“Ler também é um exercício”

Uma propaganda veiculada pela Rede Globo de Televisão há sabe-se lá quanto tempo (não é pouco) afirma: “ler também é um exercício”. O objetivo da propaganda é incentivar o hábito da leitura no povo do brasileiro. Embora prefira a abordagem da MTV, não tenho nada contra a propaganda da Globo.

O que vale uma observação nesse caso é o argumento usado pela propaganda: Ler vale a pena porque é um exercício. Há uma carga de valor implícito nisso — exercício é bom –, e, se ler é um exercício, então ler também é bom. Se exercício não fosse bom, não valeria a pena compará-lo com a leitura — não com o objetivo da propaganda.

Há ainda outra carga implícita: quem está vendo não sabe que ler é um exercício. Porque, se a pessoa soubesse, não valeria a pena dizê-lo. Ao mesmo tempo, porém, a peça supõe que as pessoas sabem o que são exercícios e que eles são bons.

Ainda: normalmente quando se pensa em exercício, mentalizamos a ideia de exercício físico, e não exercícios mentais ou de imaginação.

Considerando tudo isso, chego nas perguntas: por que existe esse valor impregnado na cultura de que exercícios físicos são bons, enquanto a leitura não dispõe do mesmo privilégio? Por que não soa estranho dizer “leitura é tão importante quanto exercícios“, mas é estranho dizer “exercícios são tão importantes quanto a leitura“?

Aparentemente existe algo interno — da cultura, provavelmente — que qualifica exercícios físicos ao passo que desqualifica (ou pelo menos não eleva) a leitura. Interessante, no mínimo.

Diploma de jornalismo: corporativismo disfarçado de defesa da liberdade

O texto abaixo foi inicialmente escrito para o Portal3, site mantido pela Agência Experimental de Comunicação (agexCOM) da Unisinos, universidade na qual estudo.

Link original. Abaixo segue o texto reproduzido, para registro.


No século XV, a resposta imediata dos governantes à invenção da imprensa foi a censura. Em alguns países essa situação prolongou-se de maneira inaceitável. Foi o caso do Brasil, onde não havia nenhuma oficina de imprensa até 1808, quando iniciou-se a impressão do A Gazeta do Rio de Janeiro. Esse jornal era a resposta da recém-chegada corte portuguesa ao Correio Brasiliense, a primeira publicação a circular em território nacional, mas que era impressa em Londres e defendia a independência do país.

Hoje, em pleno ano de 2009, pelo menos 34 jornalistas estão presos em meio ao tumulto das eleições iranianas, segundo dados da Repórteres Sem Fronteiras. Mais de meio milênio após a invenção da imprensa, a censura ainda é, infelizmente, uma realidade.

Uma realidade que o Brasil vivia intensamente em 1969. No ano anterior, o governo militar havia criado o Ato Institucional nº 5, ou AI-5. Um dos Atos Institucionais mais marcantes da ditadura, ele deu poderes ilimitados ao presidente, eliminando a separação entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.

Creio que a maioria dos colegas jornalistas repudia esses acontecimentos. Porque cerceamento da liberdade de expressão não é o que desejam os jornalistas, que por muito tempo lutaram (e lutam) precisamente para obter o direito de escrever aquilo que acreditam que precisa ser escrito.

Mas foi nesse cenário de repressão que foi baixado, no canetaço, o Decreto-Lei 972/69. Esse é o decreto que criou a exigência do diploma de jornalismo para o exercício da profissão. Ele é o núcleo da questão que mais tem mobilizado os sindicatos e alunos de jornalismo nos últimos meses, e cujo clímax se deu no dia 17 de junho, quando os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) o julgaram incompatível com a Constituição Federal de 1988.

Não vou argumentar a respeito da validade da formação acadêmica. Sou estudante de jornalismo e assim devo permanecer até me formar. Acredito no valor que a formação tem para mim – pelas pessoas, pelas experiências, pelo contato com diferentes formas de pensar. Há quem consiga essas coisas de outra forma, em outra formação, ou mesmo dispense tudo isso.

Mas acho engraçado que os sindicatos, especialmente, dizem que a exigência do diploma de jornalismo garante a liberdade de expressão e o “acesso democrático” à profissão. Se foi uma regra criada para censurar, teríamos que primeiro provar a burrice e incompetência do governo militar por ter criado uma lei com a finalidade oposta. Certamente não era o caso, pois os militares conseguiram, sim, manipular a mídia e impedir a publicação de várias reportagens desfavoráveis. Com o decreto, impediram que jornalistas “indesejados” continuassem trabalhando legalmente no país.

