Previsão por MD5

É bem verdade que acertei em cheio na previsão anterior. Mas nem vou abusar da sorte.

Então vou fazer uma previsão por MD5. Assim fica o registro, ainda posso me gabar no caso de acerto, e não preciso me comprometer no caso de erro — embora ainda vou admiti-lo, se esse for o caso.

A previsão: e956ba1a4f596f249712710f94012e27 será candidato político, provavelmente deputado, nas eleições do ano que vem.

Para quem desconhece, esse código acima se chama “hash” e está no formato MD5. Se eu acertar a previsão, posso revelar qual o nome do sujeito que está “hasheado”, e todos poderão obter esse mesmo código fazendo o hash. Um detalhe dos hashes é que elas não são feitos para serem decodificados, e de fato existe mais de uma combinação de palavras que pode gerar um mesmo hash, então, a não ser que eu diga qual foi o nome que usei, não é possível ter certeza do que quero dizer com esse MD5.

Lula: Pré-sal é um presente de Deus

[ atualização ] — Lendo o discurso completo, percebi que Lula não disse que é um “presente de Deus” e sim que o Petróleo “[foi algo] que Deus nos deu”. Ainda assim, o sentido é o mesmo.

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Lula afirmou em seu discurso de sete de setembro transmitido pela TV em rede nacional hoje, às 20h, que o pré-sal é um “presente de Deus” nos foi “dado por Deus”, como um presente.

Como as reservas do petróleo são resultado da sedimentação de fósseis, e os fósseis só existem porque ali morreram muitos animais, entende-se que a morte é um presente de Deus. E antes que alguém diga que o ser humano é imortal, é bom lembrar que tal condição não existe para todos os animais que morreram para formar os fósseis que ali se depositaram. Ou seja, tchau, até nunca mais, babacas.

Logo, Deus presenteia os seres humanos assassinando outros animais. Alguém precisa chamar o IBAMA. Quantas espécies foram extintas só para nos dar este presente?

E já que é um presente de Deus ao povo brasileiro, bem que poderia estar escrito na Bíblia. “Se você é brasileiro, espere até o petróleo ser um recurso essencial no mundo e depois vá procurar por ele na latitude -20.322644, longitude -40.341139, certo? Beijo me liga.” Os geólogos da Petrobrás que estudaram anos para descobrir aquilo bem que gostariam de ter recebido a dica. E certamente eles não são ateus, porque seria muito irônico que houvessem ateus numa equipe que encontrou um presente de Deus, então eles leram a Bíblia.

Mas infelizmente não encontrei esse trechinho no livro Segredo Sagrado. Deus não teve assessor de imprensa, nem funcionário encarregado de Relações Públicas. Aliás, deve ser por isso que ninguém consegue concordar a respeito do que exatamente está escrito na Bíblia e abrem uma igreja nova para disseminar sua versão da história. Geralmente é esse pessoal de comunicação que dá uma luz quando o público está em dúvida.

Vamos lá, Deus, o que custa ter um assessor de imprensa? Eu até te recomendo o pessoal da Burson-Marsteller. Eles fazem assessoria do Bradesco e da Symantec; certamente vão poder te ajudar também. Se achares muito caro, tenho uma multidão de colegas da faculdade que gostariam de um estágio, mesmo que com pouca remuneração.

E Deus, se o petróleo é um presente teu para um país Cristão como é nosso lindo Brasil, por que afinal destes tanto dele para os árabes, que veneram um Deus chamado de Alá que dizem ser igual a ti mas é apenas um em vez de três?

Senso de humor é presente de Deus.

Orkut não entende de política

No Brasil, "liberal" é direita.

Clique na foto para ampliar.

O Google não sabe que, no Brasil (e em boa parte do mundo), “liberal” é uma pessoa de direita, pois trata-se do liberalismo econômico. Só nos Estados Unidos e na Inglaterra — e outros países de língua inglesa — é que os liberais são de esquerda — embora os “liberais de esquerda” não sejam diferente dos “socialistas” e “comunistas” de esquerda de outros países, apenas um pouco mais moderados.

Avisei-os deste erro grosseiro, que poderá deixar pessoas atentas confusas, há algum tempo. Nada foi corrigido, como infelizmente é o procedimento usual.

Em notícias relacionadas, a filha de 17 anos da candidata à vice-presidência da chapa Republicana nos EUA está grávida. Ótimo exemplo para o povo norte-americano ter, como disse a candidata com a retórica usual, uma menina que “amadurecerá mais rápido do que o planejado”.

Mas é de se esperar, vindo de quem vem; os Republicanos mais extremistas recusam-se por completo a usar qualquer tipo de anticoncepcional, preferindo a “proteção divina”. A educação sexual sugerida pelos Republicanos é “a educação de abstinência” que, como bem disse Roy Zimmerman, é como querer “ensinar a usar o banheiro mandando segurar“.

Educação é a solução. Ou não.

Quando foi que “isso se resolve com educação” virou uma resposta quase universal para qualquer problema?

Talvez eu seja apenas jovem demais para lembrar que tal discurso sempre esteve presente. Mas na minha observação das coisas, esta idéia tem ficado muito mais presente nos últimos anos. Na TV, em conversas de bar, na sala de aula, nos fóruns (online ou não), nas notícias e até nos programas de auditório no domingo. É a mesma conversa.

