O Rafael questionou-me a respeito do “tecnocrata” do último post.
Tecnocracia ainda é uma idéia puramente abstrata, como o comunismo era até tentar ser implantado na URSS. O comunismo foi abusado e transformado em um sistema muito diferente do proposto. Mas não se pode negar — apesar de eu ser tendencioso para o socialismo — que todas as versões do comunismo, na prática, acabaram em ditadura (China na época do Mao, Cuba/Castro e Alemanha Oriental).
Desta forma já me defendo se algum dia defensores auto-intitulados da tecnocracia acabarem destruindo com algum país por meio de um governo ditatorial. Pois esta é uma crítica comum à tecnocracia, freqüentemente representada na ficção científica como opressora. E também me defendo caso alguém apresente outra visão de tecnocracia, pois ela não está estritamente definida.
A idéia da tecnocracia é ter um governo direcionado por técnicos1. Ou seja, fazer com que a ciência tome as decisões. Isto acontece hoje, porém os técnicos estão submetidos aos seus superiores. Na maioria dos vezes, estes superiores são militantes partidários, decidindo aceitar ou rejeitar um relatório ou proposta técnica com base em suas visões políticas.
Questões filosóficas ou políticas podem ser decididas diretamente pela população, sem a necessidade de representação. Ou seja, seria mais democrático que a atual “democracia”. Apenas técnicos de sua própria área poderiam participar nas votações referentes à questões técnicas. Mas a transparência para toda a população é essencial.
Tecnocratas vêem que certos problemas na sociedade podem ser solucionados por vias técnicas ou científicas, em vez de apenas políticas. Alguns tecnocratas também defendem o uso de recursos de tecnológicos sempre que possível para fazer valer as leis. Isto já merece mais debate. Pessoalmente não concordo, por exemplo, com DRM. Mas vale lembrar que DRM só é necessário por causa das limitações excessivas da lei de direito autoral, que provavelmente seria motivo de piada em uma nação tecnocrata.
Na realidade atual, considero apenas essencial o uso de técnicos para fundamentar as decisões. Isto é o mais importante, mas pouco valorizado hoje. Basta ver, por exemplo, como o governo substituiu os técnicos militares do D.A.C.2 pelos políticos na ANAC e o caos que todos conhecemos que isso gerou.
- Exemplo: Poder Judiciário. ↩
- O Departamento de Aviação Civil era comandado pelo exército. Por ser hierarquizado, não permitia politização. Então o governo desmanchou o D.A.C. e o substituiu por uma agência civil, a ANAC, cujos diretores são todos nomeados pelo Presidente com aprovação do Senado. Ressaltando: o problema aqui não é a existência de uma agência puramente civil, mas a incompetência dos militantes que preencheram cargos puramente técnicos. ↩
