Educação é a solução. Ou não.

Quando foi que “isso se resolve com educação” virou uma resposta quase universal para qualquer problema?

Talvez eu seja apenas jovem demais para lembrar que tal discurso sempre esteve presente. Mas na minha observação das coisas, esta idéia tem ficado muito mais presente nos últimos anos. Na TV, em conversas de bar, na sala de aula, nos fóruns (online ou não), nas notícias e até nos programas de auditório no domingo. É a mesma conversa.

O estranho é que, lendo fóruns estrangeiros como Slashdot, a educação é muito menos mencionada como solução. O que poderia significar um fenômeno brasileiro.

Se minha observação está certa, só posso dar crédito ao senador Cristovam Buarque, provavelmente o homem mais inteligente que já tentou ser presidente desta nação. Nas eleições de 2006, Buarque apresentou uma solução para a maioria dos problemas brasileiros com base na educação.

Buarque disse, no último debate do primeiro turno, que tinha alcançado o objetivo que queria com sua campanha: colocar a educação no debate político. Se era isso mesmo, seu sucesso foi apenas parcial: considera-se a educação como solução, mas não se discute a educação si.

Não é possível adotar um discurso como o de Buarque sem o fazer em sua totalidade. O senador tinha planos para mudar a educação brasileira e não simplesmente melhorá-la. Não se estava falando em simples melhorias (PDE?), nem em reforma. Estava-se falando em demolir o que se tem e fazer algo do zero, começando pela federalização da educação básica, o que mudaria por completo a operação das escolas.

A educação só será solução se a transformarmos em solução.

O plano de Buarque não era simplesmente melhorar o acesso às escolas, ou construir prédios melhores. A idéia era fazer da educação uma solução para o Brasil.

A educação brasileira, como é hoje, não é uma solução. Pois nunca se diz, para si mesmo, que o problema é “falta de educação”.

– Você ( fuma | cheira | bebe ) demais, vai se matar assim…
– Pois é, me faltou educação.

É assim que acontece? Não. Pelo contrário — as pessoas têm informação e ignoram.

– Você ( fuma | cheira | bebe ) demais, vai se matar assim…
– Eu sei, mas parar é tão ruim. Prefiro continuar.

A educação não é uma solução que serve apenas para outros. Se a educação é uma solução para o Brasil, ou para o mundo, ela é uma solução para todos. A educação não precisa ser apenas a divulgação de conhecimento e idéias ao cidadão comum (comunicação). Mas é o que a educação brasileira é hoje: ela informa, mas não cria consciência, não convence. E essa educação não é solução para nada.

Certamente não é solução para a violência. Nos Estados Unidos é preciso o equivalente a um mestrado no Brasil para praticar várias profissões, inclusive Direito. As escolas públicas são acessíveis para quase todos e as universidades públicas, apesar de pagas, são baratas na economia norte-americana. E nada disso impede que os Estados Unidos tenha mais de dois milhões de cidadãos habitando suas prisões e uma taxa de homicídio maior que a da Argentina1.

Educação, portanto, não resolve automaticamente o problema da violência.

Na mesma linha, afirmo que educação não resolve nada automaticamente, mas pode, e precisa, ser uma ferramenta importante no combate à vários tipos de problemas. As brigas pelo ensino do criacionismo nas escolas e as altas taxas de AIDS nos EUA sugerem que existem problemas sérios na educação do país — e isto precisa ser analisado para determinar onde exatamente as coisas falham por lá, para então desenvolver um sistema educacional que não considere apenas o indivíduo maquínico-capitalista, mas também célula-social-pensante.

Que não se discuta, portanto, se a educação pode ser uma solução para um problema. Mas que seja pensado, sim, como fazer da educação uma solução, ou uma importante peça no quebra-cabeça de construção de soluções.

E se você quiser sugerir a solução pela educação, diga como, pois este é o verdadeiro desafio. Pensar ‘como’ ajudar a criar bases mais sólidas para nossas próprias convicções, obtidas, muitas vezes, acidentalmente. Já dizia Einstein: simplifique tudo o quanto for possível, mas não mais do que isso2.

