Sucesso no Brasil não é feio. Pelo contrário.

Há quem diga que o sucesso no Brasil é feio. Que não é bem visto. Que ser famoso não é bonito. Etc.

Tenho que discordar. Aos meus olhos, a verdade é bem o contrário. O ser famoso, no Brasil, é lindo. E exagerado – especialmente nos peitos e na bunda, ou talvez na magreza, se for mulher. Tem um rostinho amável de se ver. A voz não importa muito: pode ter sotaque de interior, com péssima dicção e pensamentos tão desorganizados que seriam melhor entendidos no SAP e mais bem aproveitados no Mute. Mas repito: isso não importa. O ser famoso é lindo.

E todo mundo quer ver o sucesso. Nas revistas, nos jornais, na TV. Na Playboy, se for possível, também. Mas ninguém quer ver o famoso num teste de conhecimentos gerais sério. Mas não é porque não fazem questão de saber que a pessoa é inteligente ou não, mas porque todos já sabem o resultado. E não tem graça ser informado a respeito do que já se sabe. Quando tem algo assim, chamam de Concurso de Inteligência. Mas o nome ideal seria diferente: a avalanche do fútil.

Mas nada disso retira crédito do fato: o sucesso é (e está) no lindo, não no feio. O sucesso quer ser visto, não escondido.

Então não compreendo esta história que contam sobre a feiúra do sucesso e da fama no Brasil. É claro que muitos são invejosos, mas o fato é que a grande maioria das pessoas possui a inveja quero-ser-como-ele(a), não a “inveja (sic) desprezadora”, aquela que tenta repensar os valores da sociedade.

O outro fato é que o ditado de “sucesso é feio” serviu como uma luva para as pseudocelebridades que, incapazes de lidar com crítica e de reconhecer que sua fama pode estar imersa na futilidade, precisam de um ditado superficialmente profundo para justificar sua própria superficialidade.

O que mostra mais uma vez a falta de reflexão. Porque o barco só encalha em mares rasos.

Pastor: o LHC é um símbolo do orgulho humano

Hoje pela manhã um pastor fez seu “comentário” no rádio — no maior estilo “colunista”, como se tivesse credibilidade para isso –1 descrevendo o LHC. Achei que o pastor talvez falaria algo de bom sobre o projeto, que é resultado da colaboração intensa entre vários países diferentes.

Mas não. Depois de apresentar os números e custos do projeto, disse que o LHC é um “símbolo do orgulho humano” porque busca “entender como o universo iniciou”. Desnecessário, é claro, já que todas as respostas estão na Bíblia: “leia a Bíblia”, disse, “lá tem tudo que você precisa saber a respeito de onde você veio e para onde vai”.

Penso ser muito irônico alguém fazer um comentário assim no rádio, um veículo de comunicação que só existe devido à ciência por ele criticada. Se pessoas só lessem a Bíblia, ele jamais estaria fazendo esse comentário no veículo em que fez.

“É Deus que ilumina os cientistas para que façam suas descobertas!”, gritam alguns. Discordo. Como Darwin teria sido “iluminado” para descobrir algo que contradiz a Bíblia? Ah, mas ele mente, dizem os religiosos. É muito estranho, então, que apenas descobertas com as quais eles concordem sejam aceitas. As outras, inconvenientes, são de origem demoníaca.

Se as pessoas só lessem a Bíblia, ainda acreditaríamos que o Sol gira em torno da Terra, como diversas passagens bíblicas afirmam.

A pior parte foi quando o pastor disse que estão “tentando provar que Deus não existe” e que “nunca conseguiram isso” e “jamais vão conseguir”. Dois erros: eles não estão tentando fazer isso e eles nunca tentaram. A terceira afirmação é correta porque nunca se prova um negativo. Prova-se um positivo, como a existência de evolução das espécies. As consequências disto têm implicações no que está escrito na Bíblia, mas isto não é considerado como “prova” pelos cristãos (sem contar que interpretações da Bíblia variam mais do que a temperatura em Curitiba).

A outra pérola a respeito do LHC veio de um cristão espírita em comentário no site do jornal Zero Hora sobre os temporais que atingiram o Rio Grande do Sul. Foi o LHC que causou tudo, diz. Como sei que ele é espírita? Veja você mesmo.

