Quem não deve, não teme
Eis aí dos vários axiomas — frases tomadas como auto-evidentes — que costumamos ouvir com freqüência. Este, em especial, é muito usado para rebatar argumentos de defensores de privacidade, tão comuns em época de discussão do projeto “big brother” sobre crimes de internet.
A lógica deste axioma é: quem não fez nada de errado não precisa ter medo de ter sua vida vasculhada.
Eu proponho um outro axioma: quem deve não teme.
A lógica é igualmente simples: aquele que de fato teme as conseqüências de seus atos nem se atreve a realizá-los. Quem realmente tem medo, nada faz de errado. Logo, só deve aquele que não teme.
As duas lógicas são problemáticas, mas existe um fundo de verdade diferente em cada uma delas. Os dois argumentos estão corretos até um certo ponto, porém ambos se invalidam — nenhum é verdadeiro em 100% dos casos, e cada um deles expõe a fraqueza do outro.
Com isto todos sabemos que quem não deve, não teme é uma falácia igual a quem deve não teme. Descartemos as duas, por favor. Em seguida, vamos ler 1984 sem esquecer que George Orwell era comunista1
- Direitistas tendem a esquecer disso. O Ron Paul, que é extremamente liberal, citou Orwell em um debate para criticar seus colegas republicanos. Ironia política em seu ápice. ↩