Versos: Assim Falou um Coração

Queria saber quem foi que fez
do amor uma queda de braço
Uma guerra carente de sensatez
travada com armas invisíveis
que machucam mais que o aço:

— Um arsenal composto de medos
De amar mais, de amar menos
Amar demais, amar de menos,
Amar diferente, de mentira
e a mentira e seus enredos

Classificar o amor
com rótulo e valor nutricional
O que faz bem, o que faz mal
Valor diário, caloria, calor
Para não ter pouco e nem excesso

Quem pode e não se poderá ter
Faz só o estranho ter caráter
Quem está próximo até ama também
Mas é sem graça e calmo demais
E o amor quer aventura, meu bem

Que cheguem perto, porém não muito
Querem tudo e não querem nada
Nada deles nesse tal de Outro
Como o investidor mais afoito
Querem o outro sem dar de si —

Não ganharão nada desse jeito
Fico aqui batendo nesse peito
Tentando mostrar o que me aflige
E o que vai virar fuligem
Depois que o “amor ardente” queimar

Amor não queima, não congela
Não evapora e não transforma
Ele esteve contigo e com ela
Nos minutos despretensiosos
Que construíram o passado

Amor não quer amar
e nem ama apenas um
Ama por não ter escolha
e deixa o ego espernear
sem esforço algum

Amor só segue as regras
criadas por quem é amado
não é a regra social:
nem a que jaz em pedras
nem a que se é obrigado,

amor livre que se restringe
por tanto amar com razão
não em físico, mas em essência
que ademais é consciência
e toque só vira expressão

Amar com razão, amar quem fez
do amor um carinho de ouvir
caminhar e trilhar, ver dormir
juntos sem motivo, sorrir
pelo acaso que não os deixou separar

Amar quem lembrou que vai perder
E quis pouco achando que era tudo
que ao saber da tristeza
quis compartilhar a felicidade
em vez de fugir

amar quem sonhou ser a chuva
por entender que às vezes
é preciso deixar o Sol brilhar sozinho
mas que é preciso ter a certeza
de que vai voltar

Palavras do senso comum, religião, felicidade e hackers e videogames contra Nietzsche

Eu realmente não sou a pessoa mais gabaritada para falar de nada do que segue. Mas quem, hoje em dia, liga para gabaritos? Quando cronistas de jornal e editores de revista estão aí para falar de psicologia e fenômenos sociológicos, para serem por isso considerados profundos pensadores ao citarem qualquer coisa (de grandes pensadores) fora de contexto – e serem elogiados por isso – que mal faz mais uma opinião desinformada?

É claro que faz mal.  Continue lendo

De quando se acreditava na força dos blogs

Quando comecei a estudar design e programação web, lá em 2003, 2004, a bola da vez eram os blogs. Todo desenvolvedor web influente tinha um blog e o pessoal se encontrava no Tableless. Pensávamos sobre como a web iria evoluir usando XHTML, que podia ser lido como XML — e que isso era muito mais rápido e interessante, por exemplo, para dispositivos com menor poder computacional, como celulares. Sim, porque desde então estava claro que um dia todos acessariam a web pelo celular.

Acreditava-se na produção de conteúdo independente, alavancada pelos blogs e as ferramentas de publicação barata como o Blogger, LiveJournal e até o Typepad. O MovableType era a melhor ferramenta de publicação, porque era grátis para uso não comercial e prezava pelo desempenho dos sites que o utilizavam.

Os blogs estavam prontos: eram bem programados, usavam os layouts mais corretos. Que vitória foi quando o Terra adotou seu primeiro layout sem usar as malditas tabelas. Como eram impressionantes o CSS Zen Garden e a periodicidade do blog do tio Zeldman, que até tinha o seu número de publicação seriada (ISSN)!

Os mais ousados falavam na construção de relevância por meio de links do Google. Dizia-se que era preciso linkar, mas com responsabilidade, para que o conteúdo certo e correto fosse o líder no site de buscas. Tudo isso se juntaria à web semântica – usaria-se formatos como RDF para descrever “coisas” e os computadores as entenderiam e relacionariam usando avançados algoritmos.