A liberdade de expressão nada tem a ver com a formação do profissional. Sai no jornal o que o dono do jornal quer, visto que o texto é limitado pelo papel e pela tinta, ambos fora do controle do jornalista. O mesmo vale para o rádio e para a televisão. A apuração também depende do tempo que o jornalista terá para fazê-la. O jornalismo não é um produto tão lucrativo quanto o entretenimento – a quebradeira dos veículos norte-americanos está aí para mostrar a fragilidade financeira da imprensa. Com os profissionais sobrecarregados, o tempo de apuração é, portanto, limitadíssimo; raras vezes é possível fazer um trabalho de qualidade excepcional nestas condições.

Médicos e jornalistas são bem diferentes, de modo a serem incomparáveis, embora tal comparação tenha sido frequentemente realizada pelos defensores do diploma. Os piores erros do jornalismo envolvem falta de ética e honestidade. Os maiores erros da medicina (e da engenharia, do Direito…) se dão pela falta de conhecimento técnico. Ninguém fala em “liberdade de medicina”, simplesmente porque ninguém quer ser cobaia da “liberdade” de um médico.

Por outro lado, a liberdade de imprensa e de expressão é justamente a garantia de podermos falar o que quisermos da maneira que quisermos, implicando a obrigação de aceitar que outros façam o mesmo.

Jornalismo não se faz de um jeito só. É arrogante o jornalista que pensa ser possuidor do “segredo para se fazer jornalismo” só porque sabe quais informações devem ser colocadas no primeiro parágrafo de um texto – e há quem ria de quem será empregado sem saber o que é um lead.

Todo o barulho em favor do diploma é sindicalismo, corporativismo – a preservação de uma reserva de mercado disfarçada de preocupação para com o bem comum. Ótimos jornalistas não têm formação na área: Carl Bernstein e Bob Woodward, a dupla que derrubou o presidente Nixon no escândalo Watergate, escrevendo o que entendiam ser a verdade no The Washington Post, não tem formação em jornalismo. Bernstein, aliás, nem completou o ensino superior.

Também não faltam péssimos jornalistas formados. Basta conferir alguns jornais locais, devidamente registrados, com suas reportagens chapa branca e anúncios disfarçados de notícia. É pertinente citar o caso de Jayson Blair, o repórter do New York Times que inventou e plagiou notícias. Vendeu ficção como verdade. Blair era formado em jornalismo em um país que nem mesmo cultiva a exigência que por 40 anos existiu no Brasil.

Por fim, vale lembrar que os princípios éticos dos quais muitos jornalistas tanto se orgulham – como o “ouvir o outro lado” – nasceram justamente nas empresas que tratam jornalismo como produto. Antes de ser profissionalizado, jornalismo era feito por motivação política específica. Os mais interessados na noção de “imparcialidade” são os mesmos que hoje dizem querer contratar pessoas sem formação.

Ou, pelo menos, supõe-se que o objetivo dos membros do Sindicato das Emissoras de Rádio e Televisão de São Paulo (Sertesp), do qual partiu a iniciativa de eliminar a exigência do diploma, seja o de não contratar somente jornalistas. Se forem outros Bernsteins e Woodwards, que ótimo. Se forem Blairs, formados ou não em jornalismo, que pena. Mas o público sempre pode mudar de canal.

Versos: Lembrança de uma breve esperança

Percebi que ela sorria;
Por um instante falou comigo
Sem perguntar se nesse dia
Eu precisava de abrigo

Não quis reparar;
Na verdade não é por mal
Mas nem todo mundo é igual
E ainda é fácil julgar

Pudera ser mais óbvio
Descobrir nosso valor
Em cada ser sóbrio
Que nos faz sofredor

Cada um fica na dúvida
Com medo de verbalizar
A pergunta vez estúpida
Ora capaz de tranquilizar

Corro de volta para casa
Temendo que a memória se desfaça
Da lembrança dessa esperança
Que logo ei de esquecer

Haibane Renmei: quando a falta de pretensão é arte

Ela tem asas e fuma

Ela tem asas e fuma

Quando vemos algo diferente é natural supor que há algo de especial naquilo. Não quer dizer que seja bom. Pelo contrário. O especial pode ser uma habilidade, um poder, um status — mas também pode ser uma deficiência, uma desafinação com o ambiente. Que tal ver um homem engravatado andando de bicicleta, ou um esportista usando um computador, com capacete e caneleira?

