Pós-rock e shoegaze para download – de graça

Gostei. Eu tenho uma banda. Posso participar do casting de vocês?
Depende. Faça um teste: Mostre a música para a sua mãe. Se ela falar que é “diferente”, tem chances de ser aceito. Se depois de dezessete minutos ela perguntar quando a música vai começar, seja bem-vindo ao nosso casting. Se ela gostar e cantar junto, procure outro selo.

Lá no “selo on-line” Sinewave. O que me deixa perplexo é só ter conhecido os caras só hoje. Cadê o poder de disseminação de informação da internet? Eu fico nela o tempo todo e mesmo assim essas coisas escapam de mim.

De qualquer forma, é música e boa e de graça. Bora parar de brigar com sopa e pipa e vamos ouvir quem não força os fãs a serem foras da lei?

Haibane Renmei: quando a falta de pretensão é arte

Ela tem asas e fuma

Ela tem asas e fuma

Quando vemos algo diferente é natural supor que há algo de especial naquilo. Não quer dizer que seja bom. Pelo contrário. O especial pode ser uma habilidade, um poder, um status — mas também pode ser uma deficiência, uma desafinação com o ambiente. Que tal ver um homem engravatado andando de bicicleta, ou um esportista usando um computador, com capacete e caneleira?

Sabendo isso, o que se pensa de um grupo de garotas com pequenas asas cinzas e um halo sobre a cabeça?

Yoshitoshi ABe, a mente por trás do anime Haibane Renmei, é mais conhecido pelo seu trabalho em Serial Experiments Lain, quando foi responsável pelo desenho dos personagens (ele não é ‘autor’ de Lain, como diz a Wikipedia/PT). Aqui, no entanto, ABe fez também todo o roteiro, além de ser o diretor artístico.

A obra tem como base uma pequena série de doujinshis — espécie de mangá não-profissional, feito geralmente por fãs ou por autores consagrados apenas para publicar desenhos quaisquer, ou parodiar/divulgar outros trabalhos. Nesse caso, os doujinshis já tinham o nome de “Haibane Renmei”, e mais tarde “Old Home no Haibane Tachi” (“Os Haibanes da Old Home”). No primeiro doujinshi — “Haibane Renmei”, ABe escreveu:

Dessa vez é um livro sobre anjos. Comecei com nada além da simples ideia de aumentar a variedade de meninas que desenho. Como resultado elas dão a impressão de serem criaturas desajeitadas, um tanto não-angélicas, e para combinar com isso as asas delas são cinzas também. Elas não possuem nenhum poder estranho, naturalmente. E não, elas não podem voar. Elas não podem fazer nada para ajudar os outros, e não fazem nenhum grande serviço ao mundo. Que decepção. Mas pessoalmente eu sinto que é isso que as torna atraentes. O que você acha?

Rakka, personagem principal por contexto em vez de habilidade heróica

Rakka, personagem principal por contexto em vez de habilidade heroica

Dois anos mais tarde, quando publicou o primeiro (de 3) Old Home no Haibane Tachi, ABe escreveu que seu desejo era ilustrar o mundo em que essas garotas aladas viviam. Mas ele também queria que a história procedesse de maneira calma, relaxada.

O doujinshi foi abandonado com a oferta da criação de um anime. Apesar da mudança da mídia, os objetivos de ABe não mudaram. Haibane Renmei — algo como Federação das Penas Cinzas — é uma história tranquila, relaxada, sobre personagens que parecem ter algo de especial, mas que são tão normais quanto poderiam ser. São humanos — erram, se emocionam, trabalham, fracassam, têm defeitos e qualidades.

O passo lento torna o anime uma paisagem, apreciada em doses pequenas, mas embriagantes. Desde a abertura, uma trilha instrumental com violão e violino regada com cenas cotidiana dos personagens, aos festivais, eventos, dificuldades. Em quantos outros animes você viu personagens comprando roupas? Vale dizer, isso é relevante na medida em que, ao contrário das outras pessoas, os Haibane possuem asas, e suas roupas precisam ser adaptadas.

