I
Esperava a vez no banco
Ao lado do cartaz de cancro cítrico
Pode parecer um tanto atípico
Mas essa vida eu ia levando
Era só uma criança
E pouco de tudo eu sabia
Preso sem chance de fiança
Ouvindo histórias da pradaria
Interior no interior do coração
Nem a cidade pode desenraizar
Já sabia, fiz de conta que não
E parti pra testar o meu azar
Com mais um par de nós desfeito
Nada fiz, nada conquistei
Posso nem ter vivido direito
Porque tal direito não é lei
No inverso do verso, jaz meu universo
De sangue nos olhos, lágrimas nas veias
Nu no inverno, na praia de terno
Vendo só uma coleção de areias
Invejo as vidas que não tive
E água escorre dos meus olhos
Esperando que na rota em declive
Ouça algum aplauso dos auditórios
Só cai a gota em silêncio
Sobre a pedra do passado
Criando uma marca escura
II
Mas quando anoitece
O céu é ainda mais escuro
E quando a água dele desce
Já não vejo as marcas
Das pequenas lágrimas
E a humihação não se encerra
Pois choverá sobre a terra
Ainda que não possa chorar
Eu sou passageiro
Vou passar até que ligeiro
E mesmo que tivesse outras vidas
Passaria também
Até minha insignificância
é insignificante
E só conforto traz
a quem vira um cartaz
de cancro cítrico
sem alerta à infância
para cuidar da semente
em nosso íntimo.
30/07/2012 – 20/12/2012
Tinta, papel, coração Todos juntos aqui na mão Pra ver se sai Pra ver se sai Um pouco do que jaz em mim Daquilo que não deixo sair Pra não perder
15/09/2012 (em carta)