A relação entre religião, ateísmo, materialismo e fisicalismo

Você quer dizer no Facebook que é ateu. Então você vai lá e preenche Ateu em religião, mas reclama toda vez que um religioso lhe diz que o ateísmo é uma religião.

Você está fazendo isso muito errado, porque acabou de dizer que o ateísmo é sua religião. Isso é metalinguagem.

Ser ateu, não acreditar em uma divindade, não é, de forma alguma, uma oposição à religião. Religião é um conjunto de aspectos culturais, morais e, principalmente, espirituais. Uma religião se define pelas explicações fornecidas pelas suas visões de mundo, rituais e crenças espirituais.

A crença em um ou mais deuses, quer dizer, o teísmo, é uma pequena parte dessas crenças, e a única que o “ateísmo” nega. Teísmo nem aparece no primeiro parágrafo que descreve religião na Wikipedia em inglês:

Religion is a collection of cultural systemsbelief systems, and worldviews that establishes symbols that relate humanity to spirituality and, sometimes, to moral values.[1] Many religions have narrativessymbolstraditions and sacred histories that are intended to give meaning to life or to explain the origin of life or the universe. They tend to derive moralityethicsreligious laws or a preferred lifestyle from their ideas about the cosmos and human nature.

Aqui no Brasil é um pouco mais difícil de ver essa diferença, já que religião dominante se define pelo teísmo, mas há algumas religiões sem crenças teísticas mundo afora.

Vejo mais oposição à religião no materialismo. O materialismo não tem nada a ver com ganância e acúmulo de riquezas pessoais. O materialismo é a ideia de que tudo que existe é matéria e energia1 – que o mundo e seus efeitos podem ser explicados por fenômenos que envolvem algo material. Opõe-se ao dualismo, que é uma ideia que separa o físico do corpo e a mente, atribuindo a esta última um caráter espiritual e, portanto, compatível com a visão religiosa.

A ideia pejorativa do materialismo foi, ao que me consta, uma resposta da igreja quando a burguesia lá da Renascença começou a ignorar os preceitos religiosos na busca do lucro (hoje, natural; na época, proibido). Logo, só podia tolerar ter seu sustento vindo do lucro aquele que era materialista, ou seja, quem não dava valor ao espírito, a crença fundamental da religião.

O materialismo, dentro do que ele mesmo estabelecia, mostrou-se insuficiente para ser compatível com novas descobertas da Física. O materialismo aceitou essas novas descobertas, mas, para não perder seu significado histórico, trocou de nome para fisicalismo.

Muitos daqueles que se dizem ateus não são apenas ateístas. São céticos e/ou fisicalistas, vendo explicações para o mundo nas descrições físicas dadas pela ciência, livres de qualquer influência espiritual e, portanto, sem religião.

O que isso tudo muda, na prática? Preservar palavras. Preservar palavras significa preservar os pensamentos e ideias que elas representam, para que não se confundam. Que os religiosos ateus assim continuem, mas que os sem religião entendam que o ateísmo não é o ponto central desta visão de mundo, mas sim a negação da ideia de espírito.

  1. Lembrando que E=mc².

8 ideias sobre “A relação entre religião, ateísmo, materialismo e fisicalismo

  1. Ia fazer um post no meu blog justamente sobre algo parecido. Será que isso é coisa de Deus? :P

    Nos últimos dias, venho repensando meu ateísmo. E acho que durante algum tempo, agi como um “evangélico sem Deus”.Talvez esse venha sendo um problema para o ateísmo. Os religiosos, desde os mais conservadores, acabam entendendo o nosso ponto de vista como algo ruim, e por vezes chamam os ateus de pessoas com a “mente fechada” (isso até parece irônico). Depois de repensar um pouco, cheguei a conclusão de que o ateísmo vem se auto-prejudicando, por existirem muitos ateus militantes que gritam sobre seu ateísmo, quando poucos estão interessados. Eu mesmo fiz isso por um bom tempo. E o efeito acaba se tornando contrário ao esperado. Não deixei de concordar com o ateísmo, muito menos com a ideia de sermos livres para sair por aí divulgando isso. Porém, acho que algumas pessoas estão fazendo isso de forma um pouco fanática. Meu medo é que o ateísmo acabe alimentando ainda mais a religião. Penso em simplesmente tratar a religião como mitologia e pronto, ao invés de rebater argumentos (embora seja prazeroso vencer crentes fanáticos).

