Versos: A Derrota dos Invencíveis

Vejo versos velhos
Sozinhos, sem som
Pois perdi a poesia
Agora abandonada

Canções, cantigas
Marcam meus medos
Inúteis, fúteis
Derivados do desejo

Quem quis o quando
Outrora odiava o onde
E brincou por brincar
Nutrindo nãos e nadas

Há histórias humanas
Mais nobres que esta
Paz de paixões planas
Como sombras numa sesta

Desfiz-me de uns segredos
Visando à vitória da verdade;
Que escapa dos meus dedos
Aufere amor, apaga alarde

A ciência nunca vencerá a religião

Está rolando agora uma discussão “transmidiática” [?], que começou na TV e partiu para internet, entre o pastor Silas Malafaia e o geneticista Eli Vieira sobre questões de homossexualidade. O Pedro Burgos fez um excelente resumo da ópera, em um texto com o título “Malafaia “perdeu” e a ciência ganhou? Não tão rápido“. Ele está correto, mas o título parte de uma premissa falsa.

A ciência nunca vencerá a religião — nem rápido, nem devagar.

Lembro quando frequentava as missas católicas e em determinado momento o padre proclamava: “eis o mistério da fé”. O mistério da fé existe porque ela desafia a razão humana — é, na verdade, incompreensível. Filósofos e teólogos sempre debateram questões como “se Deus já sabe nosso futuro, então não temos livre arbítrio, porque já tomamos todas as escolhas”, ou “se Deus já sabe o que somos e o que faremos, ele não precisaria nos colocar aqui na Terra para nos testar”.

Ou ainda: se Deus criou o universo, quem criou Deus? Como Deus ao mesmo tempo é três?

Existem algumas “respostas” para questões como essas, mas no fim tudo depende da capacidade do crente de acreditar e aceitá-las.

A ciência lida com conhecimento, com uma quantidade finita de saberes que construímos por meio de métodos documentados – métodos que também estão sujeitos à discussão. A religião tira sua força do consenso. A ciência tira sua força do debate. A religião é preto e branco: isso pode, isso é pecado. A ciência mora nos tons de cinza.

Ambas têm utilidade, até porque uma crença não precisa ser verdadeira para ser útil ao ser humano. Vai, confessa: eu sei que você ficava feliz quando era criança e via o Papai Noel. Eu sei que muitos se emocionam vendo a novela ou um filme (que sabemos que é mentira). A verdade não é de total relevância quando se fala do ser humano.

Esqueçamos Malafaia e o cristianismo. Voltemos ao Egito antigo ou à Grécia, com todos aqueles mitos e deuses. Todas essas crenças serviram ao povo na época: elas passaram lições de vida, mantiveram a sociedade estável e, principalmente no caso do Egito, que via seu líder como divindade, serviram para consolidar o poder, o que (imagine só) pode ter contribuído para a sobrevivência e grandeza daquela civilização. Não importa se era mentira. Aliás, é um deus que dá à fé a força persuasiva que ela possui. Não seria fácil acreditar em mitos se eles fossem atribuídos aos humanos.

Quando se precisa de respostas perenes, unificadoras, a ciência não tem chance alguma contra a religião. Não é nesse campo que ela atua. Quando a ciência compete com a religião de igual pra igual, ela se faz de boba. Se faz de boba porque tenta vender uma ideia de consenso, uma ideia de que “a ciência diz que” do mesmo jeito que a “religião diz que”, quando a coisa é normalmente bem mais complicada que isso.

Quando a religião se faz valer da ciência, ela se faz de boba também. Se faz de boba porque troca seus dogmas incontestáveis por fatos discutíveis. Se faz de boba porque mostra pastores que não compreendem o método científico ou o significado do termo “teoria”.

Ora, a gravidade é uma teoria. E ela não diz só que você vai se espatifar quando cair de um prédio; ela prevê e explica a movimentação e atração dos planetas, os buracos negros. É coisa complicada, e fala de forças que criam “curvas no espaço”. Você não vai “observar” nada disso, mas pode ver o movimento dos planetas. Mas é uma “teoria”. E tem consequências muito reais, porque consequências reais são normalmente do que tratam as “teorias”.

A parte mais triste, ainda assim, é ver a questão da homossexualidade ser discutida de forma tangencial. Discutimos se o sujeito tem escolha a respeito. E daí que tenha? Qual o problema com a escolha? Eu, que sou hétero, não sinto que tenho escolha sobre isso. Talvez alguns “héteros” tenham. Talvez alguns “gays” tenham. E provavelmente muitos deles não tenham.

Nem ciência, nem religião. Um pouco de humanismo, bom senso e amor ao próximo nos servem melhor.

