Idéias se perdem com o tempo

Antes de eu iniciar este blog, tinha em mente a escrita de vários posts. Muitos deles se materializaram, enquanto outros demoraram mais a sair. Para a composição destes, pensei muito, em dias infrequentes, e bastou sentar e teclar.

Um dos textos que queria publicar, porém, não saiu: uma resenha do anime Haibane Renmei. Hoje poderia escrevê-lo, mas tenho que lidar com o triste fato de que não lembro nada do que pensei em dizer. Preciso reconstruir minhas idéias e, quem sabe, anotá-las para não perdê-las.

Uma professora minha sugeriu que levássemos sempre um caderno de anotações e anotássemos quaisquer idéias que tivéssemos, a qualquer hora. Ela sabia do que falava.

Fico pensando a respeito do que imaginei para certos posts e que já não lembro mais; idéias adquiridas em momentos perdidos para sempre. Dramático? Pode parecer, mas, se qualquer coisa, a vida é um presente artesanal disfarçado de dramalhão mexicano.

Egotrip

O Portal3, site do Curso de Comunicação da minha universidade1, sempre faz matérias sobre alunos da universidade que trabalham em empresas conhecidas do mercado.

Resolveram fazer uma matéria comigo. Senti-me numa longa egotrip dando esta entrevista. Não gosto muito de falar de mim mesmo. Mas foi uma boa reflexão (e exercício para minha preguiçosa memória) analisar tudo o que passei nos últimos seis anos.

Fiz questão de dizer que fiz dois cursos de informática que não me ajudaram. Fiquei sabendo que uma das escolas que freqüentei, a Solução Fácil (na época ainda “Styllu’s Informática”) andou usando meu nome em suas propagandas desde que consegui uma parceria com o UOL. A qualidade do curso deles, porém, pode ser resumida pelo título da página principal do site: “Untitled Document”. Não há título. E não há qualidade.

A outra escola, que freqüentei primeiro, só não me ajudou porque o dono dela, Marcos Martins da Silva, teve uma paciência enorme para me aturar quase todos os dias lá no ano de 2001. Aprendi muita coisa observando-o consertar os computadores, desenvolver bancos de dados no Access (conhecimento que foi imensamente útil quando comecei a estudar ColdFusion), entre outros. Mais tarde, eu não era mais apenas um aprendiz, mas um colega de trabalho, porque tornei-me instrutor estagiário de uma turma e comecei a fazer alguns serviços, como instalação de internet.

O curso, claro, não me ensinou muito, dado o quanto eu já sabia, mas fiz apenas para recompensá-lo um pouco por tudo aquilo que ele me ensinou de graça. Esta escola, onde praticamente vivi durante um ano e meio, hoje já não existe mais.

  1. Já mencionei aqui anteriormente; o número três é por conta do “Centro 3″

O que é um nerd?

Uma colega me fez essa pergunta na faculdade e admito agora: me pegou de surpresa. (Foi quando comentei sobre a nerdpedia e o xkcd.) Resolvi blogar para responder a pergunta.

Poderia recorrer a algum estereótipo conhecido. Seria mais fácil, mas também impreciso e pouco interessante.

Nerds não compõem uma subcultura ou tribo comum

Existe o mainstream — o “comportamento normal”: aquilo que a maioria das pessoa gosta e entende. Um nível aceitável de dedicação, esperteza, inteligência e conhecimento do “senso comum” faz parte do mainstream também.

À margem do mainstream existem as subculturas ou tribos urbanas. Os punks, os emos, os góticos, o hip-hop/rap1, entre outros. Estes possuem características simples e constantes que identificam seus pares, seja na música, na vestimenta, nas atitudes.

São todas – em geral – fases da adolescência. Contardo Callligaris explica, em A Adolescência, a função integradora destes grupos e como suas características próprias permitem que os adolescentes sintam-se “parte” de alguma coisa, criando regras próprias para substituir aquelas que regem o mundo adulto (do qual o adolescente é, devido à “moratória” da adolescência, excluído). Diz Calligaris:

Recusado como par pela comunidade dos adultos, indignado pela moratória que lhe é imposta e acuado pela indefinição dos requisitos para terminá-la (a famosa e enigmática maturidade), o adolescente se afasta dos adultos e cria, inventa e integra microssociedades que vão desde grupos de amigos até o grupo de estilo, até a gangue.

