Eu, tu e um copo de vidro

Eu, tu e um copo de vidro. Vazio. Lembraria-me das garrafas de uísque velho se elas estivessem ainda aqui, mas esta mesa é pequena para tanta coisa e ela não suportaria tudo, embora os outros, tão mais necessitados de espaço, tenham ido embora.

É verdade, a mesa não suportaria tudo. Como eu não suportei.

Neste momento, recorro ao que a mesa não suportaria para dar-me suporte. Como pode o que não seria suportado me fazer suportar?

“Volte, volte”. Já começo a pensar demais. O que interessa é o copo de vidro. Ou melhor, que o copo de vidro está vazio. E a tua beleza que chegou na hora certa, permitindo-me acreditar que estou bem acompanhado. A vida é bela.

E tu agora pareces tão indefesa. Se o dia machuca vampiros, a noite amansa humanos. Faz um tempo que não ouço uma frase coerente dos teus lábios. Carentes de significado, as palavras são só paz. Felicidade sem significado, quer dizer, insignificante. A vida é bela.

“Mais um, garçom”. Não trago mais dinheiro. É arriscado demais. Nunca fui bom em matemática, muito menos financeira. Pago no cartão. Quanto isso vai me custar? Não sei. Mas vou conseguir pagar. Por que não conseguiria? Basta passar o plástico na máquina de plástico e depois pressionar botões de plástico. É pouco trabalho e compensa. Pois teus lábios continuam mudos de sentido. Amo-os assim.

Mais uma garrafa vazia sobre a mesa. Que linda. E o líquido que invadiu nossas narinas, encheu nossos copos e escorreu pelas nossas gargantas agora afeta meus pensamentos, como já afetou minhas palavras e meus olhos. Murmuro no teu ouvido, “és minha Princesa esta noite, e te convido para meu castelo”.

Lindas palavras cuja honestidade me comove de tão inatingível. De tão pequena e pobre.

O Sol sobe, os pássaros cantam. O azul arrasta as dunas brancas pelo céu. Compartilhamos a cama, mas teus olhos já não são os mesmos. Tu, que eras Princesa, agora é servente. E eu sou o bobo da corte, como sempre fui. Vossa realeza não volta e sinto-me enfeitiçado. Nego a crer que estamos mais próximos do que nunca.

Quando finalmente nos encontramos, percebemos que, na verdade, acabamos de nos perder. Outra vez, o dia afasta o que a noite uniu. Ou, talvez, há coisas que terminam antes de começar.

Resta eu e tu, copo de vidro.

A reciprocidade do desprezo

Acabei de instalar o OpenSuse 11. E agora, como sempre após a instalação de um Linux, é aquele momento de longa espera até que os downloads e as instalações de todos os softwares terminem. Pelo menos boa parte das minhas configurações ele importou, então é um estresse a menos.

Aproveito este tempo de total improdutividade para escrever um post que já está há algum tempo em minha cabeça. Pode parecer óbvio o assunto, já pelo título, mas gostaria de elaborar um pouco.

O desprezo é um sentimento como qualquer outro. Admiração, raiva, nojo. Mas o interessante é a tendência que ele tem de ser recíproco. Se no amor a reciprocidade é desejada e nem sempre aparece, no desprezo ela rouba a cena mesmo sem ser notada.

O cidadão que despreza outro por ele ser promíscuo demais, por exemplo, é geralmente desprezado pelo outro por ser estúpido, antiquado ou, como dizemos aqui, “quadrado”. Ou, ainda, “grosso”.

Fato semelhante ocorre com os nerds e outros párias da sociedade, que às vezes desprezam as outras pessoas por serem fúteis. Ao mesmo tempo, eles são desprezados por estas pessoas por serem estranhos, pouco sociáveis ou mesmo desprovidos de destreza manual ou de conhecimento do senso comum. Com isso, cada um permanece no seu canto, indiferente à opinião alheia (por desprezá-la).

Sendo assim, não é rídicula a hipótese de que o desprezo é, acima de tudo, um mecanismo de defesa contra ataques ao nosso modo de vida. Sem condições lógicas, coerência ou consistência para atacar uma certa atitude ou ponto de vista, resta-nos apenas o desprezo.

