É tanta gente postando “feliz dia da mulher” (ou uma das centenas de variações) no Facebook que eu quase sinto uma obrigação cívica de clicar em “curtir”, “compartilhar”.
Quase.
Seguindo aquela regra simples de não façais aos outros aquilo que não quereis que vos façam1, eu não posso parabenizar ninguém por ser mulher. Nem quero ser parabenizado por ser homem. A história está cheia de homens (e mulheres) que fizeram coisas terríveis. Eu ser homem não me impede de ser alguém terrível. Não quero me orgulhar disso, porque o orgulho cego e burro é o primeiro passo para ser, de fato, cego e burro.
E tem muitas mulheres e homens incríveis, também. Mas o que permitiu isso não foi, evidentemente, o gênero com o qual nasceram. Foi a vontade, o desejo, a capacidade de pensar e transformar o meio. Para ser como eles, é necessário atribuir essas grandiosas conquistas às atitudes que de fato as permitiram acontecer.
E isso nada tem a ver com os cromossomos.
Infelizmente, as mulheres tiveram menos oportunidades devido a uma sociedade que até hoje as vê como inferiores. Porque em um mundo onde dinheiro é o sinônimo de poder, as rendas inferiores das mulheres são, sem sombra de dúvida, a maior prova do preconceito idiota que permeia esta civilização “pós-moderna”.
A solução para esse problema veio atravessada: criar um dia que celebra as mulheres por serem mulheres. Não pelas conquistas que elas obtiveram como seres humanos – como os homens sempre foram julgados -, mas por serem mulheres. Como se as demais conquistas, reais e que demandaram esforço, fossem óbvias porque elas são esses seres grandiosos: mulheres.
E é esse “ser mulher”, definido, naquele elogio torto de que ela deve ser linda e demorar para se arrumar, ser necessariamente frágil e forte, chorona e sensível, é esse ser mulher que confina as mulheres no mesmo espaço restrito ao que elas sempre ocuparam no decorrer da história e do qual foi tão difícil escapar.
Volta-se a defini-las, a (de)limitá-las. A lhes dar um papel “de cuidar”, “de amar”, de “ser mãe” ou o que o valha — sua mensagem preferida no Facebook pode variar, mas tanto faz. Essa lógica de tentar unir e dar igualdade enquanto se divide e define diferenças, de dar liberdade enquanto se define o que se espera e como se deve ser, obrigando as pessoas a serem desse ou daquele jeito, é um tanto sem sentido, quase vil.
Não é válido julgar seres humanos pelo gênero ou aparência, nem pelo número do QI. Valem as dificuldades vencidas e a noção de justiça que permite saber que o respeito é ganho quando é merecido e conquistado, por atitudes e iniciativas, por transformações e por ideias – não por uma data marcada no calendário.
Para esses indivíduos, o desafio é fazer de todos os dias mais um dia que valeu a pena ter vida. Porque sabem que chega o amanhã, mais um dia qualquer quando já se acabaram os elogios gratuitos e a enaltação cívica obrigatória – nunca merecidas, e que só confundem na hora de saber do que realmente é preciso se orgulhar.
- Tem a versão Budista, que é “Não atormentes o próximo com o que te aflige.” ↩