Pessoal, por favor, deixem a humanidade seguir em frente. Obrigado.

  1. Se um jornalista dissesse isto, seria linchado. Porém, como aqui é um pastor que está dizendo, reclamar é “discriminação religiosa”. E viva ao Flying Spaghetti Monster.

Lula: Pré-sal é um presente de Deus

[ atualização ] — Lendo o discurso completo, percebi que Lula não disse que é um “presente de Deus” e sim que o Petróleo “[foi algo] que Deus nos deu”. Ainda assim, o sentido é o mesmo.

————————–

Lula afirmou em seu discurso de sete de setembro transmitido pela TV em rede nacional hoje, às 20h, que o pré-sal é um “presente de Deus” nos foi “dado por Deus”, como um presente.

Como as reservas do petróleo são resultado da sedimentação de fósseis, e os fósseis só existem porque ali morreram muitos animais, entende-se que a morte é um presente de Deus. E antes que alguém diga que o ser humano é imortal, é bom lembrar que tal condição não existe para todos os animais que morreram para formar os fósseis que ali se depositaram. Ou seja, tchau, até nunca mais, babacas.

Logo, Deus presenteia os seres humanos assassinando outros animais. Alguém precisa chamar o IBAMA. Quantas espécies foram extintas só para nos dar este presente?

E já que é um presente de Deus ao povo brasileiro, bem que poderia estar escrito na Bíblia. “Se você é brasileiro, espere até o petróleo ser um recurso essencial no mundo e depois vá procurar por ele na latitude -20.322644, longitude -40.341139, certo? Beijo me liga.” Os geólogos da Petrobrás que estudaram anos para descobrir aquilo bem que gostariam de ter recebido a dica. E certamente eles não são ateus, porque seria muito irônico que houvessem ateus numa equipe que encontrou um presente de Deus, então eles leram a Bíblia.

Mas infelizmente não encontrei esse trechinho no livro Segredo Sagrado. Deus não teve assessor de imprensa, nem funcionário encarregado de Relações Públicas. Aliás, deve ser por isso que ninguém consegue concordar a respeito do que exatamente está escrito na Bíblia e abrem uma igreja nova para disseminar sua versão da história. Geralmente é esse pessoal de comunicação que dá uma luz quando o público está em dúvida.

Vamos lá, Deus, o que custa ter um assessor de imprensa? Eu até te recomendo o pessoal da Burson-Marsteller. Eles fazem assessoria do Bradesco e da Symantec; certamente vão poder te ajudar também. Se achares muito caro, tenho uma multidão de colegas da faculdade que gostariam de um estágio, mesmo que com pouca remuneração.

E Deus, se o petróleo é um presente teu para um país Cristão como é nosso lindo Brasil, por que afinal destes tanto dele para os árabes, que veneram um Deus chamado de Alá que dizem ser igual a ti mas é apenas um em vez de três?

Senso de humor é presente de Deus.

Nos bastidores da Rádio Gaúcha

Integrante do maior grupo de comunicação gaúcho (RBS), a rádio Gaúcha é a emissora de notícias de maior audiência do Rio Grande do Sul. Como parte da disciplina de Radiojornalismo I, que curso às sextas-feiras, visitei ontem, com o pessoal da turma, os estúdios e a redação de jornalismo da Rádio.

Constatei que a RBS usa Dell. E também que os estúdios, onde normalmente vão visitantes (tais como entrevistados), são mais bonitos do que a redação, onde há mais computadores velhos do que se poderia esperar do maior grupo de comunicação do RS. Os monitores ainda são todos CRT, muitos ainda de 14″. Já nos estúdios, vê-se LCDs.

Os corredores são apertados e o teto baixo. Dizem estudos científicos que o teto baixo limita a criatividade das pessoas, forçando as a serem detalhistas. Se isto acontece lá, não sei. Sei que o estúdio ao vivo foi visto apenas por uma janela.

