Versos: A Espera

Estou aqui parado
Não sei bem o motivo
Só sinto que espero algo
Capaz de me dar alívio

As palavras escorrem;
Pensamentos que eram vivos
Aos poucos sempre morrem
Dando lugar a mais, e outro
Cada vez mais nocivos
E sem ouro

Ainda espero inutilmente
Porque eu sei que às vezes
Nem um período de mil meses
Será suficiente

Mas a espera me prende
Sufoca e me faz ausente
Na minha falta, falto eu
E ali no chão jaz perdido
Tudo o que ninguém perdeu:
Um tal dia mal vivido
Que pensei ser só meu

Morre agora outro minuto
Na espera que faço em luto
Pelo minuto anterior
Que morreu sem meu amor

Pela mais pura cortesia
A vida me dá outra hora
Sabendo que ela não alivia
Por ser apenas mais tempo
Lembrando que joguei fora
Todo o tempo que eu tento
Ter de volta agora

Ao olhar o que conquistei
Enxergo o que me falta
Sou ingrato, isso eu sei
Mas o futuro está em pauta

Espero por um momento
Que penso ser nobre
Mas que é tão pobre;
Não acredito no vento
E ainda assim finjo
Ser capaz de ver a brisa
Que chega com afinco
Sem ver onde pisa

“A coragem não está lá fora”
Tantos já tentaram me dizer
Penso que ela já foi embora
E sabe-se lá se vai me ver

Presenteei-me com o presente
Agora aguardo outro, diferente
Sem perceber ele vem do passado
E que o futuro fará ser passado
O que hoje é presente


Se o mundo pudesse apenas pintar de branco
Aquilo que é bom
Qual seria a cor do homem
Que o azul acinzenta e o verde destrói?

Muito a dizer, pouco para falar

Considerando a data do post anterior, posso começar este aqui com aquela velha história sobre estar muito ocupado, mas é uma meia-verdade. No fim das contas, todo mundo arranja um tempinho para aquilo que quer fazer. E se eu quisesse de verdade escrever nesse blog, provavelmente teria arranjado tempo. Tanto que, exatamente agora, em semana de provas e trabalhos, cá estou a digitar*.

Se eu precisasse só de tempo.

Além de tempo, é preciso de um assunto e saber como abordá-lo. Verdade seja dita, tenho muitos assuntos, mas poucos que podem ser colocados em um espaço público como este.

Meu post anterior foi breve, mas, para elucidá-lo, digo que passei por uma grande mudança na minha vida. Saí da cidade onde cresci — e na qual só não nasci porque ela ainda não existia na ocasião — e fui (vim?) para uma cidade cem vezes maior. É um passo grande para uma pessoa como eu. Ou, melhor dizendo, foi um grande passo para mim.

Não fossem as pessoas tão diferentes, eu adoraria, nesse momento, compartilhar o tanto de coisas que aprendi. Mas sinto que seriam mesquinhas aos olhares de uns e desnecessárias diante de outros; isto aquelas que eu poderia codificar em palavras, que são minoria. Por outro lado, creio que reside em cada um de nós o desejo de descobrir um pouco mais sobre nós mesmos todos os dias, não só porque isso é legal por si só, mas porque, quando a gente entende o que nos faz funcionar, nos tornamos capazes de lidar melhor com aquilo que nos aflige.

Sendo assim, já senti em muitos dias que fazer o que eu fiz era exatamente o que eu precisava para aprender muitas coisas sobre mim mesmo. E para alguém que pensa e repensa as coisas, e até a vida em geral, e com detalhes, como é meu caso, informação desse tipo ajuda e muito na hora de desatar uns nós e demolir alguns labirintos.

Paguei um preço alto por isso (literalmente, inclusive). Deixei uma vida muito simples e tranquila para trás. Mas era uma vida inerte que, deixada como estava, iria prolongar um estado de espírito que na verdade era incapaz de se sustentar. É por isso que posso dizer que fiz a coisa certa; no fim, minha incapacidade de me resolver onde eu estava me expulsou de lá, por mais que, talvez, lá fosse um lugar melhor.

O fato é que cresci como ser humano, e um ser melhor vive melhor mesmo em condições inferiores.

* Permiti a mim mesmo essa regalia porque tive dois dias muito produtivos. Sem remorso.