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A democracia, senhores, é a ditadura dos 50%+1
De um lado, o partido da situação. PDT e PP. PDT há 12 anos no poder. Na prefeitura, “diretores” de departamentos sem servidores. Obras superfaturadas. Mentiras em propagandas e também nos debates, como no último que teve, em que o candidato a vice-prefeito enviou um oficio em que disse não ser capaz de comparecer devido aos problemas de saúde da mulher, mas na verdade estava na porta da escola onde o debate aconteceu. Ah, e eu falei que tem um funcionário público morando na prefeitura?
Do outro, a oposição. Conhecedora de tudo isso, mas com medo da represália do povo por denunciar a corrupção, visto que boa parte da população que sabe dela é por ela beneficiada. Os outros não sabem e nunca conheceram a ação da prefeitura. Município com 70% de área rural é assim mesmo.
Imprensa? Os jornais das cidades vizinhas são um lixo e não existe imprensa local.
Em um canto está o povo, que demonstrou odiar a situação atual para os candidatos da oposição, que apoiei.
No outro canto estou eu, ouvindo há mais de uma hora a comemoração incessante do PDT/PP, que consiste em fogos de artifício, música e buzinas de carro. Aliás, eles se preparavam para a festa antes mesmo da eleição acabar. Às 16h45 já haviam carros por toda rua.
Nem preciso dizer que nenhum voto foi apurado pela Justiça Eleitoral até agora. Isso não muda nada. Eles sabem que ganharam. Ganharam na sede, por 70 votos. O que é uma multidão em um colégio eleitoral de apenas 2805 eleitores. E na sede é onde a oposição é mais forte, por haver mais gente perto da prefeitura e que pode ver a atuação do poder público.
Mas é melhor eu cuidar o que falo. É possível que o prefeito me processe, como já ameaçou e o fez com outros.
Já considerei por várias vezes a idéia da monarquia constitucional, mas com constituição de verdade, nada de “poder moderador”. É interessante, porque é um negócio de pai pra filho. Às vezes pode aparecer um cara iluminado — provavelmente com mais freqüência do que se depender do voto popular. E como o governo dura muitos anos, o governante pode ver além dos quatro anos seguintes e trabalhar em projetos que realmente mudem o país. E se a gente não estiver gostando, sabe que ele não sai logo de lá, ou seja, há mais motivação para fazer uma revolução.1
E a democracia? É a ditadura dos 50%+1. Danilo Gentili, atual repórter do CQC, fez uma crítica interessante ao fato de a maioria ter o poder de decidir as coisas. Mas criticar a democracia é “feio”. Não fica bonito no discurso o fato de o povo ter o poder?
Só que a verdade incomoda. E a verdade é que a maioria não sabe de nada. Não são capazes de entender e/ou não se interessam por grande parte dos problemas. Não lêem as leis porque se julgam incapazes de compreendê-las. Deixam que os juízes e advogados o façam por eles, quando na verdade as leis são públicas justamente para permitir que o povo as fiscalize.
Na democracia, o governo é realmente uma representação do povo que o elege. Não é por menos que a maioria dos brasileiros não gosta de política. Não gostam de si mesmos, não valorizam sua própria cultura, não possuem ideais. Não gostam do político que elegeram, mas isto não foi nada que uma cesta básica, uma carga de adubo ou R$70 não resolveu.
Os vencedores estão comemorando o quê mesmo? A eleição? Mas eu achei que, se o importante é a cidade, não precisaria haver este tipo de distinção. Afinal, é o melhor para o povo. O quê comemorar? Quem “perdeu”? O objetivo da política não é fazer todos ganharem?
Fato é que a ditadura dos 50%+1 venceu, como sempre. E como não me juntei à maioria, estou condenado a ser o perdedor. Perdedor em uma disputa onde o povo deveria vencer. Sou parte do povo e, mesmo assim, perdi.
Mas se o povo não venceu, quem é, de fato, o vencedor?