Contrasto isto com a minha visita ao Grupo Sinos, no primeiro semestre do ano passado. É outro grande grupo de comunicação do RS, mas muito menor do que a RBS. Operam a rádio ABC 900 AM. Na redação, todos os computadores, praticamente, eram novos, operando com LCDs de 17″ e 19″. Nos PCs dos editores, os monitores estavam dispostos na vertical para permitir melhor diagramação das páginas. O guia que nos acompanhou no jornal afirmou, na ocasião, que era a redação mais bem equipada do RS. Duvidei, mas hoje não duvido mais.1

É claro que esta comparação fica um pouco injusta, pois é bem provável que as redações da Zero Hora e, principalmente, da RBS TV, sejam de melhor qualidade que os da Gaúcha. Mas esta não é a principal questão que me chamou atenção — afinal, são apenas equipamentos. O que me chamou atenção foi que, em nossa visita à Rádio ABC, não apenas entramos no estúdio — onde Jorge Antunes apresentava um programa — mas também participamos ao vivo.

Na RBS, no mesmo horário, nem fomos permitidos a entrar no estúdio. Repara-se aí a diferença das duas rádios.

Que tipo de definição pode-se dar a isso eu não sei. Quem concorda com a RBS poderá dizer que eles foram mais profissionais e que a ABC não é inteligente por deixar que uma simples visita de alunos (de início de curso) interfira na rádio. Quem discorda dirá que é conservativismo. Dependendo da visão política, poderá dizer que a RBS é mais capitalista e refém dos anunciantes. Na questão artística, poderia se dizer que a Quarta Parede é mais protegida na RBS.

Independentemente de adjetivos, o fato foi este. E vai me servir de combustível para reflexão, quando me sobrar tempo.

Tela azul no fim do dia

Já em São Sebastião do Caí, às 23h15 da noite, deparei-me com uma BSOD (Tela Azul da Morte) em um PC de uma loja de informática. Antes de ser uma loja de informática, ali era um bar (ironicamente, o bar tinha o nome de “Einstein”). O pessoal da loja deixa os computadores ligados a madrugada inteira para rodar filmes, animações e outras coisas.

Um dos PCs estava com uma tela azul. O outro estava com um filme parado e bugado. Acredito que ele estava lendo aquele filme a partir do PC travado, por isto o erro.

Imagina se dá uma BSOD no PC ao vivo da rádio?

– “Pressione CTRL-ALT-DEL…” Oops. Prezados ouvintes, vou continuar lendo a notícia assim que o computador terminar de reiniciar.

  1. Não lembro qual o OEM das máquinas no Grupo Sinos, infelizmente. Talvez nem sejam OEM. Na Unisinos, todas as máquinas são IBM.

Debate com vozes ausentes

Debate — s.m. Discussão; contestação; disputa.

Discussão — s.f. 1. Ação ou efeito de discutir. 2. Polêmica; controvérsia; debate. 3. Briga; desentendimento; troca de insultos.

Fonte: Dicionário Luft

Se existem debates orwellianos1, certamente estive em um nesta noite do dia 12. Para minha classe de Redação Jornalística, fui obrigado a participar de um evento da universidade que tratou da atual polêmica acerca da manutenção ou não da exigência do diploma de jornalismo2.

A universidade promoveu o evento como um debate. Para não ser injusto, o chapéu/cartola da matéria na página principal do Portal3 — que é o site mantido pelo pessoal do curso de Comunicação Social da universidade — é “Palestra” e o título “Jornalistas a favor do diploma” (provavelmente vão mudar hoje mais tarde). Mas no texto de chamada o encontro já recebe o nome de debate, como no título da matéria.

Foi um “debate” onde as vozes dissonantes estavam ausentes. Todos os quatro participantes do “debate” defendiam a mesma posição, portanto não houve “contestação”, nem “disputa”, nem “polêmica”, nem “controvérsia”, nem “desentendimento”.

Eu estava empolgado para ouvir o Celso Augusto Schröder, que é vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (e irmão do Carlos Henrique Schröder, diretor de telejornalismo da Globo — aquele cujo nome aparece no fim de todos os telejornais como “diretor responsável”), mas ele não esteve lá e nenhuma explicação foi dada sobre a infeliz ausência.

Não que ouvir um lado só seja intrinsecamente ruim. Certamente, a universidade e boa parte dos professores querem que o diploma continue. Mas o monólogo fica entendiante, como o auditório quase vazio evidenciou ao fim da palestra.

Às vezes, enfrentar o outro lado mostra quem está mais preparado, quem fundamentou melhor os argumentos. O próprio embate, se evidenciar o despreparo dos adversários, acaba sendo uma ótima propaganda para aquilo que se quer defender. De quebra, bons debates são emocionantes e, por apresentarem mais de um lado da história, jornalísticos.