  1. Justiça seja feita, a taxa argentina é 5 vezes menor que a brasileira.
  2. Tradução livre de “Make everything as simple as possible, but not simpler.”. Fonte: QDB

Versos: P.S. (Post-scriptum)[+]

O céu claro
Libertou o som
E ouviu-se o tom
De um disparo

O verniz
Deixou mais belo
Cada elo
Que desfiz

Para que falar
Eu pergunto
Se aqui jaz o defunto
Que consegui calar

Quem sabe, na próxima vez,
Dizes a mim que estou certo
E também cada dia mais perto
Do verdadeiro amanhã
E não do fim do mês

——————————–

Se eu
	dissesse a
verdade
	do ontem
agora,
	iria você
embora
	só pra
jogar
	meu amanhã
fora?

Não existe educação apolítica

Olavo de Carvalho adora dizer que a educação brasileira é controlada pelos “vermelhos” e que os livros didáticos estão esquerdizando os alunos. Ele tem várias outras pérolas originais, como por exemplo a idéia de que as eleições na ditadura eram democráticas e que a educação pública tem se tornado cada vez mais “pusilânima”, o que força os cristãos a educarem os filhos em casa.

Se considerarmos o ponto de vista de pessoas assim — e muito cuidado ao ler os textos dele, pois são recheados com meias-verdades e falácias –, jamais conseguiremos ter uma educação apolítica. Por quê? Porque os fatos afetam visões políticas. Como já discuti em “A imparcialidade e a verdade”, o que fazer se a realidade mostra que sua posição política favorita falhou miseravelmente?

Entra aí a distorção dos fatos e a idéia da parcialidade. O problema não é minha visão política, é o livro didático que mente. Obviamente, isto é tão errado quanto eu dizer que não houve ditadura na União Soviética. Mas nenhum livro didático que eu tive fez tal afirmação.

As pessoas tendem a acreditar ou explicar os fatos baseando-se naquilo em que crêem. É por isso que, o que para cristãos é intervenção divina, para os ateus é um fenômeno físico ou social que pode ou poderá ser explicado de forma racional1. Assim, o “democrático” dos neoliberais é a “ditadura” para os historiadores.

É impossível ter uma educação factual e ao mesmo tempo apolítica na visão destes que insistem em criar suas próprias versões dos fatos.

É possível, no entanto, ter uma educação política. E que fique registrado meus parabéns ao PMDB pelo programa de EaD que está educando mais de 32 000 candidatos a cargos políticos municipais em todo país.

  1. Chuva, doenças e política/governo são alguns fenômenos atribuídos à intervenção divina e que hoje são explicados racionalmente.

Previsão: O diploma de jornalismo cai

Eu devia ter escrito isso já no outro post, mas deixo aqui uma previsão: o STF vai decidir pelo fim manutenção da exigência do diploma.

Posso estar errado, mas se não arriscar, não estarei certo também. Tenho alguns motivos para apostar nisso: muita gente no governo não gostou, por exemplo, que o CQC teve sua entrada liberada no Congresso. Sem o diploma, mais humorísticos terão liberdade para fazer o mesmo — incluindo repórteres do próprio CQC, como Danilo Gentili e Oscar Filho, que na verdade são comediantes. E se o CQC quer se chamar de jornalístico, uma vez mantida a exigência do diploma a posição destes rapazes no programa ficará complicada.

O STF tem adorado contrariar o governo ultimamente, basta ver os habeas corpus da Operação Satiagraha.

Caindo a exigência, a resposta será um intenso lobby, por parte da Fenaj e do próprio governo — a União e a Fenaj recorreram juntas da decisão inicial que em 2001 aboliu a exigência — para criar alguma outra lei ou emenda constitucional que a substitua. O STF, por sua vez, vai recomendar algo que solidifique a decisão tomada.

E aproveito a oportunidade pra dizer: sou contra a exigência do diploma. Os argumentos pelo lado a favor da exigência que ouço na universidade e outros lugares são, um mais do que o outro, baseados em self-interest e corporativismo. Resultado: fui jogado para o outro lado. Ouvi na universidade que eu não posso ter esta posição sendo estudante de jornalismo. Ora, ora! Estou estudando jornalismo porque quero aprender a fazer um bom jornalismo. O diploma é secundário, pois ele nem garante a qualidade do profissional. Estou ali pra estudar e aproveitar meu tempo.

