Versos: Crista da Rocha

Diante da grandeza do espaço
Qual a distância de um abraço?
Pode fazer diferença um passo
Ou o outro lado do planeta?

Ah, mas a Terra não tem lado,
Ficou só em um livro sagrado
A ilusão de um plano achatado

Prende-nos sem dó esta rocha
Coberta de um azul que debocha
Da pequenez que desabrocha
Em quem vê o mar das estrelas

De lá, esse mausoléu do brilho
Ilumina o caminho que trilho
E meu norte em cada bívio

Pois a supernova põe à prova
A energia dentro de nós
E toda aquela luz feroz
Às vezes ainda é distante
Ou distante o bastante
Para passar despercebida

E aqui por puro despesero
ao calor de uma estrela
criamos um piso de gelo
traiçoeiro e opaco
maior que os anos-luz
que medem o vácuo

tememos a dor
que vem do coração
e a liberdade proíbe
qualquer dedicação

até que de repente
jaz esperança em pedir
a uma estrela cadente
pela vida que só vem
para se despedir

Versos: A Derrota dos Invencíveis

Vejo versos velhos
Sozinhos, sem som
Pois perdi a poesia
Agora abandonada

Canções, cantigas
Marcam meus medos
Inúteis, fúteis
Derivados do desejo

Quem quis o quando
Outrora odiava o onde
E brincou por brincar
Nutrindo nãos e nadas

Há histórias humanas
Mais nobres que esta
Paz de paixões planas
Como sombras numa sesta

Desfiz-me de uns segredos
Visando à vitória da verdade;
Que escapa dos meus dedos
Aufere amor, apaga alarde

Versos: Depois de Quando é Tarde [+]

I

Esperava a vez no banco
Ao lado do cartaz de cancro cítrico
Pode parecer um tanto atípico
Mas essa vida eu ia levando

Era só uma criança
E pouco de tudo eu sabia
Preso sem chance de fiança
Ouvindo histórias da pradaria

Interior no interior do coração
Nem a cidade pode desenraizar
Já sabia, fiz de conta que não
E parti pra testar o meu azar

Com mais um par de nós desfeito
Nada fiz, nada conquistei
Posso nem ter vivido direito
Porque tal direito não é lei

No inverso do verso, jaz meu universo
De sangue nos olhos, lágrimas nas veias
Nu no inverno, na praia de terno
Vendo só uma coleção de areias

Invejo as vidas que não tive
E água escorre dos meus olhos
Esperando que na rota em declive
Ouça algum aplauso dos auditórios

Só cai a gota em silêncio
Sobre a pedra do passado
Criando uma marca escura

II

Mas quando anoitece
O céu é ainda mais escuro

E quando a água dele desce
Já não vejo as marcas
Das pequenas lágrimas

E a humihação não se encerra
Pois choverá sobre a terra
Ainda que não possa chorar

Eu sou passageiro
Vou passar até que ligeiro
E mesmo que tivesse outras vidas
Passaria também

Até minha insignificância
é insignificante
E só conforto traz
a quem vira um cartaz
de cancro cítrico
sem alerta à infância
para cuidar da semente
em nosso íntimo.

30/07/2012 – 20/12/2012


Tinta, papel, coração
Todos juntos aqui na mão
Pra ver se sai
Pra ver se sai
Um pouco do que jaz em mim
Daquilo que não deixo sair
Pra não perder

15/09/2012 (em carta)

Versos: Trevos & Retornos

O amor flui
de um ao próximo
e vez ou outra
faz o caminho
de volta

mas quem escolta
esta tal de paixão
nem sempre a aceita
quando ela retorna
um pouco diferente

como se o tesão,
quando ausente,
também levasse
o carinho,
as memórias,
e a saudade

coitado do amor,
que de repente
é pura maldade
e menos nobre
sem venda casada

estranho é quando
um dia, do nada
o tal “apaixonado”
deixa de sentir;
já o outro
desapaixonado,
jamais esquece

vou até dizer que
amor é amizade
mesmo quando
a amizade é daltônica

então dê espaço
deixe o amor passar
e cumprimente-o
quando ele voltar

Versos: Se negar não faz desaparecer, cansei de brincar com alma orgulhosa

Se te ver afaga a solidão
Daí que meu olhar resiste
De modo a fingir, em vão,
Que ela não existe

Aliás, nem posso te amar
Porque de repente diminui
A dor que dá mais sentido
A outro amor que rui

É um jogo solitário
No qual julgo o que sinto
Em cujo resultado eu minto
E acredito feito otário

É a armadilha do sentimento:
Negar derrota não é vencer;
Sentir dor não define valor;
Usar consciência para agir
Não é apagar o inconsciente.