E ficamos muito chocados quando o Estadão fez aquela campanha publicitária antiblogs.

Mas um dia chegamos no ponto em que as coisas mudaram. O Twitter foi lançado e já movimentava milhares de posts. E o mesmo Jeffrey Zeldman, que outrora chamara seu site de “Daily Report”, já tinha passado a ser no máximo um “Daily Tweets”. E falou: o site pessoal está desaparecendo.

Blogs eram sites pessoais. Eles é que estavam desaparecendo.

A ideia de alimentar o Google com links relevantes se transformou em mera preguiça e amontados de links para páginas da Wikipedia. Quem tentou aprender algo foram os especializados em “SEO” e naquelas técnicas de links fantasmas para colocar sites sem mérito algum entre os primeiros do ranking.

A figura do blog que produziria conteúdo independente sumiu. O macaco repetidor de conteúdo da propaganda do Estadão, causa de tanta raiva, foi institucionalizado pelo reblog do Tumblr. Tudo virou perfil no Facebook, com suas curtidas e compartilhamentos de fotos fofinhas de animais, vegetarianos, religiosos, ateus, trolls, uma nova geração de cam whores e informações sem nenhuma credibilidade.

A web não virou semântica. Computadores não aprenderam a entender outros computadores. Computadores aprenderam a coletar infinitas informações sobre pessoas e entendê-las a partir do que outras pessoas fazem. O Facebook é campeão nesse torneio e já de cara mostra só o que ele acha que é relevante para cada um de nós, automaticamente aprendendo com nosso comportamento e fazendo um filtro automático.

A web semântica não veio do RDF. Veio do ‘curtir’, do ‘RT’, do ‘reblog’ e da hashtag.

Quem mais mantém blogs agora são os próprios portais de internet. Se não foram criados por eles, viraram parceiros deles, de forma quase indiferenciada do conteúdo editorial que noutras vezes fora “mais valioso”. Às vezes é até o contrário. E alguns sites se transformaram em amontados de blogs, como a Forbes (!) e o ZDnet. Nem o New York Times escapou dessa.

Celulares ganharam telas maiores e aprenderam a ler HTML comum. Aliás, só uma meia dúzia aprendeu a fazer XHTML direito. E mais: o ódio do iPhone pelo Flash tem sido o maior incentivo para adoção do novo HTML 5 (sem o X). E mais: há quem faça um app próprio para o celular consumir o conteúdo. A uniformidade e o conteúdo multiplataforma que se danem.

É interessante olhar para o passado, até com certo romantismo, e ver que, pelo menos do meu ponto de vista, do que eu achava que se estava pregando naquela época, tudo deu errado. E e ainda teve a tentativa completamente fracassada da Macromedia de transformar o Flash em uma ferramenta de aplicação de internet. Quem comprou essa ideia se deu mal: a Adobe já até descontinuou o Flash Player para o Linux.

Não sei se o futuro que se realizou é pior ou melhor do que aquele que se imaginava, mas não cabe neste texto analisar a internet inteira e ver se ela melhorou ou piorou.

Apenas constato aqui os erros do passado, e como aquilo que veio a se realizar o fez por um caminho muito diferente do que se imaginava.

Versos: Mausoléu do brilho

o teto do mundo
agora cinza
em terra estranha
me lembra praia
e chuva que banha
a rua e eu fico
trancado em casa
vendo as nuvens
aqui, longe
do lugar do lar
trocando poréns
e batendo papo
com o céu
cheio de estrelas
um mausoléu
do brilho
quando negro
empecilho
pra mim
que só queria
um dia cinza
frio
e parcialmente seco

8 de março

É tanta gente postando “feliz dia da mulher” (ou uma das centenas de variações) no Facebook que eu quase sinto uma obrigação cívica de clicar em “curtir”, “compartilhar”.