Curso que distribui diploma em vez de formar jornalista merece acabar mesmo.

Seria mais conveniente para mim lutar pela obrigação da diploma, porque estou estudando jornalismo e com isso teria emprego mais facilmente. Mas o fato é que jornalismo é algo que pode ser aprendido de várias formas, inclusive autodidata, e se alguém aprende a fazer jornalismo melhor do que eu sem precisar ir para uma faculdade, parabéns para ele.

A tabela mais informativa já criada

Clique para ampliar, ou acesse a página original, no site da Microsoft para ver todas as “informações”.

Alguém aí quer comprar um “consulte um revendedor autorizado”, o primeiro produto da lista?

Versos: Teoria da Conspiração Imaginária

“Inferioridade”

Esse calor não me deixa pensar
O que aconteceu não foi como imaginei
Me desapontei, mas de nada vale chorar
Se não descobrir onde foi que errei

Vejo os mistérios dessa enorme Terra
Que sobrevive à esta guerra
Que travamos contra nossa criação
Tentando explicar a pura ficção

“Realidade”

Aquilo que estão tentando esconder
Pode ser algo que não vou compreender
Mas quero saber mesmo assim
Conhecimento não trará meu fim

Então, levantem agora, segredos do universo!
Quero algo mais valioso que este humilde verso
Mostre-me tudo que você é capaz de criar
Para que no impossível eu não vá acreditar

“Necessidade”

… mas o céu canta um azul sem vida…
As nuvens brancas movem-se sem permissão
Não respeitam nem essa despedida
Que aceno para minha própria invenção

——————————————

Este é um texto bem antigo, da primeira “fase”. Editei alguns poucos versos para melhorá-lo. No início, a preocupação em excesso com a rima1 criava estrofes sem ligação clara entre si. Com o tempo fiz algumas coisas para tentar juntá-las, como as palavras soltas sozinhas mostram. Este foi um problema que só resolvi recentemente, e talvez ainda não por completo, mas fica muito mais evidente aqui quando eu nem sabia disto (afinal, o único leitor era eu mesmo).

——————————————

estou passado
como um VHS
que se vê uma vez
depois se esquece
  1. Rimas fracas, por sinal.

O elitismo racional

Eu não poderia ter publicado o texto anterior — que estava editado e pronto faz tempo — sem também escrever um pouco sobre elitismo racional, que é a crença de que “todo mundo está errado e só eu estou certo”.

Esta é um questão bem relevante atualmente, especialmente quando temos dois candidatos bem diferentes para as eleições dos Estados Unidos e um deles, o Democrata Barack Obama, é freqüentemente atacado pela crítica Republicana como “inexperiente”.

Ora, diz McCain e seus aliados, Obama é, como todo adulto mais jovem — incluindo o candidato Republicano em seus primeiros anos: uma pessoa que ainda não compreende muito bem o mundo. E por isso pensa ter uma solução simples e elegante para tudo, ou “a mudança em que podemos acreditar” 1.

Há um pouco disto no atual título deste blog, mas a ira é o que tira a credibilidade deste racional. A inevitável emoção que acompanha todo o desejo (veja bem, desejo) de buscar respostas racionais. No fim, um cientista fica feliz por suas descobertas, e é o prazer que ele retira delas que o faz seguir adiante. Não existe estudo sem paixão. Não existe razão sem emoção.

Portanto, estou sujeito ao erro. E exponho minhas opiniões não porque penso ter a solução. Não porque quero me impor. Pelo contrário. Jamais poderei iniciar uma discussão sem antes dizer o que penso. E jamais poderei participar de uma discussão já existente sem fazer o mesmo. Freqüentemente, participo de discussões não para expor meu ponto de vista, mas pra me fazer de advogado do diabo simplesmente para extrair mais argumentos que defendam um ou outro ponto de vista. Não poupo nem meus aliados.

Independentemente de quanto eu me esforce, sempre haverá alguém mais bem informado do que eu. Alguém que leu mais estudos e textos sobre o assuntos. Ou então textos mais recentes. Ou, ainda, textos simplesmente diferentes. A informação que temos é tanta que é impossível acompanhar tudo. E mesmo que nossa educação fosse perfeita, tudo que ensinamos cada vez vale menos. Não se pode construir base sólidas para “opinião” alguma, porque uma nova prova ou fato irá tornar tais bases obsoletas na semana seguinte.

