O blog da Petrobras e a credibilidade

O blog Fatos e Dados da Petrobras chegou criando polêmica e inquietando jornais e jornalistas.

Para quem não acompanhou a história, o blog é mantido pela assessoria de comunicação da estatal. Eles estavam publicando as perguntas que os jornalistas enviavam à companhia, juntamente com suas respectivas respostas. O conteúdo era publicado imediatamente após ser enviado pela empresa ao jornal, inicialmente, mas agora o blog está esperando a edição e publicação da reportagem antes de soltar as informações.

O colunista do iG Claudio Abramo descreveu muito bem as razões para a polêmica. Primeiro, os jornais eram prejudicados porque a concorrência poderia saber o que estavam investigando. Segundo, a publicação diminuía o valor-notícia da reportagem final. Como o próprio Abramo previu, a empresa já recuou um pouco, e agora publica as perguntas e respostas apenas após a reportagem.

Eu não tenho a intenção de discutir ainda mais esse lado da polêmica. Não vou dizer que não há problema nenhum em termos mais uma fonte de informação — na verdade, há: temos mais uma fonte para filtrar. É verdade que as demais podem não ser tão confiáveis quanto deveriam, mas a presença de mais informação na rede não significa que os cidadãos estarão melhor informados. Na verdade, podem estar simplesmente mais confusos. Mesmo assim, não posso me opor ao blog.

Mas o que queria dizer é que estou um pouco surpreso, senão assustado, pela suposta credibilidade da assessoria de comunicação da Petrobras. Suposta porque não sei se consigo sequer confiar nos comentários que estão no blog. Quem garante que eles não são forjados ou filtrados?

Talvez a crítica mais interessante que vi nos comentários do blog, que invariavelmente defendem a Petrobras, é aos jornalistas da grande mídia. Não lembro bem como era, mas mencionava inclusive o curso de jornalismo. Será que este comentarista não percebe que quem mantém o blog da Petrobras são também jornalistas, ou, pelo menos, profissionais da área de comunicação?

As pessoas nunca tiveram que lidar com assessorias de comunicação. Qualquer leitor da Folha de S.Paulo raras vezes deve ter lido um release1 cru, isto é, que não passou pelo menos por uma edição. (Não posso dizer o mesmo sobre leitores de jornais locais). As assessorias, sim, distorcem e omitem fatos, ainda mais do que os jornais.

Acho no mínimo engraçado que o blog seja chamado de “Fatos e Dados”. Nesse caso, nem os fatos nem os dados significam o que parecem significar.

Por exemplo, nesse post onde a assessoria “refuta” uma reportagem da FSP, lemos:

Os contratos celebrados pela Petrobras atendem ao Decreto 2745/98, que norteiam os procedimentos licitatórios da Companhia, de acordo com a Lei do Petróleo (Lei 9478). Não compete à Petrobras buscar saber se há ou não relações, supostas ou verdadeiras, entre os proprietários de empresas contratadas e quaisquer partidos políticos ou governantes.

Em tese, a empresa está dizendo “estamos seguindo a lei”, o que soa muito bem. Na prática, ela está reafirmando que faz algumas aquisições de produtos e serviços sem licitação, porque é exatamente isso que o referido Decreto permite. Na verdade, para entender isso, você teria que ler o extenso texto do regulamento — e o fato de a Petrobras não resumir ou explicar o decreto, para que o leitor saiba o que ele significa na prática, é típico de assessoria de comunicação. Se explicasse o conteúdo do decreto não iria ficar tão bem quanto “estamos seguindo a lei”, porque a própria lei, nesse caso, dá brechas para abusos.

Em seguida, vemos:

A Petrobras pauta a escolha de seus fornecedores pela legalidade e pela capacidade de executar o trabalho para o qual eles estão sendo contratados. Nosso entendimento é que a da Folha de São Paulo, ao destacar parcialmente as explicações da Companhia ou criar títulos de ambigüidade indiscutível, reflete uma opinião deslocada de fatos.

Ninguém espera que a empresa admita que favorece qualquer partido político. O objetivo do jornal é justamente denunciar um caso em que houve uma clara preferência à militantes de um partido, porque se espera que essa não seja a conduta preferencial. Se fosse, nem seria notícia.