E entre tanto sofrimento
Desnecessário e potente
Entre o aqui e o quase lá
Fica o ser humano sem ouvir
O coração que junto está

Versos: Assim Falou um Coração

Queria saber quem foi que fez
do amor uma queda de braço
Uma guerra carente de sensatez
travada com armas invisíveis
que machucam mais que o aço:

— Um arsenal composto de medos
De amar mais, de amar menos
Amar demais, amar de menos,
Amar diferente, de mentira
e a mentira e seus enredos

Classificar o amor
com rótulo e valor nutricional
O que faz bem, o que faz mal
Valor diário, caloria, calor
Para não ter pouco e nem excesso

Quem pode e não se poderá ter
Faz só o estranho ter caráter
Quem está próximo até ama também
Mas é sem graça e calmo demais
E o amor quer aventura, meu bem

Que cheguem perto, porém não muito
Querem tudo e não querem nada
Nada deles nesse tal de Outro
Como o investidor mais afoito
Querem o outro sem dar de si —

Não ganharão nada desse jeito
Fico aqui batendo nesse peito
Tentando mostrar o que me aflige
E o que vai virar fuligem
Depois que o “amor ardente” queimar

Amor não queima, não congela
Não evapora e não transforma
Ele esteve contigo e com ela
Nos minutos despretensiosos
Que construíram o passado

Amor não quer amar
e nem ama apenas um
Ama por não ter escolha
e deixa o ego espernear
sem esforço algum

Amor só segue as regras
criadas por quem é amado
não é a regra social:
nem a que jaz em pedras
nem a que se é obrigado,

amor livre que se restringe
por tanto amar com razão
não em físico, mas em essência
que ademais é consciência
e toque só vira expressão

Amar com razão, amar quem fez
do amor um carinho de ouvir
caminhar e trilhar, ver dormir
juntos sem motivo, sorrir
pelo acaso que não os deixou separar

Amar quem lembrou que vai perder
E quis pouco achando que era tudo
que ao saber da tristeza
quis compartilhar a felicidade
em vez de fugir

amar quem sonhou ser a chuva
por entender que às vezes
é preciso deixar o Sol brilhar sozinho
mas que é preciso ter a certeza
de que vai voltar

Versos: Mausoléu do brilho

o teto do mundo
agora cinza
em terra estranha
me lembra praia
e chuva que banha
a rua e eu fico
trancado em casa
vendo as nuvens
aqui, longe
do lugar do lar
trocando poréns
e batendo papo
com o céu
cheio de estrelas
um mausoléu
do brilho
quando negro
empecilho
pra mim
que só queria
um dia cinza
frio
e parcialmente seco

Versos: Memento Mori

Também existe fim para os imortais
Sem arrependimento, sem sofrimento
A liberdade de não querer nada mais
Marca a chegada do momento

Só temos menos tempo
Vida valiosa voa, voraz
Diante dela, desatento
O valor fica para trás
Procurando um instante
Que repetido, incessante
Cria a desejada eternidade
Que não existe no tempo

Meu sonho é de imortal
Morrer a cada hora
Capaz de valer uma vida
De tão normal

Certo do tempo desigual
Termina depois ou agora;
Mas o sorriso convida
A morte natural

Morrer não acaba com a vida
O que mata é
Viver sem lembrar de morrer

Não estarei aqui para sempre
Não estarás aqui para sempre

Versos: Letras, Palavras e Etc

Um ‘c’ estava em falta:
Ele faria uma oração
Transformar meu coração

Aí querendo um pouco de ‘arr’
Eu fiz de um anjo
Só uma peça de arranjo

Coloquei um ‘f’ em ‘oi’
Não demorou muito
Disse tchau e já se foi

Tentei um ‘a’ em ‘dia’
e nada mais pude fazer
até chegar o amanhã

Sem desistir, repito o ‘a’
Dessa vez em um pelo
E de repente faço um apelo:

‘Fale!’ para um pedaço da cidade
E no meio de tantos que não falaram
Sobrou uma cidade falecida

Quando quis ser ouvido
Parei a frase, segui falando
E só consegui parafrasear

Dor não ventila do ventilador
porque eu acredito mais nos atos
quando o ‘f’ os torna fatos

Pena que muita gente já não ama
sem deixar de usar o ‘c’
que só nos leva para cama