Versos: Depois de Quando é Tarde [+]

I

Esperava a vez no banco
Ao lado do cartaz de cancro cítrico
Pode parecer um tanto atípico
Mas essa vida eu ia levando

Era só uma criança
E pouco de tudo eu sabia
Preso sem chance de fiança
Ouvindo histórias da pradaria

Interior no interior do coração
Nem a cidade pode desenraizar
Já sabia, fiz de conta que não
E parti pra testar o meu azar

Com mais um par de nós desfeito
Nada fiz, nada conquistei
Posso nem ter vivido direito
Porque tal direito não é lei

No inverso do verso, jaz meu universo
De sangue nos olhos, lágrimas nas veias
Nu no inverno, na praia de terno
Vendo só uma coleção de areias

Invejo as vidas que não tive
E água escorre dos meus olhos
Esperando que na rota em declive
Ouça algum aplauso dos auditórios

Só cai a gota em silêncio
Sobre a pedra do passado
Criando uma marca escura

II

Mas quando anoitece
O céu é ainda mais escuro

E quando a água dele desce
Já não vejo as marcas
Das pequenas lágrimas

E a humihação não se encerra
Pois choverá sobre a terra
Ainda que não possa chorar

Eu sou passageiro
Vou passar até que ligeiro
E mesmo que tivesse outras vidas
Passaria também

Até minha insignificância
é insignificante
E só conforto traz
a quem vira um cartaz
de cancro cítrico
sem alerta à infância
para cuidar da semente
em nosso íntimo.

30/07/2012 – 20/12/2012


Tinta, papel, coração
Todos juntos aqui na mão
Pra ver se sai
Pra ver se sai
Um pouco do que jaz em mim
Daquilo que não deixo sair
Pra não perder

15/09/2012 (em carta)

A frieza das escadas

Em qualquer prédio que se vá, quando há elevador, e desconsiderando-se a ação do ar condicionado, o elevador parece sempre mais quente que as escadas. É como se elas, as escadas, quisessem dar um presente àqueles que, nos piores dias do verão, resolvem pisar sobre elas, degrau a degrau, no esforço para chegar ao destino.

O calor do elevador resulta em parte do calor humano – as pessoas todas que tentam ocupar o mesmo espaço para subir ou descer, estáticas, movendo apenas um dedo para pressionar o botão que as leva ao andar desejado. Plim!

Na verdade, muitos elevadores já nem fazem sons, embora alguns tentem fingir que sabem conversar. “Oitavo-andar”, ela diz. Ela, porque aparentemente elevadores normalmente são mulheres, apesar de eu ser obrigado, pelas normas da língua portuguesa, a usar o gênero masculino.

Mas, ao contrário da Senhorita elevadora – permita-me chama-la assim -, as pessoas que entram em elevadores mais do que se contentam com um “oi” seguido logo de um “tchau”, porque a viagem é curta e não se vai compartilhá-la muito tempo.

Quer dizer, pode ser o caso de que as pessoas ouvirão mais o elevador, digo, a senhorita elevadora, do que elas mesmas, exceto quando tiverem de reclamar do calor. Pela falta de ar condicionado. Embora nesses casos o elevador provavelmente também seja mudo.

Pessoas, em geral, parecem-se mais com escadas do que elevadores. Elas preferem ver esforço por parte daqueles que querem entrar na sua vida. Quem só quer meter o dedo e fingir que não precisa fazer mais nada não é bem-vindo. A esses, iguais àqueles que decidiram não usar o elevador porque estava lotado ou está com pressa, fica a frieza inesperada do corredor das escadas, hoje muitas vezes já batizadas de “saída de emergência”, como se elas fossem sempre uma segunda opção.

Pessoas, também, não gostam de ser a segunda opção. Mas pessoas também nem sempre se sentem obrigadas a oferecer um destino a quem se esforça para trilhar seus degraus, como as escadas sempre fazem.

Há nobreza em ser escada e em ser elevador. Mas elevadores precisam de mais manutenção.

Versos: Trevos & Retornos

O amor flui
de um ao próximo
e vez ou outra
faz o caminho
de volta

mas quem escolta
esta tal de paixão
nem sempre a aceita
quando ela retorna
um pouco diferente

como se o tesão,
quando ausente,
também levasse
o carinho,
as memórias,
e a saudade

coitado do amor,
que de repente
é pura maldade
e menos nobre
sem venda casada

estranho é quando
um dia, do nada
o tal “apaixonado”
deixa de sentir;
já o outro
desapaixonado,
jamais esquece

vou até dizer que
amor é amizade
mesmo quando
a amizade é daltônica

então dê espaço
deixe o amor passar
e cumprimente-o
quando ele voltar

Versos: Se negar não faz desaparecer, cansei de brincar com alma orgulhosa

Se te ver afaga a solidão
Daí que meu olhar resiste
De modo a fingir, em vão,
Que ela não existe

Aliás, nem posso te amar
Porque de repente diminui
A dor que dá mais sentido
A outro amor que rui

É um jogo solitário
No qual julgo o que sinto
Em cujo resultado eu minto
E acredito feito otário

É a armadilha do sentimento:
Negar derrota não é vencer;
Sentir dor não define valor;
Usar consciência para agir
Não é apagar o inconsciente.

E entre tanto sofrimento
Desnecessário e potente
Entre o aqui e o quase lá
Fica o ser humano sem ouvir
O coração que junto está

A observadora

Muitos procuram alguém que os ame, que deles cuide. Os mais egoístas, que nem percebem que o são, querem simplesmente alguém que lhes dê muito e exija pouco. Ou que os encha de elogios não merecidos para inflar seus egos e ter aquela pontinha que faltava na autoestima.