E se outros contratos foram ou não firmados em condições semelhantes, isso não cabe ao jornal afirmar — ele apenas pode dizer o que descobriu, e o que descobriu não deixa dúvidas de que pelo menos R$4 milhões foram direto para militantes do PT, sem que nenhum serviço fosse prestado.

Jornais atacam, assessorias se defendem

De modo geral acho estranho que uma assessoria de comunicação, paga para dar uma versão do fato que sempre favoreça a empresa, tenha mais credibilidade do que o jornal, que deve fazer justamente o oposto.

Há quem diga que as perguntas dos jornais, como reveladas pela Petrobras, demonstrem uma certa agressividade. E como devia ser? Os jornais não estão aqui para puxar o saco do governo, ou de qualquer empresa estatal. Pouco importa o valor dos lucros, se parte do faturamento está sendo desviado para atender interesses.

Se isso é motivo para argumentar pela privatização da Petrobras? Não creio. Empresas privadas fazem lobby e financiam campanhas abertamente. A Petrobras privada com certeza também o faria. E ninguém veria nada de errado nisso. Privatizá-la não iria impedir que o dinheiro da empresa chegasse aos partidos, e nem penso que a privatização seja a resposta para qualquer outro problema que a empresa possa ter.

Acredito que é preciso deixar de lado essas conclusões exageradas, e analisar cada fato e acontecimento dentro do seu espaço. O fato que temos é que uma verba da Petrobras foi desviada para o PT, e que isso foi descoberto pela própria empresa (coisa que a Folha informou). Se isso é o procedimento padrão por lá? Espero que não, mas esperar que a imprensa alivie sua combatividade simplesmente porque a Petrobras é uma estatal “de resultado” é uma posição, no mínimo, impensada.

  1. Textos-notícia extremamente tendenciosos, pró-empresa que contratou a assessoria para escrevê-lo.

Lenovo: duas compras, duas experiências

Indignação e raiva. São duas palavras que mais ou menos resumem o que senti durante minha primeira compra na Lenovo Brasil. A Lenovo, para quem não conhece, é a empresa que adquiriu a divisão de desktops da IBM. (Quem não conhece a IBM, vá ler outro blog, sério.) Surpreso e satisfeito. É como me sinto agora após uma segunda compra lá.

Justificando. Precisava trocar um computador velho aqui, que era usado só para internet e edição de texto. Ou seja, não precisava ser uma máquina fabulosa, apenas qualidade para não dar mais problema que a velha. O preço era importante também, lógico.

Fiquei durante semanas de olho nas ofertas de seminovos na Dell. Quando finalmente uma lista apareceu, havia um bom PC com 2GB de RAM, Pentium Dual Core e monitor 17″ LCD por R$720. Bom negócio. Mas até eu enviar um e-mail, já havia esgotado o estoque.

Desde então a Dell não publicou nenhuma lista de equipamentos seminovos — não que eu tenha visto, pelo menos. Mas em dezembro, a Lenovo colocou diversos computadores em oferta. De natal, diziam. Adquiri um desses computadores.

O PC foi adquirido no meio de dezembro, e deveria chegar aqui 30 dias depois. Mas tudo atrasou. Até o boleto, que deveria ter sido encaminhado pela Lenovo dentro de três dias úteis, chegou em cinco. E a confirmação do pagamento, que deveria ter ocorrido em seguida, também demorou. A máquina adquirida na metade de dezembro chegou apenas no início de março. Se isso não fosse o bastante, veio ainda com uma nota, equivocada, que dizia que eu deveria “devolver” um “volume”. Levou mais um dia para o pessoal da transportadora descobrir que era um engano.

Jurei para mim mesmo que jamais faria outra compra na Lenovo. Porém, não esperava que o equipamento adquirido lá — um desktop ThinkCentre, equipado com um Sempron LE 1150 2GHz e 1GB de RAM — fosse de uma qualidade tão excepcional. Silencioso, com ótimas ferramentas de manutenção. Sem contar o Windows XP Professional original, os três anos de garantia e as duas saídas VGA, incomum para um PC que custou apenas R$550.