Nada mais é constante, senão a própria mudança.

Eu preferiria, sinceramente, o cartesianismo e o mecanicismo. Descobrir O Método e A Verdade. Mas infelizmente não é assim. Temos que nos contentar com o que podemos fazer, que é buscar as melhores verdades todos os dias. E, obviamente, não as encontraremos. Mas é melhor encontrar alguma coisa — tal como aquilo que escrevo neste blog — do que nada.

Toda informação pode despertar uma emoção que cria uma vontade inexplicável de se saber mais. Se isso acontecer, ótimo. Se não acontecer, tudo bem — quem sabe na próxima?

Esta é a realidade com a qual os críticos viventes do “pós-modernismo” precisam conviver: apesar da discordância e do erro, ainda há um valor. Mas o que é e como pode ser medido este valor, para diferenciar a crítica boa da crítica ruim? Cada leitor irá julgá-la com base em suas experiências de vida — completamente subjetivas –, mas será este o único valor, o crivo das massa — a mesma massa que assiste a novela das 8, Big Brother2 e não sabe quem foi Descartes?

São perguntas abrangentes e nem me interessa a resposta, porque todos que se propuserem a responder, apesar de apresentarem respostas diferentes, estarão certos, pelo menos para si próprios. E quando todos estão certos, ninguém discute para aprender, mas apenas para lecionar.

Mas se as coisas são assim, como pode a escola estar ensinando algo a respeito das autoridades do saber? Se fosse assim, as pessoas não acreditariam em tudo?

Pelo contrário. O que temos aqui é a idéia de que “todas as opiniões são criadas iguais”. Pois o professor nunca teve, ou, pelo menos, parece que nunca teve, de justificar o que disse. Daí, uma aula de Física tem a mesma autoridade de uma aula de Religião. E uma opinião sem fundamento tem o mesmo valor de uma opinião bem-fundamentada.

Acredita-se, então, no que é conveniente.

É verdade que nossas bases não são sólidas, podendo desaparecer com a publicação de um novo estudo ou algum acontecimento inesperado. Mas a evolução incessante não deve ser justificativa para desistir de buscar fundamentos; pelo contrário, deve nos fazer entender que as coisas mudam e que precisamos acompanhá-las, e que estar errado por possuir informação de credibilidade desatualizada é mais nobre do que errar por não ter informação de credibilidade alguma.

Ou, pelo menos, é o que aquilo que sei até hoje me faz pensar.

“Some people see things that are and ask, Why? Some people dream of things that never were and ask, Why not? Some people have to go to work and don’t have time for all that”

–George Carlin
  1. O lema da campanha de Obama: “Change we can believe in”.
  2. O Danilo Gentili tem um post melhor sobre isso no antigo blog dele. Vale lembrar, programas são feitos para a massa por um motivo. Não digo nada aqui para denegrir a imagem da massa, mas sim para questionar se, realmente, todos estamos aptos a julgar tudo.

Autoridades, a omissão da crítica e uma lição escolar

Existe algo facilmente encontrado na sala de aula que dificilmente encontraremos no mundo exterior: uma autoridade do saber.

O professor é visto como alguém que, se não sabe tudo, sabe muito, e é impensável questionar o conteúdo que está sendo passado. Especialmente nos primeiros anos, quando pouquíssimas crianças têm qualquer conhecimento além daquele que a própria escola está transmitindo, é complicado demais que o alvo do ensino consiga analisar o que está aprendendo.

Do meu lado, posso dizer que perguntei muito. Não tinha capacidade para duvidar de um professor, porém perguntava o suficiente para deixar muitas pessoas em algumas situações ruins (pessoas me descreviam constantemente como “curioso”, embora na verdade quisessem dizer “chato”; amigas da minha mãe pediam explicitamente que eu não fosse junto dela, por perguntar demais1). Mesmo assim, não creio que haja muito mérito no que disse minha professora na quarta-série: “Altieres, continue sempre com essa visão crítica.” Na verdade, eu não tinha tal visão, mas sim uma mente inquisitiva.