Sabendo isso, o que se pensa de um grupo de garotas com pequenas asas cinzas e um halo sobre a cabeça?

Yoshitoshi ABe, a mente por trás do anime Haibane Renmei, é mais conhecido pelo seu trabalho em Serial Experiments Lain, quando foi responsável pelo desenho dos personagens (ele não é ‘autor’ de Lain, como diz a Wikipedia/PT). Aqui, no entanto, ABe fez também todo o roteiro, além de ser o diretor artístico.

A obra tem como base uma pequena série de doujinshis — espécie de mangá não-profissional, feito geralmente por fãs ou por autores consagrados apenas para publicar desenhos quaisquer, ou parodiar/divulgar outros trabalhos. Nesse caso, os doujinshis já tinham o nome de “Haibane Renmei”, e mais tarde “Old Home no Haibane Tachi” (“Os Haibanes da Old Home”). No primeiro doujinshi — “Haibane Renmei”, ABe escreveu:

Dessa vez é um livro sobre anjos. Comecei com nada além da simples ideia de aumentar a variedade de meninas que desenho. Como resultado elas dão a impressão de serem criaturas desajeitadas, um tanto não-angélicas, e para combinar com isso as asas delas são cinzas também. Elas não possuem nenhum poder estranho, naturalmente. E não, elas não podem voar. Elas não podem fazer nada para ajudar os outros, e não fazem nenhum grande serviço ao mundo. Que decepção. Mas pessoalmente eu sinto que é isso que as torna atraentes. O que você acha?

Rakka, personagem principal por contexto em vez de habilidade heróica

Rakka, personagem principal por contexto em vez de habilidade heroica

Dois anos mais tarde, quando publicou o primeiro (de 3) Old Home no Haibane Tachi, ABe escreveu que seu desejo era ilustrar o mundo em que essas garotas aladas viviam. Mas ele também queria que a história procedesse de maneira calma, relaxada.

O doujinshi foi abandonado com a oferta da criação de um anime. Apesar da mudança da mídia, os objetivos de ABe não mudaram. Haibane Renmei — algo como Federação das Penas Cinzas — é uma história tranquila, relaxada, sobre personagens que parecem ter algo de especial, mas que são tão normais quanto poderiam ser. São humanos — erram, se emocionam, trabalham, fracassam, têm defeitos e qualidades.

O passo lento torna o anime uma paisagem, apreciada em doses pequenas, mas embriagantes. Desde a abertura, uma trilha instrumental com violão e violino regada com cenas cotidiana dos personagens, aos festivais, eventos, dificuldades. Em quantos outros animes você viu personagens comprando roupas? Vale dizer, isso é relevante na medida em que, ao contrário das outras pessoas, os Haibane possuem asas, e suas roupas precisam ser adaptadas.

É essa atenção ao detalhe que faz Haibane Renmei brilhar. O que importa não é o enredo, mas a maneira como ele progride e como seus personagens lidam com as situações e problemas cotidianos. Não existe a pretensão de uma história grande e complexa. Os mistérios do mundo onde eles vivem não mais angustiam eventualmente, porque são reflexos dos mistérios que cercam nossas próprias vidas. As respostas que os Haibanes não têm, nós, aqui fora, também não temos, e é injusto querer que eles saibam o que não sabemos. Porque eles não são heróis.

Os Haibane moram em uma cidade cercada por muralhas, da qual não podem sair. Também há humanos normais, sem asas, que moram por ali. (Clique para ampliar)

Os Haibane moram em uma cidade cercada por muralhas, da qual não podem sair. Também há humanos normais, sem asas, que moram por ali. (Clique para ampliar)

A dor da perda de alguém, as barreiras culturais, o que está além do espaço que conhecemos, o passado das pessoas à nossa volta, a necessidade de respostas, o arrependimento e a dificuldade de lidar com o erro, o perdão — tudo isso aparece em Haibane Renmei de uma maneira tão simples e despretensiosa, possibilitando que você entre nesse mundo como em nenhum outro, sem julgar, sem raiva, sem expectativas.

É essa sensação de imersão pacífica que torna Haibane Renmei tão especial. Quem a tem sabe que a tem. Quem não tem não saberá o que perde. Infelizmente, não é para todos. É necessário paciência, atenção e vontade de se envolver com personagens que não são diferentes de cada um de nós. Nem maus, nem bons. Apenas haibanes.