Recentemente, a Lenovo colocou em oferta alguns monitores. O modelo L193p (19″ 4:3 DVI), cujo preço de tabela é acima de R$1.100 1, estava sendo vendido por R$550, frete incluso, garantia 3 anos.

Resolvi comprar, com medo do que me esperava.

Mas as coisas foram bem diferentes. Desta vez, paguei com cartão. Em dois dias, o produto havia sido faturado, e o prazo de entrega que me deram, no dia 28/05, foi de 6 dias. Nessa segunda-feira (1º), exatos dois dias úteis depois, o produto chegou aqui.

A qualidade do monitor é a mesma do ThinkCentre que adquiri. A configuração padrão não apaga cinzas ou torna as cores excessivamente “vivas” de tal forma que tudo tenda ao branco, como outra marca de monitor que tenho faz. Ele também veio com a base instalada e com recurso de gerenciamento de cabos.

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Gerenciamento de cabos no Lenovo ThinkVision L193p. (Foto: Altieres Rohr)

Na foto acima ele também está na posição vertical; além do ajuste de inclinação, ele também possui ajuste de altura e giro. Na faculdade, e na minha profissão também, eventualmente — se trabalhar com impressos –, terei que editorar ou diagramar páginas. A posição vertical facilita muito essa tarefa, porque o espaço da tela se assemelha mais ao que está sendo diagramado (a página). Em monitores Widescreen sem qualquer opção de rotação, fazer isso é uma droga (exceto se você quer ver duas páginas ao mesmo tempo, o que pode ser útil para ver o trabalho final. Mas estou usando o micro com dois monitores agora, então…)

Enfim, quase que eu iria escrever um post aqui no blog reclamando do meu primeiro atendimento na Lenovo. Mas, pelo visto, fui uma exceção da primeira vez, já que a diferença entre uma experiência e outra foi muito grande. Fico neutro, mas se vou comprar novamente na Lenovo caso alguma oferta me interesse? Certamente!

  1. Esse preço parece absurdo. Mas o UltraSharp equivalente, na Dell, custa R$929.

Todos sabem tudo. Ou não

O G1 resolveu fazer umas reportagens sobre o dia do orgulho nerd, que foi esta segunda-feira (25, cuja data é compartilhada com o dia da toalha). Participei com um depoimento.

O que me deixou um tanto decepcionado foram os comentários deixados no quiz e na reportagem com as nerds assumidas. Basicamente reclamaram que o quiz foi uma perda de tempo e que o repórter (Renato Bueno) não sabia a diferença entre nerd e geek.

O quiz nem vale a pena discutir. Mais uma vez o brasileiro mostra ser mal humorado ao não entender piadas óbvias como “Links são para os fracos”, “Mulher Melancia é a mulher ideal”, “computador sem internet não existe”, “leio o livro da lista dos mais vendidos”… Feliz de quem conseguiu rir com as perguntas do quiz, e também do resultado. Porque era pra ser algo divertido. De questionários “sérios” para ver quem é “nerd” a internet está cheia, e um é mais duvidoso do que o outro.

Já quanto à definição de geek e nerd, aposto que todos esses “entendidos” a respeito dos termos são incapazes de garimpar fontes e referências para sustentar qualquer que seja a definição que eles acham ser a correta. São míopes para o fato de que estereótipos variam de região para região, ainda mais de país para país, e que eles estão em constante metamorfose — unem-se e dividem-se, sem pedir permissão para ninguém. O tempo e o espaço é que mandam.

Se vamos falar de algo tão volátil, melhor nos preocuparmos menos na rigidez das definições. Elas se adaptam por natureza, são maleáveis. Exceto apenas se o erro for absolutamente grosseiro, não há problema. Aliás, nem há consenso sobre nada disso, mas há uma linha geral, que os textos seguem corretamente. Ir além disso é uma grande perda de tempo.

Feliz de quem não encara esse assunto sob a pretensão de saber tudo sobre ele. Ao meu ver, neste caso, isso sim é o verdadeiro saber. Embora eu seja suspeito para falar do pessoal do G1, deixo aqui meus parabéns ao Renato Bueno pela reportagem.