É essa atenção ao detalhe que faz Haibane Renmei brilhar. O que importa não é o enredo, mas a maneira como ele progride e como seus personagens lidam com as situações e problemas cotidianos. Não existe a pretensão de uma história grande e complexa. Os mistérios do mundo onde eles vivem não mais angustiam eventualmente, porque são reflexos dos mistérios que cercam nossas próprias vidas. As respostas que os Haibanes não têm, nós, aqui fora, também não temos, e é injusto querer que eles saibam o que não sabemos. Porque eles não são heróis.

Os Haibane moram em uma cidade cercada por muralhas, da qual não podem sair. Também há humanos normais, sem asas, que moram por ali. (Clique para ampliar)

Os Haibane moram em uma cidade cercada por muralhas, da qual não podem sair. Também há humanos normais, sem asas, que moram por ali. (Clique para ampliar)

A dor da perda de alguém, as barreiras culturais, o que está além do espaço que conhecemos, o passado das pessoas à nossa volta, a necessidade de respostas, o arrependimento e a dificuldade de lidar com o erro, o perdão — tudo isso aparece em Haibane Renmei de uma maneira tão simples e despretensiosa, possibilitando que você entre nesse mundo como em nenhum outro, sem julgar, sem raiva, sem expectativas.

É essa sensação de imersão pacífica que torna Haibane Renmei tão especial. Quem a tem sabe que a tem. Quem não tem não saberá o que perde. Infelizmente, não é para todos. É necessário paciência, atenção e vontade de se envolver com personagens que não são diferentes de cada um de nós. Nem maus, nem bons. Apenas haibanes.


Escrever essa resenha era desejo de longa data. Desde o início do blog, mais precisamente. Acabei escrevendo antes a resenha de Spiral, tal foi minha raiva ao terminar de assistir aquele projeto de anime. Depois tive que admitir que não mais sabia o que tanto queria escrever sobre Haibane Renmei.

Não sei se nessa resenha consegui dizer o que imaginei inicialmente. Mas não existe meio de saber com certeza se minhas ideias iniciais era piores ou melhores que essas de agora. Mesmo assim, fica aí o registro, e a recomendação.

Recomendações #2

Seguindo o exemplo do primeiro, entretenimento legalmente disponível para download.

  • Straightaway (Música/Punk) — Pop Punk e hardcore francês. A banda está trabalhando em um CD novo e, por isso, decidiu distribuir seu disco anterior gratuitamente em MP3 de 320kbps com toda o encarte incluído. Vale a pena baixar o disco ou pelo menos verificar o MySpace
  • Perito Moreno (Música/Alternativa) — O grande Beto Cupertino, compositor e cantor da extinta Violins, está com um projeto solo experimental chamado Perito Moreno. As músicas são gravadas de forma simples, mas isso só faz perceber a capacidade dele como músico. O projeto já conta com dois EPs, “Made to Escape”, que usa violão e voz, e “Save the Elephants”, no qual o violão dá lugar a um piano. Vale a pena conferir o site oficial, com as músicas e a comunidade no Orkut, onde o próprio Beto publica as letras e comentários.
  • Oni (Música/Rock) — É difícil ser mais específico do que “rock”. O som da Oni, banda na qual um colega meu toca guitarra (e canta em algumas músicas), tem influências de várias vertentes do pop rock, do hard rock e metal, sendo estes dois últimos os mais aparentes. Obviamente, se ela consta aqui, dá para baixar o primeiro CD completo. A comunidade no Orkut traz outras informações e as letras.
  • Aura… (Música/Emo) — Emo/Indie Made in Brazil de verdade, diferente da outra banda que toca um som bem alegre e radiofônico. Os mineiros do Aura… fazem um som no estilo Sunny Day Real Estate. O CD “Enquanto houver sentimentos…” está disponível no TramaVirtual da banda.