Escrever essa resenha era desejo de longa data. Desde o início do blog, mais precisamente. Acabei escrevendo antes a resenha de Spiral, tal foi minha raiva ao terminar de assistir aquele projeto de anime. Depois tive que admitir que não mais sabia o que tanto queria escrever sobre Haibane Renmei.

Não sei se nessa resenha consegui dizer o que imaginei inicialmente. Mas não existe meio de saber com certeza se minhas ideias iniciais era piores ou melhores que essas de agora. Mesmo assim, fica aí o registro, e a recomendação.

O bairrismo gaúcho

É vergonhoso o que aconteceu com o repórter do CQC Felipe Andreoli. A saber: um bando de torcedores do Internacional desceu a porrada nele, no cinegrafista e no produtor enquanto eles faziam uma reportagem no Beira-Rio sobre a partida Corinthians x Inter.

Se ainda fosse apenas um caso isolado de ódio, realizado por alguns bêbados, quase que se poderia aceitar. Mas não. Nos comentários do blog dele e em outros lugares vê-se gaúchos sóbrios apoiando a atitude imbecil desses colorados. Se Andreoli estava ou não fazendo piada, isso não importa. É o trabalho dele.

Que fique claro que nada tenho contra os colorados. Não me envolvo com futebol, logo nem sou gremista; não faço parte dessa polarização que praticamente divide o estado. E há gremistas imbecis também. São fanáticos que levam um jogo a sério demais — uma tentativa constante de provar que são, de alguma forma, melhores do que os outros.

Tenho sim desprezo pelo bairrismo. O daqui é especialmente triste: uma hipervalorização do local, uma ideia de que somos melhores do que o resto do país. O engraçado é como isso pode ser usado para controlar as pessoas. É, pois, uma vulnerabilidade no intelecto de boa parte dos gaúchos, que aceitam falácias fundamentadas (sic) no que não tem fundamento: a localização. Esse comercial da Polar é um exemplo evidente do uso do bairrismo na mídia para a publicidade. E deu certo.

Aliás, um mínimo de dignidade foi mantido durante a campanha de 2006, que elegeu a (paulista) Yeda Crusius para o governo do Estado. Não vi, nas propagandas, o argumento de que ela não era gaúcha. Mas creio que isso se deve mais às certas repercussões legais de fazê-lo do que à ética dos políticos. No entanto, foi um argumento que circulou sim pelas ruas, e ainda circula agora que o governo não está satisfazendo a maior parte da população.

Sou um tanto globalista. Não aceito nem aquele argumento de que “somos todos brasileiros”. Um bairrismo brasileiro ainda é bairrista — apenas aumentou-se o tamanho do local que estamos superestimando. É preciso respeitar todas as culturas do mundo, inclusive todas que existem no Brasil, sem limitar-se a qualquer fronteira, seja ela política, geográfica ou cultural. Não se deve substituir um orgulho por outro. Idealmente, o bairrismo deve servir apenas como incentivo para se esforçar mais, para melhorar, e jamais para menosprezar a conquista alheia.

Previsão por MD5

É bem verdade que acertei em cheio na previsão anterior. Mas nem vou abusar da sorte.

Então vou fazer uma previsão por MD5. Assim fica o registro, ainda posso me gabar no caso de acerto, e não preciso me comprometer no caso de erro — embora ainda vou admiti-lo, se esse for o caso.

A previsão: e956ba1a4f596f249712710f94012e27 será candidato político, provavelmente deputado, nas eleições do ano que vem.

Para quem desconhece, esse código acima se chama “hash” e está no formato MD5. Se eu acertar a previsão, posso revelar qual o nome do sujeito que está “hasheado”, e todos poderão obter esse mesmo código fazendo o hash. Um detalhe dos hashes é que elas não são feitos para serem decodificados, e de fato existe mais de uma combinação de palavras que pode gerar um mesmo hash, então, a não ser que eu diga qual foi o nome que usei, não é possível ter certeza do que quero dizer com esse MD5.

Um tanto diferente, mas melhor?

Certo então, Fernando, e outros possíveis leitores do blog. Acabei de mudar o layout aqui. Opiniões?


Update: Na verdade o blog estava bem diferente. Segue screenshot. No entanto, achei, outro tema tão clean quanto o blogtxt e estou utilizando ele por enquanto. Se acham que eu deveria ficar com o anterior, ou com esse da screen, é só comentar.

ira-arclite