Existe algo facilmente encontrado na sala de aula que dificilmente encontraremos no mundo exterior: uma autoridade do saber.
O professor é visto como alguém que, se não sabe tudo, sabe muito, e é impensável questionar o conteúdo que está sendo passado. Especialmente nos primeiros anos, quando pouquíssimas crianças têm qualquer conhecimento além daquele que a própria escola está transmitindo, é complicado demais que o alvo do ensino consiga analisar o que está aprendendo.
Do meu lado, posso dizer que perguntei muito. Não tinha capacidade para duvidar de um professor, porém perguntava o suficiente para deixar muitas pessoas em algumas situações ruins (pessoas me descreviam constantemente como “curioso”, embora na verdade quisessem dizer “chato”; amigas da minha mãe pediam explicitamente que eu não fosse junto dela, por perguntar demais1). Mesmo assim, não creio que haja muito mérito no que disse minha professora na quarta-série: “Altieres, continue sempre com essa visão crítica.” Na verdade, eu não tinha tal visão, mas sim uma mente inquisitiva.
O crítico, no entanto, raramente se dissocia do inquisitivo, pois o crítico também precisa de algo que o inquiete, em qualquer nível e de qualquer jeito, para fazer sua crítica.
Porém nunca esqueci do que minha professora disse; se tivesse, não estaria escrevendo isso agora. Nos anos seguintes continuei tentando descobrir o que era, exatamente, ser crítico. Embora, de acordo com ela, eu já fosse um, queria saber exatamente o que era, de modo que eu nunca deixasse de ser. Se ela havia me dito para continuar sendo assim, certamente boa coisa devia ser (em nenhum momento questionei isso…).
Não sei se virei um crítico; continuo fascinado a respeito de como as coisas funcionam, portanto ainda sou curioso e inquisitivo. Hoje penso que o principal dote de um crítico, junto da sua capacidade de observar e se inquietar com as coisas mais banais, está em sua ousadia de pensar.
Pensar é um ato de ousadia, especialmente se o conhecimento possuído na área sobre a qual se vai pensar é limitado. Daí é preciso estudos. E estudos podem induzir a pensamentos já pensados (dizia Schopenhauer que ler é pensar com a cabeça dos outros). Mas o crítico não pode simplesmente pensar o já pensado, pois daí ele não será um crítico e sim um repetidor de idéias com as quais ele concorda, o que não o tornaria diferente de nenhum outro ser humano.
É nesse problema que entra o olhar crítico e a ousadia. Em vez de ler e ver tudo como regra, vê-se como uma possibilidade entre outras tantas. Depois, é preciso pensar e arcar com a possibilidade de possivelmente estar errado: bons argumentos racionais precisam ter meios de serem provados falsos, então pensar racionalmente abre brechas em suas idéias. É mais difícil do que a moda contemporânea de largar opiniões generalizadas e, por isso, evidentemente falsas, mas que mesmo assim caíram no senso comum (”todo político é corrupto”, “o mundo está perdido”) ou se tornaram (falsos) axiomas (”mulher no volante, perigo constante”, “urubu não anda com pomba”, etc).
A complicação disso tudo é a seguinte: fora da sala de aula não existe uma autoridade de saber. Para piorar, muitas coisas são passíveis de discordância. Não se pode admitir a existência de pontos de vista imutáveis e não-negociáveis. Não é preciso muito treino para conseguir isso: basta perguntar “por quê?”.
Um experimento: quando te disserem algo, mesmo que seja algo que já tenha caído no senso comum, pergunte por quê. Sendo a resposta obviamente superficial, pergunte por quê outra vez. E de novo. Logo você será o chato, simplesmente por ter exposto o fato de que o sujeito proferiu sua máxima infalível sem ter refletido em qualquer nível a respeito dela…2
Afinal, por que não refletimos? Por que não perguntamos “por quê”?
Porque cremos em autoridades. Isto nos foi ensinado na escola, onde há uma autoridade na sala, detentora da verdade. Escute, repeat please e passe na prova. Esta é a lição escolar que mais é retida e, se este for o objetivo da escola, ele tem sido atingido com êxito.
- Todo mundo tem a idade dos porquês, é verdade. Não posso julgar se a minha própria foi mais longa ou mais intensa, nem tenho conhecimento para isso. ↩
- Os mais observadores justificarão dizendo “é o que todo mundo diz”, o que uma falácia de apelo ao povo ou ad populum e, por isso, um argumento inadmissível. ↩
Comentários 2
E assim caímos no ensino capitalista. O vestibular é a prova para ver quem aprendeu a repetir.
Eu, particularmente, não sou a favor desse foco na quantidade de informação armazenada. O “explique com suas palavras”, que aliás eu não vejo ser usado muito além da quinta série, significa um “mostre que você compreende”, visto que se você repetir na prova as frases como estão no livro, você mostra que armazenou o conteúdo. E com isso pode-se passar de ano com notas excelentes, o que me leva a crer que se o aluno compreende, se o aluno reflete, como você diz, sobre o assunto ou não, isso não está nas prioridades do ensino escolar atual.
“Depois, é preciso pensar e arcar com a possiblidade de possivelmente estar errado: bons argumentos racionais precisam ter meios de serem provados falsos,(…)”
Vou seguir a sugestão do texto e perguntar: Por quê? Pensei, pensei e pensei denovo, mas não encontrei a lógica do que está escrito a partir dos dois pontos. Se eu tenho um argumento que pode ser rebatido com algo que o prove falso, o argumento não é bom.
Aliás, nesse trecho que eu citei há um erro de digitação. E há outro no final, na última frase. Se você tiver como editar meu post antes dele sair, pode cortar este último parágrafo.
Postado em 17/08/2008 às 7:19 ¶Sirius,
Não edito comentários. =)
Se não há maneira de provar algo falso, fica muito mais difícil ainda de prová-lo verdadeiro. Exemplo:
“Depois que você morre, você vai pro inferno ou pro céu”.
Prove isto como sendo falso…
O que eu disse é que precisa haver um meio da afirmação ser provada falsa, não que ela deve ser provada falsa.
Existem várias maneiras de provar a Teoria da Evolução ou a Teoria da Gravidade como falsa. Basta que uma de suas várias previsões esteja errada. Porém isto não acontece.
E na verdade você nunca prova nem a evolução nem a gravidade como verdadeira, você apenas nunca consegue prová-las como falsas. Se eu disser “Não existem gatos com rabos cor-de-rosa”, você pode trazer 90% dos gatos do mundo e ainda não vai ter provado minha afirmação como verdadeira. E mesmo se trouxer 100%, ainda podem haver gatos desconhecidos. Então o máximo que se consegue não é provar como verdadeiro, mas nunca demonstrar como falso…
Por isso que é preciso arcar com a possibilidade do erro. Pois é necessário arriscar-se a fazer previsões ou qualquer outra coisa que, mais cedo ou mais tarde, prove tua afirmação como falsa ou verdadeira.
Se você nunca fizer isso, uma afirmação não é nem falsa, nem verdadeira.
A simples capacidade de se responder um “por quê?” pode ser uma maneira, porque ninguém saberia levantar um motivo lógico pelo qual necessariamente vamos para o céu ou para o inferno em vez de Asgard ou da Terra Média.
Postado em 17/08/2008 às 16:23 ¶Postar um comentário