Maringá and bazinga

E assim Maringá/PR recebe um nerd e Pareci Novo perde 0,03% da sua população.

Escrito em Vida de Nerd | Tagged | 2 Comentários

O homem e a ponte

Luzes artificiais penetravam os olhos daquele homem, enquanto o dia passava a ser o próximo. Vagarosamente e com as pernas frouxas, andava sem delicadeza ou rumo algum. Ele poderia dizer que assim também era sua vida: frouxa, lenta e sem rumo. Ele sabia, porém, que não poderia culpar ninguém exceto a si próprio. E assim, seu senso de justiça trouxe a sentença mais óbvia que conseguiu, até onde vão os limites da obviedade: punir o responsável.

E com esta finalidade, o homem ali se encontrava. À sua frente, luzes. Atrás, outras, tão ou mais brilhantes. Do seu lado, ainda outras luzes, móveis. A rodovia. E água. Assim percebia o mundo, embora o horizonte parecesse inquieto – uma mera consequência do ritual de preparação para o que decidira fazer. De repente, um zunido.

“Vê se olha por onde anda!”, berra o motorista de um caminhão pela janela. Chovia, mas não o suficiente para se precisar de um guarda-chuva. Agora, que um veículo acabara de jogar uma poça d’água em sua direção, o homem clamava por roupas secas. Mas nem as precisava, e sua crença não resistiu muito frente à realidade que o envolvera. Caíra, e agora podia sentir novamente seu joelho, ou pelo menos a dor que se fazia presente nele.

Era o momento de realizar o julgamento, mas ele queria mais tempo. Naquele instante, o homem, que tanto queria acabar com o tempo, sentiu a paz de ter para si todo o tempo do mundo. Virou-se e viu os carros, frenéticos, apressados, incessantes, poluidores e barulhentos. Virou-se outra vez, para a água silenciosa. Fitou-a e sentou-se, seu joelho dolorido e suas pernas frouxas agora livres no ar. O horizonte continuava inquieto, mas o rio abaixo dos seus pés mostrava-se inofensivo.

O homem procurava o medo. Sentir a adrenalina injetar-se em seu sangue, pelo menos o suficiente para fazer seu coração bater de tanto querer a vida. Planejou esse momento para isso. Mas encontrou justamente o que não esperava achar: a paz de quem, afinal, nada mais necessita, e para quem a infinidade do tempo não rouba o que há de precioso na finitude de cada segundo.

Achara tudo onde pensou não haver nada. Mas essa é a realidade. A realidade que seres humanos se enganam.

Os minutos davam boas-vindas às suas colegas, as horas, que chegavam cada vez mais rápidas, mas isso não perturbava aquele homem. Porque nem todas as luzes que achavam o caminho até seus olhos eram ainda artificiais. O céu estava mais limpo, embora ainda negro, e agora via-se a lua branca. Algumas estrelas também, mas não o bastante para serem incontáveis, ele assim percebeu, o que as tornava menos interessantes do que da última vez que prestara atenção nelas. Mas não era capaz de ter certeza, porque isso já devia fazer uns vinte ou trinta anos.

Ele seria mais feliz se tivesse comprado uma luneta. Quando criança, pediu várias vezes aos seus pais. Tornou-se adulto e fingiu esquecer. Coisas de criança não poderiam ser tão importantes assim, pensara. Queria-a mais do que nunca, se dissesse a verdade. Mas as pessoas, ele também percebeu, costumam mentir.

Ali, contava uma mentira pra si mesmo. Dizia que a ponte era o que lhe daria a punição por tudo que fizera de errado no passado, levando ao hoje que ele sentia ser tão medíocre. Não; a coragem para continuar vivendo no que construíra era mais exigente, e ele estava tomando a decisão mais simples para si mesmo. Nada seria consertado e, depois do que pretendia fazer, não poderia mais participar do conserto, sendo este possível ou não. Mas de onde poderia vir a coragem para dizer a verdade a si mesmo?

Jogou-se, absorvido na mentira. O ar o fez sentir ainda mais vivo. Finalmente, o medo. Ele chegou, tarde, mas chegou. Trouxe junto o arrependimento, ainda mais tardio, tanto que nem chegou a tempo de se fazer notar. Na impossibilidade de viver outra vida, escolhera ter nenhuma. Enfim.

Sentia a água em seu rosto. Chovia muito forte, e todo seu corpo estava ficando encharcado rapidamente. Olhou para o lado. Grama verde. Dormira num banco colorido da praça num dia de inverno. Que sonho bom tivera para uma tarde, pensou. O privilégio de morrer e continuar vivo é para poucos. Qual dor era tão importante que precisava ser deixada para trás e assassinada em um sonho ele não mais sabia; morrera, e nada mais tinha a perder.

