Palavras do senso comum, religião, felicidade e hackers e videogames contra Nietzsche

Eu realmente não sou a pessoa mais gabaritada para falar de nada do que segue. Mas quem, hoje em dia, liga para gabaritos? Quando cronistas de jornal e editores de revista estão aí para falar de psicologia e fenômenos sociológicos, para serem por isso considerados profundos pensadores ao citarem qualquer coisa (de grandes pensadores) fora de contexto – e serem elogiados por isso – que mal faz mais uma opinião desinformada?

É claro que faz mal. 

Mas a questão principal nem é essa. Você nunca vai reconhecer uma opinião desinformada, se concordar com ela. Só é desinformada a visão com a qual você não concorda. Este modesto blog já postou a excelente observação do economista1 Robin Hanson de que acreditamos que a neutralidade é importante porque uma análise neutra vai favorecer aquilo que acreditamos.

Nosso cérebro nos sabota. Não é bem culpa nossa. Mas nem todo erro demanda um culpado (essa exigência é normalmente humana).

O que é visível nessas visões “profundas” que hoje circulam por aí não passa de um raciocínio raso e individualista que já caiu no senso comum. Para ajudar a construir essas ideias, um relacionamento de “união” vira relacionamento de “apagamento” (união é palavra boa, apagamento é palavra ruim. Entende o que digo?)

É curioso porque assim sempre é possível manter duas lógicas funcionando ao mesmo tempo. Basta que se use as palavras adequadas para cada ocasião, a gosto.

Trata-se de uma percepção de descontinuidade que permeia a vida contemporânea em todos os seus aspectos. No trabalho, na graduação escolhida na faculdade, nos relacionamentos amorosos ou com amigos. Tudo é passível de mudança, evidente, mas contemplar essa mudança e exaltá-la, como se ela fosse um mero acidente e não escolha, é decisão nossa.

Carreira há 100 anos era permanência e fidelidade – preferencialmente recompensadas. Hoje uma carreira é o aproveitamento de oportunidade e o cair fora quando a situação está ruim – da mesma forma que tudo que não presta é jogado fora em vez de ser consertado.

O “pratique o desapego” é um mantra dessa mentalidade, útil para todos os envolvidos, que não precisam jamais pensar no comprometimento.

Ora, é verdade que muitas coisas estão fora do controle humano. Mas nem tudo. Criar garantias, criar expectativas (de você e dos outros) é, no entanto um ataque à liberdade — porque significa – nessa interpretação torta — que seria preciso abandonar o individualismo

Não vou citar coisas complicadas como o niilismo, a destruição do senso comunidade (sucintamente compreendida em “hoje ninguém conhece os vizinhos”) e coisas do gênero. Está cheio de livros falando sobre isso e a análise deles é melhor do que a minha.

Boa parte dos pensamentos – em qualquer esfera – justificam essa mentalidade. Mas há uma exceção importante.

Religião

Já ouvi mais de uma vez que “religião” significa “religar”. Hoje, essa função de “religar” da religião é muito clara. Os impérios individuais que cada ser humano representa, exaltados pelo senso comum que vê nas relações interpessoais uma forma de violação dessa individualidade, não aguentam a tarefa de viverem isolados e obrigados a criar seu próprio grupo de regras e limites. Convenhamos: isso dá trabalho.

Estudos já mostraram que pessoas mais religiosas são mais felizes, tendem a ficar mais tempo casadas, usar menos drogas (e outras coisas citadas também por Robin Hanson). Se outro ser humano não pode violar nossa individualidade, então, pelo menos, um deus pode.

(Perceba que “religião” não significa “cristianismo”, então esqueça de alguma retribuição do seu deus preferido nesse caso.)

Dá para aceitar isso bem, mesmo no pensamento atual. Em muitos casos, faz sentido – você acreditar ou não na evolução provavelmente não vai fazer muito diferença na sua vida, a não ser que você seja um biólogo.

Mas talvez o mais importante é que o simples fato de ter essas respostas traga paz e felicidade. No meio de tantas coisas efêmeras e que exaltam essa mudança e o desapego, as religiões são um pilar de constância. Daí sua força. Mas as pessoas, defendendo sua individualidade, evitam “se sacrificar” (olha que palavra ‘feia’) pelas outras, que reciprocamente fazem o mesmo.

Felicidade

Se uma pessoa que recebe as respostas prontas é mais feliz do que uma que precisa buscá-las por conta própria, a felicidade em si parece ser um produto mais fácil de adquirir em determinadas condições2. Quais sejam: constância, incondicionalidade, aceitação.

Percebo muitos depositando a felicidade em algum evento específico: “serei feliz se…”; “serei feliz quando…”. Quando o que estiver descrito no lugar das reticências vier a ser, algo mais acontecerá e tudo vai se repetir. A felicidade é postergada infinitamente 3.

Não sendo a felicidade um estado incondicional, constante e aceito como tal – “aceito que tenho as condições de ser feliz” – parece-me que a felicidade torna-se refém de uma condição, hoje volátil, e, portanto, bastante frágil.

Há quem diga, que até 2020, a depressão vai ser a segunda doença mais comum do mundo4 e livros de autoajuda estão sempre em listas de best-sellers. O mundo precisa, urgentemente, de felicidade.

Shion Uzuki vs. Nietzsche

Sobrou pra mim
A felicidade sempre ofende
Mas tristeza demais cansa

(Bem, que se fodam os ofendidos!)