O crítico, no entanto, raramente se dissocia do inquisitivo, pois o crítico também precisa de algo que o inquiete, em qualquer nível e de qualquer jeito, para fazer sua crítica.

Porém nunca esqueci do que minha professora disse; se tivesse, não estaria escrevendo isso agora. Nos anos seguintes continuei tentando descobrir o que era, exatamente, ser crítico. Embora, de acordo com ela, eu já fosse um, queria saber exatamente o que era, de modo que eu nunca deixasse de ser. Se ela havia me dito para continuar sendo assim, certamente boa coisa devia ser (em nenhum momento questionei isso…).

Não sei se virei um crítico; continuo fascinado a respeito de como as coisas funcionam, portanto ainda sou curioso e inquisitivo. Hoje penso que o principal dote de um crítico, junto da sua capacidade de observar e se inquietar com as coisas mais banais, está em sua ousadia de pensar.

Pensar é um ato de ousadia, especialmente se o conhecimento possuído na área sobre a qual se vai pensar é limitado. Daí é preciso estudos. E estudos podem induzir a pensamentos já pensados (dizia Schopenhauer que ler é pensar com a cabeça dos outros). Mas o crítico não pode simplesmente pensar o já pensado, pois daí ele não será um crítico e sim um repetidor de idéias com as quais ele concorda, o que não o tornaria diferente de nenhum outro ser humano.

É nesse problema que entra o olhar crítico e a ousadia. Em vez de ler e ver tudo como regra, vê-se como uma possibilidade entre outras tantas. Depois, é preciso pensar e arcar com a possibilidade de possivelmente estar errado: bons argumentos racionais precisam ter meios de serem provados falsos, então pensar racionalmente abre brechas em suas idéias. É mais difícil do que a moda contemporânea de largar opiniões generalizadas e, por isso, evidentemente falsas, mas que mesmo assim caíram no senso comum (”todo político é corrupto”, “o mundo está perdido”) ou se tornaram (falsos) axiomas (”mulher no volante, perigo constante”, “urubu não anda com pomba”, etc).

A complicação disso tudo é a seguinte: fora da sala de aula não existe uma autoridade de saber. Para piorar, muitas coisas são passíveis de discordância. Não se pode admitir a existência de pontos de vista imutáveis e não-negociáveis. Não é preciso muito treino para conseguir isso: basta perguntar “por quê?”.

Um experimento: quando te disserem algo, mesmo que seja algo que já tenha caído no senso comum, pergunte por quê. Sendo a resposta obviamente superficial, pergunte por quê outra vez. E de novo. Logo você será o chato, simplesmente por ter exposto o fato de que o sujeito proferiu sua máxima infalível sem ter refletido em qualquer nível a respeito dela…2

Afinal, por que não refletimos? Por que não perguntamos “por quê”?

Porque cremos em autoridades. Isto nos foi ensinado na escola, onde há uma autoridade na sala, detentora da verdade. Escute, repeat please e passe na prova. Esta é a lição escolar que mais é retida e, se este for o objetivo da escola, ele tem sido atingido com êxito.

  1. Todo mundo tem a idade dos porquês, é verdade. Não posso julgar se a minha própria foi mais longa ou mais intensa, nem tenho conhecimento para isso.
  2. Os mais observadores justificarão dizendo “é o que todo mundo diz”, o que uma falácia de apelo ao povo ou ad populum e, por isso, um argumento inadmissível.

Versos: Na Esquina, Ruas Desertas Sussurram Pt. II[+]

~ Desilusões Racionais ~

Acho que tenho a solução:
Tecnocrata inteligente
Que pensa que gente
Sempre é cega como lente
De óculos sem prescrição

Visão totalmente em foco:
Meu raciocínio é lógico
Se, então, pois, logo
Quase que o céu toco
Sem mapa astrológico
E nenhum pseudólogo

Aí me culpo por não entender
O que suponho não fazer sentido:
Complicadas relações de poder
E as ações de um tal de cupido
Que considerou-me caso perdido

Limpar o mundo não é a intenção
Arrastar os males com um pente
E criminalizar o diferente;
Sendo eu fruto de tal vertente
Não posso julgar-me aberração

Quando tenho chance de discursar
Percebo que no ar só lanço ruído
E a felicidade do puro pensar
Trocou sua máscara e seu vestido
Para deixar a realidade passar
E fazer do caos seu novo marido.