Quase.

Seguindo aquela regra simples de não façais aos outros aquilo que não quereis que vos façam1, eu não posso parabenizar ninguém por ser mulher. Nem quero ser parabenizado por ser homem. A história está cheia de homens (e mulheres) que fizeram coisas terríveis. Eu ser homem não me impede de ser alguém terrível. Não quero me orgulhar disso, porque o orgulho cego e burro é o primeiro passo para ser, de fato, cego e burro.

E tem muitas mulheres e homens incríveis, também. Mas o que permitiu isso não foi, evidentemente, o gênero com o qual nasceram. Foi a vontade, o desejo, a capacidade de pensar e transformar o meio. Para ser como eles, é necessário atribuir essas grandiosas conquistas às atitudes que de fato as permitiram acontecer.

E isso nada tem a ver com os cromossomos.

Infelizmente, as mulheres tiveram menos oportunidades devido a uma sociedade que até hoje as vê como inferiores. Porque em um mundo onde dinheiro é o sinônimo de poder, as rendas inferiores das mulheres são, sem sombra de dúvida, a maior prova do preconceito idiota que permeia esta civilização “pós-moderna”.

A solução para esse problema veio atravessada: criar um dia que celebra as mulheres por serem mulheres. Não pelas conquistas que elas obtiveram como seres humanos – como os homens sempre foram julgados -, mas por serem mulheres. Como se as demais conquistas, reais e que demandaram esforço, fossem óbvias porque elas são esses seres grandiosos: mulheres.

E é esse “ser mulher”, definido, naquele elogio torto de que ela deve ser linda e demorar para se arrumar, ser necessariamente frágil e forte, chorona e sensível, é esse ser mulher que confina as mulheres no mesmo espaço restrito ao que elas sempre ocuparam no decorrer da história e do qual foi tão difícil escapar.

Volta-se a defini-las, a (de)limitá-las. A lhes dar um papel “de cuidar”, “de amar”, de “ser mãe” ou o que o valha — sua mensagem preferida no Facebook pode variar, mas tanto faz. Essa lógica de tentar unir e dar igualdade enquanto se divide e define diferenças, de dar liberdade enquanto se define o que se espera e como se deve ser, obrigando as pessoas a serem desse ou daquele jeito, é um tanto sem sentido, quase vil.

Não é válido julgar seres humanos pelo gênero ou aparência, nem pelo número do QI. Valem as dificuldades vencidas e a noção de justiça que permite saber que o respeito é ganho quando é merecido e conquistado, por atitudes e iniciativas, por transformações e por ideias – não por uma data marcada no calendário.

Para esses indivíduos, o desafio é fazer de todos os dias mais um dia que valeu a pena ter vida. Porque sabem que chega o amanhã, mais um dia qualquer quando já se acabaram os elogios gratuitos e a enaltação cívica obrigatória – nunca merecidas, e que só confundem na hora de saber do que realmente é preciso se orgulhar.

  1. Tem a versão Budista, que é “Não atormentes o próximo com o que te aflige.”

Pós-rock e shoegaze para download – de graça

Gostei. Eu tenho uma banda. Posso participar do casting de vocês?
Depende. Faça um teste: Mostre a música para a sua mãe. Se ela falar que é “diferente”, tem chances de ser aceito. Se depois de dezessete minutos ela perguntar quando a música vai começar, seja bem-vindo ao nosso casting. Se ela gostar e cantar junto, procure outro selo.

Lá no “selo on-line” Sinewave. O que me deixa perplexo é só ter conhecido os caras só hoje. Cadê o poder de disseminação de informação da internet? Eu fico nela o tempo todo e mesmo assim essas coisas escapam de mim.

De qualquer forma, é música e boa e de graça. Bora parar de brigar com sopa e pipa e vamos ouvir quem não força os fãs a serem foras da lei?

“Qual antivírus você usa?”