Versos: A Sala Quieta

E é nesta sala quieta
Onde o bem flerta
Com mal enraizado
No que não é malvado

Para que repensar o passado
	Se nada muda
E minha tentativa de me ajudar
	Só deixou claro
Que eu precisava de ajuda

Só o silêncio faz refletir
Mas como pode ser verdade
que quem vê cara não vê coração
Se é só ao olhar no espelho
Que eu posso me sentir

Mas não me vejo
Não me sinto
E meu único desejo
É sair deste recinto

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Os japoneses tem um senso de humor estranho, como, aliás, todo mundo parece ter — senso de humor é uma dessas coisas que nasce unicamente em cada cultura.

Assisti não faz muito tempo o filme Quiet room ni yôkoso ou “Bem-vindo à sala quieta”. O tom do filme é negro, mas tem surtos de comédia aqui e ali, no maior estilo black comedy, com direito a canções, acidentes sangrentos e desesperanças. É impressionante como conseguiram fazer um endereço de e-mail ser tão tragicômico. Sensacional.

Acabei descobrindo este filme graças à (curta) participação especial de Hideaki Anno, diretor do clássico — freqüentemente incompreendido e comercialmente abusado — Neon Genesis Evangelion.

Ainda está pendente minha introdução ao cinema sul-coreano, que me disseram faz muito tempo ser de ótima qualidade.

O texto acima, meu, foi obviamente baseado no filme e ilustra mais ou menos o que é, de fato, a “sala quieta” do hospital psiquiátrico no qual o filme se passa. Não se ver e não se sentir — a maneira mais eficaz para não ser atormentado por problemas ordinários. Quem não dispõe de uma sala quieta, usa álcool ou cannabis. Quem tiver mais dinheiro usa calmantes de marca.

Recomendações #1

Sempre que eu acumular conteúdo suficiente, vou fazer um pequeno post com recomendação de conteúdo multimídia (música, vídeo, etc) free. Eis o primeiro:

  • The Corporation (Documentário) — Disponível em versão de download oficial via BitTorrent, este documentário canadense trata do surgimento e dos efeitos políticos, econômicos e sociais das entidades conhecidas como “corporação” ou “pessoa jurídica”. Pode ser facilmente obtido via Google “The Corporation Download Edition” em vários sites de torrent.
  • The Story of Stuff (Documentário/Curta-metragem) — Um pequeno documentário sobre como funcionam as “coisas” no mundo industrializado. Facilmente encontrado com legendas em português no YouTube e outros lugares. O site oficial é www.storyofstuff.com.
  • Liberta (Música/Rock) — O EP “Vitória ou Morte” de cinco músicas está disponível gratuitamente via MySpace.
  • Projeto Radiofônico (Música/Rock) — Os guris da Família Projeto Radiofônico (como chamam a si mesmos) possuem todas as músicas do disco “O Ponto” para download no Tramavirtual da banda. Devem estar lançando um CD novo em breve.
  • David Schombert (Música/Eletrônico Ambiente) — O francês David Schombert compõe música eletrônica ambiente. O conheci por ter sido o responsável pela curta trilha sonora (apenas três músicas) do game de estratégia Warzone 2100. Os CDs mais antigos dele podem ser obtidos gratuitamente no site pessoal, em formato MP3 e licença Creative Commons.
  • COLORIR (Música/Rock Instrumental) — Esta genial dupla catarinense do rock instrumental coloca quase todas as músicas para o download no Tramavirtual da COLORIR. Recomendo o “Noite, Madrugada, Infinito” em especial. É CD para você colocar para tocar e esquecer.

Por hora é isso.

Violins – A Redenção dos Corpos: rock que faz pensar

Letras de rock costumam ser ruins. E depois que ficou especialmente mainstream fazer letras “emo”1 que não dizem coisa alguma, há pouco incentivo para fazer diferente. Felizmente, os goianos da Violins fazem um rock de qualidade abastecido de letras criativas. Por vezes irônicas, noutras sarcásticas — mas sempre ácidas –, as letras de Violins seriam boas mesmo que na caixa do CD viesse apenas o encarte. Acompanhadas de violões, teclados e guitarras, são algumas das melhores músicas do rock alternativo brasileiro contemporâneo. Continue lendo

  1. O emo de verdade (Elliott, Mineral) tem algumas letras interessantes. Mas o que popularizou o termo é deprimente.