A observadora

Muitos procuram alguém que os ame, que deles cuide. Os mais egoístas, que nem percebem que o são, querem simplesmente alguém que lhes dê muito e exija pouco. Ou que os encha de elogios não merecidos para inflar seus egos e ter aquela pontinha que faltava na autoestima.

Não preciso de nada disso. Imagine se eu preciso alguém para me elogiar me lembrar que tenho valor? Eu já sei mentir muito bem para mim mesmo. (E se você está se convencendo agora mesmo que não sabe mentir para si mesmo, então você é ainda melhor que eu nisso. Parabéns.)

Eu quero uma observadora. Uma testemunha. Justamente alguém que não me deixe mentir.

A importância disso é quase indescritível.

O olhar do outro faz toda a diferença. Há quem diga que só temos moral diante do outro. Um professor meu de filosofia dizia que a moral humana nasceu quando ficamos eretos e conseguimos ver um no olho do outro. A expressão alheia – de dor, de desgosto, de prazer. Ela nos guiou até a moral.

Nem é preciso pensar em termos complicados. Somos assim na prática – um par de olhos nos transforma.

Suponhamos que você fizesse aula de piano. Como você tocaria piano na frente de seu primo de quatro anos? Teriam suas notas o mesmo som e vigor que diante de Mozart? Como você discute saúde com um médico ou português na faculdade de Letras?

No japonês é preciso adaptar suas frases dependendo da pessoa com quem fala. Em alguns países, adolescente não pode dirigir um carro na presença de outro adolescente, porque, na tentativa de impressionar a audiência, vai fazer o que não devia. Errar.

Segue a lógica, daí, que a testemunha certa nos faz acertar. Nos guia puramente através da força da sua personalidade.

Nossas ações e palavras mudam conforme nossa audiência e nem percebemos. É preciso muita força de vontade para manter a constância e a coerência. Porém, nada ganhamos com isso. Ninguém nos parabeniza por coerência.

Exceto um bom observador.

E todo bom observador, que gosta do que vê, quer aquilo para si. E deseja pela sua preservação.

Nesse momento o observador deixa de meramente observar e parte para ação. Ele se envolve. Mas segue sendo o observador. O outro. Que poderá contar essa história. Validá-la.

Como alguém que não está meramente olhando uma peça de museu, aquele ou aquela que observa outro ser da raça humana precisa saber quando deve relaxar o olhar. E apenas sorrir.

Aí também relaxa o observado, contente como quem chega ao final de uma maratona depois de tantas dificuldades para impressionar aquele olhar afiado.

No dia seguinte, os dois, observadores observados, são melhores do que ontem, ambos protagonistas e testemunhas de uma história conjunta.