Energia nuclear, Fukushima, Chernobyl…

Aqueles que não conhecem a história estão condenadas a repeti-la

Desde que a usina de Fukushima está cambaleando lá no Japão, li as mesmas coisas umas cem vezes já na internet – e alguns especialistas em energia nuclear (sim, eles existem, ao contrário do que pensam os que soltam opiniões no Twitter achando que sabem de alguma coisa) comentaram tudo, mas ficou disperso. Então um resumo (com links):

  • Fukushima já é a uma segunda Chernobyl — Chernobyl explodiu e levou o teto inteiro do reator pro alto, soltando uma quantidade enorme de radiação e espalhando ainda mais nas áreas próximas.
  • Por que não jogam concreto no reator como fizeram em Chernobyl? — Chernobyl explodiu! Depois da explosão, os soviéticos se certificaram que não havia uma nova reação nuclear ocorrendo. Antes de construir o sarcófago (que está em péssimas condições) foi necessário certificar que a massa crítica não tinha condições de formar uma reação nuclear. Soviéticos soltaram elementos neutralizadores no reator antes de construir o sarcófago (se quiser conferir a história, veja o documentário da BBC). Fukushima já tem uma estrutura de contenção feita de concreto e aço. Provavelmente todas as notícias que você leu até agora que algo explodiu não foram sobre essa estrutura, que Chernobyl não tinha, e que só agora teve danos confirmados. Se jogar mais concreto em cima, a única coisa que vai acontecer é impossibilitar o reator de esfriar, garantindo que ele derreta para dentro da solo e contamine a água.
  • Fukushima já emitiu a mesma quantidade de césio e iodo que Chernobyl — O iodo produzido por um reator nuclear mantém sua estrutura apenas por algo entre 7 horas e 8 dias [veja tabela aqui]. O césio dura mais (dois anos), mas tanto um como o outro, por serem “móveis”, acabam se dispersando no ar e sendo diluídos. O perigo maior são isótopos mais fixos que vão agir apenas por volta da área do reator.
  • O problema de Fukushima foi a falta de energia quando os geradores a diesel falharam. Se os reatores tivessem ficado ligados pra fornecer a energia pro resfriamento, teria sido diferente — Chernobyl aconteceu quando os soviéticos tentavam ver se isso era possível. E aí, que acha da ideia? O design da usina de Fukushima é de 1960. Hoje os reatores tem resfriamento passivo e o problema de Fukushima não teria acontecido. Existe sim uma questão séria quanto a reatores velhos que continuam funcionando; inclusive, a Rússia tem ainda em funcionamento reatores RMBK (o mesmo de Chernobyl).
  • Energia nuclear é insegura — Mortes diretas por reatores nucleares são muito poucas. Ajustado para a geração de energia, a geração de energia termoelétrica mata 4 mil vezes mais que a nuclear. Até hidrelétricas matam mais. Confere lá.
  • Energia solar! Energia eólica! — Você poderia cobrir uns bons 15% do Japão com paineis solares que não ia resolver o problema de energia do país. Veja mais em Sustainable Energy Without the Hot Air. Um problema da energia eólica é que sua produção de energia é inconstante. Nossa tecnologia de armazenamento de energia é muito fraca hoje em dia (considere que um no-break que sustenta um computador por 15 minutos pesa 20kg), o que significa que é preciso usinas de desempenho fixo pra “cobrir” a eólica quando ela estiver gerando pouca ou muita energia e assim nivelar a rede (sim, a geração de energia precisa acompanhar o uso)

O maior problema da energia nuclear é o lixo gerado, para o qual ainda não temos um uso claro. Por outro lado, já existem reatores Fast e Breeder capazes de reutilizar o próprio lixo. Se a oposição à energia continuar, nunca vamos saber até onde a tecnologia é capaz de ir.

A geração de energia não é um negócio limpo nem bonito.

Nota

Pessoal reclama de cobrir polícia ou celebridade porque nunca tentou entender como funciona um reator nuclear.

