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E assim impera a pirataria e a comunicação virtual
Estive na cidade — porque aqui onde moro é um esconderijo — na quarta-feira. Tudo feito, nada para fazer, apenas esperando minha mãe voltar até que pudéssemos voltar para casa. Meu pai foi comprar um CD de música e eu aproveitei para ir junto. Afinal, onde moro não tem nenhum lugar para comprar CDs de música. Todos os últimos que comprei foram pela internet.
Chegando na loja, peço o CD novo do Los Vatos. “São gaúchos”, pensei, “certamente vão ter”. Mas o rapaz sacode a cabeça.
–Não, não temos.
Ok. Eles nem me dizem que podem conseguir, ou perguntam se eu quero encomendar. Mas eu não desisto:
–O que vocês têm de som independente?
–Não temos “som independente”, está tudo misturado.
Começo então a ver os CDs nacionais na busca de algo desconhecido e interessante. Mas a maioria era de bandas “grandes”: Engenheiros do Hawaii, Strike, Pato Fu, Nx Zero, ou de bandas maiores aqui no sul. A única que eu realmente não conhecia e que chamou minha atenção foi Estado das Coisas, selo Antídoto. Estando o disco fechado, não pude ouvir, mas questionei os atendentes, que disseram ser “rock gaúcho”. Ouvindo a banda agora, vejo que o rótulo não se aplica.
Vou-me então aos internacionais. Black Sabbath, Deep Purple e um monte de outras bandas clássicas, mas todas conhecidas. Tinha Dream Theater, que é interessante. R$33 a R$48. É bom, mas não estava disposto a pagar isso por Dream Theater, e não por um CD que não conhecia (o único CD deles que conheço bem é o último, Systematic Chaos, que não estava disponível). Enquanto “folheava” os CDs, meu pai pergunta:
–Por que não pergunta se eles têm o que tu tá procurando?
–Estou procurando várias coisas, mas são difíceis de achar, e qualquer uma me serve…
Continuo procurando, até que sigo o conselho e peço algo eu estaria disposto a pagar R$40, que fosse, pelo CD.
–Tem Katatonia?
A resposta foi obviamente negativa. Mesmo o Submarino tem apenas um box triplo com DVD, a R$1401. Mas se a esperança é a última que morre, estou certo: ali não sobrava mais ninguém.
Meu pai, porém, comprou um CD. Do Mano Lima. Já fora da loja, pedi para ver o CD. A capa fora obviamente impressa em jato de tinta de baixa resolução. O texto em WordArt, mesmo se não estivesse borrado, deixava claro que tipo de profissional havia criado a “arte”. Atrás, a lista de músicas estava impressa em um fundo branco, sem arte. Nenhum selo, exceto o ‘compact disc’. R$14 por isso?
Voltei à loja para reclamar. Perguntei qual era o selo do disco. O atendente então mostrou uma série de outros CDs da mesma “gravadora”, todas com a mesma “qualidade”: capa ruim, sem arte atrás. Porém, nos outros havia o selo, juntamente com o endereço e número de telefone do responsável. Agradeceu por eu ter notado a falta destas informações no outro disco e disse que iria comentar com a distribuidora.
Finalmente, tirei o plástico que envolvia a caixa. Sem arte no CD, nenhum encarte. Por baixo, o disco era verde com números em volta do anel central azul, o que significa que o mesmo provavelmente foi gravado em computador em vez de prensado2.
Acredito que o disco é legítimo, mas como manter as pessoas longe da pirataria se o produto físico é o mesmo e o preço não se difere do original? É muito diferente do SMD/Semi Metalic Disc, que busca abertamente ser uma alternativa à pirataria e tem um preço muito menor, competindo diretamente com o produto pirata.
A “revolução digital” poderia ter mudado muitas coisas nas vendas de CDs. Mas o sistema é o mesmo usado da última vez que entrei em uma loja, que se me lembro foi para comprar o Ruído Rosa, do Pato Fu.3 A não ser que talvez alguma loja em cidades de verdade, como Rio de Janeiro ou São Paulo, tenha revolucionado as coisas, a venda pela web — seja de CDs ou MP3s — já substituiu tudo, pois apresenta as capas dos CDs juntamente com trechos para qualquer um ouvir, além do espaço para comentários dos clientes.
Não seria difícil permitir que as pessoas fizessem o mesmo no catálogo da loja e seus distribuidores. DVDs com trechos de 45 segundos a um minuto das músicas poderiam ser distribuídos para as lojas, permitindo que os clientes ouvissem os CDs antes de comprar, inclusive obras que constam apenas no distribuidor, para fazer encomendas.
Existe um valor no ato físico, de entrar na loja, de ver o ambiente, de conversar com pessoas que entendem do assunto para lhe fazer sugestões — sejam estas pessoas atendentes da loja ou pessoas que estão olhando o mesmo catálogo que você.4 Mas tudo isso se perde quando o cliente não pode encontrar o que procura, não vê produtos de qualidade e, acima disso, preços abusivos.
De fato, você tem mais sorte se aceitar ter esta mesma experiência online. Ligue o SoulSeek, entre na sala do gênero que pretende explorar e faça perguntas, comente, envie mensagens particulares pedindo sugestões para quem conhece mais música de um gênero do que você. Perdi a conta de quanta música conheci por meio de sugestões que pedi e quantas pessoas conheceram músicas por meio das que dei. As lojas de música poderiam ser um ponto de encontro físico para pessoas assim e, se alguma ficar de pé até o fim do século, provavelmente o será.
A experiência nem é muito diferente quando o assunto são filmes ou livros. O sistema de comentários da Amazon tem substituído a interação de quem freqüenta bibliotecas, por exemplo. E então a leitura e as recomendações ficam, ao mesmo tempo, mais individuais e mais coletivas, no passo que são feitas dentro da própria casa, mas para várias outras pessoas do mundo.
Tem chance de a comunicação pessoal superar a virtual? Não em utilidade, não em profundidade, não em qualquer coisa que importe, a não ser a ótima sensação de estar conversando em pessoa. Ainda assim, quando vídeo+voz via internet estiverem disponíveis a qualquer um, a linha ficará ainda mais tênue.
Resta então continuar chamando quem posta em blogs de compulsivo e quem passa horas na internet de viciado. Rotular tudo como doença e jamais considerar que a rede tornou obsoletas certas formas de interação. Quer dizer, o que obtenho de conhecimento por meio da interação com usuários de SoulSeek eu provavelmente não poderia obter em nenhum outro lugar ao meu alcance, pelo menos não onde moro. Daí a migração das pessoas para as metrópoles, com seu crescimento vertical. Poderia dizer que o que motivou a criação dos grandes centros urbanos é o mesmo que motiva o uso da rede: encontrar mais facilmente pessoas que valorizem as mesmas coisas e pensam como você.
Poderia ser otimista e dizer: as pessoas vão se adaptar e conseguir trazer tudo isso de volta para o coletivo real, em vez desta “coletividade individual” da rede. Mas a regra do individualismo — e eu não uso essa palavra de forma pejorativa — e da economia está até mesmo reduzindo a população, inclusive em alguns estados brasileiros. Queria poder ver como a economia dos grandes países vai reagir com o declínio de consumidores. Pena que isso deve demorar demais, de modo que nem eu, nem este post ainda estará por aqui quando isso começar a acontecer.
Mas sendo otimista: quem sabe, até lá, as coisas não tomam outro rumo? Para terminar com um chavão, o mundo dá voltas5.