    Enfim, ainda vou repensar mais isso, não acertei bem as ideias ainda.

    Abraços!

    • É a velha história: quando você cutuca algo, a reação é de se defender, de se fechar. O “movimento dos sem-religião”, se assim podemos chamar, tem cutucado frequentemente a religião e sim, o resultado disso vai ser, sem dúvida, reações de defesa e ainda mais divisão entre “nós” e “eles”.

      O cristianismo tem como fundamento disseminar suas ideias. Talvez os ex-cristãos tenham mantido essa necessidade de se disseminar. Mas ela não é, vale dizer, comum a todas as religiões. Budistas e judeus tendem a deixar todo mundo em paz, por exemplo. Vê se o Silvio Santos usa o SBT pra divulgar o judaísmo dele.

  2. Haha, grande ALtieres. Quando eu fiz meu cadastro no FB, pensei exatamente sobre isso tudo na parte de “religião”. Coloquei simplismente “sem religião”, bem coerente e exato.

    Sobre a militância, o problema é que alguns ateus veem a religiao, no geral, como algo pernicioso, que traz mais malefícios que benefícios. Nao lhes entra na cabeça que nem todo mundo é igual, cada pessoa tem apoio emocional e psicologico que melhor lhe satisfaz e é assim que eu vejo as religioes, apenas como um apoio para essas pessoas.

    O problema é quando a religião é institucionalizada, aí vemos barbáries como governos teocratas, regalias e vista grossa para Igrejas, etc. Outra coisa que incomoda e que é inerente a religioes cristãs, é o proselitismo, quer dizer, o religioso nao deve se contentar apenas em rezar, ele deve pregar e converter os “impuros”.

    Sobre a reação negativa dos teístas quando sao confrontados com argumentações anti-religiosas, tem até um termo em ingles pra isso: backfire effect. Quanto mais você “ataca”, mais o crente se agarra a fé religiosa. Para ele é como uma espécie de provação :D.

    • Falou bem! Eu acabei de tirar o meu “Ateu” do religião do Facebook. Tinha colocado sem pensar. Agora deixei em branco. Zero não é o mesmo que conjunto vazio, já dizia minha professora de matemática, mas ainda estou pra decidir se é melhor dizer que não tem religião ou deixar em branco.

  3. Aliás, faz tempo que eu nao visitava o teu blog, o fundo preto ficou melhor, cansa menos a vista :)

  4. É, foi o que acabei de fazer. Antes havia colocado cético, mas isso não tem muito a ver com o que realmente penso. Então decidi por deixar o campo Religião em branco.

    A partir de agora, vou seguir a ideia do filósofo Nietzsche. “Deus está morto”; Partindo dessa ideia, não vou mais tentar lutar contra algo mitológico e cultural. Cada um que siga sua crença, seja ela no que for. Acredito que o aumento de pessoas que não seguem esses dogmas está ocorrendo naturalmente, pelo fácil acesso ao conhecimento, e não pela militância dos ateus. Na verdade, apesar das pessoas continuarem me considerando um ateu, eu não vou mais me considerar um. Como o Juca disse, não tenho religião, não sigo dogmas religiosos e fim. Não precisamos necessariamente de um “rótulo” para isso, embora esse não seja um rótulo ruim.

    Essa mudança de ideias está sendo boa para mim. Por exemplo, pretendo ler a bíblia de “cabo a rabo”, afinal, essa é uma obra literária interessante, e eu ignorava ela quando a via apenas como um livro de mentiras. :)

    • Nas raríssimas vezes em que alguém desconfiou e me perguntou por que eu deixei de ser católico e virei ateu, eu respondi: eu li a Bíblia. :D

      Boa leitura, Giovani.

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