinante episódio 19 da série de anime RahXephon.
Versos: A Gota
Não posso ter medo de altura
O caminho é longo
A descida rápida
E já sei o que esperar
Começo a cair
A gravidade a me puxar
Não há como resistir
Mas não posso me assustar
São bonitas e vermelhas
As telhas
Onde caio para escorregar
Em direção ao chão
Passo pela janela
Transparente
Vejo o rosto dela
De uma menina indiferente
E o que ela poderia mudar?
A TV ligada, o ar condicionado
Mesmo que eu pudesse gritar
Ela não poderia me ouvir
O chão está perto
Ao escorrer pela vidraça
Que se acaba
Não acaba minha desgraça
Logo volta o sol
É verão. É sempre assim.
Novamente vou subir
Para amanhã, em outro lugar, cair.
Versos: Egoísmo sem disfarces
Pois então o vento navegou
através do céu encoberto
por onde viu um choro incerto
de uma chuva que se naufragou
só por precisar muito cair
Agora nem sabe aonde ir
não tem mais seu egoísmo
nem o da chuva a lhe guiar;
para para ponderar
e por pouco despenca ao abismo
no qual já esteve tantas vezes.
A solidão ainda assusta
por mais que se a conheça bem
e o vento ali se pergunta
quanto é que custa
querer fazer bem
às vezes nada é muito claro
e para quem não olha direito
fica parecendo desamparo
mas é sim um grave defeito
de olhar em volta e não ver
nada além de uma história
em que se é um protagonista
sem esperança de glória
e que sobrevive às custas
das mais amargas desculpas
aos outros personagens
o vento não goza deste privilégio
ele olha em volta e não há imagens
quando vê por onde já passou
não há sequer um registro etéreo
dos lugares em que voou
tantos reclamam e a verdade sossega
fica no ar a mentira
enquanto o egoísmo cega
e a nuvem de chuva seca
junto das lágrimas;
as desculpas são insuficientes
a dor aflige, avança e atira
acerta um peito que se parte
e na parte seguinte há doentes
que aguardam carinho e consideração
obras primas de quem as deu
mas que o egoísmo prendeu
antes de deixarem sua mão
Versos: Atenção Dispensada
Ela fez o que queria
Na noite que ele temia
Bem do jeito que ela quis
Cometeu com a cabeça a mil
Um erro por mais de um triz
Que ele viu não ser vil
Ela chora por carregar culpa
E também por precisar chorar
Quis tanto pedir desculpa
Mas não aceitou se desculpar
Ele não negava esperança
E mesmo chorando quis esperar
O passado ninguém muda
Mas uma nova lembrança
Sempre pode ir no seu lugar
Assim ele pensou
Pois o orgulho dispensou
E pela atenção dispensada
Ela só lhe disse
Muito obrigada.