Eu não estou morto ainda, por mais que a falta de atualizações no blog tenha feito parecer.
Estou digitando esse post em um computador novo, de especificações modestas, que foi adquirido na Lenovo. Outra hora conto essa história. O fato é que meu desktop principal, logo atrás de mim, está terminando a instalação do Windows Vista, substituindo o Linux que nele imperou desde junho de 2007.
Foram quase dois anos usando Linux exclusivamente no desktop, em dual boot no notebook e como servidor em mais um computador aqui. Nesse tempo pude aprender muito e me irritar mais ainda, com todas as coisas estranhas que há no Linux, mas que sempre tem uma ótima razão de ser. Ou nem tanto.
Ainda tento descobrir por qual motivo o sistema de arquivos ext3, padrão do Linux, não armazena a data de criação do arquivo. Ou, pelo menos, se há tal data, o GNOME não exibe (pois também não exibe para o NTFS). Apenas há as datas de modificação e a (totalmente inútil em desktop) de acesso.
Não sei nem por onde começar a comentar as outras idiossincrasias que me fizeram pular pela janela. Mas vamos experimentar o sistema de som.
Qual a semelhança entre OSS, ESD, ALSA, Pulseaudio e ARTS? Não tenho a mínima ideia, exceto que todos causam dores de cabeça e tentam realizar a mesma função: reproduzir áudio. Egoístas, não trabalham bem juntos, e certamente algum aplicativo ficará sem som se usar um deles enquanto o outro estiver funcionando. E, embora a maioria dos programas respeite a configuração de som do sistema, alguns (Mplayer, ZSNES, Audacity) precisam ser configurados separadamente.
Foi esse detalhe que me impediu de usar a versão 8.10 do Ubuntu. Ela trocou o sistema de som de ALSA para Pulseaudio e muitos problemas decorram dessa mudança. No início, muita gente reclamou, por exemplo, do fato de o Flash não ter som, sendo necessária a instalação de outro pacote (que não estava na lista de dependências, portanto isso só poderia ser descoberto por meio de uma busca no Google). E, se você instalar esse pacote mas trocar o sistema de som para ALSA (o padrão na 8.04 e anteriores), terá vários problemas.
E já que mencionei o Flash, vale lembrar que o dito cujo está totalmente quebrado (!) na versão de “suporte longo” 8.04. Isso há pelo menos três meses. O pior: não aparece erro de instalação na tela, porque a instalação do Flash é realizada indiretamente pelo Synaptic (que instala pacotes); ele apenas sabe que o script de instalação rodou, mas não sabe que ele falhou.
E ainda pior: é um erro facílimo de ser corrigido, bastando a alteração de uma URL no script de instalação. Mas ninguém tem coragem de fazer isso porque significaria que haveria usuários do Ubuntu 8.04 com versões diferentes do Flash, o que causaria problemas para o suporte. Mas, pelo visto, deixar o negócio inoperante durante três meses não é problema… (Eu consegui instalar uma versão mais nova do Flash, descompactando os arquivos e movendo pro diretório certo. Mas se isso fosse Windows, ninguém admitiria.)
O Ubuntu, aliás, por padrão não roda midi. É necessário instalar componentes adicionais, e mesmo assim é ruim para fazer funcionar.
O constante estado alpha, mesmo de programas incluídos no repositório, irrita. Precisei gravar uma imagem .cue pouco antes de migrar para o Vista e o Brasero (programa padrão de gravação no ubuntu) achou que o CD de 700MB não tinha capacidade para a imagem de 480MB. O GnomeBaker, outro software de gravação, não errou na matemática e gravou. Mas esse mesmo GnomeBaker, quando faz gravação de dados, não consegue mover arquivos entre uma pasta e outra do projeto, além de lidar de forma precária com o recurso de arrastar e soltar. Para apagar uma pasta no GnomeBaker, há local certo — o comando de remover simplesmente não funciona em alguns lugares.
O drive de DVD também estava me dando dores de cabeça. Às vezes o sistema não reconhecia o ID do volume e ficava exibindo o mesmo do disco anterior. Em alguns casos era preciso tirar o disco, fechar o drive sem nada dentro e então abri-lo e colocar o DVD/CD desejado, para só aí ele reconhecer que um disco foi inserido. Quando isso acontecia com CDs e DVDs virgens, era receita pra desastre durante as gravações.