Minha opinião sobre a manutenção do diploma? Não sei mesmo. O que sei é que o José Nunes, presidente do Sindicado dos Jornalistas do RS, apenas disse que a Internet é uma questão “complicada” quando o questionei a respeito dos efeitos da manutenção do diploma na web. Se iniciativas como o VC no G1 e Wikinews serão sepultadas com a exigência, sou contra. E para o pessoal da FENAJ, ter todo cidadão como jornalista é algo “francamente impossível“, embora esta tenha sido a premissa do bem-sucedido OhMyNews desde sua concepção.

Se fôssemos procurar por um meio-termo nesta história, talvez manter a necessidade do diploma apenas para o rádio, para a TV e para a assessoria seria uma boa idéia, terminando a exigência para revistas, jornais e sites de internet. Regulamentar é interessante, mas seria mais interessante se fosse uma lei bem pensada e não um decreto-lei da ditadura originalmente concebido para censurar a imprensa. 3.

Independentemente da decisão do STF, não cancelarei meu curso.

  1. Importo aqui o conhecido adjetivo inglês “orwellian”: relativo à George Orwell no seu livro 1984, onde eufemismos eram usados para embelezar a opressão e as péssimas condições de vida.
  2. Que os sindicalistas costumam dizer que vai acabar com a profissão. Uma falácia de bola de neve, considerando-se que a regulamentação é anterior aos próprios cursos de jornalismo e somente a exigência do diploma está em questão
  3. Parece até que sou contra a exigência do diploma em vez de um indeciso. Mas o fato é que ouvi tanta conversa de um lado só que consigo apenas criticar este um lado… As críticas ao outro lado me parecem redundantes, considerando o quanto ele foi atacado.

Pedofilia não é abuso sexual infantil

Na TV, usar “pedofilia” no lugar de “Estupro de crianças” ou “Abuso sexual infantil” é normal1. Este é um erro da mídia que vai ter conseqüências muito maiores do que simplesmente a troca de “cracker” por “hacker”, pois confunde uma condição psicológica com um ato criminoso.

Pedofilia é uma parafilia caracterizada pela atração por crianças que ainda não atingiram a puberdade. Mais especificamente, o pedófilo é mais atraído por menores de idade do que por adultos ou adolescentes. Pedofilia é a atração, o desejo.

Abuso sexual infantil explica-se sozinho. É o ato em si.

Um pedófilo não precisa, necessariamente, abusar sexualmente de crianças, assim como um homem adulto normal não precisa, necessariamente, estuprar mulheres adultas. É claro que, considerando-se que um pedófilo dificilmente vai encontrar uma criança que realmente queira ter relações com ele, praticamente todo ato sexual de um pedófilo motivado pelo seu fetiche será um abuso.

Porém, nem todos os casos de abuso sexual de crianças é praticado por pedófilos. Na verdade, a maioria dos estupradores de crianças não é pedófilo. Existem diversos estudos que dizem isso — não estou inventando nada.

Da mesma forma, nada proíbe um pedófilo de conter seu desejo e ter apenas relações sexuais saudáveis. A pedofilia só se torna um problema de verdade quanto o ato do abuso é realizado.

Para tornar pedofilia ilegal é necessário policiar pensamentos.

Nada contra proibir o crime de estuprar uma criança. Jamais. No entanto, isto não é pedofilia. Isto é sexo com crianças. Pedofilia é uma parafilia, uma desordem mental e não o ato — assim como depressão não é suicídio. É bem provável que estupradores de crianças tenham problemas mentais diversos — especialmente por procurarem um “parceiro” que não pode se defender –, mas não necessariamente precisam ser pedófilos.

Pedofilia é um problema, mas o que leva alguém a violentar e ignorar a vontade de outras pessoas é ainda outro problema.

  1. É bem verdade que os jornalistas precisam de sinônimos para não repetir a mesma palavra infinitamente, mas existem restrições! Não se pode apropriar-se de palavras “próximas” sem avaliar as conseqüências.