Quando as pessoas descobrem com o que trabalho, não demoram a disparar a pergunta: “mas, então, qual antivírus que é o bom hoje?

Eu obviamente não sei essa resposta, então interpreto a pergunta como “se você quisesse saber qual o bom antivírus, como faria?” e sugiro olhar lá no AV-Comparatives.

Eu não uso antivírus. E para entender isso, é importante saber quais as funções de um antivírus:

  1. Proteger os dados (aqui se inclui “desinfectar arquivos”)
  2. Impedir a infecção do PC
  3. Detectar uma infecção que já ocorreu (função informativa)

Não usar antivírus é um costume que carrego depois de ter usado Linux por um ano e meio. E também é resultado de uma conclusão lógica: nenhum software de segurança vai substituir a garantia de se ter um hardware adicional para realizar backups. Meu “esquema de segurança” não consiste de antivírus; consiste de discos rígidos. Seis discos rígidos, para ser exato.

Eu uso três. Os outros três são cópias (espelhos) dos outros três, exatamente com os mesmos dados. As informações mais importantes estão em 4 dos 6. Se der algum problema nos discos, eu consigo recuperar.

Um dos quatro HDs mencionados, que contém os dados mais importantes, fica desligado a maior parte do tempo – é ligado uma vez por semana, mais ou menos, para ser sincronizado. Isso dá um tempo para que eu consiga recuperar arquivos no caso de um vírus, ou até ligá-lo com segurança em um segundo computador no caso de suspeita. De qualquer forma, compras com cartão de crédito e acesso ao banco são feitos a partir de um LiveCD com Linux.

A função de “proteger os dados” dos antivírus, portanto. não me é útil.

Quanto à função número 2, eu ainda uso antivírus pelo Virus Total e uso máquinas virtuais com o VirtualBox para testar programas que baixo da internet, no caso de dúvidas. Aliadas, essas duas táticas conseguem detectar mais vírus que poderiam infectar meu PC do que um antivírus instalado aqui.

Quanto à função informativa, essa eu mesmo faço: periodicamente, executo ferramentas da SysInternals Suite, como o TCPView, o Process Explorer e o Autoruns. Às vezes, vai aí também um antirootkit. Comparo os resultados com o que é esperado, e, novamente, vou ter uma análise melhor do que um antivírus iria me proporcionar.

Logo, não sugiro que todo mundo desinstale um antivírus como eu. São poucos os que fazem backups. Menos ainda os que tem noção de quais arquivos são perigosos para mandar pro Virus Total ou analisar em uma máquina virtual. No fim das contas, exceto para os especialistas, as funções do antivírus ainda precisam ser realizadas por ele.

O problema é que ele é uma ferramenta – não é garantia de cobertura total de proteção em nenhum dos casos, mas é tido como tal. E isso é preocupante. Eu não uso antivírus porque conheço as ferramentas que uso. Muita gente usa antivírus sem conhecer – o que é pior. Desde sempre escrevi: “use o antivírus que você conhece”. É preciso ter noção da forma que ele age, das limitações e das capacidades, tomando medidas adicionais quando for necessário.

Voltemos à Bruce Schneier: segurança é um processo, não um produto. Usar um antivírus não resolve. Usar um antivírus que você conhece e tapar os buracos que ele deixa, isso sim.

Carnaval

Citar

Fernando Cezar: e aí, pulando o carnaval em maringá?
Altieres Rohr: desculpa aí, meu processador não tem JMP
Fernando Cezar: hahaha
Fernando Cezar: sabe que sem o JMP o processador não funciona, né?
Fernando Cezar: sem JMP não tem if, while, goto…
Fernando Cezar: enfim…
Altieres Rohr: sim
Altieres Rohr: eu não tenho condicionais
Altieres Rohr: comigo o papo é reto
Fernando Cezar: hahaha

Vamos tentar de novo

Nota

Fiz mais algumas mudanças no layout aqui do blog. Preciso dar um jeito de acabar com essa vontade nunca realizada de ter um site com fundo preto.