“Nerdismo” não é uma fase da adolescência, mas está à margem daquilo que é o padrão, possuindo outros valores, códigos, piadas e um “senso incomum” próprio. Basta ler os comentários recorrentes do Slashdot: All Your Base Are Belong To Us, Welcome our… Overlords e tinfoil hats. É um código próprio, entendido por aqueles que fazem parte da comunidade, mas pouco sentido para os de fora.

E mesmo assim não é uma fase da adolescência, porque o Slashdot tem leitores de todas as idades. Programadores graduados, doutores em Física, mestres, professores e jovens estudantes também. Embora, como diz bem a Wikipédia, as atividades realizadas por nerds são “inapropriadas para a idade”, ou, traduzindo, infantis (videogame, anime, coleções de bonecos, etc).

Resumindo, nerds não constituem uma tribo urbana comum, mas não deixam de compartilhar certas características entre si. Entre os interesses compartilhados por esta “tribo” encontram-se coisas consideradas idiotas, inúteis e infantis por membros de outras subculturas ou do mainstream.

Nerd vs. CDF

Embora os CDFs daqui teriam sido chamados de nerd nos Estados Unidos, eles não são a mesma coisa. Neste caso a “Nerdpedia” em Português tem uma explicação decente:

Existe uma diferença entre nerds e “CDF”s: enquanto no primeiro grupo encaixam-se os naturalmente interessados em algum assunto cultural ( jogos, livros, filmes …), podendo não ir bem na escola; o segundo costuma referir-se a jovens em idade ginasial que nem sempre têm a escola como ponto central de suas vidas, mas despendem um bom tempo aos estudos, resultando em algumas características como obtenção de notas altas, questionamento sobre veracidade da informação passada, mas ainda podem manter-se comunicativos e sociáveis.

Eu dificilmente estudava para provas. Estava ocupado demais jogando videogame (desde os quatro anos de idade) e montando LEGOs. Porém adorava discutir qualquer assunto que fosse com os professores, muitas vezes assuntos que não cairiam no conteúdo.

Alguns nunca entendiam por qual motivo eu fazia os exercícios em aula, mas esta resposta é fácil também: para não ter que fazer em casa e deixar de jogar Killer Instinct ou assistir O Mundo de Beakman.

Para todas as provas do ensino médio, meu estudo se resumiu a uma olhada no caderno 15 minutos antes. Se fui bem, não foi por causa de estudo fora da escola.

Nerd vs. Geek

Ismael Alberto Schonhorst falou disso, e outras coisas, numa entrevista em 2004. Pelo menos eu acho que esta seja a fonte original — é um texto muito citado. De qualquer forma, ele diz:

Nem todo nerd é um geek… mas todo geek é um nerd, sem sombra de dúvida!

A Wikipedia/PT corrobora com esta afirmação e inclusive considera “geek” um “subgrupo” de nerd. A Wikipedia em inglês não concorda tão fácil, explicando a pluralidade e indefinição que rodeia o termo.

Uma das definições é a mesma que nerd, exceto sem a carga pejorativa, por ser um termo mais recente (nerd adquiriu essa carga aproximadamente em 1970).

A definição dada por Schonhorst, no entanto, não é a mesma que se iguala a nerd.

Pedindo socorro ao Jargon File

Para assuntos deste gênero, a fonte oficial de consulta é geralmente o jargon file, mantido pelo ilustre Eric S. Raymond.

O Jargon FIle informa que o significado da palavra nerd é praticamente o mesmo de geek, mas define “geek” de forma bem clara — e bem diferente de Schonhorst, que restringiu o geek à tecnologia — qual seja:

A person who has chosen concentration rather than conformity; one who pursues skill (especially technical skill) and imagination, not mainstream social acceptance. [...] Most geeks are adept with computers and treat hacker as a term of respect, but not all are hackers themselves.

De fato, diz o jargon, todos os nerds são geeks e vice-versa (ao contrário de algumas definições, que afirmam que geeks são “nerds sociais”):

One description accurately if a little breathlessly enumerates [as geeks] “gamers, ravers, science fiction fans, punks, perverts, programmers, nerds, subgenii, and trekkies. These are people who did not go to their high school proms, and many would be offended by the suggestion that they should have even wanted to.”

