Versos: A Revanche

Todo dia tem um fim
E todo ano também
Mas só termina
Aquilo que começa

Alguns têm medo
Não sei por quê
Afinal
Quando a rodada acaba
Apenas chega a vez
De outro jogar

Temos nossa chance
De tentar fazer o longe
Ficar ao nosso alcance;
Alguns não se importam
Esperam pela revanche
Sem perceber
Que o que se faz direito
Não precisa ser refeito
Em outro momento

Versos: Tradição de Luzes, Cheque e Cartão

Tem essa tradição
Lançada há não sei quantos anos
Que pra alguns chega no inverno
E pra outros no verão

Exige mudança de planos
A compra de presentes
Trocas de poluentes
Que vitimam a Terra

E naquele dia impera
As luzes
Não inventadas
Junto deste conto de fadas
Quando eram velas e cruzes
Que faziam dia da noite
E o vermelho era o sangue
Que jorrava do açoite

Tanto mudou, menos mal
Mas a vontade de achar
Alguém mais forte que nós
Continua igual
Embora o bom olhar
Mostre que estamos sós

Citação do ano

Não é tão grande assim para ser a “citação do ano”, mas eu precisava registrar essa excelente frase do Robin Hanson, lá do Overcoming Bias, e certamente não vai ter mais outro registro desse gênero ainda este ano aqui no blog. Então segue:

We sincerely believe that the world would be better off with a fair neutral way to evaluate political claims, but mainly because we expect such evaluations to favor our side.

Expressou em uma frase o que eu tentei dizer no post A Imparcialidade e a Verdade. Hanson já disse coisas com as quais não consigo concordar, mas aí acho que ele acertou na mosca.

O conforto da indefinição da culpa

Existe um texto chamado A forma da notícia em que Muniz Sodré afirma que incertezas são desconsertantes. Ele diz que o jornalismo evita notícias “negativas”. Mas o exemplo dado não é o que se espera: Sodré diz que é preferível dizer que o cigarro faz mal à saúde do que afirmar que não sabe se quais são seus efeitos. Logo, a negatividade está na incerteza, no desconhecido, na indefinição.

Porém existem casos em que a indefinição serve como atenuador ou analgésico: os que envolvem a distribuição da culpa. Quando se procuram suspeitos ou responsáveis por qualquer coisa, nada parece mais razoável, correto e diplomático do que dizer: “todos tiveram sua parcela de culpa, não vamos apontar o dedo para ninguém em específico”.

A atual crise financeira exemplifica isso muito bem, especialmente o joguinho de “não fui eu, foi você” que rolou nos EUA. Enquanto os conservadores culpavam os progressistas, estes apontavam o dedo na direção oposta. Não demorou até que os especialistas, razoáveis e diplomáticos, dissessem que tanto Democratas quanto Republicanos eram culpados pela situação, provocada por erros de várias administrações.

E isso agradou a todos.

Se alguém teve coragem de dizer quem foi o mais culpado entre os culpados, eu não vi. Qualquer um que tentasse isso acabaria na mesma situação dos extremistas que procuravam um único culpado. Voltaria à mesa o debate passional e, quem sabe, acusações de que “tudo é relativo” e que não dá para determinar quem foi mais ou menos culpado. Apelos à burrice, se qualquer coisa.

Quando o acusador deixa aberto o tamanho da culpa, ele deixa todos felizes porque cada um pode interpretar os fatos à sua maneira. O Republicano vai jurar que os Republicanos tiveram uma parcela de culpa menor do que os Democratas. E vice-versa. Todos lêem um texto diferente, indefinido, vago. E assim ninguém tem objeções.

No Brasil, fato semelhante ocorreu com o caos aéreo. Houve quem culpou o governo. Houve quem culpou as companhias aéreas. Entre uma coisa e outra, a culpa foi distribuída e, no fim das contas, ninguém pagou a dívida. Pessoas ainda não foram indenizadas, o assunto saiu dos meios de comunicação e não tardará a sair da memória da maioria da população, se não voltar a ocorrer. Muito provavelmente alguns dos incompetentes executivos e políticos responsável pelo caos continuam com seus cargos bem-pagos.

Essa posição indefinida e ambígua é tão diplomática e popular que Obama e McCain — mas principalmente este último — tentaram distanciar-se dos partidos e “trabalhar junto” para achar as soluções. Aparentemente os dois esqueceram que a divisão entre os partidos existe justamente porque discordam a respeito de como as soluções devem tomar forma.

Aos defensores do relativismo, só digo que, se tudo é relativo, o próprio relativo é absoluto. Logo, ainda estamos trabalhando com absolutos: o próprio relativo, cujo oposto é a verdade. Isso pode até ser diplomático, mas facilmente esconde as causas do problema e, muito provavelmente, o caminho para a solução.