Lidei com tudo isso por muito tempo. A gota d’água foi perceber que o Linux é, de fato, otimizado para servidores, mesmo no kernel “genérico”, que é para usuários domésticos. Mesmo nele as tarefas de plano de fundo ganham prioridade e a parte de interface fica extremamente lenta, mesmo no meu Athlon X2 5000+, se algum programa estiver realizando operações em plano de fundo.
Mesmo neste ThinkCentre que uso para digitar isso — um simples Sempron L1150 — 100% de uso do processador não se iguala a uma interface lenta, pois há prioridade para essa função, e embora talvez as operações sejam mais lentas, elas não parecem porque o sistema passa a impressão de esta rápido. Em servidores, dane-se a interface, é claro. Mas eu não estou usando o Linux como servidor.
O próprio uso do swap no Linux, tão criticado no Windows, é otimizado para servidores. O Linux tenta, a todo custo, não utilizar o swap, já que o swap pode acabar com a performance em servidores. No desktop, porém, o número de tarefas é variável, de modo que deve ser preciso alocar mais memória a qualquer momento, para impedir que o processo de paginação tome tempo quando um programa ou tarefa mais pesada for realizado.
Aliás, é justamente essa “paginação preventiva” que muitos dos chamados softwares otimizadores de memória no Windows fazem quando ativados. No Linux, no entanto, o ápice da inteligência é evitar o uso de swap a todo custo, o que até pode ser bom se você nunca precisar do swap. Novamente, temos um debate sobre a velocidade real do sistema e a impressão de velocidade, baseada no quão rápido a interface responde.
(No Linux, aliás, o tamanho do swap é fixo. Sinto muito se você decidir usar um programa mais pesado e descobrir que você precisa mais memória.)
E terminando o papo de interface, é triste que aplicativos Qt não se integrem bem no GNOME, mas programas GTK e Qt pareçam quase nativos no Windows.
Então o Linux é tudo de ruim?
Pelo contrário. Se alguém pegar as minhas colunas recentes no G1, vão achar que fui comprado pela Microsoft e estou em uma cruzada contra o sistema.
Não é verdade. Tem várias coisas no Linux que são muito, muito legais, e já sei que vou sentir falta do suporte nativo a PGP, de poder colocar qualquer janela “always on top”, a opção de criar uma partição para o /home, a estabilidade, a segurança, entre outros. Mas de nada me adianta um sistema que nunca preciso reiniciar se ele sempre parece lento, independentemente do reboot.
Vou sentir muita falta da correção ortográfica presente em todos os programas no Linux. Nem um editor de texto simples escapava de ter algum tipo de sistema de correção. Realmente sensacional.
O Linux também me permitiu usar uma gama nova de aplicativos, os quais vou levar todos para o Windows. Gimp, Inkscape, Scribus e OpenOffice são os mais notáveis.
Talvez você que está lendo esse post tenha outra sorte. Talvez seja alguma incompatibilidade com meu processador AMD. Talvez você tenha mais memória e vá usar menos programas ou programas que não resultem em um uso do swap. Talvez você não vai precisar fazer edição de vídeo, já que não há um programa sequer no Linux que preste pra pelo menos superar o Movie Maker.
Ou talvez você tenha menos sorte e precise buscar e instalar drivers para fazer funcionar algum componente de hardware sem suporte.
Ou, quem sabe, você simplesmente tenha muito tempo livre para se estressar com todas essas coisas, se irritar e passar horas pesquisando no Google para descobrir como editar um .fonts.conf para tornar as fontes mais amigáveis de se ler — principalmente se você se atrever a instalar as fontes Microsoft –, ou um smb.conf para compartilhar uma impressora.
Eu passei por tudo isso, mas hoje não tenho mais tempo. Quando você só desliga o computador duas vezes por mês, no Linux, cada reboot é uma aventura surpreendente. Você nunca sabe o que vai parar de funcionar. Mas é divertido, se você tiver tempo pra isso.
Eu não tenho, e fugi “through the Windows”.
(Pra registro, meu PC-servidor ainda vai ficar com Linux (CentOS 5.1) e meu notebook ainda vai fazer dual-boot Windows Vista/Ubuntu 8.10, com uma partição maior para esse último.)