Se está na sua Internet, está na minha também

Não é preciso ser vidente para prever a morte dos jornais. Esta já é uma previsão tão repetida que seu autor só pode ser o coletivo — é domínio público, sem direito a citação de fonte. Poucos levantam a mão quando recebem a oportunidade de ser a voz dissonante. É como o fim do mundo: há de acontecer, e, mesmo que todas as previsões que marquem a data falhem, nunca deixará de ser verdade.

É evidente, no entanto, que é possível, hoje, ser um cidadão bem-informado sem o auxílio dos jornais. Isso prova que eles não são mais essenciais — são substituíveis e estão sendo substituídos. A morte plena e completa dos jornais talvez nunca venha a ocorrer, como é o caso do vinil, mas todas as grandes publicações irão usar algum método alternativo de distribuição do jornal que não seja o papel.

Em outras palavras, mesmo que o formato “jornal” não acabe, o papel está condenado. Talvez as revistas, por serem melhor material de arquivo, ainda sobrevivam. No livro A Arte de Fazer um Jornal Diário, o jornalista Ricardo Noblat diz que a sobrevivência dos jornais só será possível por meio de projetos gráficos mais inteligentes e da substituição de notícias velhas por reportagens especiais contendo acertos na hora de analisar o que ainda está por vir.

Efetivamente, entendo isso como uma ordem para que jornais tornem-se revistas.

Seja lá o que o futuro reserva para estes meios de comunicação, a Internet mudou o jornalismo duas vezes. Em primeira instância, deu ao jornalismo (e a qualquer outra comunicação) a propriedade de transmissão muitos-para-muitos, antes inexistente. Leitor e escritor confundem-se. O receptor de uma mensagem pode ser o emissor dela no momento seguinte. O feedback é instantâneo.

Em segunda instância, a internet mudou o jornalismo por servir como uma nova fonte de informação não-volátil. Isso não acontece desde a invenção da imprensa. Rádio e TV são mídias voláteis, quer dizer, não é possível captar mais tarde o que está sendo transmitido agora, a não ser que tudo esteja sendo capturado.

O serviço de “capturar”, exercido por jornalistas radioescutas, é valioso, porque organiza e filtra a informação que é transmitida pelas ondas eletromagnéticas. Se ninguém fizer isso, o público perde muito ao não ser informado a respeito do que foi transmitido em um canal (rádio ou TV) de baixa audiência ou a que poucos têm acesso (por restrição geográfica ou lingüística).

Por isso ninguém tem o direito de rir de um jornalista que ver uma notícia na TV Senado, por exemplo. Ele viu. Muita gente não viu. Se mais alguém precisa saber, é bom noticiar. E descrever em detalhes o que viu, porque obter o vídeo novamente não é fácil.

Por outro lado, qualquer jornalista que usar toda a sua matéria para descrever uma página de internet precisa rever seus conceitos.

Ora, em vez de descrever a página, coloque uma foto. Ou, melhor, me dê o link. Eu vejo por mim mesmo.1

Caso em questão: uma matéria do Los Angeles Times sobre o político norte-americano Sean Tevis. Tevis quer ser deputado estadual pelos Democratas no Kansas, um domínio historicamente Republicano.

Tevis fez em seu site uma charge muito criativa, no estilo geek do xkcd, para pedir doações. E conseguiu impressionantes 95 mil dólares, contra apenas 12 mil de seu adversário.

É claro que isso merece atenção dos jornais.

O LA Times então enviou uma repórter até o estado do Kansas para entrevistar Tevis e sua mãe — esta última por estar envolvida na campanha como responsável por gravar vídeos de agradecimento a quem doou mais de US$500. As entrevistas duraram horas, como conta o próprio Tevis. As entrevistas poderiam ser feitas por telefone ou e-mail, mas a repórter fez questão de ir até lá.

Ir até a notícia é digno de respeito.

O problema é que a matéria do LA Times possui quase nada destas longas entrevistas. Boa parte da matéria é uma descrição da charge criada pelo politico democrata, como se ninguém pudesse simplesmente clicar num link e vê-la por si mesmo. A foto de Tevis que ilustra a matéria é a mesma presente no site do candidato.

Para quem viu o site da campanha, a notícia, que se estende por duas páginas no site, é um amontoado de observações simples e obviedades. Para quem não viu, uma imagem e um link substituiriam boa parte do texto. Se a repórter tivesse feito a matéria usando apenas entrevistas por telefone ou até mesmo MSN, ninguém poderia notar a diferença.