Existe, porém, uma grande diferença no uso da palavra “nerd”. De acordo com o Jargon File, “nerd” é usado com a consciência a respeito do significado pejorativo — aquele significado que coloca o nerd como um idiota (por se interessar por coisas idiotas). Em outras palavras, isto significa que o uso do termo nerd, por quem se orgulha de ser geek/nerd, é uma defesa da atitude dos geeks e dos interesses por eles compartilhados, afirmando ainda a irrelevância do fato destes não serem sociáveis ou conhecedores do senso comum mainstream vigente.

Pelo menos desde 1993 o termo geek é reconhecido como aplicável para várias especialidades, longe de ser restrito à tecnologia, conforme mostra o geek code. Seria um retrocesso dizer que o termo aplica-se somente a micreiros, embora isto aconteça porque são interessados por informática os que mais se identificam com esta cultura.

E então?

Conclui-se assim que:

  • Definir nerd é problemático. Originalmente, no MIT, tinha um significado bem específico, mas depois se ramificou, adquiriu uma carga pejorativa e transformou-se em geek2
  • Nerds são geeks. Geeks são nerds. Um geek/nerd é um indivíduo interessado em desenvolver habilidades e é apaixonado por alguns assuntos específicos. Estes podem ser a literatura (mais comumente ficção científica), cinema, música, cultura oriental (otaku), quadrinhos, RPG, videogame e outros. São geralmente adeptos com computadores, mas não precisam ser técnicos ou engenheiros elétricos, embora dificilmente não tenham pelo menos um vago interesse pelo tema, além do fato de que “nerd” teve origem no MIT. A característica que liga todos esses indivíduos é um código de cultura comum e indiferença a normais sociais, o que geralmente faz o geek/nerd parecer idiota
  • Geeks atualmente usam o termo “nerd” para se descrever (ver: slogan do Slashdot) porque “geek” tem uma ligação muito forte com PCs e tecnologia, que é incorreta (vide Jargon File). Vale notar que o êxodo original de “nerd” para “geek” se deu por conta da conotação pejorativa3. Textos como o “Nerds Mandam Bem“, de Lia Portocarrero Amancio, poderiam ter “nerd” substituído por “geek” sem problema algum, desde que essas definições não tivessem ficado tão complicadas
  • A escrita deste texto, resultado de um simples questionamento, é por si uma resposta para a pergunta “O que é ser nerd?”

Em outras palavras, para os apressados e fãs de síntese: Geek e nerd são a mesma coisa: um ser indiferente à aprovação alheia, fascinado pelo conhecimento e pela produção humana, seja nas máquinas ou na cultura. Atualmente, nerd é apenas usado por aqueles que têm orgulho de serem assim e negam a malícia deste comportamento, enquanto geeks preferem este termo por ser menos polêmico.

Assim sendo, fico com a definição de nerd.

Agora me dêem um minuto porque estou atrasado para começar a assistir o Spirited Away. Quem não tem nada urgente para fazer pode ler o Why Nerds Are Unpopular, de Paul Graham, que não é apenas sobre nerds, mas também sobre o sistema de educação e a adolescência.

  1. Não lembro qual é a música e qual define a subcultura. Deixo isto para os leitores mais nerds pesquisarem.
  2. Diferentemente do que aconteceu com os hackers, que, em vez de mudarem a própria titulação, criaram outra (cracker) para definir aqueles que se encaixavam na definição maliciosa. Logo, os nerds nunca concordaram com o mainstream que os julgou incapazes. É possível dizer, porém, que alguns de fato consideram nerds perdedores e, neste caso, “geek” seria o refúgio.
  3. O “Geek Code” já faz uso do segundo significado dado a “nerd” pelo Jargon File na parte de Unix.

“A no-break breaks”: um funeral

“No-break”: “sem quebrar”, “sem parar”. Pois bem. O meu parou há algumas horas, quando do nada um estouro é seguido de um click indicando que ele mudou para bataria, sem detectar mais a rede elétrica que estava, no momento do problema, em perfeitas condições.

Deve ser a quarta vez (terceira, no mínimo) que meu no-break de 1200VA da Ragtech pendura as chuteiras. Nas outras vezes, comprei chuteiras novas. Mas não mais, porque não faz nem cinco meses que tive o mesmo problema. Que se aposente de vez, desgraçado.