Escrito em Crônicas/Contos | Tagged , , | 2 Comentários

Versos: A Menina e o Céu

Como rabiscos no ar
Riscando o céu escuro
Panfletos coloridos a voar
Sobre calçadas e muros

A rua antes deserta
Recebe uma menina
Ela sabe que é esperta
E seu olhar não desafina

Fita o céu por um instante
Sentindo no rosto a brisa constante
Que confunde seus cabelos
Com o rubi de preciosos vermelhos

Todos estavam ocupados demais
Ou talvez apenas desatentos
Para perceber a beleza por trás
Daqueles breves momentos

Então, o oceano negro sem pudor
A observa sem compromisso
Os dois juntos fazem amor
E nela se vê um belo sorriso

No céu aparece outra estrela
Uma mancha brilhante na escuridão
Mas ninguém mais poderá vê-la
Exceto a menina na rua em solidão


Ideia original de Fernanda S. F.

Escrito em Escrita em Verso | 2 Comentários

Brevíssimo desabafo

O Firefox 3.5 está uma droga. É o pior navegador que uso desde o Mozilla 1.7. Aquele que nem mais iniciava no meu PC.

Das travadinhas aleatórias ao congelamento total. Não que eu não seja exigente — exijo muito do navegador. Mas versões anteriores costumavam funcionar melhor.

Só torna o Chrome uma opção mais interessante a cada dia. Se tivesse um Flashblock, já era.

Escrito em Vida de Nerd | Tagged , , , | 4 Comentários

Versos: O desconhecimento do conhecedor

Ando disfarçado sem notar
De tão natural que agora é
Ser quem a maré
Jamais tenta parar

Criando caminhos para a fama
Tão pobres quanto a rima
De dizer que é só a lama
Que eu jogo para cima
E que ainda vai voltar
Para enfeitar minha testa
Enquanto eu divido o mundo
Entre aquilo que presta
E o que não

De fato estou
Dividindo apenas
O que me é estranho
Do que conheço bem

Tão bem que não me acanho
Ao agora dizer
Que elas ainda
Vão me surpreender

Escrito em Escrita em Verso | Tagged | Deixe um comentário

Na falta do que dizer, ressuscito e mato o no-break

Não, não morri. O problema é que a vida por aqui anda muito corrida, e na correria pensamos menos, infelizmente. Pensando menos, fazemos menos observações interessantes que valham a pena ser publicadas (não que as demais necessariamente valeram a pena, apenas tenta-se manter um padrão mínimo de qualidade).

Mentira. Isso é drama (em parte). Tive algumas ideias legais para post, mas nenhum tempo de executá-las. Esqueci de algumas, mas espero ainda escrever sobre as outras.

Conto algo sem relação. Aquele no-break desgraçado foi ressuscitado por força maior (digo, alguém levou-o para o conserto sem me avisar). Isso já faz um tempo. Mas ele quebrou de novo, é claro.

Finalmente comprei o tão desejado no-break APC. Uma maravilha até agora. E foram emocionantes as faíscas quando liguei a bateria. E por hora é isso.

Escrito em Blog, blogs | Tagged | 2 Comentários

Versos: Onisciência

Se todos soubessem tudo, tudo
o anormal seria tão comum.
Juro.
Eu poderia ver meus defeitos
em todos os seres agora perfeitos
Que perambulam pelas ruas
Esquinas ou avenidas
Cobertas ou nuas.
Criamos áreas proibidas
E enquanto roupas cobrem o corpo
Mentiras protegem a mente
Onde não se permite o outro
Para que esqueçamos
Que entre os vivos e os profanos
Entre o vil e o nobre
E entre o ouro e o cobre
Imperadores nus
Somos todos nós


É meio antigo, ainda não publicado. E o blog precisava de uma atualização.

Escrito em Escrita em Verso | 3 Comentários

Quando a Paz buscou um alguém

Era um dia certamente muito bonito, e nem o Sol nem o Céu deixariam impunes aqueles que blasfemassem a obra prima que os dois tinham ali realizado. A Paz, há tanto tempo adormecida em meio ao caos violento da cidade, pensou que estava na hora de descansar nos braços de alguém que a quisesse. Decidiu buscar na multidão um ser vivo merecedor.

Caminhando na rua, a Paz passou por uma banca de jornais. Na capa de uma revista de economia, um homem de feição experiente. A manchete o elogiava. Entendendo que aquele homem deveria ser um sábio entre os humanos, a Paz foi procurá-lo.

Adentro de um prédio de incontáveis andares, a Paz deparou-se com a movimentação caótica de pessoas entrando e saindo. Carregando consigo uma cópia da revista encontrada na banca, apontou e disse: “gostaria de falar com este homem”. A atendente, que deu um leve sorriso pela maneira peculiar com a qual a Paz se expressou, explicou que era preciso marcar um horário. E completou que não havia nenhum horário para os próximos cinco dias úteis.