O estranho é que, lendo fóruns estrangeiros como Slashdot, a educação é muito menos mencionada como solução. O que poderia significar um fenômeno brasileiro.

Se minha observação está certa, só posso dar crédito ao senador Cristovam Buarque, provavelmente o homem mais inteligente que já tentou ser presidente desta nação. Nas eleições de 2006, Buarque apresentou uma solução para a maioria dos problemas brasileiros com base na educação.

Buarque disse, no último debate do primeiro turno, que tinha alcançado o objetivo que queria com sua campanha: colocar a educação no debate político. Se era isso mesmo, seu sucesso foi apenas parcial: considera-se a educação como solução, mas não se discute a educação si.

Não é possível adotar um discurso como o de Buarque sem o fazer em sua totalidade. O senador tinha planos para mudar a educação brasileira e não simplesmente melhorá-la. Não se estava falando em simples melhorias (PDE?), nem em reforma. Estava-se falando em demolir o que se tem e fazer algo do zero, começando pela federalização da educação básica, o que mudaria por completo a operação das escolas.

A educação só será solução se a transformarmos em solução.

O plano de Buarque não era simplesmente melhorar o acesso às escolas, ou construir prédios melhores. A idéia era fazer da educação uma solução para o Brasil.

A educação brasileira, como é hoje, não é uma solução. Pois nunca se diz, para si mesmo, que o problema é “falta de educação”.

— Você ( fuma | cheira | bebe ) demais, vai se matar assim…
— Pois é, me faltou educação.

É assim que acontece? Não. Pelo contrário — as pessoas têm informação e ignoram.

— Você ( fuma | cheira | bebe ) demais, vai se matar assim…
— Eu sei, mas parar é tão ruim. Prefiro continuar.

A educação não é uma solução que serve apenas para outros. Se a educação é uma solução para o Brasil, ou para o mundo, ela é uma solução para todos. A educação não precisa ser apenas a divulgação de conhecimento e idéias ao cidadão comum (comunicação). Mas é o que a educação brasileira é hoje: ela informa, mas não cria consciência, não convence. E essa educação não é solução para nada.

Certamente não é solução para a violência. Nos Estados Unidos é preciso o equivalente a um mestrado no Brasil para praticar várias profissões, inclusive Direito. As escolas públicas são acessíveis para quase todos e as universidades públicas, apesar de pagas, são baratas na economia norte-americana. E nada disso impede que os Estados Unidos tenha mais de dois milhões de cidadãos habitando suas prisões e uma taxa de homicídio maior que a da Argentina1.

Educação, portanto, não resolve automaticamente o problema da violência.

Na mesma linha, afirmo que educação não resolve nada automaticamente, mas pode, e precisa, ser uma ferramenta importante no combate à vários tipos de problemas. As brigas pelo ensino do criacionismo nas escolas e as altas taxas de AIDS nos EUA sugerem que existem problemas sérios na educação do país — e isto precisa ser analisado para determinar onde exatamente as coisas falham por lá, para então desenvolver um sistema educacional que não considere apenas o indivíduo maquínico-capitalista, mas também célula-social-pensante.

Que não se discuta, portanto, se a educação pode ser uma solução para um problema. Mas que seja pensado, sim, como fazer da educação uma solução, ou uma importante peça no quebra-cabeça de construção de soluções.

E se você quiser sugerir a solução pela educação, diga como, pois este é o verdadeiro desafio. Pensar ‘como’ ajudar a criar bases mais sólidas para nossas próprias convicções, obtidas, muitas vezes, acidentalmente. Já dizia Einstein: simplifique tudo o quanto for possível, mas não mais do que isso2.

  1. Justiça seja feita, a taxa argentina é 5 vezes menor que a brasileira.
  2. Tradução livre de “Make everything as simple as possible, but not simpler.”. Fonte: QDB

Plágio de projeto de lei

Sei já faz um bom tempo que leis não são protegidas por direito autoral. A lei 9.610/98, no incisivo IV do seu artigo nº8, lê:

Art. 8º Não são objeto de proteção como direitos autorais de que trata esta Lei:
[...]
IV – os textos de tratados ou convenções, leis, decretos, regulamentos, decisões judiciais e demais atos oficiais

É bom ver que a lei só fala sobre leis e não projetos de lei. Porém, uma vez uma lei aprovada, ela pode ser copiada, tornando este pequeno detalhe irrelevante.

Mesmo assim, um projeto, aprovado ou não, que foi pauta em uma Câmara de Vereadores ou Assembléia Legislativa, pode ser copiado por um vereador ou deputado estadual de outra cidade ou estado, sem mencionar o projeto original. Isso para mim é plágio, independentemente do que diz a lei de direito autoral.

É plágio não porque o deputado/vereador não devia copiar o projeto. Projetos bons devem ser copiados, sem dúvida. É plágio porque ele toma para si a autoria do texto. E políticos tem algo para ganhar ao apresentarem bons projetos. Mas e se os bons projetos “meus” são todos de autoria de outros?

É claro que muitos projetos são alterados várias e várias vezes antes de sua aprovação, o que significa que o texto final pode ser irreconhecível para quem viu somente o primeiro “rascunho”. Ainda sim, o crédito da idéia do projeto ainda é do político que o criou e devia ser preservado.

Honesto o político que der crédito onde o crédito é merecido.