A Internet é uma fonte de informação não-volátil e extremamente acessível, mais do que a própria imprensa. Se menciono um livro ou uma edição passada de um jornal, ter acesso ao texto que me refiro pode não ser nada trivial. Na Internet, a não ser que você viva na China ou em Cuba onde há censura do governo, todas as páginas estão igualmente acessíveis. Descrevê-las em detalhes é desnecessário.

Assim, resumindo, a matéria do LA Times erra em dois pontos. Primeiro ao descrever uma página de internet que qualquer um pode ver, como se fosse conteúdo exclusivo. E segundo por ter gasto dinheiro com uma viagem cujo texto não demonstra que aconteceu.

Aliás, o texto no blog de Sean Tevis sobre a visita da repórter é mais interessante do que a matéria do LA Times. Vale lembrar, Tevis é formado em jornalismo. Sendo geek, provavelmente compreende melhor que histórias sobre eventos e interações corpo a corpo valem mais do que uma cansativa descrição de uma página que qualquer interessado é capaz de ver.

  1. Exceto quando isto não for possível. Um site malicioso contendo pop-ups pornô, por exemplo. Mesmo estes podem ser substituídos por vídeos, porém nem sempre é possível fazer um material de qualidade, por restrição de tempo ou equipamento.

A imparcialidade e a verdade

Continuando o assunto do post anterior, que falava de questões em que a mídia não tem motivos para ser imparcial, trato agora de outra questão: a imparcialidade vs. a verdade.

A pergunta é simples: se um jornal (fictício, óbvio) apresentasse somente a verdade e nada mais do que a verdade, você o compraria, considerando-se que as alternativas restantes são um jornal que publica artigos com os quais você concorda e outro que publica todos os pontos de vista existentes?

É óbvio que preferiríamos (pelo menos no discurso) um jornal que diz sempre a verdade e nunca erra. Porém, quando iniciamos um discurso a respeito da imparcialidade, seja ao prometê-la, seja ao solicitá-la, isso mostra que já desistimos de buscar a verdade, restando apenas a tentativa de mostrar todos pontos de vista existentes, na lógica vazia de que, expondo-os, a sociedade pode escolher qual deles é, de fato, o verdadeiro.

Dei-me conta disso quando li um post a respeito de parcialidade da mídia norte-americana no excelente blog Overcoming Bias. Um comentarista proferiu o seguinte, citando Stephen Colbert:

“Reality has a well-known liberal bias.”

Obviamente, a frase é uma sátira às freqüentes acusações da direita norte-americana (ecoadas por aqui também) de que a mídia é parcial aos esquerdistas (lá, liberal é quem é de esquerda; aqui, liberalismo é a direita; as posições defendidas pelos esquerdistas estadunidenses não são diferentes daqui, é apenas uma confusão de nomes).

Mas, independentemente da visão política, o que acontece se a razão está, de fato, com o lado para o qual a mídia está sendo “parcial”? Como a mídia pode ser acusada de ser “parcial” se está dizendo a verdade? Alternativamente, por que exigimos imparcialidade quando a verdade nos é servida? É melhor ser imparcial e publicar possíveis mentiras do que limitar-se à verdade?

É óbvio que a verdade não é facilmente identificada. Às vezes é muito complexo descobrir o que é verdade. Mas é da habilidade de discernir o falso do verdadeiro deve provir o conceito de credibilidade. Se um determinado instituto de pesquisa ou meio de comunicação erra em suas previsões e matérias, ele não possui credibilidade. Se ele acerta, começa a ganhar credibilidade.

A verdade, no entanto, é que pouco nos importa a verdade1. O que importa é quem diz aquilo com o que concordamos. Todos consumimos telejornais, blogs, jornais e revistas que concordam conosco ou que, pelo menos, não nos ofendem. A verdade, não raramente, ofende. E daí procura-se razões para substituir a verdade por uma mentira mais conveniente e menos ofensiva ao nosso modo de vida.

Nossas solicitações por imparcialidade não surgem, na minha visão, da honesta busca pela verdade e sim da busca por querer que o ponto de vista que temos seja o verdadeiro e seja visto e considerado como tal. Caso contrário, não iríamos reclamar da parcialidade de um outro jornal sabendo que, em algum outro lugar, outro jornal estaria fazendo o mesmo com outro ponto de vista.