———————————————-

eu tinha uma rima
muito bacana
daquele tipo
que sempre engana

mas vou te dizer
veio fácil demais
e foi-se também

agora onde está o poder
de arranjar outras mais
que me sirvam tão bem?

Debate com vozes ausentes

Debate — s.m. Discussão; contestação; disputa.

Discussão — s.f. 1. Ação ou efeito de discutir. 2. Polêmica; controvérsia; debate. 3. Briga; desentendimento; troca de insultos.

Fonte: Dicionário Luft

Se existem debates orwellianos1, certamente estive em um nesta noite do dia 12. Para minha classe de Redação Jornalística, fui obrigado a participar de um evento da universidade que tratou da atual polêmica acerca da manutenção ou não da exigência do diploma de jornalismo2.

A universidade promoveu o evento como um debate. Para não ser injusto, o chapéu/cartola da matéria na página principal do Portal3 — que é o site mantido pelo pessoal do curso de Comunicação Social da universidade — é “Palestra” e o título “Jornalistas a favor do diploma” (provavelmente vão mudar hoje mais tarde). Mas no texto de chamada o encontro já recebe o nome de debate, como no título da matéria.

Foi um “debate” onde as vozes dissonantes estavam ausentes. Todos os quatro participantes do “debate” defendiam a mesma posição, portanto não houve “contestação”, nem “disputa”, nem “polêmica”, nem “controvérsia”, nem “desentendimento”.

Eu estava empolgado para ouvir o Celso Augusto Schröder, que é vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (e irmão do Carlos Henrique Schröder, diretor de telejornalismo da Globo — aquele cujo nome aparece no fim de todos os telejornais como “diretor responsável”), mas ele não esteve lá e nenhuma explicação foi dada sobre a infeliz ausência.

Não que ouvir um lado só seja intrinsecamente ruim. Certamente, a universidade e boa parte dos professores querem que o diploma continue. Mas o monólogo fica entendiante, como o auditório quase vazio evidenciou ao fim da palestra.

Às vezes, enfrentar o outro lado mostra quem está mais preparado, quem fundamentou melhor os argumentos. O próprio embate, se evidenciar o despreparo dos adversários, acaba sendo uma ótima propaganda para aquilo que se quer defender. De quebra, bons debates são emocionantes e, por apresentarem mais de um lado da história, jornalísticos.

Minha opinião sobre a manutenção do diploma? Não sei mesmo. O que sei é que o José Nunes, presidente do Sindicado dos Jornalistas do RS, apenas disse que a Internet é uma questão “complicada” quando o questionei a respeito dos efeitos da manutenção do diploma na web. Se iniciativas como o VC no G1 e Wikinews serão sepultadas com a exigência, sou contra. E para o pessoal da FENAJ, ter todo cidadão como jornalista é algo “francamente impossível“, embora esta tenha sido a premissa do bem-sucedido OhMyNews desde sua concepção.

Se fôssemos procurar por um meio-termo nesta história, talvez manter a necessidade do diploma apenas para o rádio, para a TV e para a assessoria seria uma boa idéia, terminando a exigência para revistas, jornais e sites de internet. Regulamentar é interessante, mas seria mais interessante se fosse uma lei bem pensada e não um decreto-lei da ditadura originalmente concebido para censurar a imprensa. 3.

Independentemente da decisão do STF, não cancelarei meu curso.

  1. Importo aqui o conhecido adjetivo inglês “orwellian”: relativo à George Orwell no seu livro 1984, onde eufemismos eram usados para embelezar a opressão e as péssimas condições de vida.
  2. Que os sindicalistas costumam dizer que vai acabar com a profissão. Uma falácia de bola de neve, considerando-se que a regulamentação é anterior aos próprios cursos de jornalismo e somente a exigência do diploma está em questão
  3. Parece até que sou contra a exigência do diploma em vez de um indeciso. Mas o fato é que ouvi tanta conversa de um lado só que consigo apenas criticar este um lado… As críticas ao outro lado me parecem redundantes, considerando o quanto ele foi atacado.