“Eu contava degraus para passar o tempo”

Já que o blog está sem posts, pensei em alimentá-lo com trabalhos da faculdade que não foram publicados. Segue um.


“Eu contava degraus para passar o tempo”

Motoristas de ônibus universitários precisam aguardar alunos que estão em aula sem ter nada para fazer.

SÃO LEOPOLDO, 02/09/2008 – Há dez anos, parte da rotina diária de Almir Koch, 40, permanece inalterada. Koch é motorista de ônibus universitário, transportando alunos da cidade de Feliz, e precisa ociosamente esperar várias horas por dia na Unisinos, aguardando os alunos que estão em aula.

O pior ano para Koch foi o de 1999, quando fez os três horários – manhã, tarde e noite, passando quase nove horas diariamente na universidade. O motorista diz que contava degraus da universidade para passar o tempo no horário da tarde. No semestre atual, o Koch faz apenas dois horários: o da tarde, das 2h às 4h50, e da noite, das 19h30 às 22h25.

Durante a tarde, recupera o sono que não teve à noite, já que precisa acordar às 5h20 da manhã, após um sono de apenas cinco horas. À noite, conversa com os colegas, toma chimarrão e “mente um pouco, quando não tem mais assunto”, brinca. Vilson Specht, 27, e Ronaldo de Souza Câmara, 30, são os colegas de Koch no horário noturno.

Specht, que conduz um ônibus que transporta alunos de Vale Real, está em seu segundo semestre na rota. Para o motorista, o mais angustiante é a espera pela passagem do tempo, enquanto seus colegas vêem o frio como pior inimigo. Specht admite, no entanto, estar feliz por ter sido transferido da UCS para a Unisinos devido ao frio de Caxias do Sul.

O novato Câmara está em sua segunda semana como motorista universitário e ainda não sabe o que vai fazer para passar o tempo. “Estou vendo o que é melhor”, diz. Por enquanto, acompanha os colegas na roda de chimarrão. Mas sabe que esta rotina não será fácil, já que a passagem do tempo parece demorar cada vez mais.

A crítica

Nos comentários, no e-mail, recebo elogios. E críticas. Em outros ambientes, também. Sugestões disso e daquilo, às vezes contrárias umas as outras, e se faz necessário escolher um caminho a seguir. Costumo dizer que meu leitor é meu patrão. Há um leitor que sabe mais sobre cada assunto que escrevo, e preciso informar o internauta que não sabe ao mesmo tempo em que respeito aquele que sabe mais do que eu. Mais ainda, preciso dar ouvidos àquele cidadão que acha que sabe, porque, às vezes, posso acabar pensando que ele só acha que sabe quando na verdade ele sabe mesmo. A decisão de ignorar ou não uma crítica de alguém é sempre complicada: posso estar ignorando a crítica errada.

Como jornalista, meu trabalho precisa — por função social — ser de interesse público e — por necessidades do mercado — interessar ao público. O público não tem uma voz unificada, de tal forma que é realmente difícil ouvi-lo na maioria das vezes.

Digo isso apenas para desabafar como é estranho receber críticas e elogios tão diversos, às vezes em curtos espaços de tempo. Em um dia dizem que gostaram do que você escreveu, no dia seguinte você precisa lidar com gente dizendo que simplesmente não te entende. Cresce a consciência de que a culpa por não entender algo é do jornalista e não do leitor e isso contribui ainda mais. Os leitores agora têm voz, acessível logo abaixo da sua produção, pronta para influenciar outros possíveis comentaristas.

