A ciência nunca vencerá a religião

Está rolando agora uma discussão “transmidiática” [?], que começou na TV e partiu para internet, entre o pastor Silas Malafaia e o geneticista Eli Vieira sobre questões de homossexualidade. O Pedro Burgos fez um excelente resumo da ópera, em um texto com o título “Malafaia “perdeu” e a ciência ganhou? Não tão rápido“. Ele está correto, mas o título parte de uma premissa falsa.

A ciência nunca vencerá a religião — nem rápido, nem devagar.

Lembro quando frequentava as missas católicas e em determinado momento o padre proclamava: “eis o mistério da fé”. O mistério da fé existe porque ela desafia a razão humana — é, na verdade, incompreensível. Filósofos e teólogos sempre debateram questões como “se Deus já sabe nosso futuro, então não temos livre arbítrio, porque já tomamos todas as escolhas”, ou “se Deus já sabe o que somos e o que faremos, ele não precisaria nos colocar aqui na Terra para nos testar”.

Ou ainda: se Deus criou o universo, quem criou Deus? Como Deus ao mesmo tempo é três?

Existem algumas “respostas” para questões como essas, mas no fim tudo depende da capacidade do crente de acreditar e aceitá-las.

A ciência lida com conhecimento, com uma quantidade finita de saberes que construímos por meio de métodos documentados – métodos que também estão sujeitos à discussão. A religião tira sua força do consenso. A ciência tira sua força do debate. A religião é preto e branco: isso pode, isso é pecado. A ciência mora nos tons de cinza.

Ambas têm utilidade, até porque uma crença não precisa ser verdadeira para ser útil ao ser humano. Vai, confessa: eu sei que você ficava feliz quando era criança e via o Papai Noel. Eu sei que muitos se emocionam vendo a novela ou um filme (que sabemos que é mentira). A verdade não é de total relevância quando se fala do ser humano.

Esqueçamos Malafaia e o cristianismo. Voltemos ao Egito antigo ou à Grécia, com todos aqueles mitos e deuses. Todas essas crenças serviram ao povo na época: elas passaram lições de vida, mantiveram a sociedade estável e, principalmente no caso do Egito, que via seu líder como divindade, serviram para consolidar o poder, o que (imagine só) pode ter contribuído para a sobrevivência e grandeza daquela civilização. Não importa se era mentira. Aliás, é um deus que dá à fé a força persuasiva que ela possui. Não seria fácil acreditar em mitos se eles fossem atribuídos aos humanos.

Quando se precisa de respostas perenes, unificadoras, a ciência não tem chance alguma contra a religião. Não é nesse campo que ela atua. Quando a ciência compete com a religião de igual pra igual, ela se faz de boba. Se faz de boba porque tenta vender uma ideia de consenso, uma ideia de que “a ciência diz que” do mesmo jeito que a “religião diz que”, quando a coisa é normalmente bem mais complicada que isso.

Quando a religião se faz valer da ciência, ela se faz de boba também. Se faz de boba porque troca seus dogmas incontestáveis por fatos discutíveis. Se faz de boba porque mostra pastores que não compreendem o método científico ou o significado do termo “teoria”.

Ora, a gravidade é uma teoria. E ela não diz só que você vai se espatifar quando cair de um prédio; ela prevê e explica a movimentação e atração dos planetas, os buracos negros. É coisa complicada, e fala de forças que criam “curvas no espaço”. Você não vai “observar” nada disso, mas pode ver o movimento dos planetas. Mas é uma “teoria”. E tem consequências muito reais, porque consequências reais são normalmente do que tratam as “teorias”.

A parte mais triste, ainda assim, é ver a questão da homossexualidade ser discutida de forma tangencial. Discutimos se o sujeito tem escolha a respeito. E daí que tenha? Qual o problema com a escolha? Eu, que sou hétero, não sinto que tenho escolha sobre isso. Talvez alguns “héteros” tenham. Talvez alguns “gays” tenham. E provavelmente muitos deles não tenham.

Nem ciência, nem religião. Um pouco de humanismo, bom senso e amor ao próximo nos servem melhor.

Palavras do senso comum, religião, felicidade e hackers e videogames contra Nietzsche

Eu realmente não sou a pessoa mais gabaritada para falar de nada do que segue. Mas quem, hoje em dia, liga para gabaritos? Quando cronistas de jornal e editores de revista estão aí para falar de psicologia e fenômenos sociológicos, para serem por isso considerados profundos pensadores ao citarem qualquer coisa (de grandes pensadores) fora de contexto – e serem elogiados por isso – que mal faz mais uma opinião desinformada?

