
Ela tem asas e fuma
Quando vemos algo diferente é natural supor que há algo de especial naquilo. Não quer dizer que seja bom. Pelo contrário. O especial pode ser uma habilidade, um poder, um status — mas também pode ser uma deficiência, uma desafinação com o ambiente. Que tal ver um homem engravatado andando de bicicleta, ou um esportista usando um computador, com capacete e caneleira?
Sabendo isso, o que se pensa de um grupo de garotas com pequenas asas cinzas e um halo sobre a cabeça?
Yoshitoshi ABe, a mente por trás do anime Haibane Renmei, é mais conhecido pelo seu trabalho em Serial Experiments Lain, quando foi responsável pelo desenho dos personagens (ele não é ‘autor’ de Lain, como diz a Wikipedia/PT). Aqui, no entanto, ABe fez também todo o roteiro, além de ser o diretor artístico.
A obra tem como base uma pequena série de doujinshis — espécie de mangá não-profissional, feito geralmente por fãs ou por autores consagrados apenas para publicar desenhos quaisquer, ou parodiar/divulgar outros trabalhos. Nesse caso, os doujinshis já tinham o nome de “Haibane Renmei”, e mais tarde “Old Home no Haibane Tachi” (“Os Haibanes da Old Home”). No primeiro doujinshi — “Haibane Renmei”, ABe escreveu:
Dessa vez é um livro sobre anjos. Comecei com nada além da simples ideia de aumentar a variedade de meninas que desenho. Como resultado elas dão a impressão de serem criaturas desajeitadas, um tanto não-angélicas, e para combinar com isso as asas delas são cinzas também. Elas não possuem nenhum poder estranho, naturalmente. E não, elas não podem voar. Elas não podem fazer nada para ajudar os outros, e não fazem nenhum grande serviço ao mundo. Que decepção. Mas pessoalmente eu sinto que é isso que as torna atraentes. O que você acha?

Rakka, personagem principal por contexto em vez de habilidade heroica
Dois anos mais tarde, quando publicou o primeiro (de 3) Old Home no Haibane Tachi, ABe escreveu que seu desejo era ilustrar o mundo em que essas garotas aladas viviam. Mas ele também queria que a história procedesse de maneira calma, relaxada.
O doujinshi foi abandonado com a oferta da criação de um anime. Apesar da mudança da mídia, os objetivos de ABe não mudaram. Haibane Renmei — algo como Federação das Penas Cinzas — é uma história tranquila, relaxada, sobre personagens que parecem ter algo de especial, mas que são tão normais quanto poderiam ser. São humanos — erram, se emocionam, trabalham, fracassam, têm defeitos e qualidades.
O passo lento torna o anime uma paisagem, apreciada em doses pequenas, mas embriagantes. Desde a abertura, uma trilha instrumental com violão e violino regada com cenas cotidiana dos personagens, aos festivais, eventos, dificuldades. Em quantos outros animes você viu personagens comprando roupas? Vale dizer, isso é relevante na medida em que, ao contrário das outras pessoas, os Haibane possuem asas, e suas roupas precisam ser adaptadas.
É essa atenção ao detalhe que faz Haibane Renmei brilhar. O que importa não é o enredo, mas a maneira como ele progride e como seus personagens lidam com as situações e problemas cotidianos. Não existe a pretensão de uma história grande e complexa. Os mistérios do mundo onde eles vivem não mais angustiam eventualmente, porque são reflexos dos mistérios que cercam nossas próprias vidas. As respostas que os Haibanes não têm, nós, aqui fora, também não temos, e é injusto querer que eles saibam o que não sabemos. Porque eles não são heróis.

Os Haibane moram em uma cidade cercada por muralhas, da qual não podem sair. Também há humanos normais, sem asas, que moram por ali. (Clique para ampliar)
A dor da perda de alguém, as barreiras culturais, o que está além do espaço que conhecemos, o passado das pessoas à nossa volta, a necessidade de respostas, o arrependimento e a dificuldade de lidar com o erro, o perdão — tudo isso aparece em Haibane Renmei de uma maneira tão simples e despretensiosa, possibilitando que você entre nesse mundo como em nenhum outro, sem julgar, sem raiva, sem expectativas.
É essa sensação de imersão pacífica que torna Haibane Renmei tão especial. Quem a tem sabe que a tem. Quem não tem não saberá o que perde. Infelizmente, não é para todos. É necessário paciência, atenção e vontade de se envolver com personagens que não são diferentes de cada um de nós. Nem maus, nem bons. Apenas haibanes.
Escrever essa resenha era desejo de longa data. Desde o início do blog, mais precisamente. Acabei escrevendo antes a resenha de Spiral, tal foi minha raiva ao terminar de assistir aquele projeto de anime. Depois tive que admitir que não mais sabia o que tanto queria escrever sobre Haibane Renmei.
Não sei se nessa resenha consegui dizer o que imaginei inicialmente. Mas não existe meio de saber com certeza se minhas ideias iniciais era piores ou melhores que essas de agora. Mesmo assim, fica aí o registro, e a recomendação.