Não preciso de nada disso. Imagine se eu preciso alguém para me elogiar me lembrar que tenho valor? Eu já sei mentir muito bem para mim mesmo. (E se você está se convencendo agora mesmo que não sabe mentir para si mesmo, então você é ainda melhor que eu nisso. Parabéns.)

Eu quero uma observadora. Uma testemunha. Justamente alguém que não me deixe mentir.

A importância disso é quase indescritível.

O olhar do outro faz toda a diferença. Há quem diga que só temos moral diante do outro. Um professor meu de filosofia dizia que a moral humana nasceu quando ficamos eretos e conseguimos ver um no olho do outro. A expressão alheia – de dor, de desgosto, de prazer. Ela nos guiou até a moral.

Nem é preciso pensar em termos complicados. Somos assim na prática – um par de olhos nos transforma.

Suponhamos que você fizesse aula de piano. Como você tocaria piano na frente de seu primo de quatro anos? Teriam suas notas o mesmo som e vigor que diante de Mozart? Como você discute saúde com um médico ou português na faculdade de Letras?

No japonês é preciso adaptar suas frases dependendo da pessoa com quem fala. Em alguns países, adolescente não pode dirigir um carro na presença de outro adolescente, porque, na tentativa de impressionar a audiência, vai fazer o que não devia. Errar.

Segue a lógica, daí, que a testemunha certa nos faz acertar. Nos guia puramente através da força da sua personalidade.

Nossas ações e palavras mudam conforme nossa audiência e nem percebemos. É preciso muita força de vontade para manter a constância e a coerência. Porém, nada ganhamos com isso. Ninguém nos parabeniza por coerência.

Exceto um bom observador.

E todo bom observador, que gosta do que vê, quer aquilo para si. E deseja pela sua preservação.

Nesse momento o observador deixa de meramente observar e parte para ação. Ele se envolve. Mas segue sendo o observador. O outro. Que poderá contar essa história. Validá-la.

Como alguém que não está meramente olhando uma peça de museu, aquele ou aquela que observa outro ser da raça humana precisa saber quando deve relaxar o olhar. E apenas sorrir.

Aí também relaxa o observado, contente como quem chega ao final de uma maratona depois de tantas dificuldades para impressionar aquele olhar afiado.

No dia seguinte, os dois, observadores observados, são melhores do que ontem, ambos protagonistas e testemunhas de uma história conjunta.

Versos: Assim Falou um Coração

Queria saber quem foi que fez
do amor uma queda de braço
Uma guerra carente de sensatez
travada com armas invisíveis
que machucam mais que o aço:

– Um arsenal composto de medos
De amar mais, de amar menos
Amar demais, amar de menos,
Amar diferente, de mentira
e a mentira e seus enredos

Classificar o amor
com rótulo e valor nutricional
O que faz bem, o que faz mal
Valor diário, caloria, calor
Para não ter pouco e nem excesso

Quem pode e não se poderá ter
Faz só o estranho ter caráter
Quem está próximo até ama também
Mas é sem graça e calmo demais
E o amor quer aventura, meu bem

Que cheguem perto, porém não muito
Querem tudo e não querem nada
Nada deles nesse tal de Outro
Como o investidor mais afoito
Querem o outro sem dar de si –

Não ganharão nada desse jeito
Fico aqui batendo nesse peito
Tentando mostrar o que me aflige
E o que vai virar fuligem
Depois que o “amor ardente” queimar

Amor não queima, não congela
Não evapora e não transforma
Ele esteve contigo e com ela
Nos minutos despretensiosos
Que construíram o passado

Amor não quer amar
e nem ama apenas um
Ama por não ter escolha
e deixa o ego espernear
sem esforço algum

Amor só segue as regras
criadas por quem é amado
não é a regra social:
nem a que jaz em pedras
nem a que se é obrigado,

amor livre que se restringe
por tanto amar com razão
não em físico, mas em essência
que ademais é consciência
e toque só vira expressão

Amar com razão, amar quem fez
do amor um carinho de ouvir
caminhar e trilhar, ver dormir
juntos sem motivo, sorrir
pelo acaso que não os deixou separar

Amar quem lembrou que vai perder
E quis pouco achando que era tudo
que ao saber da tristeza
quis compartilhar a felicidade
em vez de fugir

amar quem sonhou ser a chuva
por entender que às vezes
é preciso deixar o Sol brilhar sozinho
mas que é preciso ter a certeza
de que vai voltar

Palavras do senso comum, religião, felicidade e hackers e videogames contra Nietzsche

Eu realmente não sou a pessoa mais gabaritada para falar de nada do que segue. Mas quem, hoje em dia, liga para gabaritos? Quando cronistas de jornal e editores de revista estão aí para falar de psicologia e fenômenos sociológicos, para serem por isso considerados profundos pensadores ao citarem qualquer coisa (de grandes pensadores) fora de contexto – e serem elogiados por isso – que mal faz mais uma opinião desinformada?

É claro que faz mal.  Continuar lendo