A crítica faz parte da vida de todos, sim. E mesmo sabendo que ao escolhermos um caminho fechamos a porta para outros — de modo que não posso viver na pele de todas as outras pessoas –, creio que jornalistas ainda precisam lidar com a crítica um modo mais corriqueiro. Em qualquer profissão você pode ser criticado (ou elogiado) pelos seus colegas, da empresa ou fora, pelos seus chefes, etc. Mas o jornalista, não. O produto jornalístico mais nobre e pessoal sempre carrega consigo o nome do seu autor. É diferente, por exemplo, da embalagem de um biscoito: tem a marca, mas não o nome do responsável pela receita, pelo pacote…

No jornalismo, cada um recebe crédito adequado. Imagens de fulano; texto de ciclano; pesquisa adicional e contribuições de beltrano. O leitor pode, com um mínimo de observação, saber a quem direcionar sua crítica. Encontramos coisas parecidas na música, no cinema, nas artes em geral, mas notem que nem o publicitário leva um crédito durante sua produção. E também não é porque jornalismo é arte – o desenho de embalagem também é, de certa forma, e nem por isso recebe crédito. Já a Tetra Pak sempre identifica as embalagens que fabrica, em um trabalho que é totalmente técnico. É apenas o padrão da indústria: estamos acostumados com o “Made In” mas nem tanto com o designed in.

E a crítica do trabalho jornalístico é ainda mais interessante porque pode ser feita todos os dias Não é um ou dois textos por ano. Um livro. Ou um novo disco. Todos os dias você produz algo novo, por menor que seja, e tal criação é sempre passível de elogios e críticas.

Todos se sentem muito aptos para criticar a mídia. “A mídia é uma merda” já é bordão. Frequentemente brinco que curso comunicação social só para poder dizer “a mídia é uma merda” com propriedade e ar de entendido. É uma pena que a maioria das críticas – mais do que os elogios – careçam tanto de especificidade, de modo a serem quase inúteis. Críticas ajudam bastante; há muito perdi a pretensão de estar certo, e receber uma crítica, para mim, é uma oportunidade. Uma oportunidade que se perde quando a crítica não consegue ser boa o suficiente para somar algo ao trabalho, mas apenas boa o suficiente para fazer o “crítico” sentir-se superior.

“Ler também é um exercício”

Uma propaganda veiculada pela Rede Globo de Televisão há sabe-se lá quanto tempo (não é pouco) afirma: “ler também é um exercício”. O objetivo da propaganda é incentivar o hábito da leitura no povo do brasileiro. Embora prefira a abordagem da MTV, não tenho nada contra a propaganda da Globo.

O que vale uma observação nesse caso é o argumento usado pela propaganda: Ler vale a pena porque é um exercício. Há uma carga de valor implícito nisso — exercício é bom –, e, se ler é um exercício, então ler também é bom. Se exercício não fosse bom, não valeria a pena compará-lo com a leitura — não com o objetivo da propaganda.

Há ainda outra carga implícita: quem está vendo não sabe que ler é um exercício. Porque, se a pessoa soubesse, não valeria a pena dizê-lo. Ao mesmo tempo, porém, a peça supõe que as pessoas sabem o que são exercícios e que eles são bons.

Ainda: normalmente quando se pensa em exercício, mentalizamos a ideia de exercício físico, e não exercícios mentais ou de imaginação.

Considerando tudo isso, chego nas perguntas: por que existe esse valor impregnado na cultura de que exercícios físicos são bons, enquanto a leitura não dispõe do mesmo privilégio? Por que não soa estranho dizer “leitura é tão importante quanto exercícios“, mas é estranho dizer “exercícios são tão importantes quanto a leitura“?

Aparentemente existe algo interno — da cultura, provavelmente — que qualifica exercícios físicos ao passo que desqualifica (ou pelo menos não eleva) a leitura. Interessante, no mínimo.

Diploma de jornalismo: corporativismo disfarçado de defesa da liberdade

O texto abaixo foi inicialmente escrito para o Portal3, site mantido pela Agência Experimental de Comunicação (agexCOM) da Unisinos, universidade na qual estudo.

Link original. Abaixo segue o texto reproduzido, para registro.


No século XV, a resposta imediata dos governantes à invenção da imprensa foi a censura. Em alguns países essa situação prolongou-se de maneira inaceitável. Foi o caso do Brasil, onde não havia nenhuma oficina de imprensa até 1808, quando iniciou-se a impressão do A Gazeta do Rio de Janeiro. Esse jornal era a resposta da recém-chegada corte portuguesa ao Correio Brasiliense, a primeira publicação a circular em território nacional, mas que era impressa em Londres e defendia a independência do país.

