Quando a Paz buscou um alguém

Era um dia certamente muito bonito, e nem o Sol nem o Céu deixariam impunes aqueles que blasfemassem a obra prima que os dois tinham ali realizado. A Paz, há tanto tempo adormecida em meio ao caos violento da cidade, pensou que estava na hora de descansar nos braços de alguém que a quisesse. Decidiu buscar na multidão um ser vivo merecedor.

Caminhando na rua, a Paz passou por uma banca de jornais. Na capa de uma revista de economia, um homem de feição experiente. A manchete o elogiava. Entendendo que aquele homem deveria ser um sábio entre os humanos, a Paz foi procurá-lo.

Adentro de um prédio de incontáveis andares, a Paz deparou-se com a movimentação caótica de pessoas entrando e saindo. Carregando consigo uma cópia da revista encontrada na banca, apontou e disse: “gostaria de falar com este homem”. A atendente, que deu um leve sorriso pela maneira peculiar com a qual a Paz se expressou, explicou que era preciso marcar um horário. E completou que não havia nenhum horário para os próximos cinco dias úteis.

Confusa, a Paz se viu obrigada a questionar: “existem dias inúteis?” A moça, julgando ser aquilo uma piada, fez cara de nojo e apenas retrucou:

— Você vai marcar um horário ou não?
— Este homem não tem tempo para a Paz?
— Ele é muito ocupado, e eu também agradeceria se você não gastasse meu tempo com piadinhas.
— A Paz não é algo que se tem no dia seguinte, ou alguns dias úteis depois. Ou você tem tempo para ela, ou não.

E assim a Paz se retirou do prédio, enquanto a moça reclamava de clientes chatos.

Incerta a respeito de seu próximo destino, a Paz entrou em uma casa que chamou sua atenção pelo silêncio. Foi recebida por uma mulher de meia-idade, e havia ali duas crianças pequenas, que dormiam. A Paz perguntou se mais alguém morava naquela casa, e a mulher explicou que seu marido chegaria tarde e cansado. “Ele não poderá receber você como deveria quando chegar”, disse a esposa, prestativa. A Paz observou, em uma estante, a foto do homem, e percebeu que não poderia entregar-se àquela mulher, cujo coração estava preenchido pelo marido. Saiu, disse tchau e continuou a caminhar.

Duas quadras à esquerda, a Paz passou por um bar. Lá, o homem antes paralisado na fotografia estava mais velho e em uma roda de amigos que pouco diziam. Segurava um copo na mão e não mais conseguia falar direito, o que a Paz não soube compreender. Mas também mal soube esse homem que perdeu a Paz naquela dia ao trocar sua família pela bebida.

Seguindo adiante, a Paz passou por uma escola. Na rua ao lado, um adolescente chorava. Foi tentar ajudá-lo.

— Por que choras, jovem?
— Acabei de levar um fora da garota de quem gosto.
— Mas por que isso é ruim? Queria que ela desse a você uma chance sem sentir por você o que você sente por ela?

E assim o menino saiu correndo, criticando a Paz que havia tentado ensiná-lo sobre a importância da sinceridade de sentimentos e da reciprocidade do amor.

Caminhando mais um pouco, avistou uma garota da mesma idade do rapaz de minutos antes. Não chorava, mas estava cabisbaixa e seus olhos pareciam ainda saborear o frescor de lágrimas há pouco despejadas. E a Paz foi tentar ajudá-la:

— Que há contigo, querida?
— Eu acabei de rejeitar um rapaz de quem gosto por ter medo de machucá-lo.
— Vá atrás dele e diga-lhe a verdade.
— Mas e se eu for rejeitada?
— Ainda estarás na mesma situação de agora, sem ele. Não terás perdido nada.
— Mas o que ele pensará de mim? Uma covarde que mente para não se machucar.
— Se não quer que pensem que és uma covarde, não sejas.

E assim a moça também correu, incapaz de abandonar seu orgulho para ouvir a Paz.

O dia, por mais lindo que fora até então, já não aguentava mais as investidas da noite, que pouco a pouco dominava o Céu, enquanto o Sol se retirava da batalha.

A Paz ainda queria tentar uma última vez descansar ao lado de um humano. Avistou um velho vestido em trapos sentado na calçada.

— Posso ajudá-lo com algo?
— Obrigado, mas não. Falta dinheiro, mas isso é sempre. E hoje até que rendeu — disse o senhor enquanto apontava para um violão e um chapéu com umas moedas dentro.
— Então posso descansar aqui contigo?
— Claro, a calçada é um pouco brava mas não rejeita ninguém. Achegue-se.

E ali dormiu a Paz, alegre. Decepcionou-se ao acordar e não encontrar mais o velho. Mas então percebeu que no dia anterior havia encontrado apenas dois tipos de humanos. Um deles não precisava de Paz. E os outros não a queriam.

Sumiu a Paz então, para voltar apenas em visitas curtas e esporádicas a cada ser, nos poucos momentos em que ela se sente bem-vinda.