Violins – A Redenção dos Corpos: rock que faz pensar

Letras de rock costumam ser ruins. E depois que ficou especialmente mainstream fazer letras “emo”1 que não dizem coisa alguma, há pouco incentivo para fazer diferente. Felizmente, os goianos da Violins fazem um rock de qualidade abastecido de letras criativas. Por vezes irônicas, noutras sarcásticas — mas sempre ácidas –, as letras de Violins seriam boas mesmo que na caixa do CD viesse apenas o encarte. Acompanhadas de violões, teclados e guitarras, são algumas das melhores músicas do rock alternativo brasileiro contemporâneo.

Divulgação

Capa do quinto disco da banda Violins

O quinto álbum da banda e assunto deste post se chama A Redenção dos Corpos (RDC). O primeiro álbum foi o EP Wake up and Dream, que a banda lançou ainda com seu antigo nome, Violins and Old Books em 2001. Depois veio o Aurora Prisma (2003), o Grandes Infiéis (2005) e o Tribunal Surdo (2007). Sou um feliz proprietário destes dois últimos, além, é claro, do RDC.

Neste último álbum, que foi lançado este ano, a banda parece mais resolvida. Diferentemente dos anteriores, o disco é dividido em duas partes. Nas músicas da primeira metade do disco existe um destaque especial para as letras, já que nestas a voz de Beto Cupertino é acompanhada apenas de violões, tocados pelo próprio, e de efeitos eletrônicos do tecladista Pedro Saddi, que também trabalhou na arte do CD.

Eu sempre amo alguém que nem conheço
assim tão bem
e nem convém
conhecer alguém até o final

Exemplar do Fundo do Poço

A última música desta primeira parte é Manobrista de Homens, onde os violões que acompanharam as outras seis faixas são substituído por um piano. Ao final da música, quando entram as guitarras, o ouvinte sabe que o tom do disco irá mudar.

Na segunda parte, composta das faixas 8 a 14, o violão é substituído definitivamente pela guitarra, que é acompanhada da bateria de Pierre Alcanfor e do baixo de Thiago Ricco. A guitarra e as melodias estão mais tímidas do que nos dois trabalhos anteriores da banda, porém a mudança não foi ruim: os pianos e teclados se fizeram mais presentes e as faixas ficaram muito boas em seu próprio mérito.

Cupertino, que escreve as letras, foi professor de filosofia. A idéia do disco é temática: a maioria das letras trata de aspectos espirituais de um ponto de vista humano e laico/prático, embora faixas como A Guerra Santa falem diretamente das religiões. É difícil dar uma caracterização geral para as letras do Violins, porém é impossível deixar de notar a incontestável realidade que nelas se faz presente.

Fãs do pop-chiclete podem não encontrar neste disco uma música grudenta, do tipo que sempre se acha em lançamentos de pop-rock mainstream. Mas o disco tem um trunfo maior: é facilmente viciante em sua totalidade. Você pode não querer uma música específica do RDC, mas vai querer escutar o CD inteiro. Perdi a conta de quantas vezes coloquei minha discografia inteira do Violins para tocar. Para mim, nenhum dos discos têm aquela “música ruim” que sempre força você a pular, mas o RDC é ainda melhor neste sentido.

O disco foi produzido por Gustavo Vazquez, que publicou alguns comentários sobre o mesmo, feitos por Beto Cupertino, em seu blog. Músicas de A Redenção dos Corpos e de trabalhos anteriores da Violins podem ser encontrados no site oficial da banda, além de links para flickr, Orkut, MySpace e etcetera. O CD pode ser comprado por R$20 + frente da Monstro Discos.

  1. O emo de verdade (Elliott, Mineral) tem algumas letras interessantes. Mas o que popularizou o termo é deprimente.
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