Hoje, em pleno ano de 2009, pelo menos 34 jornalistas estão presos em meio ao tumulto das eleições iranianas, segundo dados da Repórteres Sem Fronteiras. Mais de meio milênio após a invenção da imprensa, a censura ainda é, infelizmente, uma realidade.

Uma realidade que o Brasil vivia intensamente em 1969. No ano anterior, o governo militar havia criado o Ato Institucional nº 5, ou AI-5. Um dos Atos Institucionais mais marcantes da ditadura, ele deu poderes ilimitados ao presidente, eliminando a separação entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.

Creio que a maioria dos colegas jornalistas repudia esses acontecimentos. Porque cerceamento da liberdade de expressão não é o que desejam os jornalistas, que por muito tempo lutaram (e lutam) precisamente para obter o direito de escrever aquilo que acreditam que precisa ser escrito.

Mas foi nesse cenário de repressão que foi baixado, no canetaço, o Decreto-Lei 972/69. Esse é o decreto que criou a exigência do diploma de jornalismo para o exercício da profissão. Ele é o núcleo da questão que mais tem mobilizado os sindicatos e alunos de jornalismo nos últimos meses, e cujo clímax se deu no dia 17 de junho, quando os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) o julgaram incompatível com a Constituição Federal de 1988.

Não vou argumentar a respeito da validade da formação acadêmica. Sou estudante de jornalismo e assim devo permanecer até me formar. Acredito no valor que a formação tem para mim – pelas pessoas, pelas experiências, pelo contato com diferentes formas de pensar. Há quem consiga essas coisas de outra forma, em outra formação, ou mesmo dispense tudo isso.

Mas acho engraçado que os sindicatos, especialmente, dizem que a exigência do diploma de jornalismo garante a liberdade de expressão e o “acesso democrático” à profissão. Se foi uma regra criada para censurar, teríamos que primeiro provar a burrice e incompetência do governo militar por ter criado uma lei com a finalidade oposta. Certamente não era o caso, pois os militares conseguiram, sim, manipular a mídia e impedir a publicação de várias reportagens desfavoráveis. Com o decreto, impediram que jornalistas “indesejados” continuassem trabalhando legalmente no país.

A liberdade de expressão nada tem a ver com a formação do profissional. Sai no jornal o que o dono do jornal quer, visto que o texto é limitado pelo papel e pela tinta, ambos fora do controle do jornalista. O mesmo vale para o rádio e para a televisão. A apuração também depende do tempo que o jornalista terá para fazê-la. O jornalismo não é um produto tão lucrativo quanto o entretenimento – a quebradeira dos veículos norte-americanos está aí para mostrar a fragilidade financeira da imprensa. Com os profissionais sobrecarregados, o tempo de apuração é, portanto, limitadíssimo; raras vezes é possível fazer um trabalho de qualidade excepcional nestas condições.

Médicos e jornalistas são bem diferentes, de modo a serem incomparáveis, embora tal comparação tenha sido frequentemente realizada pelos defensores do diploma. Os piores erros do jornalismo envolvem falta de ética e honestidade. Os maiores erros da medicina (e da engenharia, do Direito…) se dão pela falta de conhecimento técnico. Ninguém fala em “liberdade de medicina”, simplesmente porque ninguém quer ser cobaia da “liberdade” de um médico.

Por outro lado, a liberdade de imprensa e de expressão é justamente a garantia de podermos falar o que quisermos da maneira que quisermos, implicando a obrigação de aceitar que outros façam o mesmo.

Jornalismo não se faz de um jeito só. É arrogante o jornalista que pensa ser possuidor do “segredo para se fazer jornalismo” só porque sabe quais informações devem ser colocadas no primeiro parágrafo de um texto – e há quem ria de quem será empregado sem saber o que é um lead.