Não proponho a limitação ou opressão do desprezo, pois seria auto-censura e mais pareceria um dogma cristão. Mas não descarto a necessidade de uma reflexão: por que (eu) desprezo (o Outro)? Tenho motivos racionais para desprezar? É realmente impossível viver dessa forma ou ter essa opinião que desprezo?

O jornalismo, os blogs, o Imprensa Marrom, a Veja e o Vírgula

O tempo anda curto para escrever qualquer coisa aqui, mas tenho certeza absoluta uma esperança otimista dizendo que os leitores deste blog persistem incansáveis, olhando seus feeds e esperando por um texto novo.

Pois bem. Gostaria comentar brevemente (dentro do possível) sobre um post no blog do Imprensa Marrom. O autor, Gravatai Merengue, mostra o que ele parece considerar abusos de um blog do portal Vírgula para descreditar uma crítica publicada pelo mesmo portal à revista Veja. A matéria do Vírgula questionou (não afirmou) que talvez a Veja teria exposto demais o caso do Fábio Assunção, ao estampá-lo na capa de revista sem nem mesmo ter conseguido falar com o próprio.

Nada a comentar sobre a qualidade do texto ou o blog do Imprensa Marrom de modo geral. Não acompanho, não poderia. Mas é até melhor para não partir para o erro das generalizações.

O que afirmo aqui é que os argumentos não se sustentam. Pelos comentários deixados na matéria é possível perceber que o “Te Dou um Dado?” (TDUD?), o blog que o Imprensa Marrom usa para fundamentar suas críticas, é uma produção independente do Vírgula, incorporada pelo portal após já existir durante um tempo, muito provavelmente na mesma forma de parceria utilizada por outros portais.

Eu não posso adivinhar os específicos das parcerias do Vírgula, que certamente são diferentes da experiência que tive, mas essa é uma informação que faz falta no post do Imprensa Marrom. Pois, dependendo da relação que ambos têm, o post iria por água abaixo.

Em poucos momentos é analisada a reportagem da revista e a crítica em si. Vê-se, basicamente, o seguinte:

  1. Vírgula critica Veja por abusar da história de Fábio Assunção
  2. Crítica é desmerecida porque a matéria é supostamente boa
  3. Mas o Vírgula tem um telhado de vidro por conta do TDUD? e portanto não poderia fazer a crítica

Essa lógica é falaciosa, do tipo “teu passado te condena” ou “envenenamento de poço”. Por mais problemas que tivesse ou tem o Vírgula, não se pode tirar a conclusão de que o portal não poderia criticar ninguém porque tem conteúdo de nível ainda mais baixo sob seu domínio. A argumentação deveria, em todo instante, ter permanecido a respeito do que foi dito sobre a matéria e o que de fato a matéria contém.

Pior ainda seria se fosse confirmado que o TDUD? não faz parte, nem mantém contato com a mesma redação que fez a crítica original. Porque existe isso e essas redações, às vezes, não se falam. E se contradizem. E se repetem. E outras coisas mais. Essa é uma informação — a ligação entre o portal Virgulando e o blog TDUD? — que falta no Imprensa Marrom. É também uma informação que só poderia ser obtida se o Vírgula tivesse sido confrontado antes mesmo da publicação da matéria. Mas não vejo isso acontecendo em blogs; nunca as partes envolvidas são consultadas1.

Os blogs têm direito a publicar algo sem consultar ninguém? Sem dúvida, creio que devem possuir esse direito — como eu agora publico isso aqui sem perguntar nada ao autor do Imprensa Marrom. Mas da mesma forma que os blogs exigem casca grossa dos jornalistas, também é preciso casca grossa para agüentar as críticas. O Gravatai não gostou que os jornalistas foram lá para se defender:

Editores de um portal NÃO PODEM VIR AQUI – e de início sem nem mesmo uma identificação adequada! – um pouco para ‘debater’, um pouco para ‘intimidar’, para no fim das contas cobrar de mim uma ‘coerência’ que ELES não tiveram e não têm. Eu não vou lá cobrar nada deles. Eu cobro aqui, no MEU blog. Eu uso o MEU espaço para fazer a MINHA crítica. E minha caixa de comentários não pode ser invadida pelos EDITORES DO PORTAL que eu critico como um blogueiro livre.

Bem nessa. Publicou algo no espaço próprio, sem consultar as partes envolvidas, o que teria evitado tudo isso. Onde ele queria que os editores fossem se defender? Caixa de comentários não é para caverna de ecos.