Confusa, a Paz se viu obrigada a questionar: “existem dias inúteis?” A moça, julgando ser aquilo uma piada, fez cara de nojo e apenas retrucou:

– Você vai marcar um horário ou não?
– Este homem não tem tempo para a Paz?
– Ele é muito ocupado, e eu também agradeceria se você não gastasse meu tempo com piadinhas.
– A Paz não é algo que se tem no dia seguinte, ou alguns dias úteis depois. Ou você tem tempo para ela, ou não.

E assim a Paz se retirou do prédio, enquanto a moça reclamava de clientes chatos.

Incerta a respeito de seu próximo destino, a Paz entrou em uma casa que chamou sua atenção pelo silêncio. Foi recebida por uma mulher de meia-idade, e havia ali duas crianças pequenas, que dormiam. A Paz perguntou se mais alguém morava naquela casa, e a mulher explicou que seu marido chegaria tarde e cansado. “Ele não poderá receber você como deveria quando chegar”, disse a esposa, prestativa. A Paz observou, em uma estante, a foto do homem, e percebeu que não poderia entregar-se àquela mulher, cujo coração estava preenchido pelo marido. Saiu, disse tchau e continuou a caminhar.

Duas quadras à esquerda, a Paz passou por um bar. Lá, o homem antes paralisado na fotografia estava mais velho e em uma roda de amigos que pouco diziam. Segurava um copo na mão e não mais conseguia falar direito, o que a Paz não soube compreender. Mas também mal soube esse homem que perdeu a Paz naquela dia ao trocar sua família pela bebida.

Seguindo adiante, a Paz passou por uma escola. Na rua ao lado, um adolescente chorava. Foi tentar ajudá-lo.

– Por que choras, jovem?
– Acabei de levar um fora da garota de quem gosto.
– Mas por que isso é ruim? Queria que ela desse a você uma chance sem sentir por você o que você sente por ela?

E assim o menino saiu correndo, criticando a Paz que havia tentado ensiná-lo sobre a importância da sinceridade de sentimentos e da reciprocidade do amor.

Caminhando mais um pouco, avistou uma garota da mesma idade do rapaz de minutos antes. Não chorava, mas estava cabisbaixa e seus olhos pareciam ainda saborear o frescor de lágrimas há pouco despejadas. E a Paz foi tentar ajudá-la:

– Que há contigo, querida?
– Eu acabei de rejeitar um rapaz de quem gosto por ter medo de machucá-lo.
– Vá atrás dele e diga-lhe a verdade.
– Mas e se eu for rejeitada?
– Ainda estarás na mesma situação de agora, sem ele. Não terás perdido nada.
– Mas o que ele pensará de mim? Uma covarde que mente para não se machucar.
– Se não quer que pensem que és uma covarde, não sejas.

E assim a moça também correu, incapaz de abandonar seu orgulho para ouvir a Paz.

O dia, por mais lindo que fora até então, já não aguentava mais as investidas da noite, que pouco a pouco dominava o Céu, enquanto o Sol se retirava da batalha.

A Paz ainda queria tentar uma última vez descansar ao lado de um humano. Avistou um velho vestido em trapos sentado na calçada.

– Posso ajudá-lo com algo?
– Obrigado, mas não. Falta dinheiro, mas isso é sempre. E hoje até que rendeu — disse o senhor enquanto apontava para um violão e um chapéu com umas moedas dentro.
– Então posso descansar aqui contigo?
– Claro, a calçada é um pouco brava mas não rejeita ninguém. Achegue-se.

E ali dormiu a Paz, alegre. Decepcionou-se ao acordar e não encontrar mais o velho. Mas então percebeu que no dia anterior havia encontrado apenas dois tipos de humanos. Um deles não precisava de Paz. E os outros não a queriam.

Sumiu a Paz então, para voltar apenas em visitas curtas e esporádicas a cada ser, nos poucos momentos em que ela se sente bem-vinda.

Escrito em Crônicas/Contos | Deixe um comentário

Versos: Às vezes

às vezes acho
que estou acordado
e tenho a certeza
quando durmo
que isso tudo
foi por acaso

e às vezes acho
que estou dormindo
e tenho a certeza
quando acordo
de que o pesadelo
não é um sonho

às vezes vejo
que esse pesadelo
seria um sonho
mas aí percebo
que ainda estou tonto

às vezes almejo
querer perdê-lo
dentro de mim mesmo
até que percebo
que ainda o procuro

[em coautoria com Diogo S. B.]

Escrito em Escrita em Verso | 1 Comentário

Comunicação Popular

“Pareci Novo” é o nome da minha cidade. Normalmente falamos apenas “Pareci”. E o escrito abaixo se encontra em uma calçada:


Clique para ver tamanho completo

Clique para ver tamanho completo

Pareci
este povo
trabalha
tanto
que não tem
tempo
de educar
seus
“filhos”
que pena


Até quando desobediência civil é válida para se ter voz?

Escrito em Notícias | Tagged , , | 1 Comentário