Como a voltagem aqui é 220V, preciso de um estabilizador para fazer a transformação para 110V. Tinha um parado, também da Ragtech, que agora estou usando. Por azar ou não, o fusível deste estabilizador queimou certa vez. Sorte que tinha um extra… no meu estabilizador da SMS. O compartilhamento para fusível backup no Ragtech estava vazio.

Tive ainda outro estabilizador da Ragtech, Um Side preto de 300VA. Com este, o PC reiniciava toda vez que a chave do ar-condicionado era ligada.

De qualquer forma, anuncio aqui o funeral do meu no-break, a ser substituído futuramente por um APC.

Ragtech Save 2 nº de série 080206121885 (2006-2008)

Versos: Vivem os Humanos, Morre a Humanidade

Somos todos da mesma espécie
Mas às vezes nem parece
Os rapazes e os homens
Moças e esposas
Escravos e líderes
Em qualquer nível
Brigas e intrigas
Desentendimentos, agressões
Ar vil e sofrível
Cartas que trazem intimações
Uma guerra febril e fria
Tudo pela falta de amigos
Homens sem ouvidos
Mulheres sem maridos
E meninos solitários

Eu conheço guerra
Onde mesmo quem acerta
Sabe que erra
Grita um alerta
Pede um socorro
Vê o companheiro morrer
A saudade de voltar
Subir em um morro
Levantar a bandeira branca
Vê-la tremer
Para então ver o inimigo
E perguntar:
“Pode tua nação vencer
Sem que vossa humanidade
Venha a falecer?”

Tecnocrata?

O Rafael questionou-me a respeito do “tecnocrata” do último post.

Tecnocracia ainda é uma idéia puramente abstrata, como o comunismo era até tentar ser implantado na URSS. O comunismo foi abusado e transformado em um sistema muito diferente do proposto. Mas não se pode negar — apesar de eu ser tendencioso para o socialismo — que todas as versões do comunismo, na prática, acabaram em ditadura (China na época do Mao, Cuba/Castro e Alemanha Oriental).

Desta forma já me defendo se algum dia defensores auto-intitulados da tecnocracia acabarem destruindo com algum país por meio de um governo ditatorial. Pois esta é uma crítica comum à tecnocracia, freqüentemente representada na ficção científica como opressora. E também me defendo caso alguém apresente outra visão de tecnocracia, pois ela não está estritamente definida.

A idéia da tecnocracia é ter um governo direcionado por técnicos1. Ou seja, fazer com que a ciência tome as decisões. Isto acontece hoje, porém os técnicos estão submetidos aos seus superiores. Na maioria dos vezes, estes superiores são militantes partidários, decidindo aceitar ou rejeitar um relatório ou proposta técnica com base em suas visões políticas.

Questões filosóficas ou políticas podem ser decididas diretamente pela população, sem a necessidade de representação. Ou seja, seria mais democrático que a atual “democracia”. Apenas técnicos de sua própria área poderiam participar nas votações referentes à questões técnicas. Mas a transparência para toda a população é essencial.

Tecnocratas vêem que certos problemas na sociedade podem ser solucionados por vias técnicas ou científicas, em vez de apenas políticas. Alguns tecnocratas também defendem o uso de recursos de tecnológicos sempre que possível para fazer valer as leis. Isto já merece mais debate. Pessoalmente não concordo, por exemplo, com DRM. Mas vale lembrar que DRM só é necessário por causa das limitações excessivas da lei de direito autoral, que provavelmente seria motivo de piada em uma nação tecnocrata.

Na realidade atual, considero apenas essencial o uso de técnicos para fundamentar as decisões. Isto é o mais importante, mas pouco valorizado hoje. Basta ver, por exemplo, como o governo substituiu os técnicos militares do D.A.C.2 pelos políticos na ANAC e o caos que todos conhecemos que isso gerou.

  1. Exemplo: Poder Judiciário.
  2. O Departamento de Aviação Civil era comandado pelo exército. Por ser hierarquizado, não permitia politização. Então o governo desmanchou o D.A.C. e o substituiu por uma agência civil, a ANAC, cujos diretores são todos nomeados pelo Presidente com aprovação do Senado. Ressaltando: o problema aqui não é a existência de uma agência puramente civil, mas a incompetência dos militantes que preencheram cargos puramente técnicos.