É claro que faz mal.  Continue lendo

Grey Imprinting

The grey paints a new color to the overcast sky every other second. The metamorphosing color sits between the shades of white and black made from the clouds that decorate it, replacing the blue. Among the airplanes, the birds, the sounds, the helicopters and the fake dullness, the uncertain stormy rain brings fear, uneasiness, and sadness to those who might have plans ruined, or happiness to those who need some raindrops to fall and wash their soul, or for the lightning to make company to their grief.


Simplesmente um parágrafo que escorreu na minha mente. Feito merda (sim, se fala merda neste blog). Mas quem sabe isso adube alguma coisa…

“Ler também é um exercício”

Uma propaganda veiculada pela Rede Globo de Televisão há sabe-se lá quanto tempo (não é pouco) afirma: “ler também é um exercício”. O objetivo da propaganda é incentivar o hábito da leitura no povo do brasileiro. Embora prefira a abordagem da MTV, não tenho nada contra a propaganda da Globo.

O que vale uma observação nesse caso é o argumento usado pela propaganda: Ler vale a pena porque é um exercício. Há uma carga de valor implícito nisso — exercício é bom –, e, se ler é um exercício, então ler também é bom. Se exercício não fosse bom, não valeria a pena compará-lo com a leitura — não com o objetivo da propaganda.

Há ainda outra carga implícita: quem está vendo não sabe que ler é um exercício. Porque, se a pessoa soubesse, não valeria a pena dizê-lo. Ao mesmo tempo, porém, a peça supõe que as pessoas sabem o que são exercícios e que eles são bons.

Ainda: normalmente quando se pensa em exercício, mentalizamos a ideia de exercício físico, e não exercícios mentais ou de imaginação.

Considerando tudo isso, chego nas perguntas: por que existe esse valor impregnado na cultura de que exercícios físicos são bons, enquanto a leitura não dispõe do mesmo privilégio? Por que não soa estranho dizer “leitura é tão importante quanto exercícios“, mas é estranho dizer “exercícios são tão importantes quanto a leitura“?

Aparentemente existe algo interno — da cultura, provavelmente — que qualifica exercícios físicos ao passo que desqualifica (ou pelo menos não eleva) a leitura. Interessante, no mínimo.

“Penso, logo existo” Reverso

trigun

Gostaria de fazer uma adaptação da reversal original, mostrada acima no excelente Trigun: Se você existe, prove: pense!

Vale mencionar que não é erro de tradução — ele realmente disse “alive”/”vivo” (ikite). Se o mesmo termo foi usado no mangá, ou se o paralelo com a famosa frase de Descartes foi intencional… não sei. De qualquer forma, achei a ideia legal e, portanto, registro-a aqui no blog.

… [2]: O “me too” do Orkut

Se você passou qualquer tempo razoável em tópicos de comunidades no Orkut e prestou atenção ao que estava “lendo”, deve ter visto este fenômeno: alguém diz sua opinião ou dúvida e, nos posts seguintes, outras pessoas citam a mesma frase acrescentando “[2]” (ou “[3]”, “[4]”…) para indicar que partilham do mesmo ponto de vista ou incerteza. Isso não é nada além de uma modernização de uma conhecida expressão internética: “me too”.

A comparação mais adequada que consegui achar para entender o fenômeno “Orkut” é a Usenet do início até meados dos anos 90. Até 1993, a Usenet era reservada para instituições acadêmicas e o fluxo de novos usuários era previsível (sempre em setembro) e pequeno, pois estava restrito aos calouros das universidades. Depois de um tempo, estes se adequavam às normas de comportamento na rede.

Em 1993, a America Online (AOL) liberou o acesso de seus usuários de internet doméstica à Usenet, iniciando o chamado “setembro eterno” — um fluxo interminável de novos usuários sem qualquer conhecimento sobre netiqueta, isto é, o comportamento correto na rede. Entre as várias gafes dos usuários da AOL, uma delas é o “me too” (“eu também”): quando algo era postado, todo mundo que concordava com aquilo seguiria postando “me too”.

Penso que “[2]”. “[3]”, ou, alternativamente o mais curto “+1”, são extensões desse mesmo “me too” e, portanto, um comportamento pouco adequado na rede. Parece-me que mesmo usuários frequentes não se dão conta da paralelo entre o “me too” e o “[2]”; provavelmente, poucos se dão conta do paralelo Usenet/EUA / Orkut/Brasil.