Todo o barulho em favor do diploma é sindicalismo, corporativismo – a preservação de uma reserva de mercado disfarçada de preocupação para com o bem comum. Ótimos jornalistas não têm formação na área: Carl Bernstein e Bob Woodward, a dupla que derrubou o presidente Nixon no escândalo Watergate, escrevendo o que entendiam ser a verdade no The Washington Post, não tem formação em jornalismo. Bernstein, aliás, nem completou o ensino superior.

Também não faltam péssimos jornalistas formados. Basta conferir alguns jornais locais, devidamente registrados, com suas reportagens chapa branca e anúncios disfarçados de notícia. É pertinente citar o caso de Jayson Blair, o repórter do New York Times que inventou e plagiou notícias. Vendeu ficção como verdade. Blair era formado em jornalismo em um país que nem mesmo cultiva a exigência que por 40 anos existiu no Brasil.

Por fim, vale lembrar que os princípios éticos dos quais muitos jornalistas tanto se orgulham – como o “ouvir o outro lado” – nasceram justamente nas empresas que tratam jornalismo como produto. Antes de ser profissionalizado, jornalismo era feito por motivação política específica. Os mais interessados na noção de “imparcialidade” são os mesmos que hoje dizem querer contratar pessoas sem formação.

Ou, pelo menos, supõe-se que o objetivo dos membros do Sindicato das Emissoras de Rádio e Televisão de São Paulo (Sertesp), do qual partiu a iniciativa de eliminar a exigência do diploma, seja o de não contratar somente jornalistas. Se forem outros Bernsteins e Woodwards, que ótimo. Se forem Blairs, formados ou não em jornalismo, que pena. Mas o público sempre pode mudar de canal.

O blog da Petrobras e a credibilidade

O blog Fatos e Dados da Petrobras chegou criando polêmica e inquietando jornais e jornalistas.

Para quem não acompanhou a história, o blog é mantido pela assessoria de comunicação da estatal. Eles estavam publicando as perguntas que os jornalistas enviavam à companhia, juntamente com suas respectivas respostas. O conteúdo era publicado imediatamente após ser enviado pela empresa ao jornal, inicialmente, mas agora o blog está esperando a edição e publicação da reportagem antes de soltar as informações.

O colunista do iG Claudio Abramo descreveu muito bem as razões para a polêmica. Primeiro, os jornais eram prejudicados porque a concorrência poderia saber o que estavam investigando. Segundo, a publicação diminuía o valor-notícia da reportagem final. Como o próprio Abramo previu, a empresa já recuou um pouco, e agora publica as perguntas e respostas apenas após a reportagem.

Eu não tenho a intenção de discutir ainda mais esse lado da polêmica. Não vou dizer que não há problema nenhum em termos mais uma fonte de informação — na verdade, há: temos mais uma fonte para filtrar. É verdade que as demais podem não ser tão confiáveis quanto deveriam, mas a presença de mais informação na rede não significa que os cidadãos estarão melhor informados. Na verdade, podem estar simplesmente mais confusos. Mesmo assim, não posso me opor ao blog.

Mas o que queria dizer é que estou um pouco surpreso, senão assustado, pela suposta credibilidade da assessoria de comunicação da Petrobras. Suposta porque não sei se consigo sequer confiar nos comentários que estão no blog. Quem garante que eles não são forjados ou filtrados?

Talvez a crítica mais interessante que vi nos comentários do blog, que invariavelmente defendem a Petrobras, é aos jornalistas da grande mídia. Não lembro bem como era, mas mencionava inclusive o curso de jornalismo. Será que este comentarista não percebe que quem mantém o blog da Petrobras são também jornalistas, ou, pelo menos, profissionais da área de comunicação?

As pessoas nunca tiveram que lidar com assessorias de comunicação. Qualquer leitor da Folha de S.Paulo raras vezes deve ter lido um release1 cru, isto é, que não passou pelo menos por uma edição. (Não posso dizer o mesmo sobre leitores de jornais locais). As assessorias, sim, distorcem e omitem fatos, ainda mais do que os jornais.

Acho no mínimo engraçado que o blog seja chamado de “Fatos e Dados”. Nesse caso, nem os fatos nem os dados significam o que parecem significar.