… [2]: O “me too” do Orkut

Se você passou qualquer tempo razoável em tópicos de comunidades no Orkut e prestou atenção ao que estava “lendo”, deve ter visto este fenômeno: alguém diz sua opinião ou dúvida e, nos posts seguintes, outras pessoas citam a mesma frase acrescentando “[2]” (ou “[3]”, “[4]”…) para indicar que partilham do mesmo ponto de vista ou incerteza. Isso não é nada além de uma modernização de uma conhecida expressão internética: “me too”.

A comparação mais adequada que consegui achar para entender o fenômeno “Orkut” é a Usenet do início até meados dos anos 90. Até 1993, a Usenet era reservada para instituições acadêmicas e o fluxo de novos usuários era previsível (sempre em setembro) e pequeno, pois estava restrito aos calouros das universidades. Depois de um tempo, estes se adequavam às normas de comportamento na rede.

Em 1993, a America Online (AOL) liberou o acesso de seus usuários de internet doméstica à Usenet, iniciando o chamado “setembro eterno” — um fluxo interminável de novos usuários sem qualquer conhecimento sobre netiqueta, isto é, o comportamento correto na rede. Entre as várias gafes dos usuários da AOL, uma delas é o “me too” (“eu também”): quando algo era postado, todo mundo que concordava com aquilo seguiria postando “me too”.

Penso que “[2]”. “[3]”, ou, alternativamente o mais curto “+1”, são extensões desse mesmo “me too” e, portanto, um comportamento pouco adequado na rede. Parece-me que mesmo usuários frequentes não se dão conta da paralelo entre o “me too” e o “[2]”; provavelmente, poucos se dão conta do paralelo Usenet/EUA / Orkut/Brasil.

Para mim, no entanto, o paralelo é claro. A AOL é responsável pela explosão da internet comercial nos EUA, e logo adicionou suporte para a Usenet — o primeiro meio de interação direta entre os usuários da rede. O meio de interação aqui no Brasil é o Orkut, e ele apareceu exatamente no período de ascensão do número de usuários, tendo, portanto, o mesmo significado da Usenet para nós.

Acho legal procurar paralelos entre a Usenet e o Orkut. Pode revelar muita coisa. E poderemos atestar que a Usenet toda está se repetindo aqui… a começar pelo setembro eterno e o “movimento” contra a inclusão digital, isto é, o desprezo para com os usuários sem instrução adequada que estão apenas começando a usar o computador para se comunicar.

fravia+: Si sta / come d’autunno / sugli alberi le foglie

O magnífico fravia+ foi diagnosticado com dois tumores e está atualmente em tratamento, conforme revela o próprio. fravia+ diz não saber quanto tempo tem de vida, mas percebe que o “destino acredita ser mais forte do que ele”.

Fjalar Ravia — seu nome verdadeiro — é conhecido pela comunidade de engenharia reversa de software por ter criado um material-referência no hoje extinto fravia.org, embora mirrors do site ainda existam por aí. Ravia tem contribuído com descobertas e dicas na área de pesquisas web, buscando as melhores maneiras de encontrar qualquer coisa que já tenha sido colocada na rede. Completou 56 anos recentemente, no dia 30 de agosto.

É também um militante contra propaganda e protecionismo de software. Desde que se encontrou com Stallman em 2000, também tem adotado software livre (embora prefira o navegador Opera).

É um herói desconhecido, criador de um canto da web — searchlores.org — que provavelmente jamais será considerado pelo o que realmente vale. Mas o destino luta contra todos e sempre vence, como o outono sobre as folhas.

Postar em blog é compulsão, se for durante a lua-de-mel

Da Folha Online:

Atualização de blog em lua-de-mel indica compulsão, dizem especialistas

A vontade incontrolável de postar em diários virtuais em vez de viver no mundo real é vista por especialistas como um vício ou, no mínimo, compulsão pela internet. Ambos surpreenderam internautas na última semana ao atualizarem seus blogs em plena lua-de-mel.