Há uma reclamação a respeito da identificação dos editores. Supondo que eles quisessem se esconder? Não faz diferença. O que é importa é o que é dito, não quem diz.

Tem uma parte ainda mais complicada:

Não vale exigir de mim um pacifismo que não tiveram – haja vista que minhas críticas ao Vírgula não foram personalistas, mas dirigidas ao portal, às reportagens e tudo embasado em provas e demonstrado da melhor forma possível. Claudia e Camilo, ao contrário, vieram aqui e falaram DE MIM.

Como, exatamente, um jornalista pode criticar um blog feito por um único blogueiro sem criticar o próprio blogueiro? Qualquer crítica ao Ira Racional, por exemplo, é uma crítica à mim, é impossível ser de outra forma, a não ser que eu esteja fingindo algo que não sou.

Matéria assinada não é necessariamente a posição do portal, mas da jornalista, que muito provavelmente nem está envolvida com o TDUD?, mesmo que o portal esteja. Que farão os editores senão defender sua repórter?

Não que a crítica dos editores tenha sido justa. Pelo contrário. Começar falando que o Gravatai tem “muito tempo” para fazer a pesquisa é mais um envenenamento de poço na busca de descreditar o que foi dito, sem de fato conseguir fazê-lo realmente.

Mas é importante enfatizar que não importa aqui o resto do portal. Importa sim a matéria específica e o que nela estava escrito. Porque o texto assinado, embora seja produção do portal, é também produção do sujeito que o escreveu. Distanciar-se do específico e do pessoal, buscando problemas na produção de outras pessoas, para um veículo que pode até possuir independência editorial, não é legal, não tem fundamentação boa.

Eu me coloco no lugar da repórter. Imagino se faço um texto para um determinado portal depois vejo-o atacado por conta de outros textos publicados no mesmo espaço, sendo forçado a ver minhas palavras fragilizadas pelo que não escrevi e pelo o que não posso controlar. Parece-me uma injustiça.

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Sim, essa é uma questão que envolve o jornalismo. E sua interação consigo mesmo e com os blogs. Interessantes para se analisar. E triste para ver a que ponto a falta da vontade de ouvir o outro lado — dos blogs e seu achismo — e o medo de conversar com blogueiros — dos jornalistas e sua arrogância que não quer legitimá-los — leva a história.

E o parágrafo acima não trata de ninguém em específico. Esse, sim, é generalizado. Mas voltando ao específico, peço nesse texto que cada palavra seja analisada pelo que diz. Assim, minha crítica aqui não é destinada ao Imprensa Marrom ou sobre o Gravatai, mas especificamente sobre os textos linkados. Também não tenho interesse em defender o Vírgula: já fui silenciosamente ignorado por eles.

É bem possível que o Gravatai esteja certo sobre um exagero do Vírgula. Ou mesmo que criticar a Veja seja sim uma posição do próprio portal (seu ponto central). Mas isso não quer dizer que exista a mesma verdade em todos os argumentos usados. É possível, como dizem, escrever certo sobre linhas tortas.

  1. É verdade que os blogs têm dificuldade em conseguir essa conversa. Mas ninguém tenta. Se tivessem se negado a falar, não poderiam estar reclamando de nada agora.

Sucesso no Brasil não é feio. Pelo contrário.

Há quem diga que o sucesso no Brasil é feio. Que não é bem visto. Que ser famoso não é bonito. Etc.

Tenho que discordar. Aos meus olhos, a verdade é bem o contrário. O ser famoso, no Brasil, é lindo. E exagerado – especialmente nos peitos e na bunda, ou talvez na magreza, se for mulher. Tem um rostinho amável de se ver. A voz não importa muito: pode ter sotaque de interior, com péssima dicção e pensamentos tão desorganizados que seriam melhor entendidos no SAP e mais bem aproveitados no Mute. Mas repito: isso não importa. O ser famoso é lindo.

E todo mundo quer ver o sucesso. Nas revistas, nos jornais, na TV. Na Playboy, se for possível, também. Mas ninguém quer ver o famoso num teste de conhecimentos gerais sério. Mas não é porque não fazem questão de saber que a pessoa é inteligente ou não, mas porque todos já sabem o resultado. E não tem graça ser informado a respeito do que já se sabe. Quando tem algo assim, chamam de Concurso de Inteligência. Mas o nome ideal seria diferente: a avalanche do fútil.