Por exemplo, nesse post onde a assessoria “refuta” uma reportagem da FSP, lemos:

Os contratos celebrados pela Petrobras atendem ao Decreto 2745/98, que norteiam os procedimentos licitatórios da Companhia, de acordo com a Lei do Petróleo (Lei 9478). Não compete à Petrobras buscar saber se há ou não relações, supostas ou verdadeiras, entre os proprietários de empresas contratadas e quaisquer partidos políticos ou governantes.

Em tese, a empresa está dizendo “estamos seguindo a lei”, o que soa muito bem. Na prática, ela está reafirmando que faz algumas aquisições de produtos e serviços sem licitação, porque é exatamente isso que o referido Decreto permite. Na verdade, para entender isso, você teria que ler o extenso texto do regulamento — e o fato de a Petrobras não resumir ou explicar o decreto, para que o leitor saiba o que ele significa na prática, é típico de assessoria de comunicação. Se explicasse o conteúdo do decreto não iria ficar tão bem quanto “estamos seguindo a lei”, porque a própria lei, nesse caso, dá brechas para abusos.

Em seguida, vemos:

A Petrobras pauta a escolha de seus fornecedores pela legalidade e pela capacidade de executar o trabalho para o qual eles estão sendo contratados. Nosso entendimento é que a da Folha de São Paulo, ao destacar parcialmente as explicações da Companhia ou criar títulos de ambigüidade indiscutível, reflete uma opinião deslocada de fatos.

Ninguém espera que a empresa admita que favorece qualquer partido político. O objetivo do jornal é justamente denunciar um caso em que houve uma clara preferência à militantes de um partido, porque se espera que essa não seja a conduta preferencial. Se fosse, nem seria notícia.

E se outros contratos foram ou não firmados em condições semelhantes, isso não cabe ao jornal afirmar — ele apenas pode dizer o que descobriu, e o que descobriu não deixa dúvidas de que pelo menos R$4 milhões foram direto para militantes do PT, sem que nenhum serviço fosse prestado.

Jornais atacam, assessorias se defendem

De modo geral acho estranho que uma assessoria de comunicação, paga para dar uma versão do fato que sempre favoreça a empresa, tenha mais credibilidade do que o jornal, que deve fazer justamente o oposto.

Há quem diga que as perguntas dos jornais, como reveladas pela Petrobras, demonstrem uma certa agressividade. E como devia ser? Os jornais não estão aqui para puxar o saco do governo, ou de qualquer empresa estatal. Pouco importa o valor dos lucros, se parte do faturamento está sendo desviado para atender interesses.

Se isso é motivo para argumentar pela privatização da Petrobras? Não creio. Empresas privadas fazem lobby e financiam campanhas abertamente. A Petrobras privada com certeza também o faria. E ninguém veria nada de errado nisso. Privatizá-la não iria impedir que o dinheiro da empresa chegasse aos partidos, e nem penso que a privatização seja a resposta para qualquer outro problema que a empresa possa ter.

Acredito que é preciso deixar de lado essas conclusões exageradas, e analisar cada fato e acontecimento dentro do seu espaço. O fato que temos é que uma verba da Petrobras foi desviada para o PT, e que isso foi descoberto pela própria empresa (coisa que a Folha informou). Se isso é o procedimento padrão por lá? Espero que não, mas esperar que a imprensa alivie sua combatividade simplesmente porque a Petrobras é uma estatal “de resultado” é uma posição, no mínimo, impensada.

  1. Textos-notícia extremamente tendenciosos, pró-empresa que contratou a assessoria para escrevê-lo.

“Penso, logo existo” Reverso

trigun

Gostaria de fazer uma adaptação da reversal original, mostrada acima no excelente Trigun: Se você existe, prove: pense!

Vale mencionar que não é erro de tradução — ele realmente disse “alive”/”vivo” (ikite). Se o mesmo termo foi usado no mangá, ou se o paralelo com a famosa frase de Descartes foi intencional… não sei. De qualquer forma, achei a ideia legal e, portanto, registro-a aqui no blog.