Deixe que o jornal seja parcial. Veja o que nele está escrito e veja se ele está certo ou não mais tarde (ou mais cedo, a história tem algumas lições). Mas não tolere argumentos fracos. Ser parcial é diferente de argumentar falaciosamente e proferir meias-verdades, usando comparações e generalizações não-qualificadas. Boa argumentação é o mínimo em qualquer debate.

Se o tal jornal estiver certo a maioria do tempo, quem sabe ele não é um protótipo para o nosso jornal fictício? Certamente, recompensar a imparcialidade em vez da verdade não nos deixará mais perto desta última; pelo contrário, tornará certa a eventual de publicação de mentiras.

É claro que digo acima “jornal”. Porém, não precisa ser um jornal. O jornal pode (tentar) ser imparcial e manter seções de opinião clara (no mínimo, maiores do que as de hoje). Um jornal/colunista que acerta ganha credibilidade. O que erra perde. Eventualmente, ler a “opinião” pode valer mais do que a notícia “imparcial”. Isto é, de certa forma, aliás, o motivo por trás do sucesso de muitos blogs, onde os comentários feitos pelos blogueiros valem mais do que as próprias notícias “imparciais”.

  1. Difícil de provar isso falso (e, por conseqüência, verdadeiro), reconheço. Porém, consideremos a teoria de Agendamento e também o fato de que consumidores de um determinado veículo facilmente concordam com ele e, se não concordam, procuram ler aquilo com o que concordam. Uma professora de português que tive disse que ignoramos sistematicamente as partes de um texto das quais discordamos — talvez existam estudos sobre isso.

Como deixar clara a sua opinião ao fazer uma enquete

Vejamos um belíssimo exemplo de como fazer uma enquete que deixa clara qual a sua opinião sobre o assunto:

Exemplo de como fazer sua opinião aparecer.

Vejamos:

  • A opinião “Sim” tem um argumento fraquíssimo. Tão fraco que nem sei se é verdadeiro. Embora as mulheres pobres sejam as mais afetadas diretamente, todos somos afetados por filhos indesejados: delinqüentes nas ruas, abortos malfeitos que geram custos para o SUS (que a classe média paga, devido ao fato que os pobres pagam menos impostos por consumirem menos), bolsas-família, escola, etc. Obviamente, a questão principal do aborto diz respeito à liberdade da mulher e não aos custos — estes são apenas um bônus.
  • A opinião “Não” tem duas justificativas (em vez de uma só, como no “sim”). Um deles é um argumento pela lei, tipicamente dado por conservadores que defendem o projeto e obviamente redundante aqui, visto que a discussão é se a lei deve ser mudada, e o outro diz que o aborto “aumentaria”, como se abortar fosse algo intrinsecamente ruim1 (outra opinião compartilhada por quem é contra ele).

Não que eu esteja dizendo que o resultado da enquete tenha algo a ver com isso. Em todas as enquetes brasileiras que vi, em nenhuma delas a descriminalização do aborto foi aprovada pela maioria (como eu gostaria que fosse). Porém é a primeira vez que vejo uma diferença tão grande entre as opções.

Na minha opinião, principalmente por se tratar do site da Agência da Câmara dos Deputados, a enquete deveria ter-se limitado ao simples “Sim”, “Não” e “Não sei”.

Às vezes, menos é mais.

  1. Alguém poderia, em outra época, dizer que legalizar o divórcio é ruim porque “aumentaria o número de casais separados”. Hoje a maioria entende que, muitas vezes, ficar junto é pior. Mas, na época, separar-se era intrinsecamente ruim, como o aborto é retratado na enquete.

Quando a mesa de debate não é redonda

A imprensa é o meio pelo qual, teoricamente, as discussões políticas devem ocorrer em um país democrático. Na experiência que tenho, dos jornais da região onde moro, a seção de política está sempre em uma das primeiras páginas, o que denota um certo descaso, visto que muitas pessoas começam a ler o jornal de trás para frente (e, sem surpresas, a seção de esportes fica no “fim” do jornal).

Mas desconsiderando o já existente descaso pela política, que muito provavelmente não é culpa só do jornal e sim dos leitores, o que acontece quando a mesa de debate — a imprensa — não tem motivo algum para dar o outro lado da história? Continuar lendo