Quando a mesa de debate não é redonda

A imprensa é o meio pelo qual, teoricamente, as discussões políticas devem ocorrer em um país democrático. Na experiência que tenho, dos jornais da região onde moro, a seção de política está sempre em uma das primeiras páginas, o que denota um certo descaso, visto que muitas pessoas começam a ler o jornal de trás para frente (e, sem surpresas, a seção de esportes fica no “fim” do jornal).

Mas desconsiderando o já existente descaso pela política, que muito provavelmente não é culpa só do jornal e sim dos leitores, o que acontece quando a mesa de debate — a imprensa — não tem motivo algum para dar o outro lado da história?

Não é difícil ver isso. Um exemplo é o caso do projeto do senador Eduardo Azeredo, discutido em dois posts anteriores deste blog. A maioria das grandes empresas que servem conteúdo via internet são também PSIs. Provedores terão custos aumentados com a lei, já que terão de manter registros de IP e outras obrigações, como encaminhar denúncias, além da possibilidade de receber multas. É óbvio que os grupos de comunicação, por serem também provedores, publicariam matérias desfavoráveis a respeito do projeto (chegando às vezes ao ridículo para tentar achar “problemas” nele).

Não que não houvessem problemas no projeto. Apenas não vimos os dois lados da discussão. A mesa não era redonda.

Nos últimos dias, várias matérias e propagandas a respeito do Congresso de Publicidade foram transmitidas. Ontem, no Jornal da Band, o próprio João Carlos Saad (se bem me lembro) apareceu falando que era contra qualquer censura da publicidade, dizendo que as pessoas precisam ter a liberdade de ver tudo e fazerem decisões por si mesmas. Se o próprio Presidente da emissora manifestou-se contra censura, como podemos ver os dois lados de uma discussão que, por exemplo, visa proibir a veiculação de propagandas de bebidas alcoólicas?1

Não que Saad esteja errado em se manifestar. Acho justo. É bem possível que outras emissoras defendam o mesmo ponto de vista, muito provavelmente não pelas razões ditas publicamente, porém continuarão vendendo a idéia de “imparcialidade”, mesmo cientes de que eliminar possíveis clientes de seus espaços publicitários significa reduzir a receita publicitária e que portanto estão com as mãos amarradas nesse debate.

Imparcialidade não existe. Felizmente, a mesma Band diz que existe “transparência de opinião” em seu jornalismo, o que é uma admissão de que não existe imparcialidade; não estou criticando a Band aqui, só dando um exemplo de uma empresa de comunicação que revela de qual lado do debate ela está (como, aliás, todas deveriam).2

Não que ter uma opinião proíba alguém de expor o outro lado do debate. É apenas menos provável que o faça. E a transparência permite que o leitor/telespectador informado leia uma matéria favorável sobre um determinado ponto de vista sem tomar aquilo como “verdade” (o que ocorre com freqüência).

Enfim, quando a mesa do debate não é redonda, quando os diferentes lados da história não chegam ao povo, o que sobra para que consigamos manter o debate justo e racional?

  1. Minha opinião pessoal é que deve haver uma maneira de reduzir o número de alcoólatras. Creio que qualquer lei a respeito precisa estipular prazos para verificar se a extinção da propaganda teria este efeito e, caso isto não ocorra dentro de um certo período, ela deve ser automaticamente revogada (como dizem lá fora, ter um Sunset provision). A Lei Seca dos Estados Unidos, que proibia totalmente o alcoolismo, fracassou miseravelmente na redução do consumo. Falhando a proibição, o melhor é aumentar impostos na propaganda de bebida alcoólica e dividir esta arrecadação extra entre saúde, campanhas contra o álcool e segurança pública.
  2. Não que as outras não o façam também. Mas não tenho condições de monitorar todas as TVs, então exemplifico com o que tenho.

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