Para mim, no entanto, o paralelo é claro. A AOL é responsável pela explosão da internet comercial nos EUA, e logo adicionou suporte para a Usenet — o primeiro meio de interação direta entre os usuários da rede. O meio de interação aqui no Brasil é o Orkut, e ele apareceu exatamente no período de ascensão do número de usuários, tendo, portanto, o mesmo significado da Usenet para nós.

Acho legal procurar paralelos entre a Usenet e o Orkut. Pode revelar muita coisa. E poderemos atestar que a Usenet toda está se repetindo aqui… a começar pelo setembro eterno e o “movimento” contra a inclusão digital, isto é, o desprezo para com os usuários sem instrução adequada que estão apenas começando a usar o computador para se comunicar.

Onde queremos chegar?

“Enquanto o mundo te cobra sempre um futuro
A lama e a gloria são a mesma bosta”

Violins – Entre o Céu e o Inferno

“Entre o Céu e o Inferno” fala sobre a indefinição do ser humano no sentido do bem e do mal. Todos temos capacidade para ambos. E é bem provável que nos localizemos em um campo “cinza” em vez de sermos divididos simplesmente entre o totalmente ruim (preto) e o puro e bom (branco). É no cinza, entre o céu e o inferno, que nossas ações e sentimentos estão.

Nossa incapacidade de atingir a perfeição garante a frustração contínua. Na lama e na — suposta — glória ainda estamos insatisfeitos. Queremos sempre mais, mas não sabemos quanto, e mesmo quando atingimos o que antes considerávamos ser o suficiente, vemos cada vez mais necessidades a serem atendidas, nossas exigências se elevam junto com o progresso, e o que antes parecia tanto agora já não é nem o suficiente. Também a pressão das outras pessoas sobre nós não é aliviada; se qualquer coisa, se potencializa com o sucesso, de modo que, se você simplesmente quer um pouco de paz, você será um covarde, como uma obra mal acabada.

Para quem está “mal”, a situação é idêntica, embora a pressão por melhorar seja simplesmente o desprezo por ele ou ela ser um “ninguém”.

Qual é a glória que procuramos? Onde queremos chegar, exatamente? Querer sempre melhorar é uma resposta, mas não é um objetivo finito – a perfeição é inalcançável. É, portanto, incompatível com outro desejo comum, qual seja, o de encontrar a paz. Enquanto há um conflito, uma inquietação, ali não não pode haver paz. (Se você conseguir conciliar isso, agradeço tutoriais passo a passo.)

Meu argumento é simples. Não há paz para ser encontrada no progresso. Uma corrida só acaba porque o número de voltas foi pré-estabelecido. O progresso — nosso, individual, ou coletivo, do mundo — nunca irá parar de “dar voltas”, e nunca poderemos dizer que algo acabou ou quem foi o vencedor, se não estabelecermos um objetivo.

Felizmente, não precisamos dar ouvidos aos objetivos (não-)estabelecidos dos outros. Mas então, onde cada um de nós quer chegar?

Não falar ao acaso aumenta suas chances de dizer algo que presta

Estava na pauta do blog há meses um post com o título “O medo de as palavras terem feito”, no qual eu falaria sobre as opiniões deixadas ao acaso diariamente e que provavelmente ninguém se atreveria a dizer se de fato tivessem que provar o que dizem ou se corressem o risco de serem cobrados depois para ver o que acertaram.

Eis que um novo estudo científico fala por mim. Em resumo, os cientistas descobriram que as pessoas conseguiram acreditar em coisas mais plausíveis quando sabiam que a crença delas seria julgada mais tarde e não simplesmente deixada no acaso de uma conversa.

Fica a lição: não falar ao acaso aumenta suas chances de dizer algo que presta. Registre suas crenças e achismos para julgá-los depois.

Citação do ano

Não é tão grande assim para ser a “citação do ano”, mas eu precisava registrar essa excelente frase do Robin Hanson, lá do Overcoming Bias, e certamente não vai ter mais outro registro desse gênero ainda este ano aqui no blog. Então segue:

We sincerely believe that the world would be better off with a fair neutral way to evaluate political claims, but mainly because we expect such evaluations to favor our side.

Expressou em uma frase o que eu tentei dizer no post A Imparcialidade e a Verdade. Hanson já disse coisas com as quais não consigo concordar, mas aí acho que ele acertou na mosca.