Mas nada disso retira crédito do fato: o sucesso é (e está) no lindo, não no feio. O sucesso quer ser visto, não escondido.

Então não compreendo esta história que contam sobre a feiúra do sucesso e da fama no Brasil. É claro que muitos são invejosos, mas o fato é que a grande maioria das pessoas possui a inveja quero-ser-como-ele(a), não a “inveja (sic) desprezadora”, aquela que tenta repensar os valores da sociedade.

O outro fato é que o ditado de “sucesso é feio” serviu como uma luva para as pseudocelebridades que, incapazes de lidar com crítica e de reconhecer que sua fama pode estar imersa na futilidade, precisam de um ditado superficialmente profundo para justificar sua própria superficialidade.

O que mostra mais uma vez a falta de reflexão. Porque o barco só encalha em mares rasos.

Versos: Em Algum Lugar Entre o Início e o Fim[+]

É uma ponte
Cujo início esconde
E finais são infinitos

É um vão:
Uma pequena ligação
Entre dois desconhecidos

É um tom
Entre um e outro som
Que não foram ouvidos

É fotografia:
Imagem congelada e fria
De tempos indefinidos

É filme:
Longa metragem firme
Com enredos comedidos

É morte entre duas vidas
E vida entre duas mortes;
Resta-me buscar trilhas
Sem atalhos e sem cortes

Sou o músico e a corda;
O fotógrafo e o diretor;
Minha obra é calhorda
E assim mesmo sou o autor

————————————–

	Minhas percepções
dizem que sou
	uma fera
Que quando observada
	intimida
mas por ser austera
	em vez de feroz

qual é a mentira
	que preciso
pôr em minha voz?

Intrepid Ibex ou “como o dpkg do recovery mode salvou minha instalação do Ubuntu”

Altieres Rohr/IR1

Ubuntu recuperando-se de uma instalação frustrada por falta de luz

O PRIMEIRO COMPUTADOR meu a receber a atualização para o Ubuntu 8.10 “Intrepid Ibex” foi meu notebook. Logo de cara, encontrei um problema no desligamento: parava na hora de desativar o ALSA. Seguindo as dicas de um bug report, desativei minha placa de rede com fio, que não era utilizada:

sudo ifconfig eth0 down

Problema resolvido…

Pensei em atrasar um pouco a atualização no desktop, mas ver que o sistema estava sem maiores problemas e com um recurso novo muito interessante — as abas no Nautilus –, decidi instalá-lo mesmo assim.

Como tenho muitos aplicativos, o download foi de nada menos de 1,3GB. Comecei ontem madrugada. Deixei-o fazendo o download quando fui dormir.

Logo depois que acordei acabou a energia elétrica, sem me dar tempo para terminar a instalação.

Quando o fornecimento de energia foi restabelecido, o sistema não iniciava no boot normal. Merda, pensei. O pior passou pela minha cabeça, mas mantive a calma e rebootei, desta vez selecionando o “recovery mode” no Grub. Aí tive que esperar vários minutos até que o fsck terminasse de verificar meu segundo disco de 500GB. Nas opções – “resume”, “dpkg” – selecionei “resume”, mas o sistema acusou um erro no X e não continuou.

Outra vez um reboot, outra vez recovery mode. Desta vez selecionei o “dpkg”, que restaura pacotes cuja instalação não foi terminada. O sistema começou a configurar e instalar dezenas de pacotes — muito mais do que eu poderia contar, pelo menos. E outra vez foi-se a energia elétrica.

Quando voltou, selecionei a mesma opção e o sistema continuou de onde parou. Começou a fazer uns downloads finais e estava confiante que meu sistema voltaria a salvo do limbo informático.

Felizmente foi bem isso que aconteceu e, quando executei o APT com GUI, via atualizações, ele terminou de corrigir alguns problemas. Reativei o driver restrito da NVIDIA e tudo ficou nos conformes.

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E AGORA TUDO está muito bem, felizmente. Mas não deixou de ser um pouco conturbado e eliminar algumas horas úteis do meu dia. Fica a dica para outras pessoas que tiverem a atualização interrompida por quaisquer motivos: use o dpkg no recovery mode.

  1. Eu respeito fotógrafos e coloco crédito nas fotos, sim.