O caso de Lucas foi o que mais repercutiu na internet: algumas horas após seu casamento com a cantora Sandy, o músico já havia postado suas impressões sobre a festa e prometia divulgar mais informações no decorrer do fim de semana.

Como alguém outro já disse (desculpe-me por ter esquecido da fonte): ler livros o dia todo é intelectual, ler na internet o dia todo é vício. Tudo que é feito na Internet parece ser vício. E se em vez de “atualizar blog” fosse “escrever diário”? Qual o problema?

Os especialistas adoram criticar as novas maneiras que as pessoas encontram para lidar com suas frustrações. Afinal, assim continuam com seu emprego. Filósofos passaram suas vidas escrevendo suas frustrações; artistas, pintando e atuando; poetas, versificando. E quem estava lá para dizer que eram doentes? Muito provavelmente, o eram. Mas encontraram uma saída diferente das demais pessoas, que também lidam com suas frustrações — muitas vezes por meio da religião. promiscuidade e outros meios.

Lide com o fato: postar textos na internet sobre assuntos e acontecimentos interessantes e ter retorno com isso pode ser mais legal do que você pensa. E isso não é errado.

Orkut não entende de política

No Brasil, "liberal" é direita.

Clique na foto para ampliar.

O Google não sabe que, no Brasil (e em boa parte do mundo), “liberal” é uma pessoa de direita, pois trata-se do liberalismo econômico. Só nos Estados Unidos e na Inglaterra — e outros países de língua inglesa — é que os liberais são de esquerda — embora os “liberais de esquerda” não sejam diferente dos “socialistas” e “comunistas” de esquerda de outros países, apenas um pouco mais moderados.

Avisei-os deste erro grosseiro, que poderá deixar pessoas atentas confusas, há algum tempo. Nada foi corrigido, como infelizmente é o procedimento usual.

Em notícias relacionadas, a filha de 17 anos da candidata à vice-presidência da chapa Republicana nos EUA está grávida. Ótimo exemplo para o povo norte-americano ter, como disse a candidata com a retórica usual, uma menina que “amadurecerá mais rápido do que o planejado”.

Mas é de se esperar, vindo de quem vem; os Republicanos mais extremistas recusam-se por completo a usar qualquer tipo de anticoncepcional, preferindo a “proteção divina”. A educação sexual sugerida pelos Republicanos é “a educação de abstinência” que, como bem disse Roy Zimmerman, é como querer “ensinar a usar o banheiro mandando segurar“.

Se está na sua Internet, está na minha também

Não é preciso ser vidente para prever a morte dos jornais. Esta já é uma previsão tão repetida que seu autor só pode ser o coletivo — é domínio público, sem direito a citação de fonte. Poucos levantam a mão quando recebem a oportunidade de ser a voz dissonante. É como o fim do mundo: há de acontecer, e, mesmo que todas as previsões que marquem a data falhem, nunca deixará de ser verdade.

É evidente, no entanto, que é possível, hoje, ser um cidadão bem-informado sem o auxílio dos jornais. Isso prova que eles não são mais essenciais — são substituíveis e estão sendo substituídos. A morte plena e completa dos jornais talvez nunca venha a ocorrer, como é o caso do vinil, mas todas as grandes publicações irão usar algum método alternativo de distribuição do jornal que não seja o papel.

Em outras palavras, mesmo que o formato “jornal” não acabe, o papel está condenado. Talvez as revistas, por serem melhor material de arquivo, ainda sobrevivam. No livro A Arte de Fazer um Jornal Diário, o jornalista Ricardo Noblat diz que a sobrevivência dos jornais só será possível por meio de projetos gráficos mais inteligentes e da substituição de notícias velhas por reportagens especiais contendo acertos na hora de analisar o que ainda está por vir.

Efetivamente, entendo isso como uma ordem para que jornais tornem-se revistas.

Seja lá o que o futuro reserva para estes meios de comunicação, a Internet mudou o jornalismo duas vezes. Em primeira instância, deu ao jornalismo (e a qualquer outra comunicação) a propriedade de transmissão muitos-para-muitos, antes inexistente. Leitor e escritor confundem-se. O receptor de uma mensagem pode ser o emissor dela no momento seguinte. O feedback é instantâneo.