A democracia, senhores, é a ditadura dos 50%+1

De um lado, o partido da situação. PDT e PP. PDT há 12 anos no poder. Na prefeitura, “diretores” de departamentos sem servidores. Obras superfaturadas. Mentiras em propagandas e também nos debates, como no último que teve, em que o candidato a vice-prefeito enviou um oficio em que disse não ser capaz de comparecer devido aos problemas de saúde da mulher, mas na verdade estava na porta da escola onde o debate aconteceu. Ah, e eu falei que tem um funcionário público morando na prefeitura?

Do outro, a oposição. Conhecedora de tudo isso, mas com medo da represália do povo por denunciar a corrupção, visto que boa parte da população que sabe dela é por ela beneficiada. Os outros não sabem e nunca conheceram a ação da prefeitura. Município com 70% de área rural é assim mesmo.

Imprensa? Os jornais das cidades vizinhas são um lixo e não existe imprensa local.

Em um canto está o povo, que demonstrou odiar a situação atual para os candidatos da oposição, que apoiei.

No outro canto estou eu, ouvindo há mais de uma hora a comemoração incessante do PDT/PP, que consiste em fogos de artifício, música e buzinas de carro. Aliás, eles se preparavam para a festa antes mesmo da eleição acabar. Às 16h45 já haviam carros por toda rua.

Nem preciso dizer que nenhum voto foi apurado pela Justiça Eleitoral até agora. Isso não muda nada. Eles sabem que ganharam. Ganharam na sede, por 70 votos. O que é uma multidão em um colégio eleitoral de apenas 2805 eleitores. E na sede é onde a oposição é mais forte, por haver mais gente perto da prefeitura e que pode ver a atuação do poder público.

Mas é melhor eu cuidar o que falo. É possível que o prefeito me processe, como já ameaçou e o fez com outros.

Já considerei por várias vezes a idéia da monarquia constitucional, mas com constituição de verdade, nada de “poder moderador”. É interessante, porque é um negócio de pai pra filho. Às vezes pode aparecer um cara iluminado — provavelmente com mais freqüência do que se depender do voto popular. E como o governo dura muitos anos, o governante pode ver além dos quatro anos seguintes e trabalhar em projetos que realmente mudem o país. E se a gente não estiver gostando, sabe que ele não sai logo de lá, ou seja, há mais motivação para fazer uma revolução.1

E a democracia? É a ditadura dos 50%+1. Danilo Gentili, atual repórter do CQC, fez uma crítica interessante ao fato de a maioria ter o poder de decidir as coisas. Mas criticar a democracia é “feio”. Não fica bonito no discurso o fato de o povo ter o poder?

Só que a verdade incomoda. E a verdade é que a maioria não sabe de nada. Não são capazes de entender e/ou não se interessam por grande parte dos problemas. Não lêem as leis porque se julgam incapazes de compreendê-las. Deixam que os juízes e advogados o façam por eles, quando na verdade as leis são públicas justamente para permitir que o povo as fiscalize.

Na democracia, o governo é realmente uma representação do povo que o elege. Não é por menos que a maioria dos brasileiros não gosta de política. Não gostam de si mesmos, não valorizam sua própria cultura, não possuem ideais. Não gostam do político que elegeram, mas isto não foi nada que uma cesta básica, uma carga de adubo ou R$70 não resolveu.

Os vencedores estão comemorando o quê mesmo? A eleição? Mas eu achei que, se o importante é a cidade, não precisaria haver este tipo de distinção. Afinal, é o melhor para o povo. O quê comemorar? Quem “perdeu”? O objetivo da política não é fazer todos ganharem?

Fato é que a ditadura dos 50%+1 venceu, como sempre. E como não me juntei à maioria, estou condenado a ser o perdedor. Perdedor em uma disputa onde o povo deveria vencer. Sou parte do povo e, mesmo assim, perdi.

Mas se o povo não venceu, quem é, de fato, o vencedor?

  1. Brincadeiras à parte, sou tecnocrata.

Versos: O Herói Antítese

Estou perto do distante
Cometendo crimes dentro da lei;
É sempre gratificante
Falar do que não sei

Sou verbo sem ação
Um período sem oração;
Elogio puramente nocivo
E adjetivo sem substantivo

Ressuscito o que não morreu
Mas mato toda uma nação
Dirijo carro europeu
Sem andar na contramão

Um bárbaro romano
Com voz de tenor soprano
E ossos de cartilagem;
Sou um típico personagem
De filme americano