Eu, tu e uma garrafa de vinho

Se acreditasse em Deus, eu diria, ainda que mentindo, que só Ele saberia quanto esperei por isso. Não foram apenas três meses e uma semana como parece. Não, foi bem mais tempo. Não pela data – mas pela ocasião, pela circunstância de tudo, pelos elementos e detalhes que compõem o ambiente. Pelo amadurecimento, que finalmente me faz sentir adulto. Um homem, eu arrisco com alguma esperança. Seria bom ser reconhecido assim, ouvir uns parabéns sinceros por algo conquistado – e não por mais um dia, que viria com ou sem esforço.

Quanto a Deus, seria uma mentira depender de Sua sabedoria. Eu também sei o quanto esperei, e, mesmo que Ele existisse, ainda acreditaria saber melhor o quanto esse momento fora aguardado. E finalmente, cá estou – nesse lugar e tempo há tanto querido.

Antes de qualquer coisa eu me preparo. Não vai ter mais ninguém, somos apenas eu e tu — nós. Mas eu não ficaria melhor para qualquer multidão que fosse – é só teu olhar, só teu julgamento que pode me abalar. Tive medo de fugir demais do convencional. Se ficasse evidente minha preocupação em agradar, evidente também seria meu possível fracasso. E careço de confiança para acreditar num sucesso certeiro. Tento meu melhor para não parecer exagerado e ainda assim tentar ser bom o suficiente.

De repente tu chegas cantando e ouço-te longe. Algo sobre sonhos, talvez. Sonho como o meu, que ao decorrer de cada segundo parecia mais real. O canto chega mais perto e a bela voz já não deixa dúvida a respeito de sua dona. É chegada a hora e também a tensão.

Ao abrir da porta nenhuma barreira caiu. Continuas distante e eu me iludo com esperanças inúteis de que algo poderia mudar. De que a proximidade física, o abrir de portas também poderia aproximar e abrir nossos corações. De que o sonho desejado ao sopro que tentou apagar uma vela persistente realmente poderia vir a ser, por maior que fosse a resistência dele em se concretizar. Como a vela que não queria deixar de faiscar – desejei que assim fôssemos nós.

Então eu sou uma criança querendo ser parabenizada por ser adulta, mas e daí? Crianças ouvem mentiras o tempo todo.

Mas sua voz não reservou mentiras para mim. Alguns sorrisos, um erro consciente. Uma troca de nomes como se eu fosse outro alguém, já parte do teu passado. Dor. Meu sonho trilha em direção ao pesadelo e eu só queria que tudo acabasse o mais rápido possível. Descansar do meu próprio vazio, do meu próprio sonho, do desejo e da esperança que agora me consumiam tão forte quanto em todos os dias que eu deles me alimentei.

Minha última esperança: uma garrafa de vinho. Eu já esperava por tão pouco que mesmo o auxílio do vinho já não me parecia algo patético e desprezível. Eu queria alguma coisa, por menor que fosse. Queria sentir um carinho, um amor, que parecia longe. Engano meu o de achar que o vinho correria até lá para buscar esse amor e trazê-lo de volta até aqui. Porque ele não foi.

E se a esperança é a última que morre, o vinho da garrafa não tardou a acabar.

Umas palavras trocadas, umas cantigas. Uma dança que me faz sentir um pária – um balé no qual meu pé não sustenta o resto do meu corpo e eu caio sem graça alguma. Desgraçado. Recolhi minha esperança de oitocentos mililitros.

A verdade bate. Só estou longe, sozinho e triste. Você se foi. A garrafa está vazia. Mas eu já posso enchê-la, com alguma paciência: há lágrimas caindo ao chão.

Resta eu e tu, Senhor de mim mesmo.

Grey Imprinting

The grey paints a new color to the overcast sky every other second. The metamorphosing color sits between the shades of white and black made from the clouds that decorate it, replacing the blue. Among the airplanes, the birds, the sounds, the helicopters and the fake dullness, the uncertain stormy rain brings fear, uneasiness, and sadness to those who might have plans ruined, or happiness to those who need some raindrops to fall and wash their soul, or for the lightning to make company to their grief.


Simplesmente um parágrafo que escorreu na minha mente. Feito merda (sim, se fala merda neste blog). Mas quem sabe isso adube alguma coisa…

Versos: Atirando no Sol

Ter esperança e mirar alto
Cair depois de um salto
Desacreditar na própria fé
E rir da mudança da boa maré

Acreditar por um momento
Que paciência é recompensada
Que esforço não é sofrimento
Mas a construção da boa morada

O tempo passa e nada nunca volta
Tudo só vai embora e mais longe
E o que se foi nas noites assola
O sorriso feio que se esconde

E aquela certeza que se tem
De que o passado ficou onde podia
E que futuro virá como sempre vem
E apesar disso o presente assovia
Pra buscar alguma companhia

São todos eles tiros no Sol
tão distante tão fascinante tão brilhante
tão quente tão presente
e tão ausente
quando chega a noite

E há quem atire à noite
Também no Sol sem saber onde ele está
A vida se faz e se cria por lá
Assim pensam os que atiram

Cegos pelo brilho
A dor ainda assusta
O frio condena
E as balas se perdem
Ao sol.