Em segunda instância, a internet mudou o jornalismo por servir como uma nova fonte de informação não-volátil. Isso não acontece desde a invenção da imprensa. Rádio e TV são mídias voláteis, quer dizer, não é possível captar mais tarde o que está sendo transmitido agora, a não ser que tudo esteja sendo capturado.

O serviço de “capturar”, exercido por jornalistas radioescutas, é valioso, porque organiza e filtra a informação que é transmitida pelas ondas eletromagnéticas. Se ninguém fizer isso, o público perde muito ao não ser informado a respeito do que foi transmitido em um canal (rádio ou TV) de baixa audiência ou a que poucos têm acesso (por restrição geográfica ou lingüística).

Por isso ninguém tem o direito de rir de um jornalista que ver uma notícia na TV Senado, por exemplo. Ele viu. Muita gente não viu. Se mais alguém precisa saber, é bom noticiar. E descrever em detalhes o que viu, porque obter o vídeo novamente não é fácil.

Por outro lado, qualquer jornalista que usar toda a sua matéria para descrever uma página de internet precisa rever seus conceitos.

Ora, em vez de descrever a página, coloque uma foto. Ou, melhor, me dê o link. Eu vejo por mim mesmo.1

Caso em questão: uma matéria do Los Angeles Times sobre o político norte-americano Sean Tevis. Tevis quer ser deputado estadual pelos Democratas no Kansas, um domínio historicamente Republicano.

Tevis fez em seu site uma charge muito criativa, no estilo geek do xkcd, para pedir doações. E conseguiu impressionantes 95 mil dólares, contra apenas 12 mil de seu adversário.

É claro que isso merece atenção dos jornais.

O LA Times então enviou uma repórter até o estado do Kansas para entrevistar Tevis e sua mãe — esta última por estar envolvida na campanha como responsável por gravar vídeos de agradecimento a quem doou mais de US$500. As entrevistas duraram horas, como conta o próprio Tevis. As entrevistas poderiam ser feitas por telefone ou e-mail, mas a repórter fez questão de ir até lá.

Ir até a notícia é digno de respeito.

O problema é que a matéria do LA Times possui quase nada destas longas entrevistas. Boa parte da matéria é uma descrição da charge criada pelo politico democrata, como se ninguém pudesse simplesmente clicar num link e vê-la por si mesmo. A foto de Tevis que ilustra a matéria é a mesma presente no site do candidato.

Para quem viu o site da campanha, a notícia, que se estende por duas páginas no site, é um amontoado de observações simples e obviedades. Para quem não viu, uma imagem e um link substituiriam boa parte do texto. Se a repórter tivesse feito a matéria usando apenas entrevistas por telefone ou até mesmo MSN, ninguém poderia notar a diferença.

A Internet é uma fonte de informação não-volátil e extremamente acessível, mais do que a própria imprensa. Se menciono um livro ou uma edição passada de um jornal, ter acesso ao texto que me refiro pode não ser nada trivial. Na Internet, a não ser que você viva na China ou em Cuba onde há censura do governo, todas as páginas estão igualmente acessíveis. Descrevê-las em detalhes é desnecessário.

Assim, resumindo, a matéria do LA Times erra em dois pontos. Primeiro ao descrever uma página de internet que qualquer um pode ver, como se fosse conteúdo exclusivo. E segundo por ter gasto dinheiro com uma viagem cujo texto não demonstra que aconteceu.

Aliás, o texto no blog de Sean Tevis sobre a visita da repórter é mais interessante do que a matéria do LA Times. Vale lembrar, Tevis é formado em jornalismo. Sendo geek, provavelmente compreende melhor que histórias sobre eventos e interações corpo a corpo valem mais do que uma cansativa descrição de uma página que qualquer interessado é capaz de ver.

  1. Exceto quando isto não for possível. Um site malicioso contendo pop-ups pornô, por exemplo. Mesmo estes podem ser substituídos por vídeos, porém nem sempre é possível fazer um material de qualidade, por restrição de tempo ou equipamento.