Toda vez alguém justifica um estilo de vida (sic) ou ação qualquer dizendo que “o importante é ser feliz”, um neurônio deve morrer — seja no cérebro do sujeito que fez tal afirmação ou do ouvinte que a engoliu.1
– Matei 24 ontem.
– Nossa, por quê?
– Porque isso me deixou feliz… e o importante é ser feliz!
Parece ridículo? Mas não é mais nem menos ridículo do que em qualquer outra situação. A idéia de carpe diem, ou “viver intensamente”, ou “viver cada dia como se fosse o último” é estúpida. Porque se todos soubessem de fato que o dia seguinte fosse o último…
- Ninguém iria trabalhar
- Ninguém deixaria dinheiro em aplicações ou no banco
- O turismo teria grande procura, mas não haveriam vendedores de passagens, nem motoristas de ônibus, nem guias ou pilotos de avião
- Todo mundo iria querer dizer algo, mas aquele que deveria ouvir estaria tentando dizer outra coisa para outra pessoa. Se você quisesse usar o telefone, ele não estaria funcionando.
O mundo iria de fato ser um caos. Mas o importante é ser… feliz? Caos não é minha idéia de felicidade.
O que fazemos, de modo geral, é trocar uma felicidade curta e suicida por outra mais sólida, mais confiável, com altos e baixos. Se perseguirmos a felicidade completa em um instante sem pensar nas conseqüências, estaremos atirando em nossos próprios pés e possivelmente nos pés dos outros também, pois qualquer projeto de felicidade que conseguimos conceber hoje está ligado à ordem social estabelecida.
Poucos devem imaginar uma felicidade vivendo no meio da mata com os índios do Xingu (sem ofensa aos índios).
De qualquer forma, se procurarmos a felicidade em todo instante, literalmente, o mundo pára. Porque a vida operacional — que faz tudo funcionar — é estressante e repetitiva; parece que tudo o que fazemos não tem valor algum no mundo. Em outras palavras, a vida de trabalhador é dura. Porém se todos levarem a cabo idéia de ser feliz e pararem de trabalhar, nada mais funciona. E com isso ninguém consegue atingir a felicidade concebível pelos cidadãos pós-modernos.
Tudo isso é óbvio, mas por algum motivo ninguém que ouve ou diz que “o importante é ser feliz” consegue perceber as reais conseqüências dessa afirmação.
Depois, por que sua versão de felicidade é a que vale? Pegando o exemplo acima, se a felicidade do cidadão é matar duas dúzias de pessoas, ou se a felicidade de uma mulher é ficar grávida e abortar sempre que possível, por que esse conceito de felicidade é mais ou menos válido que outros? Por que é preciso existir uma felicidade que é “socialmente aceita” — beber, jogar futebol, ir ao cinema e dançar?
Minha felicidade pode ser a leitura de livro, um jogo de videogame, uma música que ninguém mais gosta ou então ficar em um canto em silêncio. Na verdade, essas coisas são legais pra caramba na minha opinião. Pode ser algo até surpreendente, como trabalhar ou inventar histórias. Mas supondo que sua felicidade seja estuprar uma criança ou entrar num Shopping Center com uma 22, por que isso não pode ser a felicidade?
Se para você é óbvio que tais coisas não podem ser a felicidade, você está apenas concordando com o julgamento pré-concebido pela cultura.
É possível, por outro lado, formular uma ética que demonstra a irresponsabilidade e injustiça destas ações repugnantes, sem abusar do senso comum cultural. Rebater tais argumentos lógicos com “o importante é ser feliz” seria irracional e falacioso. E não é diferente nas situações opostas — o socialmente aceito não é necessariamente o melhor ou único, muito menos o universalmente justo.
Dicionário
“o importante é ser feliz”: a.f. o mesmo que “não sei como diabos justificar por que faço/penso isso, mas me deixe em paz antes que eu seja forçado a repensar minhas atitudes possivelmente imprudentes”.
- Já é possível perceber que neste post estou tentando um tipo de escrita diferente — mais descontraída. Se você não é leitor deste blog e se ofendeu pelo texto, garanto que eu poderia escrever este mesmo texto e dizer a mesma coisa sem te ofender. Se você já é leitor deste blog, espero que saiba disso já (mas me corrija se eu estiver errado). Obrigado por ler as letras miúdas. ↩

3 Comentários
Preciso rebater essa imagem de 100% caos. Pode ser que muita, mas muita coisa mesmo, deixe de funcionar se for adotada a visão de “o importante é ser feliz”, mas o que continuaria funcionando seria exemplar.
O que eu estou falando? Para começar, que tal falar do Linha Defensiva, site e fórum de segurança levado adiante pelo autor. O fórum em questão conta com a participação de analistas, aprendizes, moderadores e membros dedicados, que ajudam pessoas simplesmente por que são felizes com isso.
Uma gota de água no deserto? Talvez não. O que ganham os blogueiros nacionais, ou os podcasters e videocasters senão um pouco de felicidade e satisfação pessoal no que fazem? Perceba que as excessões, aqueles que ganham para fazer o serviço, são sem sombra de dúvida uma minoria.
O conceito se estende ao mundo real. Ok, até hoje não encontrei ninguém que fique satisfeito limpando o chão ou recolhendo o lixo, mas quem sabe…?
Fernando
Certas coisas iriam sobrar sim, eu mesmo disse no post (ironicamente adjetivando de surpreendente) que algumas pessoas podem gostar de trabalhar ou de serem úteis.
Mas essa felicidade que derivamos desses projetos não são “intensas”. São coisas de longo prazo. Você publica um blog durante dois anos, para então conseguir um retorno com publicidade, ou, pelo menos, um público maior que seu pai e sua mãe (SE eles o lerem).
As ações justificadas com “o importante é ser feliz” são geralmente extravagantes e exageradas, quando não apressadas. Justamente, como falei no post, trocamos essa pressa suicida por algo mais lento, porém constante.
Projetos legais são geralmente coisas de longo prazo, uma felicidade pequena porém contínua, cuja soma vai, ao longo dos anos, ser maior do que suas próprias partes. Nenhum blog tem grande valor se for publicado por só uma semana, criado e destruído depois de simples impulsos — porém um outro blog mantido por 10 anos tem mais valor do que apenas os posts que ele contém.
Viver intensamente um dia como se fosse o ultimo só significa não ficar parado hoje esperando as horas passarem para fazer amanhã o que voce pode fazer hoje, amanhã voce pode não ter tempo para fazer o que não fez hoje e talvez ja não esteja aqui.