Uma colega me fez essa pergunta na faculdade e admito agora: me pegou de surpresa. (Foi quando comentei sobre a nerdpedia e o xkcd.) Resolvi blogar para responder a pergunta.
Poderia recorrer a algum estereótipo conhecido. Seria mais fácil, mas também impreciso e pouco interessante.
Nerds não compõem uma subcultura ou tribo comum
Existe o mainstream — o “comportamento normal”: aquilo que a maioria das pessoa gosta e entende. Um nível aceitável de dedicação, esperteza, inteligência e conhecimento do “senso comum” faz parte do mainstream também.
À margem do mainstream existem as subculturas ou tribos urbanas. Os punks, os emos, os góticos, o hip-hop/rap, entre outros. Estes possuem características simples e constantes que identificam seus pares, seja na música, na vestimenta, nas atitudes.
São todas – em geral – fases da adolescência. Contardo Callligaris explica, em A Adolescência, a função integradora destes grupos e como suas características próprias permitem que os adolescentes sintam-se “parte” de alguma coisa, criando regras próprias para substituir aquelas que regem o mundo adulto (do qual o adolescente é, devido à “moratória” da adolescência, excluído). Diz Calligaris:
Recusado como par pela comunidade dos adultos, indignado pela moratória que lhe é imposta e acuado pela indefinição dos requisitos para terminá-la (a famosa e enigmática maturidade), o adolescente se afasta dos adultos e cria, inventa e integra microssociedades que vão desde grupos de amigos até o grupo de estilo, até a gangue.
“Nerdismo” não é uma fase da adolescência, mas está à margem daquilo que é o padrão, possuindo outros valores, códigos, piadas e um “senso incomum” próprio. Basta ler os comentários recorrentes do Slashdot: All Your Base Are Belong To Us, Welcome our… Overlords e tinfoil hats. É um código próprio, entendido por aqueles que fazem parte da comunidade, mas pouco sentido para os de fora.
E mesmo assim não é uma fase da adolescência, porque o Slashdot tem leitores de todas as idades. Programadores graduados, doutores em Física, mestres, professores e jovens estudantes também. Embora, como diz bem a Wikipédia, as atividades realizadas por nerds são “inapropriadas para a idade”, ou, traduzindo, infantis (videogame, anime, coleções de bonecos, etc).
Resumindo, nerds não constituem uma tribo urbana comum, mas não deixam de compartilhar certas características entre si. Entre os interesses compartilhados por esta “tribo” encontram-se coisas consideradas idiotas, inúteis e infantis por membros de outras subculturas ou do mainstream.
Nerd vs. CDF
Embora os CDFs daqui teriam sido chamados de nerd nos Estados Unidos, eles não são a mesma coisa. Neste caso a “Nerdpedia” em Português tem uma explicação decente:
Existe uma diferença entre nerds e “CDF”s: enquanto no primeiro grupo encaixam-se os naturalmente interessados em algum assunto cultural ( jogos, livros, filmes …), podendo não ir bem na escola; o segundo costuma referir-se a jovens em idade ginasial que nem sempre têm a escola como ponto central de suas vidas, mas despendem um bom tempo aos estudos, resultando em algumas características como obtenção de notas altas, questionamento sobre veracidade da informação passada, mas ainda podem manter-se comunicativos e sociáveis.
Eu dificilmente estudava para provas. Estava ocupado demais jogando videogame (desde os quatro anos de idade) e montando LEGOs. Porém adorava discutir qualquer assunto que fosse com os professores, muitas vezes assuntos que não cairiam no conteúdo.
Alguns nunca entendiam por qual motivo eu fazia os exercícios em aula, mas esta resposta é fácil também: para não ter que fazer em casa e deixar de jogar Killer Instinct ou assistir O Mundo de Beakman.
Para todas as provas do ensino médio, meu estudo se resumiu a uma olhada no caderno 15 minutos antes. Se fui bem, não foi por causa de estudo fora da escola.
Nerd vs. Geek
Ismael Alberto Schonhorst falou disso, e outras coisas, numa entrevista em 2004. Pelo menos eu acho que esta seja a fonte original — é um texto muito citado. De qualquer forma, ele diz:
Nem todo nerd é um geek… mas todo geek é um nerd, sem sombra de dúvida!
A Wikipedia/PT corrobora com esta afirmação e inclusive considera “geek” um “subgrupo” de nerd. A Wikipedia em inglês não concorda tão fácil, explicando a pluralidade e indefinição que rodeia o termo.