Então respira mais
Que eu respiro mais
Ok, ok

Violins

Essa enchente individualista foi muito bem prevista por Nietzsche. E ele também previu, corretamente, que a falta de constância, de valores, de papéis sociais – quer dizer, a falta de bases e a falta de sentido para a vida, criariam seres humanos frustrados.

Só quem poderia sair dessa condição seriam os Übermensch – os “super-humanos”. Estes entenderiam as consequências de suas ações e criariam os novos valores morais que dariam as bases para que eles próprios pudessem viver, mesmo sem nada exterior ou espiritual para justificar esses valores.

Übermensch teria plena consciência da finitude de sua vida e veria no Eterno Retorno uma forma de justificar suas ações em vida. Será que esta atitude que estou a realizar é correta se for repetida infinitamente em todas as minhas próximas vidas que são iguais a esta? Não que existisse alguma próxima vida — isso é apenas um exercício de raciocínio para encontrar uma forma de analisar atitudes.

Dentro do Eterno Retorno, não existe problema para o individualismo. Um dia os seres humanos vão achar as soluções e novos valores morais. Não vai ser preciso a religião e nem nada além deste mundo para guiar a ética e a moral do homem.

No final do jogo japonês “Xenosaga”, o fim do universo se aproxima. Mas ele já está salvo. Por quê? Porque foi criado um dispositivo que irá repetir o universo. O universo será criado novamente, e tudo vai acontecer da mesma forma – até ele novamente acabar, e ser recriado. É o Eterno Retorno, mas para o universo inteiro.

Os personagens não concordam com isso – e nem compreendem que isso é “salvar” o universo. Eles então impedem o universo de ser destruído e de se repetir, buscando “alguma outra alternativa”. Ao final, quando parte para essa busca5 , diz a protagonista Shion Uzuki:

Viver a mesma vida, de novo e de novo, mas vivendo essas vidas sem nenhum arrependimento é o que realmente importa. Isso é provavelmente a visão ideal de um ser humano.

Porém, nós humanos não somos tão fortes. E sabemos que não podemos viver assim. Somos criaturas muito mais defeituosas, fracas e menores que isso. Ferimos os outros, mentimos para nós mesmos, odiamos, culpamos os outros, nos arrependemos.

Mas mesmo que sejamos fracos, e mesmo que seja o nosso destino seja desaparecer completamente, acho que a vontade de mudar o futuro ainda é importante.

Devemos tentar mudar as coisas ao nosso redor, aos poucos, mesmo que seja um passo de cada vez, e mesmo que tudo já esteja pré-determinado, não há por que ficar triste. Não, ao contrário. O futuro está transbordando de esperança. E temos infinitos caminhos para seguir.

O que temos aí – com grifos meus – é a negação da “visão ideal de ser humano” — do Übermensch. Para a personagem, esse status de “super-humano” é inatingível. Ao contrário, o mais importante é ter “infinitos caminhos para seguir” e a vontade “mudar” — a palavra mais amiga do senso comum contemporâneo.

Até mesmo “desaparecer completamente” é preferível a ser responsabilizado pelas próprias ações eternamente (veja que o princípio de muitas religiões é o mesmo, nesse nível).

Shion também deixa claro que os seres humanos não são fortes o suficiente para vestir a liberdade com maestria. E, logo depois de admitir isso, o discurso é transformado numa defesa da liberdade…

Reparemos que ideias positivas em relação à subserviência são sempre atribuídas aos vilões em qualquer história – nem o Loki no The Avengers escapou de ser retratado assim –, embora isso faça parte da nossa vida diária (no trabalho, e nas relações básicas de “contrato social” que temos com as outras pessoas).

É a melhor representação da guerra constante do indivíduo, que quer liberdade e garantias para possuir segurança, porém não compreende que só haverá segurança e garantias quando os próprios indivíduos criarem a consciência de que precisam agir para dar essas garantias aos demais.

O Anonymous é uma grande realização desta geração de que algumas conquistas só são possíveis com a ação coletiva, uma união que leva ao inevitável “apagamento” do individualismo. Nem mesmo a ironia de usarem um símbolo popularizado por um filme de Hollywood os abala.  Não há Übermensch; analisar o Anonymous pelas credenciais dos indivíduos que o constitui não é nada impressionante. Mas o Anonymous, como grupo sem rosto, influencia e movimenta. E mais: promete que “não esquece”, quer dizer, promete constância.

Isso é novidade; porque falar que seres humanos precisam “do seu espaço”, do desmantelamento do papel social, e categorizar a vontade de ter seu próprio lugar – de pertencer – como infantis6 estão cansadas e só mais andam em círculos.

A mudança e o diferente já viraram clichê.

  1. Economia é a ciência dos interesses, como já bem descreveu o Freakonomics – dinheiro é só uma representação do interesse
  2. Para seguir na lógica individualista e consumista, achei sarcasticamente adequado falar da felicidade como um produto
  3. Elaborei essa ideia na forma de conto em “Quando a paz buscou um alguém
  4. Tenho minhas dúvidas sobre esse tipo de estatística, mas é difícil de entender como tanta gente em países mais desenvolvidos é tão infeliz
  5. Sim, ficamos sem saber se qualquer forma de prolongar a existência do universo foi encontrada
  6. Lembrando que, segundo algumas estatísticas, 20% das crianças em países desenvolvidos sofre de depressão