Uma das definições é a mesma que nerd, exceto sem a carga pejorativa, por ser um termo mais recente (nerd adquiriu essa carga aproximadamente em 1970).
A definição dada por Schonhorst, no entanto, não é a mesma que se iguala a nerd.
Pedindo socorro ao Jargon File
Para assuntos deste gênero, a fonte oficial de consulta é geralmente o jargon file, mantido pelo ilustre Eric S. Raymond.
O Jargon FIle informa que o significado da palavra nerd é praticamente o mesmo de geek, mas define “geek” de forma bem clara — e bem diferente de Schonhorst, que restringiu o geek à tecnologia — qual seja:
A person who has chosen concentration rather than conformity; one who pursues skill (especially technical skill) and imagination, not mainstream social acceptance. [...] Most geeks are adept with computers and treat hacker as a term of respect, but not all are hackers themselves.
De fato, diz o jargon, todos os nerds são geeks e vice-versa (ao contrário de algumas definições, que afirmam que geeks são “nerds sociais”):
One description accurately if a little breathlessly enumerates [as geeks] “gamers, ravers, science fiction fans, punks, perverts, programmers, nerds, subgenii, and trekkies. These are people who did not go to their high school proms, and many would be offended by the suggestion that they should have even wanted to.”
Existe, porém, uma grande diferença no uso da palavra “nerd”. De acordo com o Jargon File, “nerd” é usado com a consciência a respeito do significado pejorativo — aquele significado que coloca o nerd como um idiota (por se interessar por coisas idiotas). Em outras palavras, isto significa que o uso do termo nerd, por quem se orgulha de ser geek/nerd, é uma defesa da atitude dos geeks e dos interesses por eles compartilhados, afirmando ainda a irrelevância do fato destes não serem sociáveis ou conhecedores do senso comum mainstream vigente.
Pelo menos desde 1993 o termo geek é reconhecido como aplicável para várias especialidades, longe de ser restrito à tecnologia, conforme mostra o geek code. Seria um retrocesso dizer que o termo aplica-se somente a micreiros, embora isto aconteça porque são interessados por informática os que mais se identificam com esta cultura.
E então?
Conclui-se assim que:
- Definir nerd é problemático. Originalmente, no MIT, tinha um significado bem específico, mas depois se ramificou, adquiriu uma carga pejorativa e transformou-se em geek
- Nerds são geeks. Geeks são nerds. Um geek/nerd é um indivíduo interessado em desenvolver habilidades e é apaixonado por alguns assuntos específicos. Estes podem ser a literatura (mais comumente ficção científica), cinema, música, cultura oriental (otaku), quadrinhos, RPG, videogame e outros. São geralmente adeptos com computadores, mas não precisam ser técnicos ou engenheiros elétricos, embora dificilmente não tenham pelo menos um vago interesse pelo tema, além do fato de que “nerd” teve origem no MIT. A característica que liga todos esses indivíduos é um código de cultura comum e indiferença a normais sociais, o que geralmente faz o geek/nerd parecer idiota
- Geeks atualmente usam o termo “nerd” para se descrever (ver: slogan do Slashdot) porque “geek” tem uma ligação muito forte com PCs e tecnologia, que é incorreta (vide Jargon File). Vale notar que o êxodo original de “nerd” para “geek” se deu por conta da conotação pejorativa. Textos como o “Nerds Mandam Bem“, de Lia Portocarrero Amancio, poderiam ter “nerd” substituído por “geek” sem problema algum, desde que essas definições não tivessem ficado tão complicadas
- A escrita deste texto, resultado de um simples questionamento, é por si uma resposta para a pergunta “O que é ser nerd?”
Em outras palavras, para os apressados e fãs de síntese: Geek e nerd são a mesma coisa: um ser indiferente à aprovação alheia, fascinado pelo conhecimento e pela produção humana, seja nas máquinas ou na cultura. Atualmente, nerd é apenas usado por aqueles que têm orgulho de serem assim e negam a malícia deste comportamento, enquanto geeks preferem este termo por ser menos polêmico.
Assim sendo, fico com a definição de nerd.
Agora me dêem um minuto porque estou atrasado para começar a assistir o Spirited Away. Quem não tem nada urgente para fazer pode ler o Why Nerds Are Unpopular, de Paul Graham, que não é apenas sobre nerds, mas também sobre o sistema de educação e a adolescência.